quinta-feira, 2 de junho de 2011

resumindo e concluindo...

Do diagnóstico estrutural ilustrado que discuti nestes dias, segue-se a pergunta habitual: e agora?

Devemos abandonar o euro, por forma a recuperar competitividade nas nossas exportações de baixo teor tecnológico? Bom, além de transmitir a mensagem errada relativamente ao paradigma de produção nacional que devemos desejar para Portugal, existe aqui toda uma outra série de problemas. Se é certo que a saída do euro e posterior desvalorização do neo-escudo baixaria o custo exterior das nossas exportações, não é menos certo que aumentaria, na mesma proporção, o custo das nossas importações. Se pensarmos na nossa forte dependência externa em termos energéticos, e mesmo em muitos outros bens de primeira necessidade (fruto de uma indústria em contracção), cedo nos apercebemos da enorme inflação a que estaríamos sujeitos, e resultante re-agravo, por esta via, do custo da produção nacional! E isto sem falar na questão da dívida externa: fixada em euros, com a desvalorização do neo-escudo levaria em pouco tempo a grande maioria das famílias e da economia à bancarrota; fixada em neo-escudos, levaria ao default automático do sistema bancário nacional, e à total incapacidade de Portugal se financiar externamente (por via da re-estruturação unilateral da dívida).

Devemos então manter-nos no euro? Naturalmente que isto apenas será viável se, ao mesmo tempo, compreendermos claramente os problemas da nossa economia. Mas, mesmo assim, com taxas de juro relativas à dívida pública absolutamente insustentáveis pela frente, o caminho não se apresenta nada fácil. É perfeitamente claro que este caminho apenas poderá ser viável num cenário de emissão de eurobonds para relançar o crescimento económico através do investimento público, como ilustrei aqui. Ora este é, sem sombra de dúvida, um cenário que pode demorar bastante tempo a materializar-se. Assim, esta é, de alguma forma, a estratégia de tentar aguentar o barco à superfície, no meio da tempestade, na esperança que acalme em breve — aliás a estratégia que o governo seguia na fase anterior ao chumbo do PEC4, combatendo por decisões favoráveis de Bruxelas. Honestamente, de um ponto de vista pragmático, não consigo vislumbrar outra solução.

E, neste caminho, se queremos realmente enfrentar os problemas da nossa economia, então a estratégia correcta passa necessariamente pelas apostas efectuadas nos últimos anos: o investimento em qualificação e em ciência e tecnologia; o investimento em infraestruturas; a aposta nas energias renováveis e na independência energética; a desburocratização da administração central e a aposta no e-government; a defesa sustentável do modelo social, do SNS, da escola pública e da segurança social; o apoio às empresas exportadoras; entre tantas outras. Estas são, sem qualquer sombra de dúvida, as apostas certas.

Algumas estão, certamente, comprometidas pela intervenção do FMI. Mas o pior que poderia acontecer no domingo seria achar-se, a nível eleitoral, que estas apostas não foram as apostas certas para Portugal. Isso iria deixar-nos, enquanto nação, sem qualquer visão ou estratégia para o futuro.

Em resumo, o sentido de voto é claro:

«[...] José Sócrates referiu depois o que considera serem os sete pontos principais do programa do PS: educação, com destaque para a escolaridade obrigatória até ao 12º ano; consolidação da aposta nas energias renováveis; apoio à afirmação do sector da exportação; investimento na ciência e tecnologia; avanço da agenda digital; modernização da administração e conclusão das redes de cuidados de saúde e redes de equipamentos sociais, com destaque para as creches.

“Um programa simples e com propostas claras”, resumiu. [...]»
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[1] --- Sócrates apresentou programa do PS contra “aventureirismos radicais”, Público [Abril 2011]