terça-feira, 4 de outubro de 2016

Fortunas e responsabilidades

As contas (não o raciocínio, mas já la vamos) do Ricardo Campelo Magalhães fazem sentido: 500 000 euros para a velhice de um casal não é em si muito dinheiro. Partindo do pressuposto de que vivem reformados cerca de 20 anos, dá cerca de 1000 euros por mês a cada um. Seria uma boa reforma para a maior parte das pessoas, mas isso não faria deles ricos. Mesmo graves são duas coisas. A primeira é que este tipo de raciocínio revela a (pouca) consideração que pensadores como o Ricardo Campelo Magalhães têm pela Segurança Social. Nada que já não soubéssemos, mas é sempre bom vê-lo expresso de uma forma tão eloquente. A segunda é que a esmagadora maioria dos portugueses, que vivem do seu trabalho, não conseguem poupar 250 000 euros ao longo da vida só com os seus salários. Os poucos que eventualmente consigam, de certeza que não terão a tal "parca reforma". Ou seja, para a esmagadora maioria dos portugueses, assalariados ou trabalhadores independentes, o raciocínio do Ricardo Campelo Magalhães não faz sentido nenhum (mesmo que as contas até façam). Grave é este desfasamento e desconhecimento da realidade (a que acrescem julgamentos morais sobre "responsabilidade"). Desfasamento esse que é uma característica comum às cabeças pensadoras (que as há) do anterior governo e dos atuais PSD e CDS.

2 comentários :

  1. Tenho 26 anos, quando me reformar dificilmente os meus descontos farão alguma diferença. Por isso sim, são contas que fazem sentido.

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  2. Olhe Filipe, eu por acaso até sou a favor de um imposto sobre o património imobiliário por princípio, mas façamos mais algumas contas. Ouvi na comunicação social que o objetivo será a coleta de 200 M€ por ano e que cerca de 43.000 pessoas teriam património imobiliário declarado (julgo que para efeitos de IMI) acima do meio milhão de euros (valores inferiores aos valores de mercado). Admitindo que todos pagariam o mesmo (o que é falso, mas como não conheço a distribuição de valores dos prédios, tenho mesmo que usar a média), cada pessoa pagaria cerca de 4650 € por ano (para além do IMI e das despesas de manutenção, o que dará grosso modo 5.000-6.000 € por ano). Ao fim de vinte anos, isto representa cerca de 100.000-120.000 €, uma fração considerável do valor dos prédios (entre 1/5-1/4). Claro, isto estimularia o arrendamento, mas pensar que pelo menos uma das rendas vai direitinha para pagar impostos sobre a propriedade (para além dos impostos sobre rendimento das rendas) irá fazer muita gente pensar duas vezes e das duas uma, ou convertem as habitações em AirBnB, ou vendem-nas a quem faça o mesmo. Se é duvidoso que o novo imposto afaste os investidores estrangeiros porque a propriedade em Portugal ainda é bastante barata, não sei se é muito prudente para quem quer dinamizar o mercado do arrendamento urbano, em particular das rendas económicas. O meu ponto é que a Dra Mortágua deu um grande tiro no pé quando abriu a boca e deveria ter deixado o Professor Centeno que, esse sim, sabe fazer contas, estudar a medida e apresentá-la. O mesmo se passa com a questão do aumento generalizado de pensões. Como a Fernanda Câncio notou, faz muito mais sentido sujeitar o aumento das pensões mínimas, que muitas vezes são concedidas a quem nunca descontou, à condição de recursos (o mesmo que Costa defendeu na entrevista ao Público, pelos vistos). Rende menos votos, mas é bem mais responsável. A Esquerda da Esquerda, como parece incapaz de perceber que a ética das convicções deveria ser temperada pela ética da responsabilidade (o que não resulta de facto não é lá muito moral, por melhores que sejam as intenções), deveria ter mais cuidado com o que diz e fazer mais contas... Já agora, convém perceber que o investimento do fundo da SS, é, obra e graça da troika+PàF, quase exclusivamente em títulos de dívida pública, por isso, cuidadinho com a reestruturação da dívida, não vá o que o Miguel Vasques diz tornar-se verdade...

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