domingo, 29 de julho de 2012

Marketing é manipulação

Pessoalmente sou contra restrições à publicidade que afectem a liberdade de expressão. Mas existem muitas acções imorais que devem ser permitidas legalmente, e nós devemos reconhecer que uma grande parte da actividade associada ao marketing é verdadeiramente imoral.

Efectivamente, é importante conhecermos os os truques sujos que são utilizados, para nos defendermos melhor destas tentativas de manipulação. Não deve ser a lei a proteger-nos do marketing, mas sim a informação, o espírito crítico, a estabilidade emocional, a nossa consciência. Esta não deve ser uma batalha política, mas cultural.

É nesse sentido que aqui partilho alguns destaques à entrevista que o jornal i fez a Martin Lindstrom, descrito como «Investigador, marketeer, consultor e um dos maiores gurus do branding, [...] considerado pela revista “Time” uma das 100 pessoas mais influentes do mundo [... autor do] livro “Brandwashed – Os Truques de Marketing que as Empresas usam para Manipular as Mentes”»:

«As marcas vão se tornando cada vez mais sofisticadas e começamos a ver como criam sons e sabores para chegarem ao útero. Assustador. 
[...]
As marcas dão-nos uma sensação de confiança e quanto mais pressionados nos sentimentos, mais confiamos nas marcas. Hoje sabemos que os jovens ficam mais viciados em marcas quanto menor é a sua autoconfiança e pelo caminho vão comprar ainda mais.
[...]
Como é que as empresas nos fazem uma lavagem ao cérebro?
Este é o meu sexto livro, depois de trabalhar durante 25 anos com marcas em todo o mundo, penso que é importante que os consumidores saibam o que se passa nos bastidores das empresas e ao mesmo tempo pressioná-las para que ponham a casa em ordem. 
[...]
Quais são os principais truques utilizados pelas marcas para nos manipular?
Medo e culpa. Ao incutir medo em todas as mensagens somos 10 vezes mais capazes de escolher qualquer oferta que haja por aí. O medo de envelhecermos, engordarmos, ficarmos sozinhos, ser impopulares, ter uns filhos falhados. A culpa é um vírus em crescimento, principalmente entre as mulheres. Como forma de remover alguma dessa culpa, as marcas oferecem “soluções” – muitas vezes soluções que não resolvem nada. A culpa pode ser desde “não sou uma boa mãe”, a ter “problemas com o meu corpo”, a “não sou uma boa mulher”. E a ideia é: compra a marca X e vais ser feliz.
[...]
Para o livro estudou várias marcas. Qual foi a que mais o surpreendeu?
De longe, a Carmex. É uma marca de batons que tem aditivos. Claro que a empresa argumenta que é mentira mas depois de inúmeras investigações e entrevistas com especialistas é óbvio que tem de existir um pouco de verdade aqui, porque quem começa a usar batons da Carmex não consegue parar.
[...]
Então quer dizer que sempre que compramos não o fazemos de forma racional?
Sabemos hoje que 85% das nossas decisões são tomadas inconscientemente, ou seja, feitas sem a nossa percepção. As marcas vivem nesse espaço, porque resumem-se a sentimentos.»

sábado, 28 de julho de 2012

Período quente medieval: factos versus fraudes


Mais um didáctico e rigoroso vídeo de potholer54 que aconselho vivamente.

período quente medieval em contexto.


Rating de Portugal sofreu corte sete vezes superior ao que era justificável

São as conclusões de um estudo que parece vir ao encontro daquilo que é a intuição de muitos dos que viveram a crise das dívidas soberanas. De acordo com a notícia (destaque meu):

 «O estudo é da universidade suíça de St. Gallen e diz que as agências de notação financeira alimentaram o endividamento na Zona Euro ao procederem a avaliações de "rating" mais severas desde que a crise da dívida soberana começou a revelar-se em 2009. Portugal está entre os exemplos do exagero a que foi sujeito nos cortes.

[....]

Conjugado com a prova de que muitos dos cortes de ‘rating’ dos países da periferia da Zona Euro parecem ter sido arbitrários e não puderam ser justificados com base nos algoritmos de ‘ratings’ que explicam as notações de outros países ou as avaliações anteriores a 2009, este resultado é bastante desconfortante. É preciso que os governos olhem mais atentamente para os mercados financeiros em geral e para os mercados das obrigações soberanas em particular, bem como para as motivações, dependências e conflitos de interesse dos principais ‘players’ desses mercados”, acrescenta o estudo, que analisou a crise da dívida soberana resultante da crise financeira e imobiliária de 2007-2009.

Baseando-se nos dados de 25 países da OCDE – incluindo Portugal – no período entre 2009 e 2011, incluindo os dados relativos ao PIB e os dados orçamentais, bem como os "ratings" atribuídos pela Fitch, os autores do estudo chegaram à conclusão que a dimensão dos cortes de “rating” foi exagerada, nomeadamente no que diz respeito aos três países já intervencionados pela troika (Grécia, Irlanda e Portugal).

Recorde-se que a crise da dívida soberana começou a ganhar forma na Zona Euro em 2009, tendo a Grécia sido o primeiro Estado-membro da união monetária a pedir ajuda externa, em Maio de 2010. Seguiu-se a Irlanda, em Novembro do mesmo ano, e Portugal em Abril de 2011.

Numa análise país a país, o estudo conclui que, relativamente a Portugal, a deterioração dos seus fundamentais fez com que a curva do “rating” soberano se desviasse em 0,62 graus entre 2009 e 2011, o que suporia um corte inferior a um nível em termos de avaliação da notação. “No entanto, o país foi cortado em oito níveis durante esse período”, sublinham os dois economistas responsáveis por esta investigação.

Assim, Manfred Gärtner e Björn Griesbach referem que as agências de notação financeira não foram consistentes nas suas avaliações, tendo ficado mais “críticas” à medida que a crise se foi adensando, atribuindo aos países, em média, um “rating” inferior em um nível para determinadas taxas de juro e outras variáveis do que antes de 2009.

[...]

“As agências de ‘rating’ conseguiram afastar os mercados financeiros da percepção do problema, fazendo com que os governos pareçam os culpados”, acrescentou.»

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Enquanto ninguém está a olhar, lá triplica o limite dos ajustes directos

De acordo com este comunicado da Ordem dos Arquitectos (ênfase meu):

«03.
Neste sentido, entre as alterações introduzidas, verifica-se a revogação liminar do número 4 do artigo 20.º do CCP, que estabelecia como limite para a escolha de ajuste directo, no âmbito de contratos de aquisição de planos, de projectos ou de criações conceptuais nos domínios da arquitectura ou da engenharia, o montante máximo de 25 000 euros.
A actual redacção do CCP remete agora para o montante máximo de 75 000 euros, aplicável a qualquer tipo de aquisição de serviços, triplicando (!) assim o valor anterior.

