quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Revista de blogues (30/6/2011)

  • «Amanhã celebra-se o feriado nacional que tem o nome brejeiro, sanguinolento e auto-contraditório de "Corpo de Deus".
    O novo primeiro-ministro já manifestou a intenção de rever o calendário de feriados nacionais, eventualmente eliminando alguns.
    Pois bem, senhor primeiro-ministro: espero que amanhã seja o último Dia do Corpo de Deus que é feriado nacional.
    (Pode-se, se se desejar, aumentar o número de dias feriados municipais, por forma a que alguns locais, como Vila do Conde, em que este dia é particularmente celebrado possam tê-lo como feriado municipal.)
    Até porque não faz sentido nenhum que um Estado laico tenha dias religiosos como feriados nacionais.» (Luís Lavoura)

Concorrência sim, mas devagar

O luso-liberalismo começou o seu choque de realidade: nos próximos meses vai descobrir-se que os empresários desta praia europeia gostam muito de subsídios do Estado e de terem os seus nichos de mercado salvaguardados. A campanha de Pinto Balsemão e Paes do Amaral contra a privatização da RTP é apenas o início...

«Nem Alá, nem Senhor»

O documentário «Nem Alá nem Senhor», da realizadora tunisina Nadia El Fani, já provocou  manifestações furiosas dos extremistas islamistas, que gritam barbaridades intimidatórias como «a Tunísia é um Estado islâmico» e «o povo quer criminalizar a laicidade». Não suportam que se debata a laicidade num país de maioria muçulmana, e que a realizadora seja ateia. Que ninguém se espante: viram-se cenas semelhantes em Lisboa há poucas décadas, por causa de uma caricatura com Papa e preservativo ou à porta de cinemas que projectavam filmes com «Maria» no título. Tunes não está assim tão distante de Lisboa.

Fica em baixo um excerto do documentário.

quarta-feira, 29 de Junho de 2011

«Matareis os vossos animais com crueldade e mutilareis as vossas crianças»

Não me indigna nem me entusiasma a proibição do abate ritual de animais (kosher ou halal). Se concordo que não anestesiar um animal antes de o matar é uma crueldade desnecessária (ainda pior quando se reza aos ouvidos do pobre bicho enquanto se lhe corta o gasganete), parece-me um exagero sentimentalista a ideia de que os animais de outra espécie que não a nossa têm direitos inalienáveis. Todavia, por princípio não aceito que um grupo de indivíduos se reclame o direito de fazer qualquer coisa que me é proibida por lei só porque seguem uma religião, seja ela qual for. Portanto, estou a favor. Porque, embora resolutamente antropocêntrico, não entendo por que a religião ou a tradição hão-de ser fonte de direitos, como pretende certo reaccionarismo pós-modernista.

E mais: como temem alguns judeus, ficaria realmente entusiasmado se se proibisse a circuncisão, sem motivo médico, de menores de idade. A integridade dos órgãos sexuais das crianças parece-me mais importante do que qualquer fantasma de «anti-semitismo» ou «islamofobia» que se queira invocar. Apedrejai-me, clericais.

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

terça-feira, 28 de Junho de 2011

A falácia da «liberdade de escolha»

O Miguel Noronha diz (a propósito do cheque-ensino) que «o que [pede] é que [lhe] seja permitido escolher os prestadores dos serviços ao próprio agregado». Este argumento é recorrente, mas falacioso. Quem quer escolher uma escola para os filhos já tem a liberdade de a escolher: nenhuma lei impede o Miguel Noronha de colocar os filhos numa escola privada; e, se escolher o sistema público, pode escolher entre a área de residência e a área de trabalho. Portanto, a propalada relação do cheque-ensino com a «liberdade de escolha» da escola é uma falácia: quem o defende está a defender, na realidade, que se subsidie a escola privada onde quer colocar os filhos.

Não se deve falar, a propósito do cheque-ensino, em «liberdade de escolha», mas sim em «subsídio estatal a escolas privadas». Porque é disso que se trata.

Trapalhada nos secretários de estado e aviões a pedais

O populismo do Estado Mínimo, a ilusão transmitida às pessoas de que se poupa dinheiro cortando no número de ministérios, nas viagens de avião do primeiro-ministro ou reduzindo o número de deputados já começa a gerar trapalhada. A escolha de um número populista e arbitrário de ministérios (10+1, tipo Futre, depois de uma partilha de pastas cheia de manhas) em vez da definição do ministérios em função do trabalho efectivo dedicado a cada área, teve como resultado a nomeação de 33 secretários de estado. As trapalhadas burocráticas para que os secretários de estado possam ter o mesmo poder de acção nos ministérios extintos, o tempo que se vai perder a mudar legislação, regulamentos, reajustamentos logísticos e de pessoal vão ter custos adicionais para o contribuinte. Um dos ministérios que é uma salada de temas, aquele gerido por Cristas, é o exemplo da irracionalidade deste executivo. Neste ministério vão ser geridos cerca de 90% dos fundos europeus, só...

Mas o episódio mais caricato foi a revelação de que o primeiro-ministro não poupou viajando em classe económica. Seria interessante saber se esta decisão não terá saído mais cara ao contribuinte com eventuais custos adicionais na segurança, dada a vulnerabilidade ao viajar em económica. As mega-empresas do sector financeiro mal-intencionadas ou o crime organizado agradecem essa vulnerabilidade certamente. Enquanto isso na banca, onde se recebe uma boa parte do empréstimo destinado a Portugal, os jactos privados não pararam de voar, os bónus milionários continuam a ser distribuídos e os pára-quedas dourados estão sempre à disposição em caso de alguma coisa correr mal.

Para dar maior realismo às medidas austeridade, Passos Coelho poderia encomendar aviões a pedais à Ryanair para uso do governo, com o ritmo da pedalada a ser comandado a chicote por Ricardo Salgado, José de Mello e Fernando Ulrich.

O divino Rui escreve direito por linhas muito tortas

Apesar das suas explicações, creio que o Rui Tavares fez mal em mudar para um grupo diferente daquele de que implicitamente anunciou que iria fazer parte, ao integrar a lista do Bloco de Esquerda sem dizer nada em contrário. Compreendo as razões que levaram ao conflito do Rui com Francisco Louçã, mas acho que seo Rui não consegue permanecer no grupo para que foi eleito deveria demitir-se. As razões por que o defendo foram expostas claramente por Vital Moreira. Acrescento o exemplo de José Barros Moura, que ao abandonar o PCP demitiu-se do lugar de deputado ao Parlamento Europeu que conquistara integrado numa lista partidária, por considerar que estavam alterados os pressupostos da sua eleição.
Aos que afirmam que, ao permanecer no cargo mas num outro grupo parlamentar o Rui está a cumprir melhor as expetativas dos que nele votaram, respondo que não sabia que o Rui Tavares tinha prometido cumprir o seu mandato fosse em que bancada fosse. Se fosse assim não teria votado nele. Acresce que a partir do momento em que se aceita que o Rui mude para os Verdes, também se teria de aceitar se mudasse para os conservadores.
De um modo geral creio que um deputado independente, como o Rui Tavares é, não deve entrar abertamente em conflito com o partido que o acolhe. Nesse aspeto este é um caso bem diferente, por exemplo, do da deputada Luísa Mesquita, que era militante do PCP. Luísa Mesquita era parte do partido (e não aceitou ser manipulada por este); o Rui Tavares não era parte do partido que o acolheu, não tendo demonstrado por este o respeito que devia (aqui refiro que não sou nem nunca fui militante deste partido). Pior: o Rui Tavares desrespeita o voto de muitos eleitores desse partido, tal como o PCP desrespeita quem em si votou ao substituir arbitrariamente Luísa Mesquita ou presidentes de Câmara.
Estou à vontade para defender este ponto de vista, por várias razões. No conflito que parece estar a ocorrer no Bloco de Esquerda, certamente prefiro o "lado" do Rui Tavares e do Daniel Oliveira (embora não concorde com esta atitude do Rui e receio que ela deite muito a perder). Votei no Bloco de Esquerda nas europeias, e por acaso até preferia que desde o princípio o Bloco fizesse parte do grupo parlamentar dos Verdes (é pena que não haja representantes desse grupo em Portugal). Certamente o facto de o Rui ser candidato ajudou ao meu voto (pelas qualidades que lhe reconheço, e não por ser amigo dele, que sou). Mas a verdade é que, desde que há Bloco, sempre votei no Bloco nas europeias. Eu voto em partidos. E, nas eleições europeias, é em partidos que se vota. Desejo felicidades ao Rui e espero continuar a poder votar nele no futuro, se for esse o caso. Mas neste caso acho que ele esteve mal.

segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Combate de Blogs 53

A minha participação no Combate de Blogs 53, na madrugada de domingo passado, pode ser vista aqui.

Corte radical no número de Secretários de Estado?

