quarta-feira, 6 de junho de 2007

Há 100 anos, em Portugal, ia-se para a prisão por escrever sobre religião

No Almanaque Republicano:

  • «1906 [Dia 29 de Maio] - O professor Carlos Cruz, secretário da Associação do Registo Civil sai da cadeia, indultado pelo governo de João Franco. Este cidadão encontrava-se preso por ofensas à religião e tinha sido condenado a vinte meses de cadeia

Conforme já referido pelo mesmo Almanaque Republicano (noutra nota), o livre pensador Carlos Cruz cumpriu setenta e oito dias de prisão por ter criticado publicamente, por escrito, o «Dogma da Imaculada Concepção de Maria» (segundo o qual os avós do JC não cometeram «pecado» - seja lá isso o que for - ao conceberem a mãe do próprio JC, a qual mais tarde teria engravidado sem sexo, etc.).

Os clericais tentam-nos convencer dia-sim/dia-sim de que os republicanos tentaram implantar em Portugal um regime de ateísmo de Estado horrorosamente repressivo. É necessário recordar-lhes continuamente que a liberdade em matéria religiosa não serve apenas para afirmar dogmas; também existe para criticar esses dogmas. E, como se vê, não é necessário recuar até à inquisição para encontrar casos de perseguições a livre pensadores. Pelo contrário, não conheço um único caso de um católico preso durante a «pavorosa» República por afirmar este ou outro qualquer dogma católico em público...

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

terça-feira, 5 de junho de 2007

Dar mau nome ao anarquismo

  • «Milhares de militantes altermundialistas manifestaram-se em Rostock, a cidade alemã mais próxima do local onde decorrerá, a meio da semana, a cimeira do G8. Pedras, garrafas e paus, de um lado, e granadas de gás lacrimogénio, do outro, marcaram os primeiros confrontos com a Polícia, fora do cerrado dispositivo de segurança que envolve a estância balnear de Heiligendamm, onde serão recebidos os líderes dos oito países mais industrializados do Planeta. (...) Uma porta-voz da Polícia descreveu os incidentes como resultantes do "ataque em massa" por banda dos manifestantes, embora a generalidade das fontes note que apenas uma pequena porção dos manifestantes terá provocado as autoridades. Mais de 160 grupos antiglobalização, de Esquerda, de estudantes ou de anarquistas participaram na marcha de ontem, que atravessou o centro da cidade em direcção ao porto, zona onde a maior parte dos activistas montou acampamento. De acordo com a Polícia, havia entre os manifestantes cerca de dois mil membros, encapuzados, do "Schwarzer Block" (Bloco Negro), grupo anarquista radical que procura sempre o confronto com as autoridades.» (Jornal de Notícias)
Sendo legítimo (e até desejável) protestar contra a «privatização» das mais importantes decisões mundiais por um grupo que reune à porta fechada (o que aconteceu à ONU?), os métodos escolhidos por alguns destes manifestantes prejudicam o movimento por outra globalização na sua globalidade e, mesmo que o não prejudicassem, são contraproducentes. Prejudicam porque roubam o espaço a discursos mais inteligíveis, e porque associam à violência um movimento que não tem necessidade dela. E são contraproducentes porque procuram que a violência estatal confirme que o Estado é repressivo, para gerar mais revolta e mais violência, e depois mais repressão para voltarem ao ponto de partida. No fundo, o que esta gente faz, de capuz na cabeça e de pedras na mão, é dar mau nome ao anarquismo (e à esquerda).

Revista de blogues (5/6/2007)

  1. «Não consta que haja mais criminosos entre os irreligiosos do que entre os religiosos. O ser humano sabe que determinadas coisas são erradas porque é capaz de se colocar no lugar do outro e de colocar o outro no seu lugar. Quem faz uma coisa errada sabe que rompe um pacto tácito estabelecido com os outros seres humanos. Não é preciso religião para ensinar isso. A ética exposta por Kant, por exemplo, não é religiosa. As religiões não fazem senão – na melhor das hipóteses – espelhar os princípios e a regras que os homens elaboraram para poderem melhor conviver em sociedade. A prova disso é que, embora muitos dos princípios e regras que os homens se impõem não sejam espelhados pela religião, eles são, no entanto, respeitados. Por exemplo, achamos errado que uma pessoa abandone um amigo na hora da necessidade. (...) O catolicismo alega defender a vida, mas a verdade é que a vida que realmente importa, para ele, não é esta, mas a "outra", isto é, a "eterna", isto é, a que vem depois da morte, isto é, a própria morte. E, perto da vida eterna, o que é, para o verdadeiro católico, o sofrimento nesta vida? Assim, o catolicismo não defende a vida, mas a morte e o sofrimento.» («Entrevista a Washington Castilhos», no Acontecimentos.)
  2. «No que eu faço aos outros não é o que eu gosto que é mais relevante. (...) O correcto é não lhes fazer aquilo que eles não gostam. Martelar o prego não é um problema ético porque o prego não se importa. (...) Martelar formigas é perda de tempo mas não é um problema ético. Elas não se importam. Admito que é difícil traçar esta divisória com exactidão. Não compreendemos bem os mecanismos da experiência subjectiva. Mas nos vertebrados o córtex cerebral parece um bom indicador. Tanto quanto sabemos, é essencial à subjectividade. Assim, divido os vertebrados em peixes, anfíbios e répteis como «máquinas biológicas», e aves e mamíferos como seres que sentem. O sistema nervoso dos invertebrados parece demasiado simples para esta capacidade, com excepção do polvo. O polvo tem um comportamento inteligente e um cérebro grande mas demasiado diferente do nosso para podermos extrapolar com confiança, por isso dou-lhe apenas o benefício da dúvida.» («Ética, parte 1: Subjectividade», no Que Treta!)

