sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

tristes dias?

Tudo indica que entrámos em mais um ano perdido, não só para Portugal mas também para a Europa e talvez mesmo para a maior parte do resto do Mundo. Não são propriamente grandes novidades, eu sei.

Irónicamente, sem nada se ter aprendido, a crise financeira de 2008 quer agora conduzir-nos para uma nova crise, desta feita social, que poderá durar muitos e complicados anos. Assistimos a um forte ataque ao Modelo Social Europeu; uma das grandes conquistas civilizacionais da Europa está agora em risco de desmantelamento. Quando devíamos estar ocupados a discutir a sua constante inovação e reforma, por forma a garantir um serviço melhor e mais eficaz bem como assegurar a sua sustentabilidade e durabilidade, acabamos por assistir incrédulos a como, à mercê dos "mercados" ---deixados demasiado livres ao invés de correctamente regulamentados---, tudo é pretexto para aumentar as desigualdades retirando renda do trabalho e da economia para o sistema financeiro.

A liderança política europeia, multifacetada mas consistentemente neoliberal, como resultado das últimas eleições europeias, não parece ter interesse em mudar o rumo e, embora por vezes tenha discursos bipolares, na prática parece demasiado satisfeita em manter a trajectória para o desastre.

E não tenhamos ilusões: quando os avanços sociais e humanos começam a ser abatidos, uns se seguirão aos outros. Perdido o Modelo Social, o que se segue? Perder direitos, perder liberdades, perder mesmo a democracia com o regresso de regimes opressores, totalitaristas, implementando novas escravaturas?

Mais por perto, em Portugal, o PSD encontra-se em ascensão. Um partido a cada dia que passa cada vez mais popular-liberal, com um desejo claro de implementar em Portugal medidas muito duras e irreversíveis a nível de (des)modelo social. Exemplo disso são as suas propostas para a revisão constitucional, que lembram um programa político de regresso ao século XIX! E, consequência natural do desgaste governamental devido à grave crise internacional, mesmo assim mantendo alguma liderança nas sondagens. Um lobo que espreita. Parcialmente em consequência deste panorama, o próprio PS irá também em breve entrar em renovação, que, esperemos, seja mais na direcção da Esquerda desejada do que apenas no sentido da Esquerda possível.

Muitos destes cenários, destes caminhos para os próximos anos jogam-se no Domingo, na Eleição Presidencial. Uma eleição que, ao contrário do que muitas sondagens mal feitas podem querer fazer parecer, ainda não está completamente decidida. O estudo estatístico mais interessante sobre o resultado expectável para domingo é bastante claro ao incluir a segunda volta dentro da sua margem de erro. É assim muito importante não acreditarmos no fado e lutar por virar o disco. É assim muito importante ir votar.

É muito importante ir votar por uma resposta, por uma voz. Por uma voz interna mas também por uma voz que possa ter projecção pan-europeia, que possa ser escutada por mais pequenos que sejamos. É necessária uma voz que perceba que as reformas necessárias são no sentido de defender o Modelo Social Europeu e que essa defesa deve ser feita num contexto multinacional, e que o saiba dizer para que todos possam ouvir, sem ficar calado sem opinião ou jogando na sombra dos interesses escondidos e dos jogos políticos dúbios.

Uma voz que afirme e reafirme a Europa enquanto caminho de futuro, mas a Europa dos povos e não a Europa dos interesses. Necessitamos de um Presidente que compreenda as várias dimensões do contexto internacional em que vivemos, uma dimensão financeira internacional, uma dimensão europeia política, e também uma dimensão nacional, muito constrangida por factores externos, é certo, mas onde muito ainda há a fazer em especial no curto prazo.

É necessário, agora talvez mais do que nunca nos anos mais recentes, defender em Portugal o Estado Social, o Sistema Nacional de Saúde, a Escola Pública, os direitos sociais e laborais, a Segurança Social, a Solidariedade aos mais desfavorecidos (sabendo bem distinguir a diferença entre solidariedade e caridade), algumas das conquistas mais profundas da democracia. É necessário um Presidente que saiba tudo isto e que se afirme neste sentido, sem estar amarrado a interesses económicos ou financeiros, mas ao invés apenas amarrado ao seu compromisso com os Portugueses. É necessário um Presidente que saiba ser o Presidente de todos os Portugueses, um homem de cultura, uma referência da vida democrática, com uma visão moderna e progressista da sociedade, sem alimentar discriminações nem conservadorismos.

Por todas estas razões votei em Manuel Alegre há cerca de uma semana. Espero que no próximo Domingo muit@s mais façam o mesmo. Para que Portugal esteja cada vez mais no século XXI e cada vez menos no século XIX.