A confirmarem-se as notícias que correm, Passos Coelho terá diminuído o número de Secretários de Estado de 38 (no governo anterior), para 36 (no actual; corte de 5%). Na campanha eleitoral, prometera que passariam a 27 (corte de 30%). Presumo que a partir de agora também voarão todos em executiva.

sábado, 25 de Junho de 2011

Resultados do inquérito: governo para dois anos

Registaram-se 99 participações no inquérito «quanto tempo vai durar o próximo parlamento?». Trinta e cinco acham que vai durar entre um e dois anos, e vinte seis acham que durará os quatro anos completos. Quinze que durará entre dois e três anos, e nove que durará menos de um ano. Cinco responderam «entre 3 e 4 anos», e três «menos de seis meses». Seis responderam que não sabem.

sexta-feira, 24 de Junho de 2011

Revista de blogues (24/6/2011)

  • «Não percebo o entusiasmo à volta da ideia do cheque ensino. Quem põe os filhos num colégio, não procura apenas a excelência do ensino, o rigor e a exigência. Procura, sobretudo, a segurança da segregação social. É a segregação social que dá garantias de sucesso. Quem opta por certos e determinados colégios fica sossegado por saber que deixa os filhos numa espécie de condomínio privado, onde se ensina a caridade, se cultiva comedidamente a piedade, enobrece sempre o carácter, mas longe de pretos, ciganos, brancos que são como pretos, demais proscritos. É por essa razão, sobretudo por essa, que sujeitam os filhos a avaliações psicológicas, que se sujeitam eles próprios a entrevistas, onde explicam o que fazem e onde moram. Esmiúçam, ansiosos, detalhes e valores familiares, para se enquadrarem no perfil pretendido. O cheque ensino, em abstracto, elimina constrangimentos financeiros, permitindo que famílias mais pobres possam optar por estabelecimentos de ensino privados, mas não apaga o resto. Quem é da Brandoa, da Buraca, de Unhos, do Catujal, será sempre desses lugares. Os pais que escolhem o ensino privado, se, de repente, vissem a prole acompanhada pela prole das suas empregadas, procurariam rapidamente outro colégio onde a selecção se continuasse a fazer. Não condeno as preocupações dos pais que assim agissem. Percebo-os perfeitamente. Se a escola dos meus filhos fosse, assim de repente, por imposição do governo, inundada por camafeus pequenos, tratando-se por você, armados ao pingarelho, também eu correria a tirá-los de lá. Gosto pouco de misturas.» (Ana Cássia Rebelo)

quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Prémio de consolação

Concordo com grande parte das ideias que Nuno Crato apresenta aqui, algumas delas bastante radicais, mas sensatas:



É diferente falar e fazer, mas mas ver os problemas e as soluções de forma lúcida é sem dúvida um bom começo.

Parece-me que o seu contributo para reformar a educação vai ser positivo. Um bom ministro, num mau governo.

Razões para não acreditar

Alguns deístas apresentam Deus como uma abstracção infalsificável.
No que diz respeito a tal abstracção, tenho boas razões para nela não acreditar, com esta exposta por Bertrand Russel:

«Da minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá de porcelana girando em torno do Sol numa órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, sendo que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.
Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com toda a razão pensariam que estou a dizer tolices.
»

Não obstante, no que diz respeito a várias religiões teístas, em particular o cristianismo, tenho razões muito mais fortes não acreditar nas alegações feitas – a sua própria inconsistência interna, a incoerência entre as várias alegações associadas a cada uma destas religiões.

O video que se segue explica de forma muito clara e competente algumas das principais.
Tive muito prazer em vê-lo e quero por isso partilha-lo com todos:

terça-feira, 21 de Junho de 2011

A vertiginosa odisseia Nobre

Tal como a generalidade dos cidadãos, tive estima por Fernando Nobre até ao dia 17 de Fevereiro de 2010. Foi há dezasseis mesitos apenas. Nesse exacto dia, escrevi que «dificilmente [votaria para PR] em alguém que nunca foi eleito para um cargo político, nem nunca exerceu um cargo no Governo ou nas autarquias». No dia seguinte, notei a incongruência das suas convicções monárquicas com a candidatura a Presidente... da República, e acrescentei que nos arriscávamos «a perder um bom activista humanitário ganhando um mau Presidente». À época, muitos à esquerda assobiaram para o lado e hesitaram (ou até apoiaram). Mas, à medida que foram fluindo os discursos e as entrevistas, as contradições e a postura grandiloquente começaram a ser reconhecidas como oportunismo e demagogia. Todavia, no dia 23 de Janeiro de 2011 e apesar dos episódios caricatos da campanha presidencial, 580 mil portugueses e portuguesas votaram em Nobre misturando apreço pela AMI, rejeição dos partidos e do Parlamento, e ressentimento contra as pontes que Alegre corporizava à esquerda. Seguiu-se, em Abril, o convite de Passos Coelho, que Nobre aceitou com a condição de «ser Presidente da Assembleia da República». O episódio chegaria para caracterizar ambos os personagens envolvidos, mas tinha que haver um epílogo: Nobre tentou duas vezes e duas vezes foi rejeitado como Presidente do Parlamento, um cargo prestigiado para o qual se exige alguém com experiência parlamentar. Finalmente desiludido, Nobre tomou ontem a única decisão sensata desde que entrou na política: ficar no Parlamento. Contradiz uma promessa da campanha das legislativas, eu sei, mas esta é a única contradição que facilmente se lhe perdoa: porque agora pode sentar-se no Parlamento e mostrar o que vale, trabalhando na labuta parlamentar, como qualquer outro neófito da política, Nobre ou não.

Rui Tavares abandona a esquerda marxista

Três notas sobre o mais recente desenvolvimento da crise do BE.
  1. Tenho estima política por Rui Tavares, mas a razão invocada para abandonar o grupo parlamentar do BE (uma troca de posts com Louçã a propósito de saber se Daniel Oliveira fundou o BE ou não) parece um mero pretexto. Algo mais terá acontecido.
  2. Ao deixar no Parlamento Europeu a etiqueta «BE», presumivelmente estaria condenado à irrelevância se permanecesse no grupo da Esquerda Unitária Europeia. Ao juntar-se aos Ecologistas, parece responder ao dilema discutido nos comentários deste post, e escolher a esquerda que tem governado na Alemanha ou na França, contra a que há 20 anos se encontra, a nível europeu, mais acantonada do que antes.
  3. Um abandono também é uma desistência. Significa isto que a luta por transformar o Bloco foi perdida?

A social-democracia europeia rompe o bloqueio

Numa tomada de posição conjunta, o PS francês e o SPD alemão declaram que os resgates de dívida «tratam os sintomas mas não as causas», e defendem um «governo económico europeu democraticamente legitimado». Avançam como reivindicação central a «taxa Tobin» aplicada às transacções financeiras. Também sugerem a emissão de títulos de dívida europeia; a regulação europeia das agências de notação ou agências de notação de direito público; objectivos comuns europeus em matérias educativas e sociais (!) e indexação dos salários mínimos nacionais ao rendimento médio.

Um documento curioso. Nenhum destes partidos está no poder. Mas terão que mudar para valer a pena que lá cheguem. E este é um passo no sentido certo.

segunda-feira, 20 de Junho de 2011

O futuro do Bloco

Pela importância que a estratégia do Bloco de Esquerda tem para toda a Esquerda em Portugal, vale a pena voltar a citar Rui Tavares em relação a este assunto:

«O problema do Bloco nas sondagens não começou com o apoio a Manuel Alegre, nem com a moção de censura, nem com a falta à reunião da troika, nem com os possíveis ziguezagues entre uma coisa e outra.

Pedro Magalhães, politólogo e especialista em sondagens, publicou no seu blogue um gráfico no qual as intenções de voto no BE caem quando a campanha de Manuel Alegre começa a correr mal. Mas antes dessa descida o BE tinha também subido com Manuel Alegre, voltando a ser o terceiro maior partido em intenções de voto. O efeito, antes e depois, parece uma pequena montanha num vale não muito profundo. Cujo declive tinha começado no segundo de 2009. Foi aí que parou a imparável tendência de crescimento do BE.

Com efeito, o BE passou grande parte de 2009 numa cordilheira, sendo o terceiro partido mais votado, tendo resultados quase sempre acima dos dez por cento, chegando até a passar dos quinze. Durante talvez um semestre os inquiridos pareciam querer fazer do BE a grande surpresa política do país. Mas houve um momento, talvez um pouco antes das penúltimas legislativas, e certamente logo após estas, em que se percebeu que o BE não ia contar para a mudança — talvez compreensível — e que parecia contentar-se com isso — menos compreensível.

Semanas depois, o BE teve um péssimo resultado em Lisboa, onde tudo começara. A sua base precursora estava a tentar dizer-lhe algo.

[...]

Chegados aqui, o debate sobre o BE é crucial para toda a esquerda portuguesa. A grande esperança de dinamização nela representada pelo BE entra agora no troço mais difícil do seu caminho, e já há encruzilhadas à vista.

A primeira diz respeito ao tipo de debate que o BE quer fazer sobre si mesmo, escolha para a qual os seus militantes são inteiramente soberanos, mas que será vista com atenção por todos os portugueses de esquerda. [...]»

