- «De todos os países da OCDE, Portugal é aquele onde existe uma maior divergência entre a percepção que existe da corrupção e a experiência directa do fenómeno. Portugal tem, objectivamente, baixos níveis de corrupção, traduzidos por poucos subornos em todas as áreas, forte profissionalização da burocracia e extensa digitalização dos serviços de atendimento ao público. A percepção da corrupção é sobretudo moldada por fenómenos de corrupção de topo e impunidade das elites, pelos media, pelos discursos políticos e pelos maus resultados do sistema judicial, e não pela experiência directa e quotidiana dos cidadãos. Os índices de percepção, como o CPI ou outros, acabam por ser dominados por crenças erróneas e generalizadas relativas à corrupção dos políticos, à influência exercida a alto nível, aos processos de contratação pública e às relações entre o Estado e o sector privado. Em Portugal, estas crenças são reforçadas por um padrão muito específico: a existência de muitas investigações com elevada visibilidade que contrastam com um número reduzido de conclusões claras e atempadas de processos.» (Arlindo Oliveira)
Sign O' The Times, CCCXXXI
Há 15 minutos
9 comentários :
"A percepção da corrupção é sobretudo moldada por fenómenos de corrupção de topo e impunidade das elites"
Então não é grande mito... as pessoas não têm tanto a percepção de "pequena corrupção" mas sim de "grande corrupção". E parece que Arlindo Oliveira não só não contesta isso, como o assume.
Não vejo então onde está o mito.
também não vejo onde está o mito e admito ter praticado corrupção ativa há uma dezena de anos atrás para apressar um processo burocrático é algo comum, podemos não ser o país mais corrupto mas ela existe a todos os níveis
João, leste o artigo todo?
1. O Arlindo Oliveira examina os resultados do índice de percepção de corrupção (Corruption Perceptions Index - CPI), onde «Portugal aparece, em 2024, no 43º lugar neste índice, entre 180 países».
2. Depois examina os dados do «barómetro global da corrupção (Global Corruption Barometer - GCB)», que «recolhe dados sobre a frequência com que as pessoas contactam os serviços públicos, se lhes foi pedido ou se pagaram subornos, e qual a sua avaliação do desempenho das instituições no combate à corrupção».
3. Seguidamente, compara os dois conjuntos de dados, e conclui que «Portugal encontra-se à cabeça, sendo o país onde existe uma maior diferença entre a percepção da corrupção (elevada) e a corrupção medida pelas experiências directas (baixa)». Mais concretamente: «o paradoxo Português reside no facto de o país funcionar quotidianamente como um Estado de elevada integridade, ao mesmo tempo que existe uma percepção de um baixo nível de integridade no que respeita à responsabilização das elites».
Reitero que não existe "mito". Existiria mito se a percepção de corrupção fosse o da "pequena corrupção" generalizada, e aí existiria um mito: as pessoas não têm contacto com a pequena corrupção, e ainda assim presumem que existe.
Mas se a percepção das pessoas é a de que existe "grande corrupção" (i.e., corrupção ao nível das elites, que passa impune), então um relatório com dados sobre a pouca prevalência da "pequena corrupção" em nada desmente a percepção das pessoas.
Acresce que desse tipo de relatórios com "experiências directas" existe um que põe Portugal lá para o fundo da tabela na Europa (ou pelo menos punha lá para 2012 quando tomei contacto com ele, mas no entretanto Portugal também tem andado a quebrar recordes por ser dos que menos implementa as recomendações da GRECO, portanto a coisa não deve ter mudado muito), mas já não se trata de "pequena corrupção". Trata-se de investidores estrangeiros que encontram mais corrupção no processo de investir no nosso país do que noutros países da UE (claro com Hungria, Roménia, etc. pior, mas eram poucos).
Se a memória não me falha, da UE a 15 só a Itália e Grécia estavam pior.
