quinta-feira, 31 de março de 2011

Ensaios nucleares



Uma interessante animação (obrigado B.G.) que mostra a localização de todos os ensaios nucleares realizados até 1998. Desde então apenas foi realizado um ensaio em 2006 na Coreia do Norte. Reparem que os testes mais próximos de Portugal foram realizados na Argélia quando este território era ainda uma colónia da terceira potencia nuclear: a França.

Estima-se que tenham morrido cerca de 170 mil pessoas como consequência dos produtos de fissão altamente radioactivos espalhados na atmosfera depois dos ensaios nucleares realizados na atmosfera até 1963 ("De Tchernobyl en tchernobyls", Georges Charpak, Odile Jacob, pag. 94, 2005). Depois de 1963 os ensaios atmosféricos foram proibidos. Agora que se discute abundantemente o nuclear, convém referir que depois de Hiroshima esta catástrofe nuclear, os ensaios atmosféricos, foi a que fez mais mortos, embora de carácter invisível, pouco conhecida, difusa em todo o planeta, mas bem real.

O real governo de Portugal

O Primeiro Ministro (futuro incerto):


Os Ministros das Finanças, Economia, Trabalho e mais umas coisitas:


A Secretária de Estado:

O tipo que quer ser Primeiro Ministro:

quarta-feira, 30 de março de 2011

Da especulação e a subida dos preços

Lê-se frequentemente que a especulação no mercado de alimentos e de petróleo, é a causa por detrás da forte subida de preços. As grandes quantidade de fundos movimentados nesses mercados seriam prova de tal causalidade. Ainda há uns tempos o dizia o presidente da Partex.
Há aqui um equívoco comum, a ideia que os especuladores empurram obrigatoriamente os preços para cima. Pense-se na dívida pública portuguesa, cuja variação tem sido imputada aos "especuladores". O que tem acontecido aos títulos de dívida pública, é que o juro implícito tem subido. O juro num dado título na realidade não varia, está fixo contratualmente, o que varia é o preço a que se transaciona esse título. Quando o preço desce, quem o compra vai ter um rendimento superior ao que teria acontecido anteriormente, o juro implícito sobe. O que temos neste momento é portanto uma queda a pique nos preços dos títulos da dívida pública. Curiosamente também houve um aumento nas movimentações nesse mercado, durante a queda, tal como aconteceu na subida do petróleo.

Claro que há especuladores que manipulam o mercado para proveito próprio, mas achar que o fazem sempre no sentido que nos afecta, é no mínimo egocêntrico.

a glimpse into the future

«[...] A rescue package will be put together by the ECB and the IMF with them effectively controlling the economy, spending and austerity measures. These will be much more severe than those planned by Portugal’s’ Socialist ruling party. The IMF in their 2010 report on sovereign debt see Portugal’s public spending growing by no more than 0.5% over 20 years with the annual deficit being reduced to 6% by 2020 with 80% of the reduction happening by 2013. This can only be achieved by massive cuts in public services, wages and jobs with a corresponding rise in taxes. Of course as we have seen in the case of Ireland and Greece this only further weakens an economy and drives the deficit wider and creates a larger debt problem which is answered by more cuts. It is a race to the bottom which will impoverish an already poor country. [...]»

[1] --- Portugal: the prospect of a full bailout and more austerity looms in 2011, LeftBanker [Dezembro 2010]