Vale a pena ler o texto todo, e reflectir sobre este assunto.

domingo, 19 de Junho de 2011

Revista de blogues (19/6/2011)

  • «A esquerda perde e a direita ganha eleições. E ganha com a ideologia e as receitas que estiveram na origem da crise. Este paradoxo é a grande questão que se coloca aos socialistas que estão a desaparecer do poder em toda a Europa ocidental. (...) O colapso do capitalismo financeiro, que criou uma oportunidade histórica para a esquerda, está, afinal, a beneficiar a direita. O que levanta o problema de saber para que servem os partidos da esquerda, os de protesto e os de governo. É uma questão ideológica que não pode ser iludida.
    (...) O capitalismo mudou de natureza para dar lugar a um hiper capitalismo financeiro sem entrave nem regras. Mudou também o processo produtivo. Desapareceram as grandes concentrações industriais que foram a base do movimento operário. A globalização trouxe a deslocalização e a fragmentação. A representação política e sindical tornou-se mais complexa.  (...) A ideia de que não há outra saída e estamos condenados ao poder dos mercados financeiros transformou-se num novo consenso, uma espécie de fatalidade veiculada por todos os meios através dos quais se estabeleceu esta nova hegemonia. (...) “Somos pessoas, não somos mercados”, clamou-se na Plaza del Sol. A democracia está cada vez mais refém do poder dos mercados financeiros. Vinte anos depois de Maastricht, não foi a Europa social que venceu o neoliberalismo, é este que está a destruir o modelo social europeu. Está em causa saber se o socialismo ainda tem sentido ou se, como advogou um dirigente do PS, do que se precisa é de “um choque liberal”. Não pretendo deter a verdade absoluta, não sou sectário e nunca fui dogmático, mas entendo trazer a público algumas sugestões:

sábado, 18 de Junho de 2011

O BE enquanto coligação

Numa notícia do Expresso confirma-se que o BE continua a ser, ao fim de treze anos e mesmo que não o assuma para o exterior, uma coligação: a Comissão Política é rigidamente constituída por quatro elementos da UDP, quatro do PSR, quatro da Política XXI e quatro «independentes» (espantoso termo para designar dirigentes de um partido). Se adicionarmos a este facto o cada facção manter imprensa e sites próprios, temos um «partido» que funciona internamente como coligação. E no qual as decisões devem resultar mais do equilíbrio de facções do que da vontade dos militantes.

não são só os que estão, são também os que disseram que não

Comentar nomes tem sempre um tom supérfulo; no fim do dia o que importa são as opções políticas. Mas, ao mesmo tempo, as opções políticas que o novo governo traz na manga são também muito mais transparentes quando constatamos alguns dos nomes que as querem implementar. Ou até mesmo, razão deste post, os nomes que foram convidados em primeiro lugar —e recusaram— para as implementar.

E aqui nem me estou a referir aos habituais velhos do restelo, profetas da desgraça, tão badalados nos media nas últimas semanas, como Eduardo Catroga, Vítor Bento ou mesmo Carlos Costa, cujas recusas dizem mais sobre os próprios do que realmente outra coisa: gostam muito de lançar umas postas de pescada na televisão de vez em quando, mas já quando a coisa implica sujar as mãos lá são os primeiros a abandonar o navio. E ainda bem, saudades esta gente não deixa! (Pese embora não fiquemos nada melhor servidos com Vítor Gaspar: «[...] "Menos Estado, melhor Estado" é a máxima do novo ministro das Finanças [que] [p]oliticamente é considerado um liberal da linha dura, que defende que o mercado deve funcionar por si próprio [...]»).

A recusa que eu queria aqui salientar, e que me parece mais representativa do programa que Passos Coelho irá tentar implementar na Saúde (o desmantelamento do SNS), é esta:

«[...] Entre as recusas está a de Isabel Vaz, da Espírito Santo Saúde, que não quis a pasta da Saúde por considerar que numa altura tão complexa não seria viável uma responsável de um grande grupo do sector assumir a tutela de uma das áreas onde vai ser preciso cortar a eito. [...]» [1]

E quem é a Isabel Vaz?, pergunta o Luís Fazenda perguntam vocês. Ao vivo e a cores:



Começa a parecer que de armas vamos precisar nós para ter acesso a cuidados de saúde...

O diabo está nos detalhes e o detalhe desta recusa diz-nos muito sobre o que nos espera. Mas, mais uma vez, não me parece que fiquemos nada melhor servidos com Paulo Macedo. Falhada a senhora dos seguros de saúde do BES, vem o senhor dos seguros de saúde do BCP. E este, já o conhecemos de outros tempos: ganhou notoriedade aquando da sua passagem pela Direção Geral dos Impostos, onde se mostrou um especialista na sua cobrança. Mas o que nos impostos era uma virtude —ou que até pode ser útil no BCP ao certificar-se que todos os clientes pagam a mensalidade da Médis— não o será necessáriamente na saúde pública ... a menos que o objectivo seja precisamente esse, o de essencialmente privatizar o SNS. Pois. E bom, se as coisas lhe correrem bem, pelo menos do seu ponto de vista, é de esperar que use o excendente do Ministério da Saúde para uma Missa de Acção de Graças na Sé Patriarcal, quando se despedir argumentando que ganha pouco... Épá!, mas parece-me que já vi este filme!


[1] --- Passos Coelho já tem governo quase pronto. E já houve algumas negas, iOnline [Junho 2011]

sexta-feira, 17 de Junho de 2011

O novo governo

Para a Saúde, um cobrador de impostos. Para a Educação, um membro do "Plano Inclinado". Em ambos os setores temos um programa claramente ideológico a implantar, o que por si não é mau mas deixa-me sinceramente preocupado. Se na Educação reconheço justiça a muitas das críticas apontadas por Crato, sempre achei que as soluções por ele preconizadas são as piores possíveis.
Como era de se esperar, desaparecem os ministérios da Ciência e da Cultura, no que constitui uma menorização destas áreas. Outra vez o programa ideológico.
Finalmente, tenho respeito por Assunção Cristas a nível profissional, na sua área (o direito), onde acredito que seja competente. Mas a sua presença à frente da agricultura só pode ser para satisfazer a quota do CDS, partido que sempre deu grande importância a este setor, em teoria, mas na prática não consegue mais ninguém para ocupar o cargo. É que olhando para Assunção Cristas dá vontade de lhe dizer o que Passos Coelho disse a uma mulher que o abordou na campanha: "vá pegar numa enxada!"

O governo da "Notícias Sábado"

São dois os membros do anunciado governo que escrevem (ou escreveram até há bem pouco tempo) na revista que acompanha as edições de sábado do "Diário de Notícias" e "Jornal de Notícias": Francisco José Viegas (secretário de Estado da Cultura) e Álvaro Santos Pereira (ministro da Economia). Se a isto acrescentarmos outro colunista regular, o cabeça de lista do PSD em Viana do Castelo Carlos Abreu Amorim (sendo que os dois últimos só escrevem sobre temas políticos e económicos, onde fizeram durante os últimos anos a sua propaganda liberal - o primeiro escrevia sobre o que gosta: restaurantes e charutos), e dado o leque limitado de colaboradores da referida revista, bem se pode afirmar que esta é uma maioria "Notícias Sábado". Em termos de política internacional, acresce que o primeiro e o terceiro são indefetíveis de Israel, sendo que o terceiro é sempre capaz de encontrar uma justificação para as maiores patifarias, quaisquer que elas sejam, do estado judaico. Valha a presença, na coligação - vamos ver por quanto tempo... - do (já de si desequilibrado) Fernando Nobre para, pelo menos neste aspeto, equilibrar um pouco as coisas.

um retrocesso de 20 anos

É preciso recuar ao ano de 1991, no início do XII Governo Constitucional de Portugal, para não encontrar na lista de Ministérios as palavras "Tecnologia" e "Cultura". Temas ao mesmo tempo suficientemente distantes e suficientemente chaves do desenvolvimento, para percebermos que o retrocesso de 20 anos que hoje encaramos vai muito além destas duas simples palavras.

Os mercados estão quase a acalmar...

"Juros da dívida batem máximos históricos a dez anos"

Sugiro que deixemos de trabalhar para o nosso bem-estar e para o bem-estar dos nossos filhos. Vamos trabalhar todos para acalmar os mercados.
Quando o homo-sapiens apareceu na savana, teve que trabalhar para acalmar as feras. O homo-sapiens moderno e sofisticado tem uma tarefa muito mais nobre: acalmar os mercados.

quinta-feira, 16 de Junho de 2011

European Daily

Foi lançada a edição zero do novo jornal europeu , o European Daily.
Produzido em Londres com ajuda de muitas mãos de outros cantos da Europa, esta publicação assume a perspectiva europeia da notícia por contraponto à habitual perspectiva nacional dos jornais publicados em cada país.
Esta primeira edição é prometedora, mas veremos se funciona periodicidade diária, embora seja uma vantagem evidente sobre os dois concorrentes óbvios: o Courrier International e o site Press Europ

O último sobre Monckton Bunkum

O último vídeo sobre esta figura influente que polui com mentiras e equívocos o debate público sobre as alterações climáticas, e que ajuda a explicar como é que existe tanta desinformação em relação a este assunto:

quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Revista de blogues (15/6/2011)

  • «Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas. Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. (...) A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. (...)» (Pezarat Correia)
(Sobre a treta das «armas de destruição massiva», ler aqui.)

