quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sacrifícios Humanos

De volta ao Texas, onde os aborígenes elegeram Bush (1995-2000) e Perry (2000-hoje) para os governarem.  Cheguei ontem à noite e esta manhã li no jornal que o Rick Perry vai executar um preso que tem um QI = 61. 

Estive fora durante quase oito semanas e hoje custou-me imenso ver esta cidade outra vez, feia, cheia de mulheres gordíssimas, com as canecas de meio litro de Coca-Cola numa mão e o telefone na outra, a 30 Km/h na via do meio, em carros enormes com autocolantes com bandeiras da Confederação e o peixe dos criacionistas.

E depois, ver estes selvagens com estas tatuagens todas, todos contentes com os sacrifícios humanos (e com os discursos do Mitt Romney).  Ontem vinha ao meu lado no avião um homem a ler um livro do Glenn Beck (uma espécie de Dr. Arroja, tão maluco como ele, mas mais triste e mais patético) com imensos pontos de exclamação, desenhos e esquemas das conspirações dos "secular humanists" esses inimigos do povo americano... 

A América é um dos países com mais malucos e mais angustiados do mundo.  Porque será?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Falta um ano para as principais eleições europeias

Em Setembro ou Outubro de 2013 terão lugar as eleições mais importantes para o futuro da União Europeia (e provavelmente para o futuro de Portugal também). Embora nenhum dos autores deste blogue tenha direito de voto (assim como a esmagadora maioria dos leitores, suspeito eu), convém prestar atenção aos protagonistas e às propostas. Como esta.

domingo, 5 de agosto de 2012

Para onde apontam as evidências

Creio que vale a pena prestar atenção à seguinte notícia do Público com o título «Ex-céptico das alterações climáticas diz agora que estava errado»:

«Muller é professor de Física na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e coordena o projecto Berkeley Earth, que utiliza novas metodologias para investigar as conclusões de outros cientistas do clima. O projecto é financiado por organizações como a Fundação Charles Koch que, com o seu fundador, do sector das petroquímicas Charles G. Koch, tem já um historial de apoio a grupos que negam as alterações climáticas.
“Há três anos identifiquei problemas em estudos climáticos que, na minha opinião, permitiam duvidar da própria existência do aquecimento global”, escreveu Muller no New York Times, a 28 de Julho. Contudo, “no ano passado, depois de uma investigação intensa que envolveu uma dezena de cientistas, concluí que o aquecimento global é real e que as estimativas anteriores do ritmo do aumento das temperaturas estavam correctas. Vou ainda mais longe: os humanos são quase totalmente responsáveis.”
O físico explica que mudou de opinião tão subitamente depois do estudo realizado pela sua equipa sobre as temperaturas à superfície do planeta. Os resultados mostram que a temperatura média da terra aumentou 1,5ºC nos últimos 250 anos, dos quais 0,9ºC nos últimos 50 anos. “Além disso, parece provável que quase todo este aumento tenha resultado das emissões humanas de gases com efeito de estufa”, acrescentou.
[...]
“Tentámos fazer corresponder os picos de aumento de temperatura a fenómenos como a actividade solar ou até mesmo à população mundial. Mas, de longe, aquilo que melhor explica as oscilações de temperatura são os registos do dióxido de carbono na atmosfera.”»

 A relevância desta notícia é que ela permite rejeitar a perspectiva pós-modernista de que o consenso entre os especialistas na  área se deve a questões não científicas (o alarmismo proporcionaria maior financiamento, o que incentivaria os cientistas a defender a teoria do efeito de estufa) - eis um projecto onde os seus participantes teriam todas as motivações pessoais para obter um resultado oposto (muito em particular no que diz respeito ao financiamento), e ainda assim chegaram à conclusão de os gases de efeito de estufa têm sido os causadores do aquecimento global.

O alargadíssimo consenso nesta área deve-se sim ao peso das evidências.

sábado, 4 de agosto de 2012

Fundações

É louvável que o Governo tenha procurado realizar um relatório sobre as várias fundações que existem e recebem dinheiro do estado, pois certamente haverá poupanças sensatas a realizar uma vez que essa realidade seja melhor conhecida. Fala-se em poupanças de 150 milhões de euros, e mesmo que algumas destas resultem numa diminuição de serviços úteis que algumas fundações possam prestar, certamente estamos a falar de uma diminuição de despesa significativa.
Mas para que estes louvores sejam realmente merecidos, seria necessário que o relatório em causa tivesse um mínimo de rigor, um mínimo de qualidade. Várias notícias que têm vindo a lume parecem indicar que não é esse o caso.

