sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os bons e os maus...

Isto já é antigo, mas vale a pena ver, sobretudo no contexto da discussão gerada pelo meu último posting. Eu tenho um fascínio enorme por seitas e por movimentos terroristas, que são organizações de crápulas que se reclamam mais puros e mais justos do que nós. Como os banqueiros que lhes lavam o dinheiro. Quando eu falo em gangsters, quero dizer: gangsters.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Europa Soberanista no seu pior

Esta União Europeia representa o modelo soberanista no seu pior. O Conselho, composto pelos chefes de estado de cada país, tem um poder excessivo onde pesam demasiado os egoísmos nacionais e os protagonismos individuais (Sarkozy e Berlusconi, por exemplo). São os mesmos chefes de estado que escolhem o Presidente da Comissão Europeia e o Presidente do Conselho. De preferência escolhem quem não lhes faça sombra, figurinhas de segunda ou terceira linha como Van Rompuy ou Barroso. Por exemplo, é hoje conhecido que Blair (ou seja indirectamente Bush) boicotou a escolha de Jean-Claude Juncker para presidente da Comissão para escolher o prestável Barroso aquando da invasão do Iraque.

Este modelo da UE tanto é o modelo de Sarkozy, como o de Merkel ou o modelo de Papandreou. Este último promovido anteontem a grande democrata, nunca batalhou pelo reforço dos poderes do Parlamento Europeu ou pela democratização da Comissão ou do Conselho. A nível interno Papandreou nunca propôs referendar a entrada da Grécia no euro quando esta não cumpria as condições mínimas em 2001, ou referendar a organização de uns jogos olímpicos que a Grécia não podia pagar, ou referendar um orçamento da defesa que rondava os 5% do PIB ou referendar o poder excessivo e ilegítimo de uma oligarquia financeira na economia do seu país. Se tocasse neste último ponto, aí sim estaria genuinamente a defender o futuro da Grécia e aí sim a Grécia poderia tornar-se mais democrática. O referendo que propõe é puramente tacticista, é um referendo para salvar a face, onde os Gregos vão decidir entre dose e meia-dose de austeridade.

Há muito que Delors e depois Prodi defenderam a inevitabilidade de uma maior integração europeia, opiniões transversais ao espectro do Parlamento Europeu, que vão de Juncker a Cohn-Bendit, têm combatido a via soberanista. Não é por falta de opções que a UE não progride. A eleição directa pelos europeus dos Presidentes da Comissão ou do Conselho e o reforço dos poderes do Parlamento Europeu facilitaria a escolha de candidatos de primeira linha, que verdadeiramente se interessam pelo projecto europeu e poderia evitar uma Europa à deriva, ao sabor dos caprichos de Sarkozy, Papandreou ou Merkel.

História concisa da crise

Parece-me que esta crise do sistema capitalista se explica de forma relativamente simples. A partir do início dos anos setenta, um aumento crítico nos preços da energia criou uma oportunidade política que a direita aproveitou para destruir a revolução social do século XX e anular as conquistas dos trabalhadores, que tinham criado as classes médias europeia e americana. Como o capitalismo dos anos setenta dependia da existência de uma classe média, a direita resolveu o problema dando crédito aos trabalhadores cujos direitos iam sendo progressivamente destruídos. A direita foi adiando a crise à medida que a classe média empobrecia, desregulamentando o crédito e autorizando a classe de gangsters que tomou conta da banca a inventar produtos económicos que empurravam o problema da insolvência para o futuro.

Agora estamos no futuro.