«Indignados», um movimento contra a democracia

Começaram por ocupar as praças, para discutir pacificamente. Mas começaram a achar-se donos delas e agora atacam um parlamento legitimamente constituído tentando impedi-lo de se reunir. Em Barcelona e noutros locais de Espanha está-se a verificar como o movimento da «democracia real», apesar das boas intenções de muitos, pode descambar facilmente no ataque à democracia realmente existente, a que depende do voto secreto, regular e livre da pressão de grupo. Ao quererem deslegitimar a representação, estão a acabar por se deslegitimar a si próprios.

terça-feira, 14 de Junho de 2011

Manifesto pela Ciência

O manifesto pela ciência é uma excelente iniciativa de investigadores e de empresários, nesta altura de mudança governativa. A avaliar pela miséria que foi a política científica do último governo PSD-CDS, não se esperam grandes anos para a ciência. É uma pena, porque foi apostando na ciência que muitos países saíram de crises profundas. Um dos casos de estudo é a Finlândia. Leia-se aqui um relatório da UE que descreve o sucesso das medidas adoptadas pela Finlândia para sair da crise profunda em que mergulharam no início dos anos 90. Eis um breve extracto:

"In the early 1990s, an economic crisis struck Finland. Until then, Finland had traditionally depended on the Soviet Union for up to a third of its exports. When the Soviet Union collapsed in 1991, as much as 25% of Finland’s export trade contracts became irrelevant virtually overnight. What followed was the deepest economic recession experienced by any European market economy since the second World War, as Finland’s unemployment rate rose from around 3-4% to nearly 20% within the space of a few months. At the same time, Finland’s foreign debt was virtually exploding.

The depth of the economic crisis in the early 1990s helped create a general national sense of urgency, which helped further bolster the role of science and technology policy in Finnish economic policy. By the early 1990s, the importance of technological development for societal and economic development had become widely accepted. There was a strong consensus regarding this issue. Thus, in spite of deep cuts being made elsewhere, the funding for science and technology remained the same and even grew. Because of the widespread sense of urgency, there was little resistance to this policy, even though it largely had to be funded by reallocating funds from other purposes and, notably, from privatisation of governmentowned
companies, as the soaring rate of government debt did not permit funding through loans."
"Towards 3%: attainment of the Barcelona target", European Academies, Science Advisory Council

segunda-feira, 13 de Junho de 2011

Revista de blogues (13/6/2011)

  • «As manifestações “acampadas” de Espanha tiveram a sua versão no Rossio lisboeta. Os animadores do protesto, que invocaram o exemplo da praça egípcia Tahrir (onde se concentraram os protestos pela queda de Mubarak), reclamam-se profetas da democracia “verdadeira” -- cuja proclamação se lia em inúmeros escritos em cartão pendurados na estátua do Rossio, com relevo para “Se o voto mudasse alguma coisa era proibido” – face à “falsa” do “statu quo”.

    (...)

sábado, 11 de Junho de 2011

Ainda sobre as convergências à Esquerda

O Rui Tavares escreveu um excelente texto, que vale a pena partilhar:


«É, apesar de tudo, injusto dizer que a esquerda portuguesa não consiga estar de acordo. Para dar um exemplo, perguntemos por que não consegue a esquerda portuguesa convergir e a resposta vem pronta: a culpa é do outro partido.

O Partido Socialista dirá, como quem constata uma evidência, que PCP e Bloco estão arrinconados numa confortável posição de protesto e que evitam, ao mínimo pretexto, implicar-se numa governação do país que seja pragmática.

Bloco e PCP dirão que o PS deriva para o centro quando está no governo, quando não aplica medidas que parecem ter saído direitinhas do manual da direita. Apontam para o legado de Sócrates e perguntam se alguém no seu perfeito juízo poderia esperar que fossem eles a salvá-lo.
[...]
Não se pode fazer convergência com quem é, no fundo, o aliado objetivo da direita. E quem é o aliado objetivo da direita? A resposta é simples: o outro partido. É mais do que claro que o PS é aliado objetivo da direita: não o viram assinar o acordo da troika? Entra pelos olhos adentro que o Bloco e o PCP são aliados objetivos da direita: não os viram deitar o governo abaixo?
[...]
Porque a esquerda, na origem, é uma aliança. Mais do que uma doutrina ou uma ideologia, a esquerda é a aliança daqueles que não são ricos nem poderosos. A esquerda é uma aliança de pessoas livres e iguais, fraternas entre si na mesma dignidade.

Sendo os ricos e poderosos naturalmente poucos, a esquerda terá de ser, para ter força, a união dos muitos. E esses muitos são — como é evidente — muito diferentes uns dos outros. Não são, não podem ser, todos da mesma seita. Não têm, e não podem ter, todos os mesmos objetivos de futuro, a mesma visão do mundo, ou o mesmo estilo de vida. Isso é impossível, e a esquerda que é esquerda luta para que isso seja impossível, e para que ainda assim haja unidade entre os muitos, os que não são ricos nem poderosos, os que se arriscam a ser lixados se não souberem fazer uma aliança. [...]»


Com uma maioria sociológica de esquerda, só esta luta fratricida entre os partidos da Esquerda explica o mais recente desastre eleitoral.

sexta-feira, 10 de Junho de 2011

Um Presidente, um governo, uma maioria... e ainda um tal de António Barreto

  • «(...) a adequação, à sociedade presente, desta Constituição anacrónica, barroca e excessivamente programática afigura-se indispensável. Se tantos a invocam, se tantos a ela se referem, se tantos dela se queixam, é porque realmente está desajustada e corre o risco de ser factor de afastamento e de divisão. Ou então é letra morta, triste consolação. Uma nova Constituição, ou uma Constituição renovada, implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, de lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política. Uma nova Constituição implica um reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania, actualmente de muito confusa configuração. Uma Constituição renovada permitirá pôr termo à permanente ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis. Uma Constituição renovada será ainda, finalmente, o ponto de partida para uma profunda reforma da Justiça portuguesa, que é actualmente uma das fontes de perigos maiores para a democracia (...)» (António Barreto no seu discurso de 10 de Junho)

A esquerda bloqueada

Persistir em afirmar que os 10%-20% de cidadãos que votam à esquerda do PS são «imbecis», ou teimar que o PS apenas «se finge de esquerda», são atitudes com diferentes origens e razões que se coligam para reforçar o mesmo grande bloqueio de sempre: o que impede que os governos do PS sejam abertos à sua esquerda, que fiquem sujeitos a maiorias precárias, e que em autárquicas e presidenciais se permita que maiorias numéricas «de esquerda» não se traduzam em mandatos e efectiva governação.

Há na realidade duas saídas para o bloqueio que os últimos seis anos ilustraram: ou o BE se transforma num partido suficientemente flexível para assumir responsabilidades governamentais; ou o PS se dispõe a ocupar o espaço à sua esquerda. No debate em curso no BE e na luta pela liderança do PS saberemos se alguém está interessado em desbloquear a esquerda.

Dia da Raça

quinta-feira, 9 de Junho de 2011

Ensino público ou cheque-ensino?

Reflexões que partem de um caso nos EUA, para falar sobre os méritos dos sistema de ensino público em geral:

Por que desce o Bloco – lições à esquerda

Para um indefetível trotskista, ou maoísta, ou estalinista, estas diferentes fações são incompatíveis e provavelmente não podem coabitar no mesmo partido. Para quem viva realmente no séc. XXI e ache que tais distinções fazem parte da história (e só dela), há um grande partido de esquerda de protesto em Portugal: o PCP. Nem sempre este partido se afirmou como esquerda de protesto, mesmo num passado recente, com Carlos Carvalhas; mas com a ascensão de Jerónimo de Sousa e a saída dos membros da Renovação Comunista, parece ser esse o papel que este partido reservou para si. Há setores do Bloco de Esquerda que o querem disputar, mas quem esteja de fora dessa área acha que esse papel já está bem entregue ao PCP. Mesmo se acabem a votar com o protesto na cabeça, mais facilmente preferem votar num protesto inequívoco como o do PCP que num voto ambíguo, nem que seja para castigar essa mesma ambiguidade (foi o meu caso). O essencial já foi dito, e bem, a meu ver, pelo Daniel Oliveira: se o Bloco insistir em rivalizar com o PCP, mais do que um partido sem futuro torna-se um partido inútil. E isto é particularmente triste quando, com um PS que nunca esteve tão encostado ao centro, faz falta como nunca antes uma força partidária de esquerda reformista mas que jamais pactue com a direita.
Acresce o que já aqui escrevi, num comentário a um texto do Miguel: reparemos nas eleições todas desde 1990 (pelo menos): a esquerda à esquerda do PS só tem bons resultados quando é garantido que o PS ganha (1999, 2005 e 2009). Quando a vitória do PS está em dúvida (2002 e agora), anteriormente o PCP e presentemente o Bloco vêm por aí abaixo. Há um potencial eleitorado destes dois partidos que, apesar de naturalmente votar neles, claramente prefere o PS no poder. E não há maneira de estes partidos perceberem isso, sendo que o Bloco, cujo “núcleo duro” ou “eleitorado mínimo garantido” é muito inferior ao do PCP, é quem mais se prejudica por esta atitude.

O tempo do Bloco

Ando a ler "Que faire?" de Daniel Cohn-Bendit, onde se resume o percurso político dos principais partidos Verdes europeus desde o início dos anos 80 até à actualidade. Foi um percurso de 30 anos em que os resultados eleitorais foram subindo de década para década, dos 2% aos 10%, com trambolhões de volta para os 4% e para os 2%. No entanto, o Europe-Écologie (França) obteve 16% e os Verdes alemães atingiram os 12% nas eleições europeias de 2009. No mesmo ano os Verdes alemães obtiveram 11% nas legislativas. O estado federado de Baden-Württemberg é a partir deste ano governado por um Verde, à cabeça da coligação com o SPD.

