quarta-feira, 3 de agosto de 2016

«Afinal o Estado é o maior inovador»



É comum ouvir a repetição acrítica da ideia que o governo é um obstáculo às inovações que produzem crescimento, e que a inovação científica e tecnológica deve ser deixada ao mercado. Trata-se de um erro crasso, que tem sido repetido por nomes como Milton Friedman, Lawrence Summers, Robert Gordon entre outros.

Do ponto de vista teórico, existem boas razões para acreditar que o sector privado, por si, nunca poderia gerar a adequada provisão de investimento nas áreas de ciência e desenvolvimento: a questão dos bens públicos no que diz respeito à ciência fundamental, e a questão das externalidades positivas no que diz respeito à investigação mais aplicada, isto para não falar noutros mecanismos que podem justificar até uma política industrial activa.

No entanto, é um olhar para os dados empíricos que realmente coloca à luz a dimensão do erro referido. Mariana Mazzucato investigou o papel do estado no desenvolvimento científico-tecnológico, e escreveu um livro denominado «The Entrepreneurial State» onde expõe a sua pesquisa.
Um resumo alargado do livro encontra-se aqui (10 páginas), enquanto uma notícia do «Dinheiro Vivo» que faz um resumo mais sintético e deu o nome a este post pode ser encontrada aqui.

Não posso deixar de destacar as seguintes passagens:

«"Os grandes avanços da civilização", escreveu Milton Friedman em Capitalismo e Liberdade (1962), "na arquitetura ou na pintura, ciência ou literatura, indústria ou agricultura, nunca tiveram origem no governo". Não explicou onde é que inseria a arte patrocinada pelo Estado na Atenas de Péricles, nem os Médicis que, enquanto banqueiros dominantes e dirigentes florentinos, encomendaram e financiaram tanta da arte do Renascimento. Ou a corte espanhola, que nos deu Velázquez. Ou o Manhattan Project do governo norte-americano, que originou a produção da bomba atómica, ou os Institutos Nacionais de Saúde, cujas bolsas concedidas conduziram a muitas das mais importantes inovações farmacêuticas.

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Gordon designou os Institutos Nacionais de Saúde um útil “apoio” governamental ao muito mais importante trabalho das farmacêuticas. Mas Mazzucato demonstra que estes Institutos foram responsáveis por 75% dos maiores avanços conhecidos, entre 1993 e 2004.

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A ascensão de Silicon Valley, o centro de alta-tecnologia americano em Palo Alto, Califórnia, é supostamente o exemplo por excelência de como as ideias empreendedoras tiveram sucesso sem a direção do governo. Como Summers descreve, as novas ideias económicas “nasceram das lições da experiência de sucesso da descentralização num local como Silicon Valley”. De facto, foram os contratos militares para a investigação que deram o impulso inicial às empresas do Valley e a política de defesa nacional influenciou intensamente o seu desenvolvimento. Só 27 das 100 invenções mais importantes registadas pela R&D Magazine nos anos 2000 foram feitas por uma firma, em contraponto com as criadas só pelo governo ou por uma colaboração entre entidades financiadas pelo governo. Entre desenvolvimentos recentes dos laboratórios do governo encontra-se um programa de computador para acelerar significativamente a busca e processamento de dados, e o Babel, que traduz linguagens de programação. Apesar de todos os aplausos dedicados ao capital de risco, diz Mazzucato, as empresas privadas muitas vezes só investem depois de as inovações terem percorrido um longo caminho sob a muito mais ousada pesquisa básica e paciente investimento de capital do Estado. Cada vez menos, a pesquisa básica é feita pelas empresas. Estas concentram-se no desenvolvimento comercial de pesquisas já feitas pelo governo.

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“Os governos sempre foram desastrados a “escolher vencedores”, e é provável que se tornem ainda mais, à medida que legiões de empreendedores e curiosos trocam desenhos online”, escreveu a The Economist em 2012. Porém, incluindo o Solyndra, só 2% dos projetos parcialmente financiados pelo governo federal faliram. O exemplo mais pertinente da importância do Estado é o quanto Steve Jobs estava dependente dele. Depois do declício dos laptops, nos anos 1990, o iPod (2001), que destronou o Sony Walkman, e os sistemas touch-screen do iPhone e iPad (2007) transformaram a empresa na força motriz eletrónica dos nossos tempos. A vendas quase quintuplicaram e o valor em bolsa subiu de cerca de 100 dólares para mais de 700 por ação. “Embora os produtos devam o design e integração hábil ao génio de Jobs”, escreve Mazzucato, “praticamente toda a tecnologia avançada do iPod, iPhone e iPad é uma realização dos esforços de investigação e apoio financeiro do governo”. Uma importante descoberta realizada com fundos do governo, conhecida como magnetorresistência gigante, que deu aos seus dois inventores europeus um Prémio Nobel da Física, é um bom exemplo desse apoio. O processo aumenta a capacidade de armazenamento dos computadores e aparelhos eletrónicos. Foi o que tornou o iPod possível. Outros desenvolvimentos importantes da Apple tiveram também as suas “raízes” na investigação federal, entre eles o sistema de posicionamento global do iPhone e o Siri, o assistente pessoal ativado pela voz.