04.
A OA recorda que o próprio Memorando regista a necessidade de “(…) melhorar as práticas de adjudicação, no sentido de assegurar um ambiente de negócios mais transparente e competitivo e de melhorar a eficiência da despesa pública”.
Não se entende, por isso, uma alteração que, ao estimular o procedimento de ajuste directo, prejudica claramente práticas saudáveis de adjudicação. Nem se entende, de igual modo, como o alargamento da possibilidade da administração pública em recorrer ao ajuste directo possa promover a melhoria qualitativa enunciada no preâmbulo do novo diploma, ou seja, a adopção de “diversas medidas que visam contribuir para a melhoria da qualidade dos projectos de obras públicas”.

05.
Na verdade, tal alteração não só implode a possibilidade alargada de aplicação do concurso de concepção, como, na prática, anuncia o seu fim. Ou seja, prejudica-se a garantia efectiva de transparência, equidade e concorrência no âmbito de contratos de aquisição de planos, de projectos ou de criações conceptuais nos domínios da arquitectura, como a respectiva qualidade. E, assim sendo, não se vislumbra qual o contributo do diploma para a desejada melhoria da qualidade e da sustentabilidade dos projectos de arquitectura em obra pública.

06.
Importa registar, aliás, que a revogação do n.º 4 do artigo 20.º do CCP constitui um paradoxo de difícil fundamentação e sustentação em face de outras alterações agora introduzidas, pois colide com todas aquelas que visam limitar o acesso ao ajuste directo e que promovem claramente o procedimento concursal por via da redução dos limites aplicáveis e da extensão do âmbito de aplicação a todas as entidades adjudicantes, restringindo excepções anteriormente previstas.»

E ainda dizem que este governo segue políticas de austeridade.
Não é verdade: o que se verifica é despesismo, falta de rigor, negociatas obscuras. Triplicar o limite associado aos ajustes directos na conjuntura actual é um ataque às finanças públicas, aos contribuintes, à Justiça.
Como é evidente, esta notícia justifica nova actualização do texto «Compilação do despesismo e corrupção».

Era a isto que se referiam quando falavam em «transferências de soberania»?

O governo alemão confirma que recebeu em reunião os líderes sindicais espanhóis.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Draghi e frase que marca o princípio do fim da crise?

"Na medida em que o tamanho dos juros sobre as dívidas públicas afeta o funcionamento dos canais de transmissão da política monetária, eles fazem parte do nosso mandato”, Mario Draghi

A frase passou despercebida à imprensa portuguesa (com pelo menos a exceção do Público), mas ela pode muito bem marcar o princípio do fim da crise. Até agora o BCE recusou-se a intervir fortemente no mercado  das dívidas públicas, com a desculpa de só ter um mandato de política monetária de manutenção da inflação. Apesar de a frase não fazer assim tanto sentido do ponto de vista económico, e de provavelmente o próprio BCE não acreditar assim tanto nela, era a frase que todos queriam ouvir. O BCE finalmente teve a vontade de arranjar justificação para uma intervenção num mercado lateral. 
Ainda não se sabe que o BCE terá em mente, mas o sinal é mais importante que a própria intervenção (há quem defenda que um sinal forte seria suficiente para resolver tudo): os juros espanhóis e italianos caíram a pique, chegando a quedas de 20%.

Laicidade explicada

Um vídeo que recomendo sem reservas.
Centra-se na realidade do Reino Unido, mas grande parte do que é dito diz respeito ao princípio da Laicidade em geral.

 

«Que se lixem as eleições», atitude que um democrata pode aplaudir?

No texto «Que se lixe a democracia» que publicou no Arrastão, Daniel Oliveira comenta as recentes  declarações de Passos Coelho: «Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal».

No meu texto anterior defendo que as declarações de Pedro Passos Coelho não são sinceras - são aliás mais uma demonstração de que a sua hipocrisia não conhece limites. Nesse sentido, não merecem qualquer tipo de aplauso, apenas merecem nojo.

No entanto, há uma questão interessante por analisar: e se fossem sinceras? E se fossem afirmadas por um líder político eleito democraticamente que nelas acreditasse? Seriam de louvar ou de lamentar?

Daniel Oliveira defende que declarações deste tipo revelam desrespeito pela Democracia e pela sua forma de funcionamento. É uma crítica que compreendo bem: afinal na Democracia é suposto que o eleitorado governe, e as eleições são a forma de manifestar a sua vontade. Um político que não quer saber das eleições, não quer saber da vontade dos cidadãos, e acaba por efectivamente lhes roubar o poder. Se o político se está a «lixar para as eleições», está também a «lixar-se para a Democracia». Este é um argumento que faz sentido, e um que subscrevia há alguns anos atrás.

Hoje, no entanto, discordo desta posição, e vou tentar explicar porquê. 
Imaginemos que quero ouvir uma música. Existem duas formas diferentes de servir esta minha vontade: numa vários músicos diferentes compõem aquilo em que acreditam, aquilo que sentem ser a sua inspiração, aquilo que acreditam que é a sua mensagem. Entre a diversidade de criações, eu escolho aquelas que mais me agradam - músicos cuja «inspiração» os levou a produzir música que não me agrada são simplesmente ignorados, e músicos que escolheram por si criar obras que se harmonizam com os meus gostos são seleccionados. Assim, apesar de nenhum dos músicos se preocupar com os meus gostos, eles foram satisfeitos. 
Noutra, os músicos preocupam-se com ganhar o máximo de fama ou dinheiro, e adaptam as suas criações à vontade do público do qual faço parte. Assim, precisamente pelo facto dos músicos se preocuparem com a sua fama ou riqueza, os meus gostos são satisfeitos.

Apesar da suposta equivalência entre estas duas situações, as pessoas tendem a preferir a primeira hipótese. Parece que existe um apelo estético, que desafia as explicações racionais, na ideia de um artista que nos satisfaz, apesar de não o ter tentado, apesar de ser genuíno e ser fiel primeiramente à mensagem que quer passar, seja ela apelativa ou não.

Só que, enquanto no caso da música não existe razão racional para esta preferência, no caso análogo relativo à política ela existe. 

Ora vejamos: num caso temos um conjunto de políticos que acreditam em determinadas ideias e propostas, e querem defendê-las e implementá-las quer isso lhes custe votos, quer isso lhes garanta a vitória nas eleições; no outro temos um conjunto de políticos que estão dispostos a tudo para ganhar as eleições. Em relação aos primeiros, o eleitorado consegue «governar» pois escolhe entre os diferentes projectos. 