Do ponto de vista da política económica, social e ambiental estes partidos ecologistas atraem nos respectivos países um eleitorado muito semelhante ao do Bloco. Em Portugal o PCP sequestrou a sigla dos Verdes, mas é incapaz de atrair esquerda não-marxista, socialistas, ecologistas, libertários, liberais de esquerda, toda essa fauna política que vota BE em Portugal e vota Verdes na Alemanha e em França.

Em apenas 10 anos o BE saltou dos 2,4% em 1999 para os 9,8% em 2009. Sabíamos que os 9,8% eram bons demais para ser verdade, havia ali muita vacuidade, gente descontente mas sem convicções, oportunistas, entre outros perfis pouco recomendáveis. Descer para 5,2% foi mau, mas o mundo não acaba amanhã. Tal como os Verdes europeus precisamos de tempo para consolidar, consolidar a nível local, consolidar a organização e consolidar a ideologia, calibrá-la com a realidade e a diversidade do nosso eleitorado e dos nossos aderentes. O BE pode e deve pensar em participar nas decisões do país (a nível local, regional ou nacional) até ao final desta década. O planeta não espera, as crises ambientais que se avizinham vão requerer as políticas ambientais das nossas esquerdas. No domínio económico, olhando para a Grécia e Irlanda, temo que a realidade vá dar razão ao BE muito mais cedo do que se espera.

quarta-feira, 8 de Junho de 2011

Ille Flotante?

Para animar! (aos 1min e 20s)

A culpa não é de Passos Coelho nem de Portas

Repetidamente se escuta ou lê, por parte de dirigentes do Bloco e do PCP (especialmente este último), que grande parte dos eleitores que agora votaram no PSD rapidamente deixarão de apoiar o governo, assim que as suas medidas começarem a ser postas em prática. Neste caso concreto não têm razão nenhuma pois, como afirma (exultante e com razão) o João Miranda, o programa da direita era bem claro. O povo não pode dizer que foi enganado. Daqui só há três atitudes a tomar. A primeira é aceitar que a vontade do povo é a de implementar um programa ultraliberal. A segunda é contestar tais medidas na rua porque “o povo foi enganado”. Tal paternalismo é típico da esquerda, mas equivale necessariamente a achar que o povo é estúpido ou, no mínimo, inconsciente. Tal deveria ser dito claramente, e é isto que, infelizmente, nenhum partido faz. (Por exemplo, teria ficado bem a José Sócrates, há seis anos, quando foi eleito com maioria absoluta, ter prevenido que muitos os que nessa noite o aclamavam seriam os que contra ele iriam protestar daí a uns meses.) A terceira hipótese é contestar porque se é abertamente contra a democracia parlamentar em que vivemos (é o caso de diversos elementos do Cinco Dias).
Convinha que quem se prepara para abrir mais uma época de contestação popular (nomeadamente o Bloco e, especialmente, o PCP) esclarecesse em qual das três hipóteses se encaixa. Da minha parte a hipótese 1) é inexorável e indesmentível. Se vier a tomar parte em contestações de rua, faço-o na hipótese 2: como diria um professor meu, “consciente da inconsciência do povo”.

Inquérito: quanto tempo vai durar o próximo Parlamento?

O inquérito já a decorrer pergunta quanto tempo vai durar o próximo Parlamento.
Respostas:

  1. Quatro anos;
  2. Entre 3 e 4 anos;
  3. Entre 2 e 3 anos;
  4. Entre 1 e 2 anos;
  5. Menos de um ano;
  6. Menos de seis meses;
  7. Não sei.
O inquérito, esse, durará quinze dias.

Revista de blogues (8/6/2011)

  • «O sr. Passos Coelho tem dado muitos tiros no pé (talvez por isso, este nom-de-plume me soe a personagem de emérito deputado numa novela romântica de fim de século). Nenhum me mereceu comentário, não traz grande glória bater na inexperiência dos outros. Mas esta coisa de invocar a governação de Cavaco, como se de uma idade de ouro se tratasse, tem direito a destaque.
    (...)
    Nós ficámos com a economia do betão e da promiscuidade entre políticos e empresas - os boys originais -, com as fraudes dos fundos comunitários e concessões de obra, com o "capitalismo popular", com as hipotecas bonificadas pelos contribuintes, com as reprivatizações de encomenda. Com a refundação do clientelismo, o desmantelamento de frotas de pesca e marinha mercante, e o enterro da agricultura por meia dúzia de jipes, campos de golf e caçadas ao javali. Com o estímulo à assimetria litoral, o descarrilamento da ferrovia e a promoção da auto-estrada e do crédito ao consumo. Foram dias de coutos de loureiro e de todos os outros santos, de escândalos de corrupção semana a semana, de meias de turco branco, de derrapagens trilionárias de orçamento e respetivos contorcionismos no tribunal de contas, da invasão de gelados da menorquina e de fruta sensaborona, do estrangulamento da imprensa, do poço que passou a fonte, das marquises espelhadas, dos negócios das OGMA e da OGMA, do fim do ensino superior técnico e começo das licenciaturas inúteis, das universidades de vão de escada - formando gestores e advogados para o desemprego-, das requisições civis em dia de greve, das cargas e mangueiradas policiais, da tecnocracia arrogante, sem ideias nem ciência, dos G-men cinzentões, do moralismo pacóvio, da "televisão da Igreja", de Lynce, Borrego, Isaltino, Cadilhe, Duarte Lima, Costa Freire, Silva Peneda, Braga de Macedo...

terça-feira, 7 de Junho de 2011

Foi esta gente que o povo elegeu

Hoje vou-me atirar para fora de pé. Com a minha vincada tendência apolítica e eczema súbito sindical, não esperaria de mim própria ver-me aqui a redigir um manifesto a favor dos abastados.

Mas ontem, estando muito entretida a assistir à conferência de imprensa com o nosso novo PM (rapaz em quem depositei o meu voto de confiança, devo confessar), assisti à colocação de uma velha questão acerca do sistema de saúde em Portugal.

Perguntava um qualquer jornalista se iríamos assistir a alguma reforma no actual sistema das taxas moderadoras no sentido de as classes mais favorecidas pagarem mais pelos serviços de saúde.
Optando pela resposta politicamente correcta, Pedro Passos Coelho referiu que era cedo para avançar com respostas definitivas mas que lhe parecia justo onerar as classes mais favorecidas para poder assegurar o atendimento a quem menos pode.

Ora isto pode parecer justo num sistema democrático. Mas irrita-me. Primeiro porque as classes mais abastadas pagam uma percentagem de impostos alarvemente superior à das classes desfavorecidas, facto que, em si, já lhes deveria permitir entrar no Hospital de Santa Maria pela porta grande. Depois porque, não encontrando resposta no sistema nacional, vêem-se obrigadas a recorrer a seguros de saúde que obrigam a uma valente renda adicional mensal.

Na prática (digo eu do alto dos meus sapatos burgueses), as classes favorecidas só recorrem ao serviço público quando a coisa está tão preta e a emergência é tão grande que não lhes resta outra alternativa. E, se a assistência só é prestada em casos de vida ou morte, parece-me que o mínimo que o governo podia fazer era dar-lhes uma borla.

Mas isto digo eu que não percebo nada de política, mas que estou farta de pagar a crise.

(Francisca Prieto, Albergue Espanhol)

Parabéns ao novo físico na política

Permitam-me endereçar os parabéns ao novo deputado Paulo Sá, eleito pela CDU no círculo de Faro. Se o Mariano Gago era um professor, o Paulo é quase um colega de curso: doutorou-se no mesmo departamento da mesma faculdade onde 2/3 dos elementos deste blogue se licenciaram. Se o Zé Mariano é um experimentalista, o Paulo é um teórico de altas energias. Entre outros temas a que certamente se irá dedicar, esperemos que seja uma voz da ciência no parlamento, ciência que, tradicionalmente, com a direita no poder, é muito mal tratada.
Aproveito para recordar que, ao contrário do que foi diversas vezes repetido por diferentes comentadores na noite eleitoral, a CDU não beneficiou do alargamento do número de deputados do círculo de Faro para eleger o Paulo Sá, que nesta eleição seria eleito com o número de deputados antigo.

O Bloco tem futuro?


Pela blogosfera e pelo Facebook, circulam duas teses opostas explicativas da derrocada do BE: ou o BE errou ao apoiar Alegre (tese favorita da esquerda mais radical), ou o BE errou ao derrubar Sócrates (tese preferida pelos próximos do PS). Embora contraditórias, ambas as teses podem estar simultaneamente certas (para diferentes segmentos do eleitorado).

O Bloco cresceu, entre 1999 e 2005, a partir de um eleitorado de extrema-esquerda que valia menos de 2%, a que acrescentou os descontentes com o conservadorismo de facto do PS. Que tenha crescido significativamente em 2009 (nas europeias e, percentualmente menos, nas legislativas), mostra como algum eleitorado de esquerda e/ou flutuante acreditava que o BE poderia desempenhar, à esquerda, o papel de que o CDS tanto beneficia à direita. Para além da IVG e dos casamentos de homossexuais, o BE mostrava-se menos entrincheirado que a CDU, mais atento a novos movimentos sociais e muito popular entre os jovens.

