terça-feira, 4 de outubro de 2011

O problema de José Manuel Fernandes

Escreve José Manuel Fernandes:

"O problema do PS não é muito diferente do problema das restantes esquerdas europeias: num tempo em que as sociedades já não produzem os excessos (sob a forma de crescimento económico) que era possível redistribuir, como continuar a ser socialista sem ser acumulando dívidas?"

José Manuel Fernandes até pode ter razão na sua análise económica (admitamos que sim). Mas por que raio só se há de redistribuir os excedentes de produção, e não os ganhos excessivos? Por outro lado, se não consumirmos tanto (algo que é ao mesmo tempo um imperativo ecológico), até pode voltar a haver excedentes. Há várias maneiras de contornar o problema propositadamente colocado por Fernandes como se não houvesse outra solução que não fosse desistir da esquerda, como ele fez. O problema da esquerda será se achar que não têm solução os problemas que lhe são lançados pelos Fernandes e pelas Helenas.

Às barricadas, cidadãos!

O Público

...e já agora: não tinha reparado que "O Público" se tinha tornado num pasquim tão repugnantemente de extrema-direita. Li um artigo sobre os infames "vouchers" (cheques-ensino) que era tão parcial, tão rasteiro, tão sabujo e tão lascarino, que me deu vontade de ir tomar um banho.

Protestos...

Já não sei quem é que disse que se os ricos não tratarem dos pobres, os pobres tratam dos ricos. Nós sabemos que nesta sociedade, completamente alienada, em que vivemos as coisas não são assim: na América são os pobres que votam nos cortes de impostos para os ricos e contra a segurança social.

Mas hoje estava a ler os jornais à hora do almoço (o Público, El País, NYT, o Haaretz e o Monde) e a pensar que era divertido se os pobres virassem o barco, como em Portugal, em 1974. Na altura, em Santarém um "anarquista" escreveu esta frase deliciosa numa parede: "os fascistas, o melhor remédio é comê-los, e os melhores são os pequeninos e com asma".

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

The Rapture!

Estava aqui a pensar que Deus podia ser uma muleta formidável para mim, se eu acreditasse nestas coisas. Se tivesse fé eu rezava dia e noite por esta coisa em que 30 milhões de Americanos acreditam: The Rapture! Tremem-me as mãos, só de imaginar: um dia abriam-se os céus e Deus sugava TODOS os fundamentalistas cristãos (brancos)... e nós ficávamos cá em baixo... SEM ELES!!

«Religião, porquê?» (Manuel Souto Teixeira)


Amanhã, 4 de Outubro, às 19 horas e 30 minutos, estarei no bar do teatro «A Barraca» (Largo de Santos, 2, Lisboa, ver mapa) para apresentar o livro «Religião, porquê? - Introdução a um problema», de Manuel Souto Teixeira.

Trata-se de um livro que aborda, principalmente, a história da religião na Europa ao longo dos últimos dois mil anos, de uma perspectiva não religiosa, irónica e sistemática.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]




sábado, 1 de outubro de 2011

A crueldade e os animais

Acho que a maioria dos textos que se escrevem (desde há muitos anos) contra as corridas de toiros são geralmente justos e razoáveis. Mas os argumentos a favor das corridas também não me chocam.

Tudo somado, julgo que todos concordamos que a moral é uma coisa geográfica, demográfica e social, e que às vezes é difícil estabelecer a verdade sobre um assunto. Isto não quer dizer que não devamos ter opiniões fortes. Mas quer dizer que temos de persuadir os outros antes de desatarmos a proibir coisas ou a perseguir modos de vida que existem há muitos anos.

Somos todos prisioneiros da nossa cultura e às vezes é-nos difícil aceitar certas coisas, que no entanto são perfeitamente normais para os outros. Outras vezes não. Por exemplo: a esmagadora maioria das pessoas acha mais civilizada uma sociedade em que a maioria não mete as minorias no forno, do que uma sociedade em que a maioria mete os vizinhos em campos de concentração por serem gay, ou deficientes, ou por o nome deles acabar em "berg". Por isso, os neo-nazis do New Apostolic Reformation são quase unanimemente desprezados na Europa e nos EUA, e eu não me admirava se um dia fossem proibidos na Europa.

