segunda-feira, 18 de abril de 2011

breve história ilustrada de como aqui chegámos

Aproveitando a deixa do Miguel, atrevo-me a tentar um post ilustrado e simples sobre o caminho que aqui nos trouxe. Corridos rapidamente séculos de guerra no velho continente, apanhemos a história do projecto de uma união Europeia —pensado como projecto de paz e de construção democrática multi-cultural— algures depois dos países da periferia terem aderido à comunidade económica e pouco antes de se iniciar a união monetária. O que aconteceu então?

Bom, encontrando-se numa união económica muito pouco homogénea, o raciocínio óbvio da periferia, claramente suportado por Bruxelas, foi no sentido de precisamente homogeneizar os mais diversos aspectos económicos desta união, logo à partida a começar pelos salários:


Do outro lado da barricada, contudo, estava uma Alemanha absolutamente paranóica com a inflação, efectivamente contraindo os seus próprios salários. Aqui podemos comparar a verde a meta inflacionária do BCE, com os comportamentos da Alemanha, França e do "Sul":


Bom, mas estaria o "Sul" a cometer algum pecado salarial? Não me parece, pelo menos não no caso nacional. Os salários em Portugal cresceram precisamente em sintonia com o aumento da produtividade:


O mesmo não se verificou, como já mencionado, no centro Europeu (efectivamente prejudicando a componente laboral na distribuição da renda). Mais ainda, outra vez com destaque para Portugal, e ao contrário do estereótipo de beach bum, o crescimento salarial é igualmente acompanhado de muitas e muitas horas de trabalho:


Existia, contudo, um reverso da medalha. Como se conseguia, na periferia, acelerar a convergência económica com o centro? Muito em parte, o combustível económico primário residia efectivamente no crédito. Com a entrada no euro, a periferia teve acesso a taxas de juro muito mais em conta. Podemos ver o exemplo espanhol:


E aqui o exemplo português:


Ora bem sabemos a consequência deste reverso da medalha, que tanto tem sido discutido ultimamente. O crescente endividamento público, mas, acima de tudo, privado que se notou em Portugal nos últimos anos. Isso é claro tanto aqui:


Como também aqui:


Em todo o processo que nos fez aqui chegar não podemos, de forma alguma, menosprezar o papel explosivo e corrosivo da crise internacional de 2008, o papel absolutamente criminoso das agências de rating, dos "mercados" e da banca de investimento (que, como já aqui referi, tanto me fazem reflectir sobre certos episódios da revolução francesa), ou as taxas de juro insustentáveis com que agora nos deparamos nos mercados financeiros. A todos esses temas, externos, espero poder voltar. Por agora queria apenas focar-me no que nos diz directamente respeito, internamente, nos últimos anos e, como o Miguel, perguntar: E agora?