Em relação aos segundos, existem dois problemas: o primeiro problema prende-se com as razões pelas quais a democracia representativa evita problemas que nos quais a democracia directa tende a cair - um problema que apesar de tudo pode ser atenuado com um eleitorado interventivo e informado. 
O segundo problema prende-se com as várias formas de ganhar eleições: não é só escolher as ideias que as pessoas mais gostam, é também necessário comunicá-las. E escolher ideias que agradam a certos grupos de interesse garante uma comunicação eficaz, mesmo de ideias desagradáveis ao eleitorado. Não é por acaso que todos os anos os EUA oferecem biliões e biliões de dólares à indústria petrolífera, quando 80% do eleitorado está contra esses subsídios - o dinheiro que a indústria oferece aos políticos que votam favoravelmente tem um impacto eleitoral positivo superior ao impacto negativo desse voto impopular. O político apegado ao poder não governa apenas para as sondagens, governa para o status quo, e põe os seus interesses à frente dos interesses do país. 

Há uns anos atrás não via a «coerência» de um político como uma grande qualidade: as pessoas inteligentes mudam de ideias face a novos factos, e por isso não me parecia digno de aplauso quem as mantinha. 
Mas hoje compreendo a importância da «coerência»: é ela que garante que o eleitorado pode ter poder sobre políticos desapegados - ao seleccionar quais destes são eleitos, escolhe os projectos de quem os desenhou com uma motivação mais altruísta ou autêntica que a vontade de progredir na carreira política. 
Assim, se este político defende o projecto X, não quer saber se é reeleito, mas também é improvável que mude de opinião quando for a hora H, eu posso escolher se adiro ao projecto X ou não através do meu voto nesse político. 

Claro que o ideal seria não dar tanta atenção a estas questões: que o eleitorado analisasse as propostas dos políticos por si, não as suas motivações pessoais, o seu egoísmo ou ambição. Mas isto exige um esforço quase profissional: um eleitor como eu, com tempo e disponibilidade limitadas, tem de recorrer a heurísticas. Eu não posso avaliar se Portugal devia investir no TGV pelos seus méritos, é uma questão com aspectos técnicos importantes, que exige um estudo e reflexão de inúmeras horas até poder ser mais que «conversa de café». Muitas vezes, e infelizmente, a «confiança» é uma variável essencial para decidirmos se consideramos que um projecto vai ser favorável ao país ou não. Nessa altura é inevitável fazer uma avaliação de intenções. 
Nesse sentido, um político íntegro e desapegado é algo de aplaudir, e eu sei que, se ele for claro, honesto e consistente, não me rouba o poder soberano que eu como eleitor disponho.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pedro Passos Coelho, desapegado do poder?

No texto «Que se lixe a democracia» que publicou no Arrastão, Daniel Oliveira comenta as recentes  declarações de Passos Coelho: «Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal».

Daniel Oliveira parte do princípio que são sinceras, e acredita que revelam pouco apreço pela Democracia e pela sua forma de funcionamento. Na verdade compreendo bem os argumentos do Daniel, embora discorde - acredito que, se fossem sinceras, até poderiam ser de louvar - e gostaria de dedicar um texto a explicar porque é que o afirmo enquanto democrata.

Mas antes de mais queria explicar porque é que sei que não são sinceras. Porque é que afirmo que são mais uma demonstração da enorme hipocrisia de Pedro Passos Coelho, um indivíduo cuja ganância desmedida, cuja enorme ambição pelo poder estamos todos a pagar, pelo tanto mal que fez ao país.

Para isso quero recuar ao momento antes da votação do PECIV. Nessa altura Portugal estava perante uma encruzilhada. Por motivos em grande medida exógenos - desde a crise financeira de 2008 até às fragilidades da arquitectura da moeda única, passando pela resposta surpreendente que a Alemanha deu aos problemas gregos, também eles surpreendentes - os juros em Portugal (e na Irlanda, Espanha, Grécia, ...) dispararam para níveis elevadíssimos.
Naturalmente, as decisões de investimento anteriores não contavam com tal subida, e investimentos que eram sensatos (rentabilidade superior aos juros) passaram a ser errados (rentabilidade inferior aos juros) de um dia para o outro. Perante esta realidade haviam essencialmente duas estratégias a seguir:

a) O importante é acalmar os receios dos mercados. Os bancos estão a cobrar juros elevadíssimos pois têm medo que Portugal não pague, o que dá menos condições para Portugal pagar e faz os receios terem mais razão de ser, o que leva os juros a aumentar em consequência e por aí fora. Para inverter este ciclo é essencial a «confiança»: nem uma palavra sobre renegociação, encontraremos forma de pagar, até todos terem noção que os receios são infundados e o ciclo se inverter. Temos de convencer os bancos que emprestar dinheiro a Portugal é seguro e lucrativo, para que a concorrência se encarregue de baixar os juros.
Esta estratégia é defendida principalmente pela direita.

b) Então os bancos financiam-se no BCE a 1%, e cobram juros superiores a 7% aos estados? Que  favorecimento dos privados é esse? Na verdade Portugal tem um poder negocial que não está a ser usado. Se os juros são tão altos reflectindo o risco que representa emprestar dinheiro, então é da natureza do negócio que numa situação de desespero, com o contrato social entre o estado e os cidadãos em risco, ele possa não ser pago.
Há prioridades, e a saúde e a educação, mais do que a estabilidade do negócio financeiro, devem estar em primeiro lugar. Portugal, ao pagar tudo sem dizer «ai» nem «ui», tem a má fama (por isso paga juros altos que enriquecem os bancos), mas não tem o proveito. Querer pagar tudo é defender mal os interesses nacionais, pondo os interesses das instituições financeiras à frente dos nossos.
Uma boa gestão da actual situação corresponderá a negociar com os bancos um perdão parcial da dívida, que aumente as possibilidades de pagar a parte restante, e até poderá levar a uma diminuição dos juros por essa via.
Esta estratégia é defendida principalmente pela esquerda.

(Não mencionei o não pagamento total da dívida, mas alguns partidos de esquerda sem assento parlamentar também defendiam esta hipótese).

Que via é que José Sócrates e o PS escolheram? A via da direita.
Notem os leitores que não estou a criticar essa decisão - pessoalmente tenho bem menos certezas em relação a esta questão do que quase todos os que a comentam. Mas efectivamente o PS escolheu a sua opção: pagamento integral, nenhuma alusão a qualquer tipo de renegociação.

Perante isto, os partidos de esquerda fizeram aquilo que se esperaria: chumbaram o PECIV, apresentando as suas alternativas de esquerda. A democracia a funcionar.