terça-feira, 29 de março de 2011

Uma terra sem senhorios

Posso estar plenamente de acordo com as premissas e deduções lógicas do texto do Miguel, que na maior parte das vezes são indiscutíveis. Não estou é minimamente de acordo com o que o Miguel considera “interessante” ou “desastroso”, avaliações subjetivas e necessariamente morais.
Começo por esclarecer o que defendo sobre o assunto: compreendo a necessidade de um mercado de arrendamento de casa: ninguém sai de casa dos pais, seja para estudar ou trabalhar, para ir viver para uma casa própria (a não ser que os pais sejam senhorios e tenham alguma casa vaga). Tal como um namoro não tem que dar em casamento, e um primeiro emprego não tem que ser com um contrato sem termo (é legítimo e lógico um período de teste e adaptação), pelas mesmas razões uma primeira casa não deve ser definitiva, pelo que o arrendamento é a opção mais sensata. Mas considero que, tal como o emprego estável, a habitação própria é uma aspiração legítima. (E uma coisa não pode ser vista sem a outra: quem fala em liberalizar as rendas é exatamente quem fala em liberalizar os despedimentos. A agenda é a mesma.)
No prédio onde vivo, a construtora decidiu pôr alguns apartamentos à venda e manter sob sua posse outros, para alugar. Nas reuniões de condomínio a construtora comporta-se como “acionista maioritário” e basicamente faz o que quer: gere o prédio como se fosse seu (e é em grande parte), pois é do seu interesse manter uma boa reputação sobre os prédios que constrói. Da minha experiência, este esquema funciona bastante bem. Conheço outros casos semelhantes noutras cidades.
Bem diferente é aquilo de que o Miguel fala: “investir em habitação para arrendar por parte dos possíveis proprietários.” Quem compra uma casa somente com a intenção de a arrendar não está verdadeiramente interessado nela, pelo que não fará a melhor manutenção: está somente interessado nas rendas ao fim do mês. (E não me venham com a história das “rendas baratas” que não permitem obras de conservação: nas casas mais recentes e com renda mais alta a situação é a mesma – mais abaixo voltarei a este assunto.) Direi mais: quem compra uma casa (no passado era frequente ver-se prédios inteiros a serem assim comprados pela mesma pessoa – e é esta a situação da maior parte das casas antigas que o Miguel refere) somente com a intenção de a arrendar opta por uma renda segura, sem grande responsabilidade e sem nenhum esforço. Esse seu rendimento resulta somente das suas posses e em nada do seu trabalho (é análogo a um rendimento especulativo) – quem assim procede só está a criar riqueza para si e não está a beneficiar minimamente a sociedade. Embora estejam longe de serem os meus modelos, tenho mais respeito por empresários como Belmiro de Azevedo ou Américo Amorim que por estes senhorios, que nem sequer a casa construíram. A senhorios deste tipo o presidente da Câmara Municipal de Lisboa chamou, a meu ver com toda a legitimidade, “parasitas”.

Resultados eleitorais expectáveis de uma coligação BE+CDU

Feitas algumas contas com o simulador, os resultados previsíveis para uma coligação BE-CDU seriam animadores: este grupo passaria de 31 para 39 deputados (usando os resultados de 2009 como base, e correndo o simulador para cada distrito). O maior prejudicado seria, como é evidente, o partido mais votado. Em 2009, o PS teria tido menos cinco deputados, e o PSD menos três. Em 2011, o maior prejudicado poderá ser o PSD, se for esse o partido mais votado. Por outro lado, o CDS ficaria muito longe de ser a terceira força.

Nota final: os distritos em que esta coligação teria mais um deputado seriam Aveiro, Beja, Coimbra, Faro, Porto, Viseu, Setúbal e Viana do Castelo. Não investiguei o resultado adicionando os votos de outros partidos de esquerda (como o PCTP-MRPP), mas há outros distritos em que até uma centena de votos extra poderia mudar o cenário (caso de Portalegre).

Memórias de uma campanha suja

  • «Em 2004 eu trabalhava para a agência que viria a fazer a campanha que opôs Santana Lopes a José Sócrates (legislativas de 2005). Para os profissionais brasileiros vale tudo quando se está em campanha, e nesse tudo coube a criação do blogue Portugays onde mais do que se insinuou a homossexualidade do candidato socialista. Não satisfeitos com isto, que a imprensa portuguesa da altura ainda mal espiolhava a blogosfera como depois veio a fazer, um dos marqueteiros melhor relacionados com os jornais do Brasil pediu a um camarada que colocasse uma notícia dando conta da alegada ligação entre Sócrates e Diogo Infante que, como é óbvio, passou para a imprensa deste lado do Atlântico.» (Ricardo Gross)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Tiros pela culatra na política económica - benefícios à compra de casa