Atentemos na carta aberta que o reitor da Universidade de Lisboa dirigiu ao Governo, de acordo com o relato que é feito no Expresso
«A pontuação foi "apurada com base em critérios, ponderações e dados duvidosos ou incorrectos", considera o reitor da Universidade de Lisboa, a propósito do relatório de avaliação onde a Fundação Universidade de Lisboa (FUL) mereceu pontuação negativa: 7,8 em 100 pontos possíveis.
Em carta aberta dirigida ao primeiro-ministro, o reitor António Sampaio da Nóvoa começa por afirmar que "foi com enorme surpresa" que a FUL "tomou conhecimento" do relatório, "através da comunicação social", para em seguida enumerar alguns dos dados que denuncia como errados e para contestar vários dos parâmetros avaliados.
António Sampaio da Nóvoa nega que o valor de 12.617.733 euros corresponda ao total de apoios financeiros recebidos: "A FUL recebeu efectivamente zero euros", escreve. A verba referida, diz, resulta na verdade "de candidaturas a projectos de investigação nacionais e internacionais".»

Outros erros envolveram a Culturgest, de acordo com esta notícia da TSF:
«A Culturgest, uma fundação da Caixa Geral de Depósitos conhecida pelas dezenas de exposições que promove todos os anos, terá tido zero utentes, beneficiários ou destinatários entre 2008 e 2010.
Uma rápida consulta dos relatórios e contas, disponíveis na internet, permite ver que nesses anos a Culturgest teve perto de 230 mil pessoas a assistir ou participar nos eventos culturais organizados pela fundação.»

A mesma notícia fala também sobre a Fundação Calouste Gulbenkian:
«Fonte oficial da instituição confirmou à TSF que a informação publicada está errada. A Gulbenkian, fundada por um empresário da Arménia, é uma fundação totalmente privada. O erro surgia na ficha de avaliação da Gulbenkian que, entretanto, já desapareceu do site do governo.
A TSF sabe que a Gulbenkian alertou o Executivo para este erro. Esta era uma das 99 fundações identificadas como pública de direito privado.
Fonte relacionada com o caso explicou que a fundação contestou, também, o valor apresentado no relatório como apoios financeiros públicos recebidos pela instituição.
[...]
Na avaliação do governo, a Gulbenkian, uma das mais conhecidas fundações do país, recebe uma pontuação positiva, mas muito próxima da linha de água: 53,5 pontos num total de 100 possíveis.»

Isto torna-se mais grave quando tomamos conhecimento, através da Radio Renascença, do seguinte:
«Na Madeira, a Fundação Madeira Classic, sendo pública de direito privado, revela que foi criada pelo Governo regional e pela orquestra da região. Não aponta qualquer beneficiário, mas nem por isso deixou de receber mais de dois milhões de euros do Estado.
Já a Fundação Social-Democrata da Madeira não apresenta fundadores, mas o nome diz tudo: tem património de 12 milhões e o benefício do Estado é isenção de impostos sobre o património, no valor de quatro milhões de euros.
No site da fundação, a última actividade registada é de 2010, quando se anuncia a compra da casa onde Alberto João Jardim viveu até aos 30 anos, com o argumento de que o presidente do Governo Regional se iria retirar em 2011. Mas a Fundação Social-Democrata da Madeira, criada há 20 anos, tem como finalidade dar apoio aos desfavorecidos, crianças e mães solteiras.»

Acontece que esta Fundação Social-democrata da Madeira está melhor cotada no dito relatório que do que a Fundação Calouste Gulbenkian (ou qualquer outra mencionada neste texto).