E o PSD? Se Sócrates ia seguir a via da direita, e se o PSD acreditava que essa era a via certa, só havia uma forma de defender o interesse nacional: dar força à opção do PS. Na verdade, o PECIV conseguia financiamento em condições muito mais favoráveis que as actuais: não só pela questão simbólica de pararem («estancarem») os recursos ao FMI, como pela questão efectiva de ter maior controlo sobre as decisões tomadas, com maior independência face aos interesses dos credores.
E o PSD sabia isso. Vários notáveis do PSD avisaram Pedro Passos Coelho que ele não deveria juntar uma crise política à crise financeira, pois tratava-se de algo que prejudicaria gravemente a estratégia de «descansar os mercados», e realmente Pedro Passos Coelho foi incapaz de apresentar qualquer alternativa ao PECIV no momento em que o chumbou - ele sabia que não existia melhor opção dentro da estratégia que ele subscrevia.

Mas Passos Coelho também sabia que aquele era o «seu» momento. Os líderes do PSD andavam a ser substituídos com regularidade, e se ele escolhesse defender o interesse do país, também acabaria por ser substituído. Não! Aquela era altura de ir a eleições, que poderia ganhar precisamente pelo momento difícil em que o país se encontrava, que a sua ambição desenfreada tanto agravou.
Em Portugal disse que chumbava o PECIV porque exigia sacrifícios excessivos, na UE dizia que o fazia porque os sacrifícios eram insuficientes. O hipócrita.

As consequências imediatas dessa escolha sem escrúpulos? Até Durão Barroso as reconheceu.


Sem qualquer empatia ou consideração sobre o destino dos portugueses, Pedro Passos Coelho colocou a sua carreira política à frente dos interesses do país, e nós estamos a pagar duramente essa decisão.

Depois fez toda a uma campanha eleitoral que é um festival de hipocrisia:



Agora vem dizer que não quer saber de eleições? É precisamente o seu apego ao poder que o leva a mentir tão descarada e desavergonhadamente sobre o seu apego ao poder.
São as ironias que a hipocrisia sem limites proporciona.

Sobre a corrupção do actual Governo

Independentemente daquilo que aqui foi escrito sobre as declarações de Januário Torgal, é verdade que a acusação de corrupção que dirigiu ao Governo tem alguma razão de ser.

Estamos constantemente a receber informação relativa a casos e mais casos, muitos deles verdadeiramente revoltantes, que se sucedem sem qualquer pudor (se o houvesse, Relvas já teria sido demitido há muito), e criam uma percepção justificada de que esta equipa governativa não tem como primeira prioridade o interesse nacional, mas sim um conjunto de interesses privados duvidosos. Falamos de algo que ultrapassa as naturais diferenças o foro ideológico, e entra no campo da pura e simples falta de escrúpulos, fazendo da justiça e da decência uma piada.

Hoje mesmo tomei contacto com três notícias que me obrigaram a actualizar a minha lista, a Compilação do despesismo e corrupção:

Empresa de amigo de Vítor Gaspar contratada para assessorar privatização da EDP e da REN (RTP); 

Acusada de desviar fundos já tem novo cargo nas Finanças (Sol); 

MP desiste de último arguido no caso dos submarinos (Diário de Notícias). 

É verdadeiramente revoltante. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Texas como explicacao da America

Os republicanos do Texas reuniram-se e produziram uma joia literaria (perdoem-me o teclado) imprescindivel para a compreensao da America.  Cada vez que venho a Europa sou confrontado com esta realidade: os europeus nao fazem a mais pequena ideia do que e a America profunda, a que elegeu Reagan e os dois presidentes Bush.

A culpa não é só dos ricos, é principalmente dos Estados

Anda meio mundo chocado por se ter descoberto (?) os "super-ricos" terem 17 biliões, quase 100 vezes o PIB português, em paraísos fiscais. O problema não é de hoje, nem de ontem, e só espanta isto ainda espantar alguém.
Mas há que ser claro: tudo isto é tolerado pela comunidade internacional. A Suíça não tem o nível de vida que tem por mérito próprio. É uma enorme plataforma de lavagem de dinheiro e de fuga ao fisco, que é tratado com todo o respeito pela comunidade internacional. Enquanto países como a Suíça, e em menor escala, o Luxemburgo, o Reino Unido (Caimão, Bermudas, Isle of Man, etc.), a Holanda, etc. não forem tratados como estados párias devido à sua falta de transparência financeira, esta evasão fiscal será uma constante no mundo.
Em 2008 pareceu que os ventos estavam finalmente a mudar, tendo havido vários países a pressionar a Suiça. Mas tal como na regulação financeira,as mudanças foram poucas ou nenhumas.

Melhores resultados de sempre em Olimpíadas de Matemática

(publicado no portal Esquerda.net)
A delegação portuguesa obteve o maior número de medalhas (uma medalha de ouro, uma de prata, duas de bronze) em Olimpíadas de Matemática desde que Portugal entra na competição, desde 1989. No entanto esta competição teve a sua primeira edição em 1959, mas nesses tempos parte das escolas secundárias do nosso país não tinha professores ou aulas de matemática. Nalgumas escolas a carência de professores de matemática era remediada por aulas lecionadas por oficiais do exército. Mas ainda mais grave, era o facto de o regime não considerar o ensino secundário como uma meta universal para todos os jovens portugueses, isto numa época em que na Europa do Norte e do Leste a licenciatura universitária e o doutoramento já estavam no horizonte de um jovem da classe média.
Na classificação por equipas destas olimpíadas de matemática que decorreram na Argentina, a equipa portuguesa ficou classificada em 37° lugar entre 100 países participantes. O 33° lugar em 2009 foi a melhor posição obtida pela equipa portuguesa, embora obtendo menos medalhas que na corrente edição e nenhuma de ouro. Medalhas de ouro foram apenas obtidas uma este ano e uma medalha em 2011, ambas conseguidas por Miguel Santos, aluno do 11° ano da Escola Secundária de Alcanena.
Graças ao Projeto Delfos do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra e ao esforço anónimo de muitos professores e de muitas escolas do país, a motivação e a preparação dos alunos para este tipo de eventos tem vindo a melhorar nos últimos anos. Também ajudaria se déssemos um bocadinho menos de atenção ao futebol e às novelas e um bocadinho mais de destaque nos meios de comunicação às proezas destes atletas mais cerebrais. 

domingo, 22 de julho de 2012

Pela separação entre o «Serviço de Assistência Religiosa» e o «Ordinariato Castrense»

O Daniel Oliveira diz que «vivemos num Estado laico, onde a Igreja não decide quem é ministro e o governo não decide quem é bispo». Concordo com o princípio, mas não sou tão optimista quanto à realidade.