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Os fascistas não fazem mal a ninguém

  • «O grupo de cabeças rapadas Hammerskin, com ligações ao Partido Nacional Renovador e que foi detido pela Polícia Judiciária há pouco mais de um mês, estava a preparar atentados a algumas figuras da política, sobretudo militantes do Partido Socialista, do PCP e do Bloco de Esquerda na Margem Sul. Documentos apreendidos nas buscas dão conta da realização de uma reunião na Margem Sul para definir os alvos dos ataques, que previam também a vandalização de sedes partidárias com bombas de fabrico artesanal e cocktail molotov.» (Correio da Manhã)

domingo, 3 de junho de 2007

Revista de blogues (3/6/2007)

  1. «Algures na história de uma qualquer internacional os intelectuais deixaram de ter paciência para os operários. Por todo o mundo nasceram os blocos de esquerda. Partidos, grupos, tendências de gente com formação universitária, fortemente doutrinados e intelectualizados. Do outro lado ficaram os operários e o campesinato. Esta dicotomia encontra expressão se compararmos o Bloco de Esquerda com o Partido Comunista Português. Ideologicamente as diferenças não são assim tantas. Mas de um lado está o professor universitário Louçã. Do outro o operário Jerónimo de Sousa. De um lado estão os meninos universitários que leram e correram mundo. Do outro a massa da festa do Avante que nunca saiu do Seixal. De um lado está um partido cheio de ideias e sem músculo. Do outro um partido cheio de músculo e sem uma única ideia. Sim, isso mesmo, a esquerda caviar e a esquerda do coirato. A síntese é quase impossível. (...) Os intelectuais querem a revolução em nome dos operários e dos campesinos mas toleram com dificuldade a companhia das massas e não aceitam a partilha de poder. Afastam-se. Isolam-se. A revolução pelas massas sem o apoio das massas torna-se numa incongruência ideológica que consome lentamente o esforço revolucionário até ao seu desaparecimento. (...) Talvez os ortodoxos estejam mesmo certos. Não há revolução dentro do sistema. E não há caminho para o socialismo sem revolução. Tudo o resto é uma vagarosa concessão à social-democracia.» («Crónica final: o caminho para o socialismo tem muitas bifurcações», no 31 da Armada.)
  2. «O recente debate na blogosfera em torno do outdoor da JS, comemorativo do Dia Mundial da Luta contra a Homofobia, é mais um exemplo do falso liberalismo da direita blogosférica. A direita presente em blogs como: "O Insurgente", "31 de Armada" ou "O Blasfémias" consegue mesmo ser mais autoritária e conservadora do que a direita partidária portuguesa. São vários os debates que o têm demonstrado. A IVG, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o divórcio a pedido de um dos cônjuges ou mesmo o debate sobre o salazarismo constituem exemplos paradigmáticos do ultra-conservadorismo e também do autoritarismo destes falsos liberais. Desenganem-se aqueles que achavam que os liberais portugueses só existiam na blogosfera. Pelo menos, não nestes blogs. O mais recente debate sobre o cartaz da JS é bem elucidativo disto. Usando a mesma técnica que o «Insurgente» já tinha usado a propósito da apologia encapotada do salazarismo, este blog e mais uma vez o "Insurgente" disfarçam a sua homofobia criticando, vejam bem, o direito à liberdade de expressão de uma organização política. (...) Bem sei que dirão que não estavam a atacar o direito à liberdade de expressão da JS, mas antes o facto deste ser exercido através de financiamento público. Ignoram que só parcialmente o financiamento dos partidos é público, mas para o caso este facto é irrelevante. Não percebem, ou melhor, não querem perceber que o exercício da actividade política numa democracia por parte de partidos políticos exige que estes recebam financiamento público. A alternativa ao financiamento público é o financiamente privado. Mas não foi por acaso que o financiamento privado por parte de empresas foi proibido. Foi para garantir uma maior independência dos partidos políticos face a interesses particulares.» («Os falsos liberais da blogosfera», no Ladrões de Bicicletas.)