Outro grande tiro no pé, e que também envolve a política de habitação, foi o apoio dado pelo Estado à compra de casa própria. Só os vários apertos orçamentais dos últimos tempos acabaram, há já uns anos, com o crédito jovem bonificado, e vão possivelmente anular num futuro próximo a possibilidade de se descontar as amortizações no IRS. Chamando os bois pelos nomes, o Estado paga, e muito, a quem se quer endividar em vez de promover outras alternativas de habitação. Para piorar a situação, este empurrão estatal aconteceu num período em que os portugueses tiveram acesso a empréstimos com juros historicamente baixos, graças à entrada no euro em 1999.
O resultado é conhecido. Muitas famílias contraíram empréstimos ajudando a levar a dívida privada portuguesa a níveis insuportáveis. No centro do actual crise, e pior do que a dívida pública, cujo valor não se afasta muito da média europeia, temos a dívida privada acima dos 200% do PIB.

Crucifixos: uma decisão que não decide por nós

É tão pacífico que não haja símbolos religiosos permanentes nas escolas públicas portuguesas que ninguém pede que sejam colocados. Compreende-se: o crucifixo não é um dos símbolos da República que mantém essas escolas. E afirmar a religião compete às igrejas, não à escola do Estado.

Todavia, desde 2005 que a Associação República e Laicidade questiona o Ministério da Educação, pedindo apenas uma circular que efective a não confessionalidade constitucional, retirando os crucifixos e cessando as cerimónias religiosas rituais que por vezes têm lugar nas escolas. E o ministério continua a fazer depender essa laicização, antipática para muitos, de um pedido explícito dos pais, empurrando os cidadãos para a constrangedora manifestação (pública) das suas convicções religiosas (privadas).


Existem portugueses crentes, católicos ou não; outros não têm religião, e são ateus, agnósticos ou indiferentes; o Estado não pode tomar partido por uns contra outros. E uma escola pública que seja veículo de difusão de uma religião, quer exibindo símbolos religiosos, realizando comunhões pascais ou tolerando proselitismos disfarçados de actividades transdisciplinares, toma partido por uma fracção da população e afasta-se da sua função unificadora e de formação dos futuros cidadãos nos valores democráticos. Uma parede nua, pelo contrário, não impõe a anti-religião.


Na sentença em que decidem que os crucifixos em escolas públicas italianas não violam a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, os juízes de Estrasburgo assumiram que a sua decisão seria diferente perante provas de que, no caso concreto em julgamento, a presença daquele símbolo religioso fosse pretexto para doutrinação religiosa, proselitismo ou cerimónias religiosas. Remeteram a regulação da questão para o âmbito interno de cada Estado, e frisam na 2.ª sentença que são poucos os Estados que, como a França ou a Polónia, especificamente proíbem ou obrigam à presença desses símbolos. 


Em Portugal, a inacção do Governo tornou um enquadramento constitucional mais próximo do francês numa vivência concreta que, localmente, pode ser quase polaca. É esse o caso da Madeira, onde um recente despacho do Governo regional ordenou a manutenção dos crucifixos, desafiando a Constituição e a Lei da Liberdade Religiosa, mas sem reacção do Governo da República, sempre tíbio perante aquela autonomia.
 

Os argumentos de tradição, maioria social ou "identidade cultural" foram desconsiderados na sentença. Recorde-se que a tradição dos crucifixos nas escolas portuguesas data de 1936, quando foram impostos como "símbolo da educação cristã determinada pela Constituição" (a de 1933), através da mesma lei que instituiu o livro único e a Mocidade Portuguesa.
 

A sua permanência, com uma Constituição (a de 1974) omissa em referências religiosas e que preconiza a não confessionalidade do ensino, é um resquício fossilizado da instrumentalização da religião para legitimar uma ditadura felizmente defunta. E a maioria não pode impor à minoria símbolos religiosos: seria esquecer que a liberdade é, sempre, individual.

A sentença do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem mantém a questão em aberto: confessionalismo ou laicidade?

(Diário de Notícias, hoje; ler também o artigo de António Marcelino.)

Começou o regabofe geral

Aumentam exponencialmente os valores dos contratos que várias entidades do estado podem fazer por ajuste directo, sem concurso público.

Avaliação de professores revogada na generalidade por toda a oposição.

domingo, 27 de março de 2011

BE + CDU coligados?

A petição intitulada «Por uma alternativa de Esquerda» exorta as forças políticas à esquerda do PS, em particular o BE e o PCP, a encontrarem-se «com o objectivo único de debater alternativas de governo, à Esquerda, que mobilizem o povo português».

