terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Impostos nacionais ou impostos europeus?

É um excelente princípio a proposta do governo português de criar três novos tipos de impostos a nível da União Europeia: «a taxação digital, a taxação verde e a taxação sobre transacções financeiras internacionais». E é excelente por três razões. Primeira, porque as  grandes empresas da economia digital, as indústrias poluentes e a finança especulativa não conhecem fronteiras e tendem a fugir para o Estado europeu com menores impostos (tipo Países Baixos ou Luxemburgo). Segunda, porque serão fundos próprios da União Europeia para despesas da UE. Terceira, porque permite aprofundar a discussão sobre o financiamento de projectos europeus e não apenas inter-nacionais (e neste último ponto, parece-me bem mais urgente apoiar refugiados do que criar um exército europeu).

As reacções foram elucidativas. Marcelo, com a habilidade que o caracteriza de chamar a si o que é do governo, «explicou» a proposta do governo aos cidadãos. Os nacionalistas de direita gritaram que Portugal «não pode abdicar (...) de uma função soberana clássica» como a cobrança de impostos (já receber subsídios dos impostos de outros Estados não deve ser abdicar da soberania). Adicionalmente, acusaram este governo de ser a «troika sem a troika», o que é cómico dado que ninguém os viu nas manifestações contra a dita, e bastante canhestro porque se trata desta vez de impostos sobre empresas e não sobre cidadãos. Os nacionalistas de esquerda concordaram com os do outro lado em defender que o reforço do orçamento da UE deve vir «do aumento das contribuições directas de cada Estado». Em ambos os casos, sente-se a nostalgia da economia baseada em Estados-nação que as multinacionais já compreenderam muito bem ter terminado. E como um regresso ao mundo do século 19 nem na ficção científica é apelativo, parece bem melhor remediar a economia global que temos do que apostar no regresso ao passado.