Johann Hari: «The tricky question of Gordon Brown's God»

«And now, congregation, let us turn to the tricky question of Gordon Brown's God.
(...)
But we cannot grasp what drives our soon-to-be Prime Minister without talking about his religion. Even more so than Tony Blair, Christianity is at the centre of his world-view. In a largely irreligious country, this is an anomaly - and a big deal. So what kind of God does Brown believe in, and how will this shape his Britain?
###
(...)
The best hint can be found in Brown's little-noticed endorsement in 2005 of a book called God's Politics: Why the American Right Gets It Wrong and the Left Doesn't Get it by the theologian Jim Wallis. The author damns the right for focusing "on sexual and cultural issues while ignoring the weightier matters of justice." So the book is an attack on Falwellian poison - but also on what it calls "secular fundamentalism." Secularists, Wallis writes, "mistakenly dismiss spirituality as irrelevant to social change." Wallis believes religion should be a presence perpetually motivating people to pursue "justice" for the poor.
(...)
Brown is, he claims, "listening to the message of the Biblical prophets" when he brilliantly slashes Africa's debts, doubles aid, and increases tax credits for poor kids here at home. (He is presumably defying it when he permits the super-rich to continue jaunting about all-but-untaxed). Wallis's favourite Biblical tradition is the Jubilee Year, where periodically the debts of the poor were cancelled, slaves were set free, and land was redistributed more fairly.
(...)
There is another political bog that Brown's faith may suck him into: the expansion of faith schools. The Government is now promoting the division of Britain's kids into religious and ethnic educational enclaves, where they will not mix. This is a recipe for racial division and hatred, but Brown's bias towards faith as a positive force will almost certainly stop him secularising our schools.
So Gordon Brown's God is cantankerous and ambiguous. At His best, He likes to help the poor and hates hereditary privilege. At His worst, He likes dividing His flock into schools where He will be worshiped fulsomely in His many different guises. This God is alternately encouraging and disturbing - but we cannot understand our next Prime Minister without Him.»
(Johann Hari; ler na íntegra.)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Revista de blogues (1/6/2007)

  1. «Volto a tentar colocar a tónica no que está em causa: campanhas de combate à discriminação e protecção de direitos fundamentais. Mas penso que é uma tentativa inglória - André Azevedo Alves e Filipe Melo Sousa recusam aceitar como premissas da discussão elementos que eu considero pressupostos da sociedade democrática e do consenso axiológico que a estrutura: existem valores fundamentais, cuja protecção e promoção cumpre ao Estado assegurar. Que tais ideias causem arrepios a alguns cidadãos e cidadãs, é uma questão de convicções. Convicções essas, aliás, que República respeita (daí que aludir a thought-crimes seja despropositado e falacioso) e defende através dos tais mecanismos totalitários kim-il-sunguistas que vos fazem confusão. Contudo, diria ainda que aquilo que é descrito como um desolador pântano de politicamente correcto, assolando as sociedades ocidentais, não é na verdade contraditório com o ideário liberal. Releiam (ou leiam...) John Stuart Mill e provavelmente ficarão surpreendidos em encontrar a afirmação de que existem limites às liberdades individuais e que o poder pode ser exercido contra a vontade dos próprios quando estes invadem a esfera de terceiros.» («O liberalismo soft e a propaganda reaccionária», no Boina Frígia.)
  2. «Num contexto de desemprego elevado, de generalização da precariedade e de proliferação de relações laborais atípicas que aumentam os laços de dependência, fazer greve tem custos demasiado elevados para demasiados trabalhadores. O poder nas relações económicas é isso: a capacidade que A tem de fazer com que B faça o que A deseja porque A tem a capacidade de impor custos sobre B se isso não acontecer. Em Portugal, os patrões têm hoje demasiado poder. A ameaça de despedimento é obviamente a principal arma. Em tempos de crise essa ameaça é demasiado credível. Por isso, é natural que a greve ocorra sobretudo onde os trabalhadores conquistaram uma maior capacidade, através da sua acção colectiva, de diminuir esses custos. Por isso é natural que a greve geral de ontem tenha sido mais elevada na função pública, nas empresas públicas e em algumas grandes empresas do sector privado onde os trabalhadores estão mais organizados e resistem melhor à fragmentação das solidariedades de classe. (...) Dito isto, parece que até aí a greve também não atingiu a adesão de outras greves. A conclusão parece-me tão clara quanto dura: «foi a mais fraca greve geral até hoje organizada em Portugal».» («Tempos sombrios», no Ladrões de Bicicletas.)

CDS aproxima-se da extrema-direita?

  • «O novo líder da Juventude Popular (JP), Pedro Moutinho, propôs hoje a revogação da Constituição da República e a elaboração de uma nova Lei fundamental, com poucos artigos e com a qual «todos os portugueses se identifiquem» (...) «Já não há revisão que valha à Constituição. Deve ser revogada e ser feita uma nova Constituição com poucos artigos, centrada nos direitos, liberdades e garantias», defendeu Pedro Moutinho, em declarações à Lusa.» (Portugal Diário)

Existem vários critérios possíveis para separar a extrema-direita da direita sem prefixo (e respectivamente para separar a extrema-esquerda da esquerda, etc). Um, será colocar no extremo quem defende o uso da violência para derrubar um regime democrático. Outro, menos estrito, será postular que está no extremo quem rejeita a ordem constitucional republicana e democrática. Os rapazes da «Juventude Popular» parecem estar a colocar-se na segunda situação, embora por enquanto não nos digam que género de Constituição quereriam...