Poderia estar em causa o surgimento de uma coligação pré-eleitoral, ou um acordo de coligação pós-eleitoral, ou algo do tipo.

Assinei, e considero desejável que a petição seja bem sucedida por várias razões:

a) o discurso do BE e do PCP carece, a ver de muitos, da credibilidade que tem um partido que tem hipóteses - por pequenas que sejam - de vir a exercer o poder nas próximas eleições. Esta possibilidade torna mais difícil um certo tipo de demagogia. Assim, os eleitores podem ser beneficiados pelo facto destes partidos terem um discurso mais credível, o que é positivo não apenas para estes partidos, mas para a própria democracia.

b) nos órgãos de informação social, em particular na televisão e na rádio, e no que diz respeito à discussão sobre economia, há uma falta de pluralismo que tem vindo a prejudicar toda a esquerda. O pensamento económico é apresentado de forma distorcida, o que inclusivamente leva muitas pessoas a pensar e repetir o disparate de que a economia é quase uma «ciência de direita». Não é.
O enviesamento perpetrado por estes órgãos, que tanto prejudica um debate político honesto e equilibrado, torna-se mais difícil havendo três alternativas de governo sobre a mesa. O discurso à esquerda do PS não poderá ser ignorado da mesma forma, o que beneficiará a esquerda no seu todo.

c) o panorama político português poderá mudar irreversivelmente no sentido de se tornarem mais comuns as alianças entre diferentes partidos de esquerda, e a negociação associada.

Assim, um eleitor de esquerda, mesmo que não pretenda votar nestes partidos, tem boas razões para subscrever esta petição.

Tiros pela culatra na política económica - controlo de rendas

A política iniciada no Estado Novo de colocação de um tecto ad aeternum para os aumentos das rendas, é um exemplo clássico de um tiro saído pela culatra. À primeira vista as consequências serão benéficas na opinião de muitos, daria estabilidade aos arrendatários, e em anos de inflação alta baixaria as rendas beneficiando os arrendatários à custa dos proprietários (em teoria com mais riqueza).
As consequências de longo-prazo são desastrosas, ao ponto de a crítica a esta política ser hoje consensual.
1. Deixou de haver interesse em investir em habitação para arrendar por parte dos possíveis proprietários. Isto levou a uma enorme redução do mercado de arrendamento, à dificuldade de arrendar casa criando uma enorme imobilidade da população, ao aumento dos preços de arrendamento, etc.
2. Deixou os que já eram proprietários sem fundos. Os centros de Lisboa e Porto são cidades fantasma, com prédios degradados e/ou abandonados porque os proprietários deixaram de ter possibilidade e interesse em renovar as habitações. Chegou-se a uma situação em que é mais barato deixar cair do que reconstruir.
3. Devido aos dois pontos acima, os centros das cidades esvaziaram-se, criando enormes problemas de ordenamento de território: os transportes públicos não estão onde as pessoas estão, percorre-se dezenas de quilómetros por dia, os equipamentos sociais não estão bem distribuídos, etc.

A Bloomberg tinha há um mês um excelente artigo sobre o caso português.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Da ingenuidade

Tempos de crise levam normalmente a um extremar de posições, a xenofobia na Europa em tempos de desemprego é um exemplo disso.
Em Portugal o fenómeno tem tido contornos diferentes. Não há crescimento nem dos extremos dentro do sistema (BE e CDS), nem dos extra-sistema. Observamos sim um crescimento de discursos pacíficos anti-sistema, um tanto ou quanto ingénuos*, sem ideias concretas mas com muito voluntarismo e energia. A histórica manifestação dos 30 ou 200 mil de há duas semanas, organizada totalmente fora do sistema, foi disso um excelente exemplo. Noto cada vez mais pessoas com poucas noções do funcionamento dos sistemas políticos e económicos, a discutirem a coisa pública.
Este voluntarismo tem a enorme bênção de aumentar a participação cívica em Portugal. Temo contudo que possa ser aglutinado pelos extremos anti-sistema, esses sim com ideias e propósitos bem concretos.