Mas o problema do Bloco não é o programa, e nem sequer a ideologia explícita: é a estratégia. Pelo que julgo perceber, cada uma das diferentes facções que o constituem tem a sua: uma (minoritária), defende a aliança com o PCP; na direcção nacional, uma prefere a colaboração com o PS, enquanto outra quer que o BE substitua o PCP (e a terceira não sei). Posso não ter nada com isso, porque nunca tive partido. Mas sempre disse neste blogue que prefiro um governo de esquerda a um governo do PS sozinho. E, como muitos, pensei que o Bloco poderia desbloquear a esquerda. Por toda a Europa, dos Verdes alemães à Itália e à França, diversos pequenos partidos de esquerda conseguem colaborar com os socialistas locais sem que percam a honra ou o eleitorado. Mas são, ao contrário do BE, partidos unitários.

Admito que o ano da tróica seria o pior para o fazer, mas o BE poderia ter dito explicitamente que queria ser governo e acrescentado onde e como marcaria a diferença. É possível que o PS nunca o quisesse, o que a ser verdade deveria ser assumido de uma vez por todas pelo maior partido da esquerda. De qualquer modo, a próxima legislatura será terrível para o BE: o PCP dominará o protesto de rua, com os «seus» sindicatos e a sua experiência de manifes, e o PS denunciará a corrupção da direita e defenderá os serviços públicos. O espaço do BE será menor do que nunca, o que será mau para a esquerda como um todo, porque significa que um PS que nunca se esforçou por ocupar o espaço à sua esquerda só voltará ao governo ou com uma nova maioria absoluta episódica, ou em mais uma experiência minoritária e (portanto) precária.

José Sócrates, Primeiro Ministro (2005-2011)

Dizem-me que Sócrates polariza. Que ou se ama ou se odeia o indivíduo. Imploro para diferir: nunca me pareceu um personagem tão interessante.

Em duas linhas dos livros de História, o primeiro governo de Sócrates constará como aquele que tentou algumas reformas arriscadas, que conduziram a seguir à perda de maioria absoluta, transformando o segundo governo, o de minoria, numa vítima fácil de uma crise económica e financeira global.

Atipicamente para um Primeiro Ministro do PS, Sócrates não deixará atrás de si nenhum grande avanço no Estado Social, como o Serviço Nacional de Saúde de Soares (e Arnaut), ou o Rendimento Mínimo Garantido de Guterres. (Ou o subsídio de desemprego e o salário mínimo de Vasco Gonçalves, que não era do PS mas que também não devia o seu poder a eleições).

No lado positivo, ficará o investimento em ciência e tecnologia, o esforço teimoso - mas limitado - para revogar alguns privilégios corporativos, e a legalização da IVG e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como emblemas (e algo mais, sejamos justos), o «Magalhães» e o «Simplex».

No lado negativo, a grande burrada das teimosas reformas de Maria de Lurdes Rodrigues, o reforço do poder dos serviços ditos «de informações», a política externa seguidista na qual ninguém imaginaria um Timor, e pelo contrário se viram muitos aviões da CIA com prisioneiros a passar. E, principalmente, a incapacidade de pensar a UE de outra forma que não um Conselho de Administração do continente com perpétuo CEO alemão.

Sofrível Primeiro Ministro, foi mau líder do PS e nunca tentou sê-lo da esquerda (ao invés de Sampaio, por exemplo). Preocupou-se exclusivamente com as vitórias nas eleições legislativas, desprezando a implantação do seu partido ao nível local e assistindo impávido a duas derrotas para a Presidência da República e a uma nas europeias. Pior ainda: se fosse um verdadeiro líder, teria compreendido que a partir de 2010 a sua continuidade era mais prejudicial que benéfica, e teria deixado que outro lhe sucedesse no partido (como Zapatero fez há dias, aliás).

Será um ex-PM que eu dificilmente imagino a candidatar-se a Presidente da República. Mas.

segunda-feira, 6 de Junho de 2011

Não compreendo

O texto que se segue reflete com certeza alguns preconceitos ideológicos. Posso ser parcial, mas não quero deixar de exprimir o meu ponto de vista.



Do que eu me posso recordar, o primeiro governo de maioria absoluta de Cavaco Silva empreendeu uma revisão constitucional que, entre outras coisas, permitiu abrir a economia portuguesa à iniciativa privada. A partir daí creio que se foi muito mais longe do que se deveria, tendo-se privatizado setores estratégicos de que o estado nunca deveria ter aberto mão. Mas reconheço que, provavelmente, naquela altura haveria um excesso de presença do mesmo Estado na economia. Embora lamente que se tenha ido tão longe, admito que alguma coisa teria que ser feita. Em particular na comunicação social: embora ache indispensável uma RTP pública, foi muito positivo aparecerem canais privados de televisão.
No governo de Cavaco Silva também se construíram infraestruturas. O tão maldito Centro Cultural de Belém faz hoje parte do património de Lisboa, mas falemos de vias de comunicação. Uma vez mais foi-se muito mais longe do que se deveria, e hoje somos (relativamente) o país com mais autoestradas da Europa, muitas delas desertas a maior parte do tempo, cuja manutenção custa um dinheirão e que, provavelmente, nunca deveriam ter sido construídas. Mas até 1991 as duas principais cidades do país não estavam ligadas por autoestrada. Era evidente uma necessidade de melhoria de infraestruturas, e o primeiro governo de maioria de Cavaco Silva teve esse mérito.
Finalmente, não sei precisar mas tenho ideia de que muitos idosos sem nenhum apoio ganharam uma pensão com este governo de Cavaco (ou viram-nas substancialmente aumentadas). Perdoem-me mas desconheço os pormenores. Mas tenho ideia de que há aqui mérito do governo.



Passámos de seguida para o último governo de Cavaco Silva. Não me recordo de nenhuma medida positiva deste governo que mereça entrar na história.



Reconstruir

O PS teve uma derrota histórica, o BE um grande (e o primeiro) retrocesso. Foi uma noite má para a esquerda portuguesa, apesar de a CDU se ter aguentado. Pela primeira vez, a direita cumprirá o famoso chavão sá-carneirista («um presidente, um governo, uma maioria»). A partir de amanhã há que fazer o balanço e aprender com os erros. Os tempos que vêm não serão fáceis: com a ajuda da tróica, Passos Coelho tem a oportunidade ideal para reverter o essencial das garantias sociais e laborais que foram construídas desde 1974. Será necessário reconstruir a esquerda para que a direita não destrua o que temos.

As minhas contitas

No território da República votaram menos 100 mil cidadãos em 2011 do que em 2009. Descontado o milhão de eleitores «fantasma», a abstenção terá sido de cerca de 35%, ligeiramente mais elevada do que em 2009.

O PS perdeu meio milhão de votos e o PSD ganhou meio milhão. O BE perdeu 270 mil votos (praticamente metade do seu eleitorado de 2009). O CDS ganhou 60 mil votos. A CDU perdeu 10 mil. Globalmente, a «esquerda» parlamentar perde 785 mil votos. A «direita» parlamentar ganha 560 mil.

Nos partidos extra-parlamentares, o PCTP/MRPP subiu de 52 mil para 62 mil votos, e o PAN teve 58 mil. Os outros, no seu conjunto, mantiveram os 125 mil votos habituais.

Os votos em branco passaram de 100 mil para 150 mil. Os nulos mantiveram-se rigorosamente nos 75 mil.

Conclusão: o meio milhão de votos que «flutuou» do PS para o PSD foi decisivo. O segundo movimento eleitoral mais significativo foi a derrocada do BE, que terá visto o seu eleitorado de 2009 dispersar-se para o PAN, para a abstenção, para os votos em branco, até para a direita. A CDU mantém o seu eleitorado.

domingo, 5 de Junho de 2011

uma pequena pergunta...

...para terminar a noite eleitoral: quantos meses (devo dizer semanas?) vão passar até que uma certa "esquerda" comece a ter saudades de José Sócrates?

e depois disto?

Primeiro, um agradecimento público pela aposta na qualificação, na ciência e na tecnologia, pelas renováveis, pelo "plano tecnológico" e pelos diversos "simplex"s, pelo combate ao corporativismo e pela defesa sustentável do modelo social.

Mas, agora, por tudo isso e por muito mais, a luta da esquerda terá que seguir mais forte que nunca.

ontem o país estava à beira do precipício...

...hoje decidiu dar um passo em frente.

Votem!

Seja em branco ou nulo, desde que em consciência.

Conheçam as propostas e programas dos pequenos partidos e dos grandes partidos (aqui estão os programas todos), reflictam, se for caso disso, e votem num deles.

Não se abstenham por preguiça. Ela vai sair cara.