Em resposta a estes absurdos, o Governo já veio negar responsabilidades nos erros do relatório. Este tipo de desresponsabilizações sem qualquer razão de ser mostra que estamos perante um Governo irresponsável.
Tenho pena, porque me parece que uma avaliação profunda da situação relativa às Fundações era realmente uma ideia sensata, e é mau para o país ver esta oportunidade perdida devido a um relatório ridículo, que vai contaminar todas as medidas com forem tomadas tendo-o como base.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Despedir evidências

«Despedir evidências» é o título do texto de Fernanda Câncio no DN que, pela sua qualidade e pertinência, não posso deixar de citar (e destacar) parcialmente, recomendando a leitura integral:

«Na quarta-feira, coincidindo com a entrada em vigor da nova lei laboral, o secretário de Estado do Emprego, Pedro Silva Martins, publicou um artigo no Público em que explica de que modo a desproteção dos trabalhadores através da redução brutal das indemnizações nos despedimentos (sem justa causa, frise-se) vai "melhor defender a segurança no emprego".

[...]

Nada de novo nisto, dir-se-á: estamos cada vez mais habituados a ver os membros deste Governo ignorar olimpicamente a realidade. Sucede que não é todos os dias que se vê alguém afirmar como governante aquilo que enquanto académico negara. É que Silva Martins, que se doutorou em Economia pela Universidade de Warwick, Reino Unido, publicou em 2009, no Journal of Labour Economics, um artigo intitulado "Despedimentos com causa: a diferença que apenas oito parágrafos podem fazer" [...]

Verificou, assim, uma descida significativa dos salários nas empresas mais pequenas, que atribui à perda de poder negocial dos trabalhadores, e um incentivo na eficiência que no entanto concede poder dever-se a melhorias na gestão. Mas no que respeita à criação de emprego e à fluidez de trabalhadores, foi forçado a concluir o contrário do que esperava - ou, como escreve, "do que a teoria predizia": "Não foi encontrada evidência robusta de que a maior facilidade em despedir tivesse efeitos significativos na criação de emprego ou no fluxo de trabalhadores."

A diferença que três anos podem fazer: o Pedro secretário de Estado despediu o Pedro académico. Ou isso ou é viciado em experiências.»

Cunha, nepotismo, clientelismo

Há alguns dias atrás as suspeitas relativas a todo o processo de privatização da EDP foram reacendidas (através desta notícia do Público) por aquilo que aparentava ser um perfeito do  exemplo de nepotismo: «A Fundação EDP contratou uma funcionária para a secção de arte que é sobrinha-neta de Eduardo Catroga, presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP. A nomeação está a causar desconforto entre sectores do grupo EDP que não poupam Catroga nem o administrador executivo da fundação que tem sido também o seu rosto público, Sérgio Figueiredo.»
Enfim, o caso não parece ser da maior importância, e há exemplos mais descarados de nepotismo. Mas é mais um exemplo, e recorda a falta de transparência no mencionado processo de privatização, esse sim um escândalo de enormes proporções.

Também no que diz respeito a nomeações, vale a pena tomar atenção a esta reportagem da RTP1: «A Ordem e os sindicatos dos Médicos acusam o Governo de nomear elementos dos partidos da maioria PSD/CDS para a direção dos agrupamentos de centros de saúde do Norte. Os organismos dizem que os onze nomeados não têm experiência na área da saúde como a lei obriga. Já a Administração Regional de Saúde diz que cumprem outros critérios e lembra que serem do PSD e do CDS não é argumento de exclusão.»
Se virem o vídeo da reportagem, encontrarão as declarações de Castanheira Nunes a desmentir a Ordem dos Médicos e o Sindicato, alegando que têm experiência sim, desde a «integração na comunidade» à «capacidade de diálogo». Não admite uma preferência pelos militantes dos partidos da coligação (alegando confiança política, ou algo do tipo), preferindo ao invés fazer-nos acreditar que foi coincidência que todos os escolhidos fossem militantes destes partidos.

E que coincidência essa! Sejamos muito generosos e imaginemos que uma em cada quatro pessoas com igual grau de competências e vontade de desempenhar tais cargos tem cartão de militante destes partidos. Neste caso, a probabilidade de que a escolha tenha recaído completamente sobre tais militantes nos 11 lugares disponíveis, sem favorecimentos, é inferior a 0.000024%.
Castanheira Nunes mente com todos os dentes que tem.

