terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O mito da corrupção

  • «De todos os países da OCDE, Portugal é aquele onde existe uma maior divergência entre a percepção que existe da corrupção e a experiência directa do fenómeno. Portugal tem, objectivamente, baixos níveis de corrupção, traduzidos por poucos subornos em todas as áreas, forte profissionalização da burocracia e extensa digitalização dos serviços de atendimento ao público. A percepção da corrupção é sobretudo moldada por fenómenos de corrupção de topo e impunidade das elites, pelos media, pelos discursos políticos e pelos maus resultados do sistema judicial, e não pela experiência directa e quotidiana dos cidadãos. Os índices de percepção, como o CPI ou outros, acabam por ser dominados por crenças erróneas e generalizadas relativas à corrupção dos políticos, à influência exercida a alto nível, aos processos de contratação pública e às relações entre o Estado e o sector privado. Em Portugal, estas crenças são reforçadas por um padrão muito específico: a existência de muitas investigações com elevada visibilidade que contrastam com um número reduzido de conclusões claras e atempadas de processos.» (Arlindo Oliveira)

9 comentários :

João Vasco disse...

"A percepção da corrupção é sobretudo moldada por fenómenos de corrupção de topo e impunidade das elites"

Então não é grande mito... as pessoas não têm tanto a percepção de "pequena corrupção" mas sim de "grande corrupção". E parece que Arlindo Oliveira não só não contesta isso, como o assume.
Não vejo então onde está o mito.

O TEU FLUVIÁRIO METE ÁGUA CAMARADA disse...

também não vejo onde está o mito e admito ter praticado corrupção ativa há uma dezena de anos atrás para apressar um processo burocrático é algo comum, podemos não ser o país mais corrupto mas ela existe a todos os níveis

Ricardo Alves disse...

João, leste o artigo todo?
1. O Arlindo Oliveira examina os resultados do índice de percepção de corrupção (Corruption Perceptions Index - CPI), onde «Portugal aparece, em 2024, no 43º lugar neste índice, entre 180 países».
2. Depois examina os dados do «barómetro global da corrupção (Global Corruption Barometer - GCB)», que «recolhe dados sobre a frequência com que as pessoas contactam os serviços públicos, se lhes foi pedido ou se pagaram subornos, e qual a sua avaliação do desempenho das instituições no combate à corrupção».
3. Seguidamente, compara os dois conjuntos de dados, e conclui que «Portugal encontra-se à cabeça, sendo o país onde existe uma maior diferença entre a percepção da corrupção (elevada) e a corrupção medida pelas experiências directas (baixa)». Mais concretamente: «o paradoxo Português reside no facto de o país funcionar quotidianamente como um Estado de elevada integridade, ao mesmo tempo que existe uma percepção de um baixo nível de integridade no que respeita à responsabilização das elites».

João Vasco disse...

Reitero que não existe "mito". Existiria mito se a percepção de corrupção fosse o da "pequena corrupção" generalizada, e aí existiria um mito: as pessoas não têm contacto com a pequena corrupção, e ainda assim presumem que existe.

Mas se a percepção das pessoas é a de que existe "grande corrupção" (i.e., corrupção ao nível das elites, que passa impune), então um relatório com dados sobre a pouca prevalência da "pequena corrupção" em nada desmente a percepção das pessoas.

Acresce que desse tipo de relatórios com "experiências directas" existe um que põe Portugal lá para o fundo da tabela na Europa (ou pelo menos punha lá para 2012 quando tomei contacto com ele, mas no entretanto Portugal também tem andado a quebrar recordes por ser dos que menos implementa as recomendações da GRECO, portanto a coisa não deve ter mudado muito), mas já não se trata de "pequena corrupção". Trata-se de investidores estrangeiros que encontram mais corrupção no processo de investir no nosso país do que noutros países da UE (claro com Hungria, Roménia, etc. pior, mas eram poucos).

João Vasco disse...

Se a memória não me falha, da UE a 15 só a Itália e Grécia estavam pior.