Vejamos: a ICAR decidiu que tem lá uma coisa chamada «Ordinariato Castrense», cujo dirigente é equiparado a «bispo» por o grupo que dirige ser equiparado a «diocese». Claro que a ICAR está no seu direito. Até pode nomear uma «diocese» para a Lua. «Nihil obstat» da minha parte. Aliás, em tempos eles até nomearam «bispos» para «dioceses» que já não existiam (como Mitilene). Mas convém recordar que o antecessor do Januário nas FA´s foi o António Ribeiro, e antes o próprio Cerejeira. Não sei quem será o sucessor...

O Estado decidiu, em 2009 e pela mão do senhor Sócrates, que haveria nas FA´s outra coisa (quero eu...) chamada «Serviço de Assistência Religiosa» (SAR). Não seria contra, desde que fosse apenas para os interessados e pago pelos próprios. Mas. Na própria lei o SAR densifica-se numa «capelania-mor», que pode ter um «capelão-chefe» por cada «confissão religiosa». Acontece que até agora só há um único «capelão-chefe». Surpresa: é católico.

Bom, vou concluir. O Daniel Oliveira não quer que o Estado nomeie bispos, e eu concordo. Mas o actual «capelão-chefe» das FA´s estatais, um indivíduo chamado Manuel Amorim (perdão, o contra-almirante Manuel Amorim por inerência da capelania), poderá suceder, na lógica católica, ao actual «bispo das FA´s» da ICAR. O tal Januário. Ou seja, poderá acumular o «bispado» da ICAR e a «capelania-chefe» do Estado. Como aconteceu ao Januário, que só tem a notoriedade que tem por ter acumulado o «bispo» eclesiástico (ainda) e o major-general militar (agora na reforma, mas sem carreira militar, note-se... só eclesiástica). Enquanto se mantiver o «serviço de assistência religiosa» com dupla nomeação estatal-eclesial e pago pelo Estado (uma rotunda «gordura do Estado», na minha opinião), a confusão persistirá entre funções privadas (eclesiais) e públicas (Estado). E, no fundo, não se anda longe de o Estado nomear um «bispo». E, tão mau ou pior, a ICAR, em boa verdade, nomeia funcionários das Forças Armadas.

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Revista de blogues (19/7/2012)

  • «(...) If Sarah Palin were black, her daughter's out of wedlock, "baby daddy drama" would have been presented as an example of both pathological behavior and a dysfunctional family that is symbolic of the social problems in that community. If Sarah Palin were black, never would the poor decision making by the Palin family be marked off as challenges overcome, or deeds to be valorized. If Sarah Palin were black, her neo-secessionist husband would have been the death knell for her political career, because as we all know you can't trust "those people." If Sarah Palin were black, her lack of intellectual curiosity, willful and cultivated ignorance, and lack of grace both written and spoken, would not be taken as "folksy." Instead, Palin would be viewed as unqualified for any public office. If Sarah Palin were black she would be tarred and feathered as an "affirmative action baby." (...)» (Chauncey de Vega, via Der Terrorist)

O elefante é um mosquito


Ponto prévio: estou na oposição a este governo desde o primeiro minuto, mas não concordo com tudo o que é dito e feito para que a presente situação política termine o mais depressa possível. Penso mesmo que as declarações de Januário Ferreira são tão excessivas que se viram contra a própria oposição (por exemplo, falar em «gangues» e acusar o governo de «profundamente corrupto», sem provas e sem sequer fundamentar com suspeitas concretas, é de tal modo populista e irresponsável que deveria envergonhar alguns que normalmente não aplaudem conversa de taxista).

Ponto principal: não entendo a importância que se dá ao homem. Compreendo que quem é católico ou, não o sendo, reconheça especial autoridade «moral» à ICAR, o ouça, se regozije ou escandalize. Os outros,  espanta-me que dêem tanta relevância a quem apenas cabe o papel, na judiciosa distribuição de serviço da ICAR portuguesa, de ser o bispo que fala «para a esquerda». E que exagera nessa função ao ponto de se comportar como um inimputável.

Ponto de ordem: se lhe tirassem a farda e a designação de bispo, seria ignorado e retirado do palco mediático. Tem, evidentemente e como todos os cidadãos, direito à liberdade de expressão e opinião: os sacerdotes também são cidadãos da República. Mas, cá na minha, continuo a achar que se a ICAR (ou outra comunidade religiosa) existe por razões de ordem «espiritual», usar o poder (fáctico) adquirido nesse âmbito para pressões políticas é sempre um abuso e, portanto, pouco ético. E algumas das suas declarações das últimas semanas seriam ilegais se pronunciadas em período eleitoral, como provavelmente o foram declarações de padres e bispos que tentaram condicionar o voto nos referendos sobre a IVG, ou quando se suspeitava que o próximo parlamento votaria o casamento entre homossexuais.

Ponto final: o jogo de espelhos que Januário Ferreira proporciona, com a «esquerda» a defender um bispo e a «direita» a mandá-lo calar, deve diverti-lo muito. A mim também. Mas quero deixar escrito que seria coerente que aqueles que não tratam por «Dom» o António Marcelino ou o José Policarpo não o fizessem com o Januário Ferreira. É que é ridículo...

Síria: o princípio do fim

Poucos dias depois de a guerra se generalizar na capital, os revoltosos conseguiram colocar uma bomba no gabinete de crise do regime sírio. Isolado internacionalmente, o regime de Assad parece não ter mais cartas para jogar. Resta saber o que se seguirá, mas parece claro que a ditadura síria terminará este Verão.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Irmandade Muçulmana perdeu as eleições na Líbia

Finalmente, uma boa notícia do Magrebe: na Líbia, o ramo local da Irmandade Muçulmana perdeu as eleições. Surpreendente, porque os partidos da Irmandade Muçulmana tinham ganho as eleições na Tunísia e no Egipto. (Todavia, permanecem dúvidas quanto à maioria que se formará no Parlamento.)

terça-feira, 17 de julho de 2012

A classe média é minoritária em Portugal

Em 2010, apenas 43% dos contribuintes receberam o suficiente para pagarem IRS. Os restantes ficaram abaixo do mínimo suficiente. No total, são 2 milhões de declarações de IRS que contribuem para a totalidade da receita deste imposto.

Resultado do inquérito: maioria pela criminalização da circuncisão

O inquérito «A circuncisão, quando efectuada a menores e sem razão médica, deve ser crime em Portugal?» teve 133 respostas. Uma maioria clara (80) responderam «sim», 40 responderam «não» e 13 «não sei».

