domingo, 22 de maio de 2011

de bush a bush, passo a passo: o W de massamá

Vannevar Bush, um Bush pouco conhecido nos dias que correm, foi o primeiro conselheiro científico de um presidente dos Estados Unidos: Franklin Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, num processo visionário, viria a recomendar a criação da National Science Foundation, em 1950, entre tantas outras coisas.

Menciono-o hoje porque, em Julho de 1945, num relatório histórico ao presidente sobre política científica, intitulado «Science, The Endless Frontier», Bush qualificou a investigação científica fundamental como o «pacemaker of technological progress». Em particular, nesse relatório propõe o chamado Modelo Linear do financiamento em Ciência e Tecnologia, uma visão fundamental e, na altura, inovadora da política científica que deu aos Estados Unidos décadas de sucesso e liderança mundial nesta área.

Este modelo coloca o financiamento em investigação básica como o pilar de toda uma estrutura de desenvolvimento da sociedade. Numa imagem:


Naturalmente que o Modelo Linear tem as suas limitações e tem evoluido em diversos aspectos nos últimos 50 anos. Mas não deixa de ilustrar princípios muito básicos do desenvolvimento científico da humanidade. Ficando-me pelo último século, lembremos que se hoje existem computadores, ferramentas fundamentais de trabalho, é porque no início do século XX a ciência se focava em compreender o núcleo atómico com a descoberta da Mecância Quântica; que um GPS nunca funcionaria correctamente sem fazer uso da teoria da Relatividade Geral; que certas transações financeiras apenas são seguras devido a descobertas em Teoria de Números; ou mais recentemente recordemos que a famosa sigla www teve origem no CERN.

O Bush mais conhecido, o "W", de tão má memória em tantos aspectos diversos, esse infelizmente não compreendeu nada do legado de Vannevar, promovendo cortes draconianos no financiamento científico que apenas agora estão a ser lentamente recuperados com Barack Obama.

Mas o que tem isto a ver com o nosso burgo? Pois Passos Coelho —já cá faltava!— a quem já ouvi chamar o "Obama de Massamá", mas que me parece muito mais correcto chamar o "W de Massamá", parece também não compreender nada do legado de Vannevar (ou, neste caso, do extraordinário legado do ministro Mariano Gago). Senão vejamos, há poucos dias, num chat promovido pelo Público, sai-se com esta pérola:

«PASSOS COELHO: Já agora, era importante sobre esse assunto que a carreira docente estivesse dependente da investigação ligada à área produtiva...»

Hmmmm... estará a brincar? Dependente?! O Modelo Linear é... enfim... bastante simples de compreender. É linear! Mas parece que não, para o W de Massamá nada de pensar que a ciência fundamental pode ser o «pacemaker of technological progress»... Qual quê! Ou bem que dá para vender ou bem que não serve para nada!