[...]

O financiamento federal contribuiu com mais de 50% para toda a I&D americana entre os anos 1950 e 1978 e excedeu o total gasto por todos os outros países da OCDE. A justificação convencional é que as empresas não fazem investimentos suficientes porque nenhuma sozinha poderia beneficiar o suficiente do potencial retorno financeiro. Mazzucato argumenta que a investigação governamental foi visionária. Não só reduz os riscos no mercado, como abre a tecnologia a ideias inteiramente novas. Cita a forma como o governo dirigiu o desenvolvimento de novas tecnologias fundamentais em esferas como a tecnologia da informação, biotecnologia e nanotecnologia. Argumenta ainda que o financiamento estatal, mesmo em etapas mais avançadas, pode ser benéfico – na Dinamarca, China e Alemanha resultaram em empresas bem-sucedidas. O capital de risco, diz Mazzucato, “toca e foge” demasiado depressa para inspirar confiança e incentiva êxitos de curta duração.»

domingo, 31 de julho de 2016

Ronald Reagan, o pior Presidente dos EUA

Este texto está escrito num tom leve, mas toca em questões fundamentais, e explica de forma simples porque é que Ronald Reagan foi tão pernicioso para os EUA e para o mundo.

Eis a lista de 6 razões apresentadas:


Agora que a possibilidade de ser ultrapassado por um potencial Presidente Trump não é de todo implausível, é boa altura para dar uma vista de olhos neste balanço.


Post também publicado no Ágora - Convergência à esquerda

terça-feira, 26 de julho de 2016

Porque é que os ricos são menos filantropos

Um excerto deste texto denominado «Why the Rich Don't Give to Charity»:

«One of the most surprising, and perhaps confounding, facts of charity in America is that the people who can least afford to give are the ones who donate the greatest percentage of their income. In 2011, the wealthiest Americans—those with earnings in the top 20 percent—contributed on average 1.3 percent of their income to charity. By comparison, Americans at the base of the income pyramid—those in the bottom 20 percent—donated 3.2 percent of their income. The relative generosity of lower-income Americans is accentuated by the fact that, unlike middle-class and wealthy donors, most of them cannot take advantage of the charitable tax deduction, because they do not itemize deductions on their income-tax returns.

But why? Lower-income Americans are presumably no more intrinsically generous (or “prosocial,” as the sociologists say) than anyone else. However, some experts have speculated that the wealthy may be less generous—that the personal drive to accumulate wealth may be inconsistent with the idea of communal support. Last year, Paul Piff, a psychologist at UC Berkeley, published research that correlated wealth with an increase in unethical behavior: “While having money doesn’t necessarily make anybody anything,” Piff later told New York magazine, “the rich are way more likely to prioritize their own self-interests above the interests of other people.” They are, he continued, “more likely to exhibit characteristics that we would stereotypically associate with, say, assholes.”»

domingo, 3 de julho de 2016

Viva a Alemanha!

É exagerada a atenção que se dá em Portugal a declarações avulsas do senhor Schäuble. Caso se tenham esquecido, é apenas o ministro das finanças alemão. Não é o presidente da Comissão Europeia, nem comissário, nem sequer deputado europeu. É um ministro de um governo da UE. Não se lhe deve atribuir mais importância do que efectivamente tem, nem ignorar que fala para o seu partido, a direita democrata-cristã.

Se queremos centrar o debate nacional português em ministros alemães, há pelo menos outro com quem podemos aprender mais: Sigmar Gabriel, o líder dos sociais-democratas e vice-chanceler (hierarquicamente acima de Schäuble, portanto).
 
Há poucas horas, Sigmar Gabriel respondeu aos problemas que o «Brexit» coloca de forma radical, construtiva e internacionalista: defendeu que fosse concedida a nacionalidade alemã aos britânicos que vivem na Alemanha («vamos oferecer aos jovens britânicos residentes na Alemanha, na Itália ou na França que possam permanecer cidadãos da União Europeia»). A proposta tem a virtude de responder ao problema prático (e moral) dos britânicos deixados de fora do espaço europeu que sentiam como seu; e tem a vantagem política de fazer uma pega de caras à xenofobia (para mais, num país em que a dupla nacionalidade causa tantos engulhos).