*Gosto particularmente de um conjunto de textos sem fonte, que tem circulado muito e tem sido referido frequentemente, onde a Islândia - cujo governo é liderado por sociais-democratas - é descrita como estando a atravessar a versão 2.0 da Comuna de Paris.

A demissão de Sócrates-2

A demissão do segundo governo de Sócrates reflecte três problemas de fundo: a ausência de uma cultura política de negociação, a transformação da União Europeia num «Império» informal dominado pela Alemanha e vulnerável ao poder financeiro, e os milhentos esquemas que existem encostados ao Estado português, muitas vezes sem abdicar, paradoxalmente, de um discurso de «dispensabilidade» do Estado.

Há um quarto de século que as eleições legislativas em Portugal são encaradas como a coroação de um César, que se considera sempre legitimado para governar sozinho mesmo que tenha uma maioria relativíssima, e que se esquece que a substância da democracia é negociar e fazer compromissos entre o programa apresentado ao eleitorado, e as medidas que se podem executar com os aliados parlamentares eleitos com igual legitimidade.

Há duas décadas que se sabe que a União Europeia, enquanto projecto essencialmente monetarista unindo Estados muito diversos social e economicamente, era vulnerável aos especuladores e aos interesses corporativos, e que facilmente seria, num momento de crise, dominada pela Alemanha. Que Merkel critique o Parlamento português perante o parlamento alemão é um sinal da hierarquia entre Estados que deixámos que se instalasse.

E nunca como hoje foi tão claro que o Estado português é pobre demais para sustentar parcerias público-privadas, contratos de associação, os desvarios de Jardim, os estádios de futebol e as oligarquias económicas que parasitam empresas públicas, monopólios naturais e negócios extraordinários.

Eleições, só por si, não resolvem nenhum destes problemas.

quinta-feira, 24 de março de 2011

As regras do jogo

Relembro que as regras do jogo se mantêm. A oligarquia financeira, não eleita e alguma dela criminosa, vai continuar a determinar a política interna do país, através das agências de notação, através dos juros da dívida e da manipulação de grupos económicos estratégicos com forte poder mediático (televisões e não só).
Enquanto aceitarmos estas regras, que estão longe de ser democráticas, bem nos podemos regozijar com a saída de Sócrates ou a eleição de um novo governo, o sistema financeiro continuará a engordar às custas do nosso trabalho e o resto é conversa.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cavaco, igual a si mesmo

Dois ou três minutos antes do discurso de demissão do Primeiro-Ministro, a TSF dava conta que o presidente (com minúscula) fazia uma gracinha: antecipou-se ao discurso escrevendo na sua famosa página oficial que "o Presidente da República recebeu hoje, em audiência, o Primeiro-Ministro, que lhe apresentou o seu pedido de demissão".
O sentido de Estado a que nos sempre habituou.

revista de imprensa e blogs: à beira do precipício, dá-se o passo(s) em frente?

«[...] [A] oposição seria irresponsável se precipitasse uma crise política, que seria desastrosa para Portugal na actual conjuntura europeia. Porque isso significaria inviabilizar o acesso do país ao Fundo de Estabilização a ser flexibilizado na próxima Cimeira Europeia, isto é, a condições de financiamento menos gravosas do que aquelas hoje impostas no resgate da dívida a que tiveram de se submeter a Grécia e a Irlanda. [...]»

[1] --- Ana Gomes, Causa Nossa [Março 2011]


«[...] O fundo tem operado até agora com modalidades bastante agressivas para os países que recorrem a ele. [...] [O apoio do BCE] não chega. Tem sido de facto um apoio extremamente importante e é o que está a permitir que o nosso sistema bancário não colapse e sustente a actividade económica, ainda que com grandes limitações. No entanto, o BCE não quer nem pode responder a todas as necessidades de financiamento do estado português. [...]

[As novas regras vão] permitir operar com taxas de juro mais baixas, mas acima de tudo vai permitir comprar dívida no mercado primário. A Portugal interessaria particularmente recorrer a esse mecanismo e poder contar com taxas de juro mais razoáveis, no máximo 5%. A negociação está relativamente bem encaminhada, mas vai passar por um momento decisivo na própria cimeira. A meu ver, e por essa razão, é fundamental que Portugal se apresente com uma capacidade negocial clara e confirmada. Infelizmente, não é o caso. [...]