2 funcionárias legalizaram milhares de imigrantes, não foram corrompidas eram só boas pessoas, um meu vizinho passou a área predial de 80 m2 para 320 m2 não corrompeu ninguém o terreno dilatou com as chuvas
A este respeito sugiro a leitura deste artigo da Susana Peralta:
https://www.publico.pt/2026/02/13/opiniao/opiniao/natural-necessariamente-2164626
Acho que há duas coisas muito diferentes.
1. A que chamas «pequena corrupção» (eu diria a verdadeira corrupção) que consiste em subornos para conseguir licenciamentos de casas, inspeções com resultados favoráveis, facilitar negócios, etc.
2. A que chamas «grande corrupção» («os partidos políticos são máquinas de corrupção e compadrio», «estão todos feitos uns com os outros», «os políticos roubam e safam-se porque fazem as leis», etc).
1 é mensurável, detectável, é uma realidade, e é um assunto para a polícia e para os tribunais; 2 é um discurso, tem mais a ver com a psicologia e a sociologia, e é uma percepção sobre os políticos. Onde as coisas se baralham é que na maior parte do discurso público as pessoas usam a palavra «corrupção» para se referirem a 2, enquanto 1 está quase ausente das preocupações dessas mesmas pessoas.
Estás enganado em relação ao ponto 2. Eu não chamo "grande corrupção" a um "discurso".
Claro que há um discurso em resposta à grande corrupção, como existirá em resposta a outros problemas graves e impactantes, mas não era ao discurso que me referia.
Por exemplo, quando o governo de José Sócrates decidiu usar os recursos do estado garantindo que a PT Comunicações compraria a TVI, porque a Manuela Moura Guedes* estava a ser incómoda (algo que me recusei acreditar até ter contacto com as escutas que o revelavam), isso é um exemplo de grande corrupção. Também terá existido um discurso em torno disto, mas não era ao discurso que me referia e sim aos factos que deram origem a esse discurso.
Também te enganas quando dizes que a grande corrupção não é mensurável. A este respeito sugiro a leitura deste artigo da Susana Peralta:
https://www.publico.pt/2026/02/13/opiniao/opiniao/natural-necessariamente-2164626
Quanto ao quanto isso nos afecta, eu diria que as políticas de habitação neste país fazem com que sejamos em toda a UE e até em toda a OCDE o país com a maior divergência entre os determinantes fundamentais do preço das casas e os seus preços.
Infelizmente, a moldura legal, em vez de servir o interesse público - por exemplo, evitando isenções relativas aos fundos imobiliários que aumentam a complexidade do sistema, distorcem os mercados, diminuem a disponibilidade de capital produtivo, reduzem as receitas públicas e inflacionam os preços das casas -, é criada com o propósito de servir actores políticos que fazem uso destes instrumentos para enriquecimento pessoal.
A este respeito, vale a pena citar a notícia: «o ex-ministro da Economia Pedro Siza Vieira fundou uma sociedade imobiliária na véspera de tomar posse do cargo governativo. No seu curto mandato assinou a lei de 2019 que “aprova o regime das sociedades de investimento e gestão imobiliária”, benefícios fiscais incluídos.» É apenas um exemplo entre vários de como a "grande corrupção" afecta as nossas vidas.
Sobre o ponto 1, também discordo que seja exclusivamente um assunto para a polícia e para os tribunais. Pelo contrário, o país fez uma tremenda evolução a esse nível precisamente porque apostou na educação. Foi isso, e não a nossa polícia quase sem recursos para esse tipo de investigação ou os nossos tribunais lentos, entupidos e disfuncionais, que ajudaram a resolver esse problema.
* que, concedo, era uma péssima jornalista, num papel que exigia algum grau de isenção ela coleccionava "más práticas" diariamente, mas isso não torna o que se passou aceitável do ponto de vista legal ou ético. Foi completamente inaceitável a ambos os níveis.
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