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Porquê o João Carlos e não a Penélope?

Um tal de Juan Carlos presidiu à reunião do governo espanhol onde foram decididas as mais graves medidas de austeridade da democracia espanhola.
Este indivíduo, um funcionário público pago a preço de ouro, nunca foi eleito pelo povo, direta ou indiretamente. Contudo teve o direito a participar na discussão ao mais alto nível sobre decisões que dificilmente poderiam ser mais importantes para o povo espanhol.
Porque foi ele, e não um taberneiro de Vigo, uma enfermeira de Elche, ou (a minha escola pessoal) a Penélope Cruz é algo que os monárquicos nunca conseguirão explicar a um democrata.
Na Espanha, tal como na Bélgica, na Holanda e em todas as monarquias europeias, o papel do monarca não-eleito não é meramente decorativo.

Agora convenceram-me: os serviços secretos são MESMO indispensáveis

  • «Os serviços secretos britânicos consideraram como séria a possibilidade de uma visita alienígena e uma das funções dos funcionários era monitorizar qualquer ameaça possível vinda do espaço. Milhares de páginas de arquivos documentam como os serviços secretos temiam serem acusados pelo público de não levar a sério os OVNI. (...) Ao todo, são 7.000 documentos sobre quatro décadas de investigações.» (Diário de Notícias)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Espanha é uma província de Portugal?

  • «O Governo Espanhol vai subir o IVA, cortar o subsídio de Natal aos funcionários públicos e reduzir o montante do subsídio de desemprego» (Público).

Sobre a greve dos médicos

«Pela sua Saúde, os Médicos uniram-se» é o título deste vídeo que um grupo de médicos elaborou para expor as razões que os levam a fazer greve:

Revista de blogues (11/7/2012)

  • «(...) Cavaco não morreu politicamente com o episódio das escutas, o BPN ou o seu desastroso discurso de vitória. A maioria dos portugueses nem deu por isso. Cavaco morreu quando disse, na televisão, que não sabia como iria pagar as suas despesas com uma reforma de 1.700 euros (que na realidade é de 10 mil, que, por mais que muitos se espantem, nem é muito quando comparamos com a elite de que tenho estado aqui a falar). Não se trata de saber se a sua reforma é alta ou baixa. Trata-se de, com esta frase, Cavaco ter insultado todos os que, vivendo com quase nada, se mantêm teimosamente calados. (...)» (Daniel Oliveira)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Continua o debate sobre a circuncisão

O Público tem um artigo bem documentado sobre a circuncisão que vale a pena destacar.

Primeiro, quanto à questão médica.
  • «Por razões de saúde (a higiene era o argumento invocado), foi defendida nos Estados Unidos, onde nos anos 1980 cerca de 80% dos rapazes eram circuncidados. Esta percentagem tem vindo a descer, com 57% em 2008. Nos EUA, tem havido um debate sobre os benefícios da prática e um movimento cada vez maior que a questiona (os "intactivistas" que tentaram proibir as circuncisões de bebés), à medida que surgem notícias de mais benefícios de saúde (menos transmissão do vírus HIV em relações heterossexuais em homens circuncidados, o que levou a uma recomendação da OMS, uma possível diminuição do risco de cancro da próstata; nenhuma suficiente, no entanto, para a associação americana de Pediatria passar a recomendar o procedimento).»
Segundo, quanto aos dogmas religiosos.
  • «A circuncisão é praticada nos antigos rituais religiosos muçulmanos e judaicos. Não está referida no Corão, mas é considerada a marca da entrada da criança na comunidade, e é feita em geral entre os 2 e os 5 anos de idade. Já entre os judeus está definida na Torah: deve ser feita ao oitavo dia de vida.»
Finalmente, quanto aos fantasmas invocados por um rabi.
  • «"A decisão de Colónia é talvez um dos mais graves ataques à vida judaica na Europa no mundo pós-Holocausto"».
Portanto, proteger a integridade física das crianças é, do ponto de vista deste senhor, «atacar» o judaísmo. Mutilar crianças sem qualquer razão médica não deve ser «ataque» algum, na perspectiva dele.

Higgs comics

"The Higgs boson explained", pelo PHD Comics. Está em inglês, mas vale a pena!

video

Quando os piegas conformistas eram as vítimas inocentes

Já que tanto se tem dito e falado sobre Relvas - e creio que se justifica, mesmo que eu preferisse centrar as críticas nas ameaças e censuras e não tanto na "licenciatura" - creio que vale a pena rever um vídeo de uma entrevista que concedeu, enquanto o PSD era oposição.
Quando digo que este é um Governo de hipócritas, não me faltam exemplos:



Nesta altura os jovens qualificados eram umas pobres vítimas das políticas perniciosas do Governo, cujas políticas não levavam à criação de emprego - «mal de nós» quando isso acontece. O «grito de revolta» é justo, e a mudança de Governo e de políticas a resposta.
Poucos meses depois, os mesmos jovens (ou mais, que o desemprego aumentou entretanto), subitamente tornaram-se uns conformistas piegas incapazes de abandonar a sua zona de conforto, ou de se lançar no empreendorismo, que não podem esperar do Governo as respostas para os seus problemas.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O «Prós e Contras» de hoje promete

Décadas inteiras a fazer contas complicadas, a montar experiências complexas e a analisar dados, para afinal tudo ser reduzido a um rodapé religioso. Ah, pois. Porque a Física é um ramo da teologia, e ninguém melhor do que os padres para explicarem o triunfo do modelo padrão. Se «manipulação» e «aproveitamento» significam alguma coisa, o programa de Fátima Campos Ferreira promete hoje elevar esses conceitos a novas alturas. Dedico-lhes a imagem abaixo.
Nota: o bosão de Higgs passou de «partícula deus que a carregue» a «partícula divina» graças(!) a este livro.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Revista de blogues (9/7/2012)

  • «Não me parece convincente a fundamentação da decisão do Tribunal Constitucional sobre a inconstitucionalidade da suspensão do 13º e do 14º meses de remuneração do pessoal do sector público com remunerações acima de certo montante. (...) a única fundamentação da decisão é uma alegada violação do princípio da igualdade, por estar abrangido somente o pessoal do sector público, enquanto os trabalhadores do sector privado ficam isentos dessa privação de rendimentos. Na lógica do Acórdão a inconstitucionalidade não está propriamente no sacrifício financeiro imposto aos funcionários públicos mas sim no facto de não se ter imposto semelhante sacrifício aos trabalhadores do sector privado...
    Ora a verdade é que só pode comparar-se aquilo que é comparável. E a meu ver é inegável que em matéria de finanças públicas há uma óbvia distinção entre os dois universos: os funcionários públicos pesam na despesa pública, porque são pagos pelo orçamento do Estado (lato sensu), com dinheiro dos contribuintes, ou com dinheiro tomado de empréstimo, que os contribuintes hão-de ter de pagar. Além disso, como é notório, os níveis de remuneração e de segurança no emprego no sector público são globalmente mais favoráveis do que no sector privado. Por isso, pode haver razões relevantes para que em matéria de contribuição excepcional e temporária para os encargos públicos, se possa exigir mais ao sector público (onde se contam os próprios deputados peticionantes e os juízes do TC...) do que ao sector privado. (...)» (Vital Moreira)

Compilação do despesismo e corrupção - 16 de Março de 2013

Este Governo não é austero, mas despesista. Negociatas que materializam a elevada promiscuidade entre os líderes políticos e os interesses privados estão a custar milhões ao país.
o escrevi, já o repeti, já o reforcei várias vezes.