Mudam-se os governos, calam-se as repugnâncias

Nos tempos do defunto Sócrates, a direita blogosférica rasgava as vestes, furibunda, cada vez que se assinava um contrato qualquer com a Venezuela. Segue em baixo uma breve antologia do ódio da direita às relações de Sócrates com Chávez.
  1. «Ontem, a caminho de casa, ouvi na TSF José Sócrates, apelando a Hugo Chávez que considerasse Portugal como sendo a sua casa. Por momentos tremi. Receei que hoje, ao acordar, a TVI e a SIC tivessem sido fechadas, que os colégios não alinhados no politicamente correcto fossem igualmente encerrados, que todos os peixinhos que povoam as nossas águas bem como o sol no Algarve fossem declarados como sendo de todos portugueses» (Insurgente, 21/11/2007; note-se como uma trivial amabilidade diplomática convocava o fantasma da «sovietização» de Portugal).
  2. «Temos o nosso primeiro-ministro e mais alguns membros do governo transformados em figurantes dos shows de Hugo Chávez, não discutimos sequer o preço político que pagamos não só pelo petróleo venezuelano mas também para que a comunidade portuguesa naquele país não sofra represálias governamentais (...)» (Helena Matos, 14/5/2008; acharia esta inolvidável colunista que os imigrantes portugueses estavam prestes a ser chacinados?).
  3. «As declarações de Sócrates e de Chávez lembram os acordos internacionais entre países comunistas. (...) Os capitalistas andam a dormir. Os socialistas é que têm jeito para o negócio» (João Miranda, 15/5/2008; Sócrates transformado em comunista por associação a Chávez, que também não o é, em rigor).
  4. «Foi um grande dia para o Chavismo, em Portugal e também na Venezuela. Em Portugal, Sócrates ganhou as eleições internas do PS. Na Venezuela, Chávez ganhou o referendo» (João Miranda, 16/2/2009; idem).
  5. «José Sócrates andou a promover negócios com a Venezuela sem ter em conta o risco político» (João Miranda, 10/5/2009; suponho que o risco agora será zero, claro).
  6. «Chávez só aparecia como um democrata para aqueles que, por ódio aos EUA ou, em Portugal, por amor às amizades de José Sócrates e Mário Soares, se recusaram a ver o que sempre foi evidente» (Alexandre Homem Cristo, 4/8/2009; Chávez não era um democrata).
  7. «Momento Sócrates: Protestar contra Governo de Chávez passa a ser crime» (Vasco Campilho, 3/9/2009; novamente Sócrates a tornar-se ditador «por associação» a Chávez).
  8. «O Governo português deve ter especial cautela na relação com quem governa a Venezuela e não tentar reduzir tudo a uns negócios sedutores no curto prazo sobre um fundo de “exotismo” (...) Ou percebemos isto a tempo ou um dia a José Sócrates ou a outro qualquer primeiro-ministro de Portugal já não bastará agradecer “gentilezas” “do fundo do coração” a Chávez pela prosaica razão de que o fundo do coração terá dado lugar à fase do coração nas mãos no que respeita aos direitos dos empresários e dos emigrantes portugueses na Venezuela» (Helena Matos, 4/6/2010; o fantasma da sovietização da Venezuela e do exodo dos imigrantes portugueses, que teima em não se materializar).
  9. «Portugal é o segundo país em que o chavismo não funciona. (...) Quando a democracia for restaurada na Venezuela, a diplomacia portuguesa vai ter muito trabalho a reparar os danos dos últimos 5 anos. (...) Chávez é um ditador pouco recomendável. A relação personalizada entre ele e um PM português, misturando questões de estado com supostas amizades pessoais, só nos envergonha.» (João Miranda, 25/10/2010; Chávez era um «ditador pouco recomendável» e pronto, não se devia negociar com ele).
  10. «O investimento diplomático em ditadores é uma má política. Como se vê com a situação de Khadhafi e com o isolamento cada vez maior de Chavez na América do Sul, os seus regimes são muito vulneráveis» (João Marques Almeida, 29/7/2011; idem).
Após uma mudança de governo em Portugal, Paulo Portas fez uma visita à Venezuela. Os negócios continuarão. Na boa. E a direita, essa, calou-se. Chávez já não é «ditador» nem proto-comunista. Os negócios já não são «arriscados» e os imigrantes portugueses não estão em risco.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O regresso da democracia?

Todos os estados da UE são democracias, mas a UE não é uma democracia. Este axioma serviu na era do mercado único, mas tornou-se insustentável em dez anos de moeda única.

