quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

memórias de um mandato medíocre

As presidenciais estão ao virar da esquina, mais concretamente ao virar da semana, e não quero deixar de participar na recta final da campanha. Antes de discutir um pouco o que nos espera dependendo do candidato vencedor, num post futuro, talvez valha a pena começar por recordar o que passámos no mandato que agora chega ao fim. Cavaco Silva foi, sem qualquer espécie de dúvida, o pior Presidente da República que existe na memória. Jornais, blogs, diversos espaços de campanha, muito se tem escrito sobre a desgraça que agora termina (e que pode ter uma sequela, dependendo do que ocorrer no próximo domingo). Convido-vos a recordar alguns highlights, naturalmente tendenciosos pelo que a memória guardou, nalguma ordem cronológica:

Recordo-me, por exemplo, do veto à Lei de Paridade, relativa à constituição de listas eleitorais partidárias para a Assembleia da República;

Dos comentários despropositados e moralistas aquando da promulgação da nova lei da IVG;

Das críticas à falta de interesse dos jovens pela política para, sensivelmente uma semana mais tarde, não convidar jovens bloquistas para uma reunião sobre o tema;

Da tomada de posições políticas ao sabor dos seus interesses pessoais: recordo a colagem a Sócrates enquanto Menezes dirigia o PSD, para seguir a colagem a Ferreira Leite quando saiu Menezes e esta ocupou o cargo;

Da referência ao 10 de Junho como "Dia da Raça" (repetindo-o mais que uma vez na mesma frase!);

De ignorar a Assembleia Madeirense, aquando de uma visita à região, para, sensivelmente uns meses mais tarde, emitir um comunicado televisivo ao País ---precedido de grande suspense--- para se queixar de poder vir a perder poderes políticos nos Açores;

De quando, para gozar de maior sossego nas suas férias, mandou intreditar o espaço aéreo por cima da sua praia de eleição;

Do veto à nova lei do divórcio, com base numa visão conservadora, machista e religiosa do casamento;

De não ter tomado qualquer atitude (em contraste com a situação nos Açores) quando o PSD Madeirense decidiu, unilateralmente, encerrar o Parlamento Regional (numa bela atitude democrática) como consequência de um deputado do PND (agora seu adversário) ter exibido uma bandeira Nazi no mesmo local;

De reduzir o combate à pobreza a acções de filantropia e de responsabilidade social ... das empresas;

De não ter enviado felicitações a Carlos César, quando este ganhou as eleições nos Açores, por andar "arreliado" na questão do novo estatuto do mesmo arquipélago;

Da recorrente falta de coragem e coerência no tratamento dos mais diversos diplomas, ora enviando-os ao Tribunal Constitucional ora não o fazendo, não ao sabor de dúvidas jurídicas mas ao sabor do oportunismo político;

De ter associado a sua imagem e apoio à parvoíce da canonização do senhor Nuno Pereira, baseada numa farsa oftalmológica com óleo de fritar peixe, esquecendo por completo o seu papel como presidente de uma República laica;

Aliás das inúmeras facadas na questão da Laicidade, por exemplo na celebração dos 50 anos de um monumento fascista, onde disse entre outras tantas «Nos tempos de crise é normal que os crentes procurem um abraço do Cristo Rei como consolo e como protecção. É a fé dos crentes e não tem como me surpreender»;

Da hipocrisia extrema em ter celebrado um 10 de Junho com uma homenagem a Salgueiro Maia, quando, 20 anos antes, enquanto primeiro-ministro, ter precisamente recusado atribuir ao mesmo uma pensão por «serviços excepcionais e relevantes» quando, na mesma altura, concedeu essa pensão a dois antigos inspectores da PIDE;

De quando falou sobre os corninhos de Manuel Pinho e de quando não falou sobre o deputado impedido de entrar na Assembleia Regional da Madeira, quando não falou sobre o deputado que mandou outro para o ca..., bom para aquela parte, quando não falou sobre o conselheiro que mentiu ao Parlamento, quando não falou sobre as mil e uma grosserias do camarada Jardim (ainda se lembram do "fuck them"?), et cetera e tal;

Da colagem ao PSD na marcação das datas para as eleições legislativas e autárquicas;

Das negociatas e do tráfico de infulências com a SLN, o BPN, as casas de férias, e a máfia dos seus ex-ministros e ex-secretários de estado;

Da patética novela das escutas, onde mostrou não ter nível sequer para político de rodapé, quanto mais para candidato presidencial;

Da figura de palhaço que fez na República Checa, onde não soube estar à altura de defender o País;

De não ter estado à altura e exigência do seu cargo aquando da morte de José Saramago, ficando nos Açores "porque tinha prometido aos netos" (WTF?!), enfim, surreal;

De ter pedido a Bento XVI para rezar por Portugal e pelos portugueses (WTF?!) esquecendo uma vez mais o seu papel;

De remeter a "verdade" para o site da Presidência, qual culto religioso, onde no fim do dia se encontram apenas comunicados que nada dizem nem nada esclarecem; aliás que por vezes nem se encontram em sintonia com a realidade;

De armar aos cucos com uma campanha "poupadinha" quando o orçamento anual que usa da Presidência para fazer campanha foi, ao longo do seu mandato, consistentemente superior ao de Jorge Sampaio, e quando, no fim do dia, acaba por gastar mais do que qualquer outro candidato;

Enfim, de ser o o único Presidente da República pós-25 de Abril para quem a ditadura nunca foi incómodo, encontrando-se até perfeitamente enquadrado no regime (a ponto de actuar como um bufo do sogro para a PIDE);

Enfim, de nunca ter conseguido ser o Presidente de "todos os Portugueses", de não ter qualquer ponta de cultura, nem sequer sobre economia ou finanças diz coisas muito inteligentes (aliás a sua insegurança nestas matérias é tão grande que anda sempre a repetir o show provinciano do "eu sei muito porque estudei muito"), de não saber falar português correctamente, uma calinada volta e meia, de ser um conservador machista e populista, de não ter coragem de emitir opinião sobre nada, enfim de ser uma nódoa, provávelmente o maior cancro que Portugal carrega às costas desde que vivemos em democracia.

Enfim, de ter que nascer pelo menos outra vez a ver se à terceira acerta e sai algo de jeito.