É evidente que esta notícia justifica uma actualização da «Compilação do despesismo e corrupção».

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Universidades recusam fazer orçamentos

Tem havido várias vítimas do ataque cerrado que o Governo está a fazer à Ciência e Ensino Superior, desde os bolseiros aos Centros de Investigação, passando - claro! - pelas Universidades.

Vale a pena tomar atenção à notícia do Expresso que dá o título a este texto:

 «As universidades públicas recusam fazer, para já, os respetivos orçamentos para 2013, alegando não terem condições de funcionamento devido ao "corte médio superior a 2,7%", proposto pelo Governo para o próximo ano.

Além da ameaça de não elaborar os orçamentos, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, reunido hoje, decidiu ainda pedir uma reunião de urgência com o primeiro-ministro.
"Os cortes orçamentais de que as universidades públicas foram alvo nos últimos anos conduziram a uma situação de extrema dificuldade", refere o comunicado do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, adiantando que o corte de 2,7%, correspondente a cerca de 16 milhões de euros, e as dotações orçamentais foram decididos de forma unilateral pelo Governo, ao contrário do que tem sido a prática nos últimos anos.

Os reitores dizem, no entanto, estar disponíveis para trabalhar com o Ministério da Educação na procura de soluções que "permitam viabilizar o funcionamento das universidades durante o ano de 2013 e evitar ruturas no sistema de ensino superior".»

Renegociação: ter razão antes do tempo

Os partidos à esquerda do PS defenderam, na última campanha eleitoral, que Portugal deveria renegociar a sua dívida, e fizeram desta posição uma verdadeira bandeira de campanha.

Na verdade, a posição era surpreendentemente pouco radical: no BE essa foi uma das razões que justificou a saída do Ruptura/FER, e a muitas pessoas mais à esquerda essa pareceu uma posição de «capitulação perante o capitalismo». Era efectivamente a posição mais moderada, pois engloba praticamente todas as posições concebíveis excepto os dois extremos: o «não pagamos» e o pagamento integral. Note-se bem: esta ultima posição (rejeição liminar de toda e qualquer renegociação, pagamento integral) foi encarada como sendo uma posição moderada, por ter sido defendida pelos dois maiores partidos (e pelo CDS), mas era efectivamente uma posição extremista (note-se nada impede uma dada posição de ser extremista e correcta, mas não creio que fosse o caso).

Todos sabemos que os partidos à esquerda do PS (principalmente o BE) também sairam derrotados das últimas legislativas, quando teriam muito a ganhar com a derrocada de Sócrates. Em parte isto deveu-se à percepção, por parte do eleitorado português, de que se tratavam de «maus pagadores», perigosos extremistas que não deveriam receber responsabilidades acrescidas numa altura delicada.
Uma coisa é dar voz ao Louçã em tempo de vacas gordas para ele defender as suas causas de eleição. Outra é dar poder a um comunista que está a dar palpites sobre o pagamento da dívida, e quer aventurar-se no perigoso mundo da renegociação. Não importa que a "renegociação" não seja uma solução extremista: como estes partidos já têm fama de radicais, mesmo quando defendem ideias moderadas elas são vistas como extremistas, e o eleitorado não queria aventuras perigosas na forma de responder ao problema da crise.
Ou pelo menos aventuras tão pouco inspiradoras como as que podem ser associados a uma ideia que efectivamente é moderada. É mais fácil fazer slogans simplistas e palavras de ordem com ideias extremas (como a defesa do pagamento integral ou o não pagamento integral), e a ironia é que os partidos vistos como radicais estavam a ter as dificuldades associadas a defender uma ideia mais subtil e complexa. Uma ideia que era vista como extremista: o pior dos dois mundos.

Mas eventualmente as pessoas irão compreender que estes partidos tiveram razão antes do tempo. É nesta altura muito provável que venha a existir uma renegociação da dívida portuguesa, e então será claro que os interesses nacionais foram prejudicados pelo facto dela não ter acontecido antes.

Lembrei-me disto a propósito desta notícia recente do Expresso: «Uma equipa do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou um balanço sobre 24 casos de reestruturação de dívidas soberanas em países emergentes entre o final dos anos 1990 e 2010. Uma das conclusões é que os indicadores económicos melhoraram.»