quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ruptura

Há momentos em que é necessário oferecer o peito às balas. Um parlamento democrático que antecipa uma votação para evitar que coincida no tempo com uma manifestação é pior do que cobarde: é um parlamento que assume que teme o povo que se manifesta nas ruas, que abdica de diminuir a lendária «distância entre eleitores e eleitos» e que insulta o significado da própria democracia representativa. Há momentos em que é necessário aceitar mais do que a crítica ritualizada das formalidades parlamentares, e aguentar que a rua lá fora grite o contrário do que se está votar. E hoje não houve coragem para tanto.

O espectáculo de deputados em fuga da assembleia da República após uma votação apressada é um mau prenúncio para a democracia. Houve uma ruptura. Desceu-se um degrau. Espero que tenha sido apenas a actual maioria que o tenha descido, e não o próprio regime.

ICAR pede perdão a Galileo

A Igreja Católica pediu perdão pelo modo como tratou Galileo em 1633 (condenando a prisão até à sua morte 9 anos depois), faz hoje...
a) 300 anos.
b) 200 anos.
c) 100 anos.
d) 20 anos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A sensibilidade social de um grande banqueiro

  • «Fernando Ulrich (...) perguntou retoricamente se o país aguenta mais austeridade e a resposta foi “Ai aguenta, aguenta!” (...) os gregos estão vivos, protestam com um bocadinho de mais veemência do que nós, partem umas montras, mas eles estão lá, estão vivos.» (Público)
Até morrermos todos não há problema.

Violação do segredo de Estado

Avisam-se as autoridades competentes de que o «OSCOT» - uma associação - afirma ter acesso aos relatórios dos serviços de espionagem interna que, pensava eu na minha ingenuidade, deveriam ser secretos. Mais, divulgam publicamente o que dizem ser o seu conteúdo e pressionam a opinião pública com base nas alegadas conclusões desses relatórios.

Aguardo o procedimento judicial, a confirmar-se que existe violação do «segredo de Estado».

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Um debate interessante sobre o que se passa no BE...

...e o que se seguirá por essas bandas (o essencial parece-me estar a partir do minuto 50).

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A colonização alemã foi consumada

O Guardian tem mantido um excelente blog, com várias atualizações por hora, sobre o desenrolar da crise do Euro. 
Aqui fica um apanhado de hoje:
  • O Ministério das Finanças alemão enviou ao Governo grego uma lista de exigências, como a criação de uma conta para onde iriam diretamente parte das receitas do Estado grego, sem que os gregos pudessem mexer nela; a Grécia necessitaria de pedir autorização para contrair dívida; a Grécia receberia "consultoria" técnica obrigatória em matérias como corrupção e impostos, etc.
  • Um jornal alemão anuncia que a Grécia vai receber mais dois anos para atingir os objetivos da austeridade.
  • Mario Draghi está hoje no parlamento alemão para dar explicações sobre a actuação do BCE na crise.
  • Governo alemão diz que não há extensão do prazo.
  • O governador do Bundesbank faz uma conferência de imprensa com Mario Draghi no parlamento alemão.
Leia-se as frases acima, trocando "Alemanha" por "Eslovénia" (que em teoria tem o mesmo poder que a Alemanha na estrutura europeia), e perceber-se-á o ridículo a que chegámos.
A deslocação de Dragi ao Bundesbank é particularmente vergonhosa, porque de acordo com os tratados, o BCE não responde perante ninguém. Se respondesse deveria ser perante o Parlamento Europeu. Nunca se viu o presidente do banco central espanhol a sujeitar-se a perguntas do parlamento da Galiza... até hoje.

Este assunto deveria ter mais atenção

  • «"Que o senhor Paulo Portas esclareça que Portugal não está por detrás e que nos explique como é que um asilado político em Portugal, sob custódia de Portugal, aparece na Guiné a fazer uma tentativa de tomada de um quartel." (...) Um grupo alegadamente comandado pelo capitão Pansau N"Tchama, um militar que estaria em Portugal, onde tinha pedido asilo político, tentou assaltar um quartel militar na madrugada de domingo, uma ação da qual resultaram seis mortes. (...) A agência Lusa questionou o Governo português sobre a presença em Portugal de Pansau N"Tchama e em que qualidade, e se saiu de Portugal com conhecimento das autoridades. Não obteve resposta, "por questões de confidencialidade". (...)» (Jornal de Notícias)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Nível de exigência da imprensa ou Como a capa do Público tem uma notícia com mais de um ano

I
06 Outubro 2011 : ONU publica estudo sobre homicídios em vários cidades mundiais
Janeiro 2012: Uma organização mexicana publica um texto baseado no estudo da ONU
Início de outubro 2012: alguma imprensa internacional pega neste último estudo
23 Outubro 2012: a notícia chega à capa do Público

II
11 Outubro
Tendo findado o contrato anterior, o Grupo Parlamentar do PS opta por mudar a empresa com a qual tem o contrato de aluguer de automóveis, ficando com uma factura mais baixa.
O JN tem uma manchete que fala em centenas de milhares de euros gastos na "renovação da frota". A imprensa faz copy paste de modo acefálico.
Assis comenta que mesmo que tivesse escolhido alugar Clios, a imprensa teria caído no mesmo populismo.
A imprensa noticia então que Assis teria dito que "Qualquer dia querem que o líder parlamentar do PS ande de Clio". O copy paste acéfalo repete-se.

III
17 Outubro 
A propósito do meu culpa do economista-chefe do FMI sobre os erros nas previsões sobre o impacto económico de curto-prazo da retração do consumo público, o Público faz um exercício simples de cálculo, que é trazido para a manchete, sobre os novos números do FMI e o orçamento português.
Alguém, fora do Público, mete na cabeça que as contas são do FMI e noticia que é o próprio FMI que prevê o PIB pode cair até 5,3%. A imprensa faz copy paste acriticamente.


São apenas três histórias (entre várias) que notei na última semana, mas muitas mais haverá. Histórias que mostram o funcionamento atabalhoado da imprensa. Bem sei que a queda da procura leva à diminuição de recursos, ao uso e abuso de estagiários com pouca preparação, etc. Contudo um restaurante que vende comida estragada não se pode desculpar com a pouca procura que tem, cabe a ele vender algo melhor.
O financiamento público para o quatro poder, que defendi há dias, deveria ser feito em troca de uma exigência de rigor maior por parte do Estado. O direito de resposta deveria ser alargado e destacado; organismos independentes como o INE e o Banco de Portugal seriam ser incentivado a corrigir notícias em que os seus dados são distorcidos; a imprensa seria obrigada a indicar o link para a fonte (declarações audio, relatórios oficiais) das suas notícias de modo a facilitar a sua verificação; os visados deveriam ter sempre espaço para contraditório.
A exigência que a imprensa tem para consigo, e que nós, cidadãos, temos para com ela, também é um perigo para a democracia.