Votar vale a pena.

sábado, 4 de Junho de 2011

Aquecimento global afecta produção agrícola mundial

(publicado no portal Esquerda.net)


Um trabalho científico publicado na revista Science de Maio analisa a produção agrícola mundial desde 1980 em função de vários factores, entre os quais o aumento de temperatura global registado nos últimos 30 anos decorrente da actividade humana. Entre os dez anos mais quentes até hoje registados, nove ocorreram entre 2001 e 2010. Dezembro de 2010 foi o 310omês consecutivo cuja temperatura ultrapassou a média de temperaturas do século XX. A última vez que um mês apresentou uma temperatura média inferior à do século XX foi o mês de Fevereiro de 1985. Esta tendência clara de aumento da temperatura média global reflectiu-se no trabalho publicado na Science. Nas principais regiões de cultivo registaram-se durante a época de crescimento da produção agrícola as variações da temperatura média expressas no mapa apresentado. Exceptuando as regiões agrícolas dos EUA e do Canadá onde se verifica um ligeiro arrefecimento, no resto do mundo registou-se um aumento até 3°C.

sexta-feira, 3 de Junho de 2011

O meu voto

Não dou, de forma nenhuma, importância a Miguel Serras Pereira ou João Tunes para, afinal, não votar no Bloco de Esquerda só por causa deles. Também não dou essa importância ao meu amigo Ricardo Santos pois, apesar de lhe ter dito o contrário (e na altura em que lho disse não estava a fazer bluff), e apesar do seu (se calhar incorrigível) sectarismo (e de muitos outros militantes do PCP), vou votar na CDU nestas eleições. Tal justifica-se por votar em Braga, e as sondagens porem em risco a eleição de um deputado com valor, Agostinho Lopes, que, sendo muito próximo de Carlos Carvalhas, representa um setor não tão ortodoxo do PCP. Se votasse, por exemplo, em Coimbra, o sentido do meu voto seria de certeza outro (no Bloco de Esquerda). Se votasse em Lisboa, Porto ou Setúbal, talvez – friso o talvez – fosse outro. Em Braga achei esta solução de compromisso.
Não espero muito deste meu voto. Espero que o PCP seja igual ao que sempre foi, e face ao governo que se adivinha eu quero oposição total (e nisso o PCP é bom). Por não esperar nada do PCP, não me apetece castigá-los tanto. Apetece-me castigar todos os partidos de esquerda: o PCP, pois claro, mas mais o Bloco. Pela sua indefinição ideológica, por num dia apoiar um candidato presidencial para no dia seguinte apresentar uma moção de censura: apetece-me castigar quem procede desta forma. Também me apetece castigar o PS, em quem votei nas últimas eleições, por me ter defraudado. E é isto. Muito negros tempos se adivinham; espero que, ao menos, nas próximas eleições legislativas, consiga votar com mais convicção.

À atenção do Ricardo Santos

Concordo plenamente que nos queixemos do desinvestimento fora dos grandes centros urbanos (embora o distrito do Porto não seja aquele que mais razão de queixa tem). Mas foi graças a um tribunal “de Lisboa” que a CDU pôde realizar o seu comício no Teatro Circo ontem, em Braga. É claro que não é um “tribunal de Lisboa”, mas um tribunal da República. Mas foi assim, com certeza, que os senhores de Braga receberam a decisão do Tribunal Constitucional: uma decisão “desses senhores de Lisboa”, que se querem “meter nos nossos assuntos”. (Até por isso o episódio me deu grande gozo.) Mas com isto quero dizer que nem todo o poder central é mau e, sobetudo, nem todo o poder local é bom. Voltaremos a este assunto.

Apesar do Tunes e do Serras Pereira

Trancrevo aqui uma série de impressões que troquei no Facebook com o meu amigo Ricardo Santos.

Ricardo Santos Em 2010, quando os comunistas do Porto alertavam para a diminuição de verbas do PIDDAC para o distrito, ninguém ligou muito. Hoje, o JN vai, e bem, buscar isto: "Estado deu cinco vezes mais a Lisboa do que ao Porto"

Filipe Moura O mesmo jornal, na capa, demonstra que é sobretudo graças ao distrito do Porto que a direita vai ter maioria absoluta. A tripeiragem não devia era receber dinheiro nenhum.

Ricardo Santos A direita terá maioria absoluta quer ganhe PS ou PSD.

Filipe Moura Não está agora em causa o apoiar-se o PS ou votar-se no PS. Está em causa distinguir entre quem quer manter uma escola pública, uma saúde pública, alguns (reconheço que muito poucos) setores estratégicos públicos... e quem quer privatizar tudo. Pelo menos distinguir entre o mau e o muito mau, e não simplesmente (para ti é tudo tão simples, não é?) achar que maus são "os outros", todos os que não estão connosco.

Filipe Moura Aqui em Braga é sempre difícil, pois não está garantida a eleição nem do candidato da CDU, nem no do Bloco. Estava sinceramente indeciso em quem havia de votar. Este teu singelo comentário acabou por me fazer definitivamente decidir. Sinceramente, obrigado.

Ricardo Santos Para mim é simples pegar em seis anos de PS no Governo e compará-los ao PSD. Depois verificamos que votaram lado a lado mais de 90% de tudo o passou pela AR. É daí que tiro a minha conclusão. A diferença entre nós, Filipe, é que tu contentas-te com o mal menor, eu quero o melhor.

Ricardo Santos bem, se era por isto que estavas indeciso podias ter dito há mais tempo que eu tirava-te a dúvida...

Filipe Moura Eu não me contento com o mal menor. Eu também quero o melhor, mas se queres melhorar as coisas não podes estar irredutível naquilo que consideras "o melhor". É matemático. É da teoria dos jogos.
Obrigado mais uma vez.

Ricardo Santos Irredutível? Quem? É mentira que as verbas do PIDDAC para o Porto sofreram um corte drástico? É mentira que no parlamento o PS e o PSD convergiram em mais de 90% das votações? Mas lamento ter-te ajudado a decidir votar no bloco. Não é que não faça sentido, que o bloco tb apoiou o Alegre, como o PS, aprovou a entrada do FMI na Grécia na AR, como o PS (and so on)

Filipe Moura Em política ter sempre razão não é o mais importante, Ricardo. O importante é os resultados concretos que se obtêm, as pontes e colaborações que se é capaz de criar. Admito que sim, que o PCP tem sempre razão. O grande problema do PCP é ess...e - o ter sempre razão e querer ter sempre razão. Em política tens que ser capaz de trabalhares com quem não tem razão. É por isso que, em democracia, o PCP não serve para nada. Só serve para me dizer "sim, temos razão." E daí?

Ricardo Santos Sim, Filipe, vota com o Tunes. Vai fazer a esquerda grande! http://agualisa6.blogs.sapo.pt/1837156.html

Apesar da Ana Cristina

É extraordinário como é que alguém reconhece que políticas de Sócrates são “de esquerda” (das que são enumeradas, só desconfio das parcerias público-privadas), mas “não lhe perdoa” terem sido “transformadas em operações de marketing, esvaziadas de sentido e convertidas a mero negócio.” Não sei muito bem o que é que isto quer dizer, mas nos dias de hoje qualquer ideia política, infelizmente, é uma operação de marketing. A política é mediatizada.
Desconfio que o que a Ana Cristina não perdoa ao Sócrates é ele provavelmente não ler as suas crónicas no Expresso nem os livros que ela traduz. Mas o que eu acho ainda mais extraordinário é que, num blogue onde tanto se defende a liberdade individual, a autonomia, a cidadania e eoutros palavrões que tais, tão candidamente se afirme que “foi Sócrates que nos entregou à direita”. Não, não é a culpa do povo português que se quer entregar à direita; se nos vamos entregar à direita, é claro que “a culpa só pode ser do Sócrates”. De quem mais?
Já que falamos de entregar, sugiro à Ana Cristina que entregue a alguém a responsabilidade de lhe pagar a conta do gás, pois senão, além do texto (bem escrito e com graça) que acabei de lincar, ainda vamos ler que, se lho cortaram, “a culpa é do Sócrates”.

Reveladores “Cinco Para a Meia Noite”

Os programas já têm um mês, mas quem não os viu e quer conhecer, num registo mais íntimo, os líderes dos principais partidos, deve ver os cinco “Cinco Para a Meia Noite” especiais a eles dedicados, disponíveis por exemplo aqui.

Paulo Portas e Francisco Louçã aproveitaram a ocasião para fazerem um comício em direto: vivem da política; são dois animais políticos. Mas não creio que fosse essa a ideia do programa.

Incrível a forma como Paulo Portas impôs tratar o apresentador do programa por tu, e que o apresentador o tratasse por tu também. Parece que o tratamento por tu na Lapa é dado ao povo (e para a criadagem, já agora); o tratamento por você é reservado para quem realmente se estima, como a família (mesmo pais e filhos). é incrível como o apresentador (um tal de “boinas”) não confrontou Portas com esta suposição. É incrível como o apresentador, que naturalmente tendia a tratar Portas na terceira pessoa, aceitava ser sempre corrigido por este (“trata-me por tu!”) e nunca lhe respondeu dizendo-lhe a verdade: “desculpe, eu não o conheço de lado nenhum!”

Pedro Passos Coelho e Nilton estavam ótimos um para o outro: o homem que escolheu Fernando Nobre para cabeça de lista do PSD em Lisboa e o mandatário para a juventude do mesmo Nobre candidato a presidente. Uma autêntica tertúlia da direita não cavaquista: entrevistador e entrevistado revelaram uma grande empatia e falavam com grande naturalidade de idas ao ginásio e empregadas domésticas. Parece que é isto que o povo português quer, ou é com isto que o povo português sonha.

Aos líderes do PS e do PCP ficaram reservados os melhores apresentadores. Na entrevista a Fernando Alvim, Sócrates voltou a confirmar as suas qualidades enquanto político, mas mostrou as suas limitações para além disso. Isso foi patente na forma impressionada como falou de um Berlusconi que lhe dava recomendações sobre os fatos de dois e três botões, com a autoridade de quem “já tinha sido alfaiate”. Noutras circunstâncias, se por um completo acaso Sócrates tivesse nascido em Itália e fosse italiano, provavelmente deixar-se-ia (como a maioria dos italianos deixou) seduzir-se pelo Cavaliere. A falta de cultura política dá nisto. Não que Passos Coelho seja melhor.