Mas as notícias que o demonstram continuam a surgir, mais e mais. Cada vez que quero fazer uma referência a esta situação, verifico que as listas que elaborei no passado se tornaram rapidamente obsoletas. Ainda não digeri a indignação com o último escândalo, e já surge nas notícias um ainda mais vergonhoso.

Este post será diferente dos outros que escrevi sobre este assunto, pois pretendo que esta lista vá sendo sucessivamente actualizada à medida que novas notícias surgem.

domingo, 8 de julho de 2012

Só para ficar registado

O CDS/PP estabeleceu relações com o Partido Comunista da China. Não sei de que parte é maior o cinismo. Mas o dinheiro tudo lava, pelo menos na política.

Deriva de direita em caras - II

Recentemente coloquei neste blogue uma imagem que pretendia mostrar as mudanças nas convicções  ideológicas expressas de uma série de actores políticos conhecidos, já envolvidos na actividade política em 1977 e ainda vivos, a qual é reflexo de uma mudança análoga - à qual também já fiz referência gráfica (em três versões) - relativa aos programas dos partidos com assento parlamentar.

Alguns comentários suscitaram vontade de alterar a imagem para responder às observações/críticas que neles foram feitas. Aqui está, portanto, a nova imagem, que já incorpora essa informação:


As diferenças nos tamanhos das figuras são meramente acidentais. As pessoas representadas são, para a primeira linha da esquerda para a direita, as seguintes: Durão Barroso, Francisco Louçã, Garcia Pereira, Carlos Carvalhas, Zita Seabra, Manuel Alegre, Jorge Sampaio, Victor Constâncio, Paulo Portas, Marcelo Rebelo de Sousa, Helena Roseta, Pacheco Pereira, Basílio Horta e Paulo Teixeira Pinto.

A concentração dos meios de comunicação social

A concentração dos meios de comunicação social põe em causa o devido funcionamento dos mesmos.

Se existe efectiva concorrência e uma pluralidade de intervenientes, as notícias são mais determinadas pela realidade do que pelos interesses dos proprietários, e a Democracia pode funcionar adequadamente.
Mas se, pelo contrário, a capacidade de transmitir ao eleitorado aquilo que se passa está nas mãos de um grupo restrito, não podemos falar de uma Democracia autêntica: este grupo não eleito tem um tal poder de condicionar as percepções para servir os seus interesses, que poderia esmagar qualquer político honesto, favorecendo os mais subservientes.
No entanto, precisamente porque existe tanto poder a ganhar pela concentração dos meios de comunicação social, se não existirem leis que regulamentam o sector a tendência é a da concentração.

Por causa disto, e muito acertadamente, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que:

«1. Insta a Comissão e os Estados-Membros a salvaguardarem o pluralismo dos meios de comunicação, a assegurarem o acesso de todos os cidadãos da UE a meios de comunicação social livres e diversificados e a recomendarem melhorias, quando necessário;

2. É sua convicção que um sistema pluralista de meios de comunicação social constitui a condição fundamental para a manutenção do modelo europeu democrático de sociedade;

3. Constata que a paisagem mediática europeia está sujeita a uma crescente convergência, tanto no tocante aos meios de comunicação social, como no que respeita aos mercados;

4. Salienta que a concentração da propriedade do sistema mediático cria um ambiente que favorece a monopolização do mercado publicitário, cria barreiras à entrada de novos actores no mercado e conduz, também, à uniformidade do conteúdo mediático;

5. Observa que a evolução do sistema mediático é cada vez mais orientada para o lucro e que, conse­quentemente, os processos societais, políticos ou económicos, assim como os valores consagrados nos códigos de conduta dos jornalistas não estão convenientemente salvaguardados; considera, assim, que o direito da concorrência deve estar interligado com o direito da comunicação social, a fim de garantir o acesso, a concorrência e a qualidade e de evitar conflitos de interesses entre a concentração da propriedade dos meios de comunicação social e o poder político, que são prejudiciais para a concorrência livre, a equidade ao nível da actividade e o pluralismo;»

Mais importante ainda, a Constituição da República também aborda este problema, no nº4 do artigo 38º, que diz:

«O Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social  perante o poder político e o poder económico, impondo o princípio da especialidade das empresas titulares de órgãos de informação geral, tratando-as e apoiando-as de forma não discriminatória e  impedindo a sua concentração, designadamente através de participações múltiplas ou cruzadas.»

Ainda assim, continua a verificar-se em Portugal um verdadeiro vazio legislativo. E ele tem conduzido, como por toda a Europa, à inevitável concentração dos meios de comunicação social. Ela pode ser verificada à medida que os grandes grupos (Cofina, Impresa, Media Capital, Lena, Impala, Ongoing, Controlinveste) vão adquirindo mais meios de comunicação social, e justifica que o Sindicato dos Jornalistas afirme que «os níveis de concentração actuais são excessivos, ameaçam o pluralismo e a liberdade de expressão e de imprensa e empobrecem a democracia». Mas não podemos observar todo o quadro devidamente: seria necessário conhecer a estrutura accionista para ter uma noção adequada da situação.

Infelizmente, o que me levou a escrever agora este texto foram as recentes más notícias a este respeito: «Será feita a vontade da maioria: os diplomas do BE e do PS que obrigariam à divulgação de toda a estrutura accionista dos órgãos de comunicação social serão chumbados na próxima sexta-feira pelo PSD e CDS.»