A esquerda portuguesa tem que olhar mais para Sigmar Gabriel e menos para Wolfgang Schäuble.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

"Brexit" (2)

É evidente que este resultado do "brexit" deixou contente a extrema direita. É evidente que quem apoia esta decisão, mesmo não sendo de extrema direita, os tem como companhia. Estou farto de ler este "argumento". (Curiosamente muitos dos que o usam defendiam o "não" no referendo francês da Constituição Europeia em 2004. Nessa altura não tinham a companhia da extrema direita?) Quem o utiliza tem uma concepção bastante simplista, a preto e branco, da política. Ora esta questão está longe de ser simples. Claro que não gosto nada de muitos (se calhar a maioria) dos eleitores do "brexit". E daí?

"Brexit" (1)

No "Prós e Contras" sobre o "brexit" o Rui Tavares refere, e muito bem, como são diferentes os motivos dos defensores da saída da União Europeia no Reino Unido e em Portugal. No Reino Unido diz-se que a União Europeia é um modelo "socialista" contra os "mercados", enquanto em Portugal se diz exatamente o contrário. É possível que ambos tenham razão, de acordo com as expectativas de cada um. O que não é possível, nesse caso, é conciliar essas expectativas.
No mesmo programa o comissário Carlos Moedas encheu a boca com um discurso muito bonito, de como partilhando a soberania temos mais e não menos soberania. Que exemplos deu ele desta ideia tão bonita? Os empresários, pois claro, que podem abrir uma empresa onde quiserem. Todo o seu discurso, bem como o do outro economista convidado, era só sobre empresas e mercados. O que dizem só se aplica ao capital. A Europa deles é a Europa do capital.
De uma perspetiva europeísta, de uma Europa social, democrática e dos povos, a entrada do Reino Unido na União Europeia foi um erro histórico. O "brexit" deveria ter ocorrido com a chegada ao poder de Margaret Thatcher, em 1979. Não ocorreu, e desde então o Reino Unido foi quem mais influenciou a União Europeia no sentido dos mercados. Da parte da União Europeia, foram só cedências. Da parte da esquerda, foram só capitulações.
Já saem tarde.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A pulsão de morte

Uma grande parte da esquerda portuguesa à esquerda do PS deseja a «Brexit». Simplificando, o argumento é que a União Europeia não merece ser defendida, e que da saída do Reino Unido só poderá resultar algo de bom.
Pois convém notar que o voto pela saída do Reino Unido será um voto por uma «saída pela direita»: motivada pela rejeição dos imigrantes e dos refugiados, contra a solidariedade económica com a Europa do Sul, contra a existência de instâncias judiciais a nível europeu. Na sexta-feira, e a vencer a saída, a cultura política num dos países chave da cultura política europeia ficará mais à direita do que esteve com Thatcher - e o governo será entregue a Johnson e Farage. Pior, não me parece que as instituições da União Europeia, a aceitarem sem pestanejar a saída de um dos maiores países europeus (o que não é certo), tirem a conclusão de que a União Europeia foi monetarista demais ou insuficientemente solidária. É mais provável que tirem a conclusão contrária, e em particular que a liberdade de circulação deve ser restringida. Haverá menos espaço para uma política progressista e cosmopolita na Europa, dentro ou fora da UE.

Convém considerar também as consequências para Portugal de uma saída do Reino Unido da União Europeia: vivem nos territórios britânicos uns 150 mil emigrantes portugueses. Não serão com certeza todos forçados a voltar imediatamente, mas se existir um efeito dominó com a saída de outros países europeus de Schengen e/ou uma radicalização à direita na França ou noutros países, poderemos estar a olhar para uma nova vaga de retornados.

Nos anos 30, a esquerda marxista não quis, em muitos casos, defender a democracia realmente existente (dita «burguesa»). Arrependeram-se. E afinal a história pode repetir-se: a alternativa à União Europeia pode bem ser a barbárie. Cuidado com o que se deseja.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O FMI e o "Neoliberalismo"

O FMI tem sido uma das mais influentes instituições internacionais a destacar-se pela promoção de políticas de desregulação, abertura de mercados de produtos e capitais, privatização dos bens públicos e redução do estado social. No entanto, o seu departamento de investigação tem publicado recentemente alguns resultados que contrastam com esta perspectiva. Os indícios de que estas políticas têm agravado as desigualdades, e por essa via prejudicado o crescimento económico vão-se acumulando, e é positivo que deixem de ser completamente ignorados por esta instituição.

No mais recente número da sua revista trimestral, o FMI publicou este artigo denominado «Neoliberalism: Oversold?», cujo cabeçalho reproduzo: «Instead of delivering growth, some neoliberal policies have increased inequality, in turn jeopardizing durable expansion».

O artigo não deixa de fazer várias ressalvas, mas mostra que os dados empíricos têm provocado mudanças no pensamento económico de alguns actores importantes. Já não era sem tempo.

Post também publicado no Ágora - Convergência à esquerda