Anteontem, Georges Papandreou blasfemou, ao anunciar que será o próprio povo grego a decidir, em referendo, sobre o enésimo pacote de austeridade que esse mesmo povo sofrerá, embora decidido pelo BCE e por políticos eleitos por outros povos.

As reacções foram violentas: quer do lado de mercados, bancos, bolsas e agências de rating, quer do lado de líderes, mais preocupados com essas entidades que com os cidadãos a quem, teoricamente, devem a sua legitimidade decisória. Mas se os mercados se enervam com a instabilidade política das democracias nacionais, as pessoas estão ainda mais fartas da instabilidade que a UE realmente existente trouxe às suas vidas.

A menos que a oposição o trave, ou que Papandreou seja um tacticista que quer subir a parada, o seu gesto poderá assinalar o regresso da democracia a uma Europa construída por primeiros-ministros reunidos à porta fechada e obcecados com a estabilidade monetária e não com o empregos.

Não havendo condições para avançar para a democracia de âmbito europeu, recuar para democracias nacionais é o mal menor. Caso contrário, a fractura entre os decisores europeus e os povos do continente assemelha-se cada vez mais a uma ditadura de novo tipo.

A besta islamista voltou a atacar

A redacção do jornal Charlie Hebdo foi incendiada esta madrugada, aparentemente com um cocktail molotov. A razão é óbvia: o jornal satírico francês lança hoje nas ruas uma edição (ver a capa em cima) destinada a assinalar a vitória dos islamistas do Ennahda na Tunísia e o anúncio pelo CNT de que as leis líbias se basearão na chária. A edição apresenta o título «Charia Hebdo» e um novo editor: «Maomé» (lui-même). A redacção ficou totalmente destruída.

A sátira e o riso são tão importantes para o meu ateísmo como o ajoelhamento e a prece o são para os religiosos. Se os muçulmanos e os católicos não entendem assim, eu explico melhor: atacar o Charlie Hebdo é como pôr uma bomba em Meca ou em Fátima. Ou melhor ainda: na Europa, o anticlericalismo é um direito. Pôr bombas por causa de umas caricaturas é próprio de bestas que se levam demasiadamente a sério. Ou de fascistas (neste caso, da variante islamofascista). Se não gostam de rir, vão rezar. 

P.S. Agradeço aos leitores que informem na caixa de comentários da localização de alguns dos quiosques e papelarias que vendem o Charlie Hebdo para que todos possamos, em solidariedade, adquirir um exemplar (ou mais...).

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

«Avante!» desmascara conspiração mundial dos Illuminati, Maçons e Santa Sé

Através do Miguel Serras Pereira, descobri uma genial análise política sobre o presente momento político e mundial. Foi publicada no jornal de um partido parlamentar português, que assim demonstra o seu pertinente e insubstituível contributo para a compreensão destes tempos conturbados, para a luta dos trabalhadores portugueses e do resto do mundo. Inclui citações dos «Protocolos dos Sábios de Sião».
  • «A rede conspirativa que se vai instalando na terra tem claramente origem em formações capitalistas proclamadamente religiosas. Basta olhar-se para o esquema organizativo que vai chegando ao conhecimento público para nele se reconhecer a mãozinha sinuosa dos jesuítas e dos illuminati maçónicos. (...) Todos os antecedentes desta Nova Era estão lançados ou funcionam já. Há políticas altamente complexas, como as que intervêm na crise financeira internacional, no terrorismo, nas área do gás e do petróleo, etc., que necessariamente estão a ser já coordenadas por um único governo oculto.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Somos todos gregos

No meio de uma crise gerida pelos bancos, pelas bolsas, pelas agências de rating e pela senhora Merkel, Georges Papandreou é o primeiro que tenta dar a palavra ao povo. Haja democracia. O povo que decida. Se os gregos quiserem sair da UE (o que nem sequer está previsto nos Tratados...), que saiam. Se não conseguirem pagar, que não paguem. Só mesmo os «mercados» é que aguentam mais um ano de cortes salariais, aumentos de impostos e despedimentos. O povo, esse, está impaciente por se pronunciar. E livrem-se de repetir o referendo, ouviram?