sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Não é «suicídio assistido» nem «eutanásia», é «morte assistida»

Quem tem uma doença terminal e escolhe morrer antes da dor e da degradação finais não comete suicídio nem eutanásia: suicídio é escolher a própria morte quando se está fisicamente saudável; eutanásia é ajudar a morrer outrem, e um acto que portanto remete para o médico e não para o paciente. O termo correcto será morte assistida.

Estas aborrecidas precisões terminológicas, num assunto já de si tétrico, são necessárias por ser demasiada a confusão num assunto que desafia a empatia de cada um. A situação de quem escolhe a morte assistida pode talvez ser compreendida por analogia com as mortes daqueles que saltaram em 2001 das torres em chamas do World Trade Center, após os atentados islamofascistas: aquelas pessoas já não podiam escolher entre a vida e a morte. Só podiam escolher como iriam morrer, e preferiram saltar em vez de morrerem queimadas ou intoxicadas. (Juridicamente, essas mortes foram aliás consideradas homicídios e não suicídios.)

Em boa verdade, a morte assistida sempre aconteceu em todas as épocas e culturas, mas toma outra pertinência numa época em que os cuidados médicos, felizmente, podem prolongar a vida muito para além dos trinta ou quarenta anos médios dos nossos antepassados neolíticos. Efectivamente, ser possível prolongar a vida de quem se sabe estar condenado a meses ou meras semanas de sofrimento não torna obrigatório aceitar esse sofrimento. São populares, eu sei, mundividências que glorificam o sofrimento. Será uma escolha legítima, se partir da livre consciência de cada um. Mas escolher morrer quando já não há esperança de uma vida melhor também deve ser uma escolha da livre consciência de cada um.

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