Na hipótese de irmos para a cimeira sem apoios claros quanto a compromissos que podemos assumir, ou, pior ainda, irmos para a cimeira com um governo demissionário, a nossa capacidade negocial está praticamente reduzida a zero. E isso pode custar-nos muito caro. [...]»


[2] --- Maria João Rodrigues: "Portugal recorre ao Fundo antes das eleições", iOnline [Março 2011]


«[...] A possibilidade de uma crise política devido à provável rejeição do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) deverá acelerar o resgate financeiro internacional de Portugal, na opinião da imprensa mundial de referência.

O assunto domina a página principal da edição europeia online do Financial Times, que ao lado da bandeira portuguesa titula "Crise em Portugal ameaça provocar eleições antecipadas", com a "oposição a recusar apoiar medidas para evitar o resgate". [...]»


[3] --- Crise política vai acelerar resgate financeiro de Portugal, DN [Março 2011]


«[...] PCP e BE estão mais uma vez encurralados. Num cenário em que a situação interna e os constrangimentos externos deixam pouco espaço de manobra, não têm conseguido fazer muito mais do que anunciar que vem aí o desastre. Podem até ter razão. Mas para a maioria das pessoas, inclusive muitos dos seus eleitores, serão vistos ou como parte do problema (contribuindo para a ingovernabilidade) ou, pelo menos, como não sendo parte de qualquer solução.

Mas PCP e BE poderiam dar um sinal diferente. Poderiam ter a iniciativa de se apresentar com uma plataforma comum, propondo ao PS um conjunto de condições mínimas para apoiar uma solução para a crise assente numa maioria de esquerda no Parlamento. Uma solução que mostrasse que existem outros caminhos possíveis, mesmo com todos os constrangimentos internos e externos. [...]»


[4] --- Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas [Março 2011]


«[...] Durante esta última legislatura, se dúvidas houvesse nalgumas mentes, ficámos com a certeza de que os designados partidos da esquerda, da larga, ampla e grande esquerda de Francisco Louçã, da massa de trabalhadores, operários e camponeses de Jerónimo de Sousa, não só não servem para viabilizar uma solução de governo à esquerda, como estão dispostos a todas as coligações para se afirmarem contra, para se manifestarem do contra, protagonizando coligações negativas que abram a porta a um governo de direita. [...]»

[5] --- Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado [Março 2011]


«[...] O PSD apresentou, no Parlamento, um projecto de resolução que tem como único ponto a rejeição pelo Parlamento do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) proposto pelo Governo. [...]»

[6] --- Projecto do PSD tem como único ponto rejeitar a proposta do Governo, TSF [Março 2011]


«[...] [E]sta crise política começou precisamente com o discurso de posse de Cavaco Silva. Cavaco Silva não é uma carta fora do baralho da luta político-partidária, é antes o ás de trunfo da direita.

A direita portuguesa não arrisca mais um dia sabendo que a superação dos problemas institucionais do Euro pode ajudar Sócrates a recuperar da grave crise financeira que o país enfrenta. Dar uma oportunidade ao governo significava neste momento perder a oportunidade de eliminar Sócrates de uma vez. [...]

E entre uma crise partidária à direita ou a bancarrota do país, Cavaco e a direita não hesita na escolha. A direita liderada por Cavaco Silva teve de optar entre esperar pela superação da crise financeira que beneficiava Sócrates ou lançar ou antecipar eleições mesmo que isso custe uma bancarrota ao país, Cavaco, Passos Coelho e Paulo Portas nem pensaram duas vezes, mas foram confrontados com o PEC IV começaram a preparar as eleições antecipadas. [...]

Cavaco não está à altura das circunstâncias, é um político de pequena dimensão para quem o país é visto segundo o seu próprio projecto e depois de estilhaçado o mito da competência e da honestidade não perderia a oportunidade de se livrar de Sócrates, mesmo que isso conduza o país à bancarrota. [...]»


[7] --- E agora Cavaco?, O Jumento [Março 2011]


Comentário: Existem inúmeras razões para discordar de muitas medidas nos diversos PECs. Não existe uma única para abrir as portas ao FMI. Quem o fizer deve ser devidamente responsabilizado.

