terça-feira, 6 de novembro de 2012

A grande desilusão


Não escrevo por mim, escrevo pelos meus colegas e amigos (cientistas, divulgadores, estudantes, etc.) que tinham grandes expectativas neste Ministro da Educação e Ciência. A sua aura de bom divulgador sempre gerou alguma empatia no meio científico. Fui testemunha direta dessa empatia quando lhe atribuímos o título de sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Astronomia. No entanto, os indícios da desilusão estavam lá desde o início, quando aceitou participar num ministério de fusão da educação com a ciência, em que a justificação da fusão era de um economicismo puramente populista, e quando aceitou participar num governo cujo primeiro-ministro apresenta um curriculum estranho, muito mais dedicado à Jota do que aos estudos, um primeiro-ministro sem qualquer noção da importância da ciência no desenvolvimento das sociedades modernas. A que se agrava o facto de estarmos a falar do autor de "O Eduquês em Discurso Directo", livro onde são desenvolvidas ideias altamente moralistas do ensino. 
Cedo se percebeu que a componente dedicada à ciência iria ficar mais a cargo da FCT, do que de um ministério saturado com o trabalho relativo ao ensino secundário. Depois começaram os primeiros problemas de financiamento de bolseiros e universidades. A seguir veio o caso Relvas, tratado com muita condescendência e profunda lentidão. Supunham os meus colegas e amigos que o mesmo autor de "O Eduquês em Discurso Directo" atuasse com firmeza ou, pelo menos, coerentemente fizesse um ultimato ao primeiro-ministro: ou ele ou Relvas. Mas não, as conclusões da inspeção à Lusófona deixam margem para tudo, até para Relvas e outros cábulas poderem repetir as cadeiras que fizeram de uma forma ilegal. Pior, até agora Relvas não teve qualquer tipo de sanção.
Nas últimas semanas, as melhores universidades do país, todas públicas, estão a entrar em colapso adotando medidas terceiro-mundistas para não fechar portas, medidas essas que comprometem seriamente a investigação aí realizada, e que é a melhor investigação que se pratica no país.
A desilusão dos meus colegas e amigos é agora profunda, agora que se tornou evidente que a ciência está a ser progressivamente eliminada por um bando de cábulas e chicos espertos bem nas barbas do ministro e autor de "O Eduquês em Discurso Directo".

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A «crise» da natalidade tem meio século

Os políticos, muitas vezes, crêem-se omnipotentes (ou tentam-nos convencer de que o são). Estou tão habituado que ao ouvir falar dos «alertas» (sic) do Presidente sobre o «inverno da natalidade», ou de medidas avulsas (mas talvez valorosas) dos autarcas, só sorrio. Porque a queda da natalidade é uma tendência com já meio século de duração: o último alto pico de nados vivos em Portugal foi em 1962 (220 mil); desde aí, tem sido o que se vê do lado direito do gráfico (em 2011, baixámos até aos 97 mil). Note-se bem: há 50 anos havia guerra colonial, ditadura e o palerma de Santa Comba Dão. Depois, houve uma revolução, acabou a guerra, morreu o Cerejeira, instaurou-se a democracia, vieram os «retornados», entrou-se na CEE, passámos de país de emigrantes a país de imigrantes e, finalmente, chegámos à crise do euro. Não deve ter havido primeiro ministro (na ditadura, na revolução ou na democracia) que não tenha prometido «apoiar a natalidade». Foram dezanove e, sinceros ou não, com boas ou más ideias, pouco puderam fazer para inverter a tendência de algo que resulta de um somatório de dezenas de milhar de decisões individuais nada fáceis e muito íntimas.

Todavia, a natalidade não é completamente indiferente à política: do lado esquerdo do gráfico vêem-se bem os dois anos da pneumónica e os anos em que a segunda guerra mundial realmente afectou Portugal (porém, acontecimentos bem para lá do controlo dos políticos nacionais). E, por outro lado, o pico do ano 2000 (que tem o seu lado cómico) não seria possível sem a (relativa) prosperidade da viragem do século. Se realmente os nascimentos este ano caírem para os 90 mil ou para os 80 mil (!), será um sinal (mais um) da crise económica. Mas também «apenas» o agravamento de uma tendência que é de muito longo prazo.

Já ganhou!

CR7 apoia Barack Obama.

sábado, 3 de novembro de 2012

Mesmo a sério e sem wishful thinking: isto pode realmente ser o princípio do fim do jardinismo

Jardim reeleito no PSD-Madeira... com 51% dos votos (e o apoio da máquina de propaganda do governo regional). Talvez Jardim nunca venha a ser derrotado, mas demonstrou-se que o jardinismo é derrotável.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ruptura

Há momentos em que é necessário oferecer o peito às balas. Um parlamento democrático que antecipa uma votação para evitar que coincida no tempo com uma manifestação é pior do que cobarde: é um parlamento que assume que teme o povo que se manifesta nas ruas, que abdica de diminuir a lendária «distância entre eleitores e eleitos» e que insulta o significado da própria democracia representativa. Há momentos em que é necessário aceitar mais do que a crítica ritualizada das formalidades parlamentares, e aguentar que a rua lá fora grite o contrário do que se está votar. E hoje não houve coragem para tanto.

O espectáculo de deputados em fuga da assembleia da República após uma votação apressada é um mau prenúncio para a democracia. Houve uma ruptura. Desceu-se um degrau. Espero que tenha sido apenas a actual maioria que o tenha descido, e não o próprio regime.

ICAR pede perdão a Galileo

A Igreja Católica pediu perdão pelo modo como tratou Galileo em 1633 (condenando a prisão até à sua morte 9 anos depois), faz hoje...
a) 300 anos.
b) 200 anos.
c) 100 anos.
d) 20 anos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A sensibilidade social de um grande banqueiro

  • «Fernando Ulrich (...) perguntou retoricamente se o país aguenta mais austeridade e a resposta foi “Ai aguenta, aguenta!” (...) os gregos estão vivos, protestam com um bocadinho de mais veemência do que nós, partem umas montras, mas eles estão lá, estão vivos.» (Público)
Até morrermos todos não há problema.