domingo, 3 de julho de 2016

Viva a Alemanha!

É exagerada a atenção que se dá em Portugal a declarações avulsas do senhor Schäuble. Caso se tenham esquecido, é apenas o ministro das finanças alemão. Não é o presidente da Comissão Europeia, nem comissário, nem sequer deputado europeu. É um ministro de um governo da UE. Não se lhe deve atribuir mais importância do que efectivamente tem, nem ignorar que fala para o seu partido, a direita democrata-cristã.

Se queremos centrar o debate nacional português em ministros alemães, há pelo menos outro com quem podemos aprender mais: Sigmar Gabriel, o líder dos sociais-democratas e vice-chanceler (hierarquicamente acima de Schäuble, portanto).
 
Há poucas horas, Sigmar Gabriel respondeu aos problemas que o «Brexit» coloca de forma radical, construtiva e internacionalista: defendeu que fosse concedida a nacionalidade alemã aos britânicos que vivem na Alemanha («vamos oferecer aos jovens britânicos residentes na Alemanha, na Itália ou na França que possam permanecer cidadãos da União Europeia»). A proposta tem a virtude de responder ao problema prático (e moral) dos britânicos deixados de fora do espaço europeu que sentiam como seu; e tem a vantagem política de fazer uma pega de caras à xenofobia (para mais, num país em que a dupla nacionalidade causa tantos engulhos).

A esquerda portuguesa tem que olhar mais para Sigmar Gabriel e menos para Wolfgang Schäuble.

13 comentários :

  1. Já tinha visto ontem no Guardian. É um facto e Costa deveria garantir o mesmo a todos os britânicos que vivem em Portugal (são só 15.000, de qualquer maneira). Há pelos vistos candidatos à liderança do Partido Conservador que defendem que se o RU não conseguir o que quer em negociações futuras (acesso ao Mercado Único sem livre circulação), deve ameaçar com a expulsão de todos os cidadãos da UE. Isto é claro uma treta, o NHS deles colapsaria sem enfermeiros espanhóis e portugueses, mas mostra o nível de xenofobia permitido no discurso político do partido de poder no RU (e confirma plenamente o que o Ricardo disse relativamente ao tremendo tiro no pé que a Esquerda soberanista acaba de dar, assumindo que permanece fiel aos valores humanistas, claro). À xenofobia e intolerância responde-se com princípios e solidariedade. Eu gostava que a Alemanha mostrasse um pouco mais de compreensão com a situação económica de Portugal, em vez de ter o sabujo do Schaeuble sempre a ladrar contra quem não concorda com ele e a tentar torpedear os esforços do nosso Governo. Mas convém não olhar para os alemães (que são genuinamente anti-fascista) só pela ótica do ordoliberalismo do Ministro das Finanças Alemão...

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    1. 1º há mais de 50 mil madeirenses e nortenhos só em londres fora o east end e kings court

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  2. Caro Ricardo, não percebo do teu texto qual é o país a quem a dupla nacionalidade causa engulhos. Se te referes à Alemanha,informo que já hà muito que assim não é. Tenho 3 filhos com a dupla. António Sobral

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    1. O que Sigmar Gabriel propõe é a concessão automática (ou pelo menos facilitada) aos jovens britânicos que vivam na Alemanha. Essa conceção será muito difícil depois do RU deixar a UE, tal como é hoje para cidadãos extra-comunitários. Por isso, nessa medida, o Ricardo tem razão...

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    2. errrrrrro há milhões de turcos que não a têm e viveram na alemanha décadas

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  3. O problema não é os portugueses ligarem muita atenção àquilo que Schaeuble diz, o problema é os mercados financeiros ligarem muita atenção àquilo que ele diz. Quando Schaeuble diz aquilo, imediatamente os juros da dívida portuguesa aumentam um bocadinho e o país fica mais perto da bancarrota. Esse é que é o problema: as palavras de Scheuble têm uma influência direta sobre a probabilidade de Portugal entrar em bancarrota.

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  4. O problema é que os britânicos que residem na Alemanha são principalmente jovens, ativos e produtivos, enquanto que os britânicos que reseidem em Portugal são principalmente idosos não produtivos e com problemas de saúde. Por isso, a sugestão de Gabriel é boa para a Alemanha mas provavelmente não deve ser copiada por Portugal.

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    1. Não, Luís Lavoura, a sugestão é uma questão de princípio, as vidas dos velhos britânicos que habitam em Portugal são tão importantes como as dos jovens britânicos que vivem na Alemanha. Se viveram e trabalharam no RU, é a Grã-Bretanha que lhes custeia as reformas, de qualquer modo. É que aposto que muitas dessas pessoas teriam uma quebra significativa da sua qualidade de vida se regressassem ao RU (aquele País não é para velhos, como mostra o resultado do Referendo, aliás)...

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    2. Não Jaime Santos, isto não é somente, nem sequer principalmente, uma questão de princípio. É uma questão prática, económica. Os velhinhos ingleses que passam a reforma em Portugal são evidentemente ótimos, se o Reino Unido lhes pagar as reformas e também os custos de saúde (nos hospitais portugueses); se, no entanto, tiverem que ser os portugueses a pagar-lhes os custos de saúde, o caso muda um tanto de figura. Já quanto aos jovens ingleses que trabalham na Alemanha, a Alemanha tem um interesse evidente, tanto económico como demográfico, em que eles lá permaneçam, pelo que deverá conceder-lhes a nacionalidade alemã caso isso seja necessário à sua permanência.

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  5. Pois, mas mesmo olhando para isso como uma mera questão económica, o princípio que vigora na UE é que os impostos são pagos no País de Residência: http://europa.eu/youreurope/citizens/work/taxes/income-taxes-abroad/index_en.htm. Portanto, se os velhinhos britânicos continuarem a pagar os seus impostos em Portugal, e a contribuir para o SNS como todos os portugueses, o RU não tem nada que lhes pagar os custos de saúde. No momento em que se tornarem portugueses, não se distinguem dos nossos imigrantes que recebem as reformas de França ou da Suíça, mas regressaram a Portugal. E como essas reformas são mais elevadas que as do pensionista médio português, o País até ganha com isso. Por isso, mesmo adotando o seu ponto de vista, faz sentido conceder-lhes a nacionalidade. E não estou a ver o RU a querer reimportar os seus velhos ao exigir que passem a pagar os seus impostos no RU, o custo de vida e dos tratamentos é mais elevado lá. O meu único problema com este seu ponto de vista é que o que vale para um velho britânico não valeria para um romeno...

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  6. Não se de subestimar a importância de Wolfgang Schäuble. Ele não é apenas o ministro das Finanças do governo alemão. É mais do que isso. Ele é o todo "poderoso" ministro das Finanças do governo alemão, o interlocutor privilegiado do sector financeiro e das grandes multinacionais da Alemanha. Ao pé dele, Sigmar Gabriel é um pigmeu, cuja função é unicamente garantir uma solução política que permita o avanço do imperialismo alemão. Uma simples declaração de Schäuble é uma ordem irrecusável para a comissão europeia, para o Ecofin e para o Eurogrupo.Não nos deixemos iludir com as hierarquias formais.

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    1. Não devemos é embarcar em mitos, como o de que a Comissão Europeia recebe ordens de Schauble.

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