Quem é que tem a ganhar com a concentração dos meios de comunicação social, ou com a nossa ignorância a seu respeito?

sábado, 7 de julho de 2012

A volta a Portugal em apupos e vaias de Cavaco Silva

Cavaco Silva é cada vez mais o Presidente de alguns portugueses. É perfeitamente inédito para o segundo mandato de um Presidente da República.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

“Fui vítima de chantagens e de ameaças”, diz membro da ERC

É esse o título desta notícia do Público que até a mim, que já venho alertando para os instintos autoritários desde Governo há algum tempo, me surpreendeu.
Passo a destacar o seguinte:

«Raquel Alexandra, membro do conselho regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), afirmou ter sido vítima de “chantagens e de ameaças” por “quem queria” que a deliberação sobre o caso Relvas/Público “tivesse um determinado resultado”.

“Houve uma tentativa de instrumentalização dos membros do conselho regulador, indirecta, triste, através do poder editorial. Por quem não faço a mínima ideia, mas por quem queria que a deliberação tivesse um determinado resultado”, denunciou Raquel Alexandra, na comissão parlamentar para Ética, Comunicação e Cidadania, no âmbito de um requerimento feito pelo Bloco de Esquerda (BE).

Indicada pelo PSD para integrar o conselho regulador da ERC, Raquel Alexandra disse que foi “vítima de chantagens e de ameaças”. “Foi extremamente grave. Não imagina o ponto a que as coisas chegaram”, acrescentou.»

Se este Governo tivesse tido uma excelente gestão da economia e finanças, uma que aumentasse a prosperidade e qualidade de vida dos portugueses, enfrentasse os interesses, atacasse a corrupção, apostasse no futuro, na educação, na ciência e tecnologia, na protecção do meio ambiente - como se sabe, fez o contrário disso em cada uma destas questões  -, ainda assim estes ataques tão perversos e constantes à nossa Liberdade, à nossa Democracia seriam razão suficiente para defender o seu fim imediato.

Isto justifica uma moção de censura, uma que devia contar com o voto favorável de toda a oposição, e de todos os deputados dos partidos da coligação com espinha dorsal e um mínimo de integridade. Estes ataques à Democracia dos quais este é apenas o mais recente exemplo - que falta esclarecer completamente, mas aparenta ser da maior gravidade -, só por si, justificam a queda deste Governo vergonhoso.

Os ataques deste Governo perigoso à Democracia são tais, que é Raquel Alexandra, apontada pelo PSD para o seu cargo ERC, quem confessa: «Não imagina o ponto a que as coisas chegaram».
Chegaram longe de mais.
É altura de reagir.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Presidente de órgão assina relatório sem saber o que está lá escrito

Carlos Magno, presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social, «estava convencido» de que a expressão «pressão inaceitável» estava escrita no relatório que mandou escrever, assinou e votou favoravelmente.

A religião do futebol

O Carlos Guimarães Pinto parece não entender que o principal problema da religião do futebol não é distrair as pessoas: isso, em abstracto, não tem realmente grande mal. E é tão legítimo como qualquer outra forma de entretenimento (embora haja entretenimentos mais sofisticados, mas quem sou eu...). O problema é outro: os religiosos do pé-na-bola são, regra geral, incapazes de criticar os subsídios estatais de que beneficia esta religião (caso de estudo: o «Euro 2004»). Todas as seitas do pé-na-bola, grandes (FCP, SLB, SCP) ou pequenas se unem no momento de exigir a bagalhoça do Estado para construir os seus estádios, mesmo que depois não sirvam para nada. E os adeptos lá vão, de cachecolzinho, celebrar o desperdício de dinheiro público. Há também a questão de se designar como pseudo-representantes nacionais um grupo de indivíduos dos quais se ignora a declaração de IRS...

E acabou-se o "11 por todos"!

O anúncio da GALP com que éramos constantemente bombardeados durante o recente campeonato europeu de futebol, a "Carta a Portugal" de seu nome, foi das coisas mais estúpidas a que eu pude assistir. Alguém deveria ter explicado ao menino Guilherme que, se ele não encontrar condições para ficar em Portugal, tal deve-se ao país. E é aos governos que ele deve exigir que prestem contas e que a situação melhore; não a uma equipa de futebol. Se assim fosse, a crise da Espanha teria acabado este fim de semana. Lamento que ninguém, na seleção de futebol, tenha esclarecido o menino Guilherme sobre isto, e ainda se tenham prestado a gravar aquele infeliz anúncio. Mas, já no Euro 2004, com o (também) patético anúncio do "Menos Ais" (um antecessor do "menos piegas"), a GALP nos mostrava o seu patrioteirismo mais bacoco (será que pagam cá os impostos todos?). Sempre com a direita no poder.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Só más línguas inventariam isto

Os serviços secretos, ainda por cima alemães, seriam capazes de destruir documentos sobre uma célula neonazi que matou dez pessoas sem ser incomodada por isso durante uma década?
E os mesmos serviços seriam capazes de manter milhares de páginas sobre dezenas de deputados de esquerda?
É evidente que a resposta a estas perguntas só pode ser «não». Nenhuma democracia se deixaria destruir assim.

Uma ideia genial

O chefão dos serviços de criminalidade organizada pelo Estado (vulgo «serviços secretos») afirmou numa Comissão Parlamentar que «seria uma mais-valia os serviços poderem ter acesso aos registos telefónicos dos seus funcionários, eventualmente até realizar escutas, e ver as suas comunicações electrónicas».

Acho a ideia genial. Os «secretitos» já efectuam escutas telefónicas, em violação da Constituição e da lei. Agora, uma parte dos serviços iria vigiar a outra parte, também em violação da Constituição e da lei. Depois, outra parte iria vigiar os que vigiam os anteriores, também em violação da Constituição e da lei. E por aí fora, até ao delírio total em que tivéssemos toda a gente a escutar toda a gente, em violação da Constituição e da lei (o que é que isso interessa?), numa espiral de crime iniciada por causa dos quatro potenciais terroristas islamistas residentes em Portugal. Lindo.

Como se não bastasse, os constitucionalistas debatem a violação da Constituição como se fosse um assunto sério. Está tudo louco.

Revista de blogues (3/7/2012)

  • «No child's body is irreparably altered by his first Holy Communion. But I would have the same views if it were my own church practising this. I haven't exactly been deferent to my own ecclesiastical authorities in matters of public policy and morals. So sorry about the insensitivity. But someone else's taboo is not mine. And I was much more insensitive when publishing drawings of the prophet Muhammed. But anyway, this is not about Judaism any more than it is about Islam. It is about human autonomy, and the freedom to have bodily integrity. I think that's a case worth making - until a boy is man enough to make the decision for himself.» (Andrew Sullivan)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Novo inquérito: a circuncisão deve ser crime?

Já está na barra lateral o novo inquérito, com a pergunta: «A circuncisão, quando efectuada a menores e sem razão médica, deve ser crime em Portugal?». Respostas: «sim»/«não»/«não sei».