A propósito dos juros, vale sempre a pena lembrar...

Agora que se volta a falar dos juros da dívida pública dia sim-dia sim, seja por causa do PEC IV, da queda do governo, do discurso do Cavaco, das eleições no Sporting, etc. vale sempre a pena lembrar que a sua variação depende muito mais de factores externos do que aquilo que muitos gostariam de acreditar.
Sabendo da crónica preguiça dos jornalistas e comentadores portugueses para procurar dados e verificar factos, ficam aqui, de borla, as variações dos juros da dívida publica portuguesa (verde) e irlandesa (laranja) que têm uma evolução muito semelhante - provando que são determinados principalmente por factores externos.

Variação (absoluta) nos juros de longo prazo (10 anos):
e nos de curto prazo (2 anos):

Terra incognita

Daqui em diante, pode haver dragões.

Inside Job

Este documentário excelente, de Charles Ferguson (No End in Sight) é uma viagem fascinante pela estrutura, o ambiente e a máquina de desinformação montada pelos gangsters que mandam na Wall Street e no governo americano desde os anos Reagan e até agora (todos os conselheiros financeiros de Obama são conhecidos criminosos).

Excelente, ao nível ou acima dos documentários de Errol Morris.

terça-feira, 22 de março de 2011

Guerra na Líbia

Há três razões principais para concordar com a intervenção europeia na Líbia, mesmo mantendo a prudência e a desconfiança que qualquer guerra exige. Primeira, há mandado da ONU, o que não acontecia, por exemplo, no Cosovo ou no Iraque. Segunda, existe um pedido daqueles que se revoltaram contra o ditador, e que seriam massacrados antes do final do mês se nada fosse feito. Não se pode estar com as sublevações populares nos países árabes, criticar Cadáfi, e virar a cara quando os revoltosos são esmagados por mercenários e armamento superior. O que me leva à terceira razão: os acontecimentos no Magrebe e no Médio Oriente podem ser a maior vaga democratizante dos últimos vinte anos. Há que apoiar o potencial democrático das revoluções em curso, e não abandoná-las como as democracias europeias fizeram à Espanha republicana entre 1936 e 1939.

Dito isto, seria positivo que a liderança e o programa dos revoltosos líbios se tornasse mais claro, que a operação fosse controlada por europeus, e que não entrassem tropas terrestres estrangeiras na Líbia. Apoio aos insurrectos, sim. Invasão, não.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Belgrado, Tripoli

Maio 1999 - sob o pretexto de evitar os massacres que as forças sérvias estavam a cometer, as forças ocidentais bombardeiam alvos não-militares em Belgrado, a centenas de quilómetros dos ditos massacres.
Março 2011 - sob o pretexto de evitar os massacres que as forças líbias estão a cometer, as forças ocidentais bombardeiam alvos não-militares em Tripoli, a centenas de quilómetros dos ditos massacres.

Em ambos os casos apoiei inicialmente a intervenção ocidental para interromper os actos bárbaros levados a cabo pelos governos tiranos. Em ambos os casos fico sem perceber estes desvios militaristas criminosos, contrários ao direito internacional, que destroem qualquer credibilidade que a intervenção pudesse ter.

Subcontratação no sector nuclear

Esta reportagem da La Une belga mostra uma situação intolerável de subcontratação de trabalhadores no sector no nuclear (começa aos 1:18:30 do programa). Estes trabalhadores fazem o trabalho mais perigoso, recebem salários pouco superiores ao salário mínimo, suportam doses bem acima de qualquer um dos funcionários da central e como se pode verificar têm acontecido acidentes (1:23:10 do programa) incapacitantes para estes trabalhadores, que frequentemente não têm quem acusar nos tribunais. Não admira que nas estatísticas de saúde dos funcionários da central sejam apresentados excelentes resultados, não são estes quem faz o trabalho sujo.

Grave também é verificar que estes trabalhadores subcontratados e pouco qualificados têm responsabilidades fundamentais para a segurança da central, responsabilidades essas que deveriam ser dos quadros da central, e mais preocupante ainda é perceber a pressão a que estes trabalhadores estão sujeitos para produzir bons relatórios de segurança.

domingo, 20 de março de 2011

Egipto: o princípio do fim da revolução?