Mas noutros assuntos as coisas são mais difíceis. Aqui os pró-vidas metem-se à porta das clínicas a insultar e a aterrorizar quem lá vai comprar a pílula. E depois vão dançar à porta da prisão, em Huntsville, cada vez que o Rick Perry manda matar mais um desgraçado. Do outro lado da rua, os "liberais" manifestam-se contra a pena de morte e votam pela manutenção do direito ao aborto. E ambos têm razões morais fortíssimas para defender estas posições, opostas, muitas vezes dentro da mesma família. Há anos uma mulher (horrível, na minha opinião) perguntava-me: "Como é que tu podes ter pena de um criminoso que matou uma pessoa e não ter pena de um pobre feto, que não fez mal a ninguém?"

Parece-me estas coisas só se resolvem quando há massa crítica. Como no caso das lutas de cães. Outras não se resolvem. Aqui no Texas todas as famílias têm gatos e arrancam-lhes as unhas, castram-nos e fecham-nos em casa sozinhos o dia inteiro, a verem pássaros pela janela, impotentes, desgraçados, eunucos. Ou fazem coisas inacreditáveis aos cães e prolongam-lhes a vida com quimioterapia e deixam-nos arrastarem-se pela casa, cheios de dores, incontinentes, meses ou anos a fio.

Não sei se a maioria das pessoas faz ideia das condições em que a carne de vaca é criada, pelo menos aqui no Texas: os novilhos enterrados em esterco a vida inteira, sem se poderem mexer, e abatidos aos molhos, em matadouros horríveis, aterrorizados com o cheio do sangue dos que foram primeiro, horas a fio, num sofrimento muito mais violento do que o dos toiros de morte.

Claro que as corridas de toiros são um espetáculo medieval e cruel. Mas e os bairros de lata?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ainda as touradas

Reajo ao post do Filipe Moura sobre as touradas, citando (ociosamente, mas também por representar plenamente o que penso) o Ludwig Krippahl no Que Treta!:

[...] No fundamento da ética está um facto e um valor: a compreensão de que outros também sentem e que isso importa para determinar como eu ajo. Sem esta conjunção não há ética, nem deveres morais nem direitos. Um tubarão não é eticamente responsável por morder, porque não tem compreensão do mal que causa. E um psicopata, indiferente ao que outros possam sentir, age em interesse próprio e nunca por algum sentido ético de bem ou mal. Regras morais de pacotilha, como «em democracia as minorias são respeitadas desde que não façam nada contra as maiorias», são o equivalente ético a um tubarão psicopata, ignorando quer os factos quer os valores fundamentais da ética.

Sabemos que espetar ferros no touro até ele perder litros de sangue enquanto corre furioso e assustado pela arena causa sofrimento ao animal. E esse tipo de coisa causa-nos constrangimento. O facto e o valor estão lá, e qualquer pessoa normal percebe o problema ético da tourada. O hábito de fazer isto ao touro tornou muita gente insensível a este caso particular, mas até o Miguel Sousa Tavares perceberia facilmente onde estão a barbaridade e a falta de cultura se fizessem espectáculos com homens de lantejoulas a espetar ferros em cavalos, cães ou gatos, em vez de torturarem os touros. Não só seria consensualmente reconhecido como imoral, como até já seria ilegal, pois desde 1995 que a nossa lei estipula serem «proibidas todas as violências injustificadas contra animais»(LPDA, Lei n.º 92/95).


A tourada é a excepção, na lei e na mente de alguns, mais por cobardia política do que por qualquer outra coisa. Mas não se justifica que o seja. Se é mau espetar ferros em cães ou cavalos, também é mau espetá-los num touro. E dizer que é tradição não justifica nada. Isso é uma desculpa bovina. O gado é que faz o que faz só porque sempre o fez. Nós não devíamos ser assim. A nossa espécie tem capacidade, e responsabilidade, de fazer melhor do que isso.(Que treta!:Gado)