Falta de cultura política também é provável que Jerónimo de Sousa tenha, mas compensa-a com uma genuinidade que nenhum dos outros candidatos tem. Jerónimo foi o único que não falou de política nenhuma e foi ao programa, muito bem conduzido por Filomena Cautela, falar de si próprio, sem fazer de si o centro do universo. É já um hábito, quase um lugar comum, dizer-se isso do líder comunista, mas esta entrevista confirmou-o mais uma vez.

Palpite final

  1. PSD: 34.9% (+/- 2%)
  2. PS: 30.1% (+/- 2%)
  3. CDS: 13.7% (+/- 1%)
  4. CDU: 8.2% (+/- 1%)
  5. BE: 6.1% (+/- 1%)
  6. OBN: 7% (+/- 1%)
Os leitores são convidados a deixar os seus palpites na caixa de comentários.

quinta-feira, 2 de Junho de 2011

A ideia de privatização da RTP

A avaliar pela grelha semanal das duas estações privadas à hora a que podem ver televisão as pessoas que trabalham e estudam , a privatização da RTP deixa antever um futuro brilhante para um dos países da Europa que mais tempo passa à frente da televisão. Infelizmente para uma boa parte da população, de baixo nível educacional, que não lê, a televisão é o principal meio de educação. É esta xaropada de telenovelas, de concursos rasca e de telejornais sensacionalistas que lhes servem os privados de segunda a sexta:

TVI
19:32 Morangos Com Açúcar VIII
20:00 Jornal das 8
21:25 Remédio Santo
22:30 Anjo Meu
23:20 Sedução

SIC
20:00 Jornal da Noite
21:30 Peso Pesado - Diários
22:25 Laços de Sangue
23:40 Araguaia

Não haja ilusões a grelha televisiva de quem comprar a RTP (muito provavelmente a preço de saldos) não vai fugir muito disto. Se entrarmos ainda em conta com a brilhante ideia de acabar com o Ministério da Cultura - em certos meios do PSD há quem queira extinguir o Ministério da Educação - a hercúlea tarefa de recuperação do nosso atraso educacional será ainda mais difícil.

resumindo e concluindo...

Do diagnóstico estrutural ilustrado que discuti nestes dias, segue-se a pergunta habitual: e agora?

Devemos abandonar o euro, por forma a recuperar competitividade nas nossas exportações de baixo teor tecnológico? Bom, além de transmitir a mensagem errada relativamente ao paradigma de produção nacional que devemos desejar para Portugal, existe aqui toda uma outra série de problemas. Se é certo que a saída do euro e posterior desvalorização do neo-escudo baixaria o custo exterior das nossas exportações, não é menos certo que aumentaria, na mesma proporção, o custo das nossas importações. Se pensarmos na nossa forte dependência externa em termos energéticos, e mesmo em muitos outros bens de primeira necessidade (fruto de uma indústria em contracção), cedo nos apercebemos da enorme inflação a que estaríamos sujeitos, e resultante re-agravo, por esta via, do custo da produção nacional! E isto sem falar na questão da dívida externa: fixada em euros, com a desvalorização do neo-escudo levaria em pouco tempo a grande maioria das famílias e da economia à bancarrota; fixada em neo-escudos, levaria ao default automático do sistema bancário nacional, e à total incapacidade de Portugal se financiar externamente (por via da re-estruturação unilateral da dívida).

Devemos então manter-nos no euro? Naturalmente que isto apenas será viável se, ao mesmo tempo, compreendermos claramente os problemas da nossa economia. Mas, mesmo assim, com taxas de juro relativas à dívida pública absolutamente insustentáveis pela frente, o caminho não se apresenta nada fácil. É perfeitamente claro que este caminho apenas poderá ser viável num cenário de emissão de eurobonds para relançar o crescimento económico através do investimento público, como ilustrei aqui. Ora este é, sem sombra de dúvida, um cenário que pode demorar bastante tempo a materializar-se. Assim, esta é, de alguma forma, a estratégia de tentar aguentar o barco à superfície, no meio da tempestade, na esperança que acalme em breve — aliás a estratégia que o governo seguia na fase anterior ao chumbo do PEC4, combatendo por decisões favoráveis de Bruxelas. Honestamente, de um ponto de vista pragmático, não consigo vislumbrar outra solução.

E, neste caminho, se queremos realmente enfrentar os problemas da nossa economia, então a estratégia correcta passa necessariamente pelas apostas efectuadas nos últimos anos: o investimento em qualificação e em ciência e tecnologia; o investimento em infraestruturas; a aposta nas energias renováveis e na independência energética; a desburocratização da administração central e a aposta no e-government; a defesa sustentável do modelo social, do SNS, da escola pública e da segurança social; o apoio às empresas exportadoras; entre tantas outras. Estas são, sem qualquer sombra de dúvida, as apostas certas.

Algumas estão, certamente, comprometidas pela intervenção do FMI. Mas o pior que poderia acontecer no domingo seria achar-se, a nível eleitoral, que estas apostas não foram as apostas certas para Portugal. Isso iria deixar-nos, enquanto nação, sem qualquer visão ou estratégia para o futuro.

Em resumo, o sentido de voto é claro:

«[...] José Sócrates referiu depois o que considera serem os sete pontos principais do programa do PS: educação, com destaque para a escolaridade obrigatória até ao 12º ano; consolidação da aposta nas energias renováveis; apoio à afirmação do sector da exportação; investimento na ciência e tecnologia; avanço da agenda digital; modernização da administração e conclusão das redes de cuidados de saúde e redes de equipamentos sociais, com destaque para as creches.

“Um programa simples e com propostas claras”, resumiu. [...]»
[1]


[1] --- Sócrates apresentou programa do PS contra “aventureirismos radicais”, Público [Abril 2011]

Revista de blogues (2/6/2011)

  • «Será que um ateu, que abomina o catolicismo e os seus hediondos crimes ao longo da História da Humanidade, devia ser obrigado a dar uma Aula de Substituição de Educação Moral e Religiosa Católica?
    Mais uma vez, aconteceu hoje. E era suposto eu dizer o quê durante a aula? Que abomino tudo aquilo que é o tema da disciplina? Que não acredito em nada do que o professor deles lhes disse ao longo do ano lectivo? Que aquela disciplina não faz qualquer sentido na Escola Pública de um Estado laico? Que estar ali é a mesma coisa que obrigar um médico a eutanasiar alguém ou a praticar um aborto contra a sua vontade? Que me recuso a dizer seja o que for por motivos de objecção de consciência?» (Ricardo Santos Pinto)

diagnóstico estrutural ilustrado, 3/3

Para terminar a discussão que iniciei aqui e continuei aqui, recordemos a pergunta que concluía o último post: porque temos um paradigma errado no sector produtivo e exportador nacional?

O problema reside, naturalmente, nas fundações: a qualificação de trabalhadores e empregadores. Comecemos pelas qualificações gerais da população. Nos últimos 50 anos muito muito se tem caminhado, como podemos ver aqui. A taxa de escolarização aos 5 anos:


e aos 15 anos:


Para ajudar a melhorar estes números, assistiu-se recentemente também a um enorme esforço no combate ao abandono escolar, como podemos ver aqui:


Finalmente, alguns dados relativos à conclusão do ensino secundário, daqui. Podemos ver que, pese embora ainda nos encontremos a sofrer de um atraso estrutural, o nosso progresso recente nesta área tem sido de absoluto destaque:


Ou seja, o quadro começou negro mas tem vindo a recuperar lentamente. Contudo, conforme nos viramos para os empregadores, descobrimos que o quadro destes é ainda pior! Como podemos ver aqui, comparados com a UE27 os trabalhadores portugueses têm muito baixas qualificações, mas, na mesma comparação, os empregadores portugueses têm muito piores qualificações:


De facto, este quadro é de tal forma negro que podemos mesmo dizer que o grande problema da produção nacional não são os trabalhadores mas os patrões — que logo à partida não sabem gerir os seus empregados!

Ora este problema de gestão é também muito importante no que diz respeito à competitividade nacional, como foi bem ilustrado num artigo recente. Por exemplo, podemos ver que, regra geral, as empresas em Portugal são bastante mal geridas:


Mas ficamos substancialmente pior na fotografia quando comparamos, em Portugal, companhias nacionais (i.e., com gestão puramente nacional) e companhias multinacionais (i.e., com práticas de gestão internacionais):


O diferencial é aberrante no caso português, ilustrando claramente que uma grande componente na falha da nossa competitividade se encontra do lado do patronato, ao contrário da mensagem que muitas vezes é transmitida nos media. De facto, os mesmo trabalhadores, com gestões diferentes, produzem ganhos de competitividade também substancialmente distintos.

Para terminar, voltemos ao início destes textos, para deixar uma palavra relativa ao investimento público — um dos possíveis motores do crescimento económico. Devemos ou não devemos manter o investimento público numa altura de crise? No espírito deste post, ao invés de uma longa discussão sobre esta questão, limito-me a apresentar um gráfico com os dados, de um artigo recente. A análise diz respeito a 100 anos de dados macroeconómicos, aplicados ao Reino Unido. A conclusão é simples, comparando diferenças associadas à despesa pública e à dívida externa:


A consolidação fiscal não é solução para resolver o problema da dívida externa, muito pelo contrário. Um investimento público estratégico, orientado para resolver muitos dos nossos problemas estruturais mencionados anteriormente, é fundamental para podermos, no futuro, resolver o problema da dívida externa!