FAÇA O SEU PRÓPRIO FLUVIÁRIO SEM FAZER MUITA FORÇA disse...

2 funcionárias legalizaram milhares de imigrantes, não foram corrompidas eram só boas pessoas, um meu vizinho passou a área predial de 80 m2 para 320 m2 não corrompeu ninguém o terreno dilatou com as chuvas

João Vasco disse...

A este respeito sugiro a leitura deste artigo da Susana Peralta:

https://www.publico.pt/2026/02/13/opiniao/opiniao/natural-necessariamente-2164626

Ricardo Alves disse...

Acho que há duas coisas muito diferentes.

1. A que chamas «pequena corrupção» (eu diria a verdadeira corrupção) que consiste em subornos para conseguir licenciamentos de casas, inspeções com resultados favoráveis, facilitar negócios, etc.

2. A que chamas «grande corrupção» («os partidos políticos são máquinas de corrupção e compadrio», «estão todos feitos uns com os outros», «os políticos roubam e safam-se porque fazem as leis», etc).

1 é mensurável, detectável, é uma realidade, e é um assunto para a polícia e para os tribunais; 2 é um discurso, tem mais a ver com a psicologia e a sociologia, e é uma percepção sobre os políticos. Onde as coisas se baralham é que na maior parte do discurso público as pessoas usam a palavra «corrupção» para se referirem a 2, enquanto 1 está quase ausente das preocupações dessas mesmas pessoas.

João Vasco disse...

Estás enganado em relação ao ponto 2. Eu não chamo "grande corrupção" a um "discurso".
Claro que há um discurso em resposta à grande corrupção, como existirá em resposta a outros problemas graves e impactantes, mas não era ao discurso que me referia.
Por exemplo, quando o governo de José Sócrates decidiu usar os recursos do estado garantindo que a PT Comunicações compraria a TVI, porque a Manuela Moura Guedes* estava a ser incómoda (algo que me recusei acreditar até ter contacto com as escutas que o revelavam), isso é um exemplo de grande corrupção. Também terá existido um discurso em torno disto, mas não era ao discurso que me referia e sim aos factos que deram origem a esse discurso.

Também te enganas quando dizes que a grande corrupção não é mensurável. A este respeito sugiro a leitura deste artigo da Susana Peralta:

https://www.publico.pt/2026/02/13/opiniao/opiniao/natural-necessariamente-2164626

Quanto ao quanto isso nos afecta, eu diria que as políticas de habitação neste país fazem com que sejamos em toda a UE e até em toda a OCDE o país com a maior divergência entre os determinantes fundamentais do preço das casas e os seus preços.
Infelizmente, a moldura legal, em vez de servir o interesse público - por exemplo, evitando isenções relativas aos fundos imobiliários que aumentam a complexidade do sistema, distorcem os mercados, diminuem a disponibilidade de capital produtivo, reduzem as receitas públicas e inflacionam os preços das casas -, é criada com o propósito de servir actores políticos que fazem uso destes instrumentos para enriquecimento pessoal.
A este respeito, vale a pena citar a notícia: «o ex-ministro da Economia Pedro Siza Vieira fundou uma sociedade imobiliária na véspera de tomar posse do cargo governativo. No seu curto mandato assinou a lei de 2019 que “aprova o regime das sociedades de investimento e gestão imobiliária”, benefícios fiscais incluídos.» É apenas um exemplo entre vários de como a "grande corrupção" afecta as nossas vidas.


Sobre o ponto 1, também discordo que seja exclusivamente um assunto para a polícia e para os tribunais. Pelo contrário, o país fez uma tremenda evolução a esse nível precisamente porque apostou na educação. Foi isso, e não a nossa polícia quase sem recursos para esse tipo de investigação ou os nossos tribunais lentos, entupidos e disfuncionais, que ajudaram a resolver esse problema.



* que, concedo, era uma péssima jornalista, num papel que exigia algum grau de isenção ela coleccionava "más práticas" diariamente, mas isso não torna o que se passou aceitável do ponto de vista legal ou ético. Foi completamente inaceitável a ambos os níveis.