Num referendo realizado menos de quarenta dias depois da queda de Mubarak (quanta pressa...), e que fica marcado pelo violento ataque a El Baradei, três quartos dos dezoito milhões de egípcios que votaram escolheram o «sim» às emendas constitucionais propostas pela clique militar que se desembaraçou do seu ditador e agora converge com a Irmandade Muçulmana. A oposição compreendeu agora que a internet não basta, as manifestações derrubam mas não constroem, e que vão ter que criar um movimento democrático de massas a partir do quase nada (ler, a propósito, o artigo muito interessante do bloguista Sandmonkey). As eleições serão já em Junho.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A mão invisível é solidária

"Tóquio sofre as maiores perdas desde o crash bolsista de 1987 e o maior declínio numa sessão desde a crise financeira de 2008."

O Japão pode contar com os mercados para recuperar do terramoto. Extinga-se o ministério do interior japonês. A bolsa, a caridade e a Opus Dei vão resolver tudo.

Mudar

Sócrates não ganhará uma única eleição em Portugal nos próximos dez anos, a não ser, porventura, a presidência de alguma junta de freguesia. Passos já o entendeu, e o PS, se quiser continuar no poder, terá que encontrar uma alternativa, depressa. Medeiros Ferreira sugere António Costa.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O mundo está perigoso

Em Fukushima, despeja-se água sobre o reactor 3. Na Líbia, a revolta contra Cadáfi recua e pode ser esmagada nos próximos dias. O Bahrein foi invadido pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, contendo os protestos da maioria xiíta. O Egipto tem um referendo sobre emendas constitucionais no sábado, e a Tunísia deverá realizar eleições em Julho. Finalmente, o governo português pode estar nas suas últimas semanas.

No pior cenário, teremos uma catástrofe radioactiva com centro no Japão, o fuzilamento ou deportação de milhares de líbios que combateram o tirano, a prisão de todos os dirigentes da oposição bahreini, a divisão do poder no Egipto entre os militares que sucederam a Mubarak e a Irmandade Muçulmana, uma vitória islamista na Tunísia e a subida ao poder de Passos Coelho, disposto a instaurar um regime proto-fascista.

No melhor cenário, Fukushima será «apenas» o pior acidente nuclear desde Chernobyl, Cadáfi será forçado a negociar, a monarquia sunita do Bahrein também, o Egipto transforma-se num regime plural com eleições razoáveis e a Tunísia numa democracia laica, e Sócrates aguenta-se até ao Outono.

Para evitar tudo o que há de pior e conseguir um pouco do melhor, é necessária boa tecnologia e muita sorte no Japão, o isolamento internacional da Líbia com ameaças europeias de apoio militar aos insurrectos, sanções e pressão diplomática contra os Estados do Golfo (quer se chamem «Bahrein» ou «Arábia Saudita»), rapidíssima e muito boa organização da oposição democrática no Egipto, e arrojo e bom senso dos democratas tunisinos. Para aguentar Sócrates mais seis meses não sei o que seria necessário.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Os apoiantes do PCP e do governo são tão parecidos...

Foto de Daniel Rocha ("Público")

Parece inegável que as manifestações de sábado passado constituíram um sucesso: por todo o país, no conjunto, foram provavelmente as maiores desde o PREC. Mas não foram um sucesso somente em termos de adesão: trouxeram definitivamente a precariedade para a ordem do dia. Nas próximas eleições legislativas, nenhum partido ou candidato a primeiro ministro poderá furtar-se a este tema: será provavelmente o assunto principal de campanha. E isto por si só é uma grande vitória.
O objetivo, plenamente conseguido, era só este: demonstrar que este problema é compreensivelmente uma das principais preocupações dos portugueses. A partir de agora, sim, vai começar o debate de ideias sobre como lidar com este problema.
Infelizmente, não me parece que os partidos políticos à esquerda, excetuando talvez o Bloco, estejam a compreender verdadeiramente o alcance de tudo o que se passou no sábado.
Do lado do PCP, todo este protesto é olhado com desconfiança, por não ter partido dos setores habituais, ligados (e por vezes controlados) por este partido. É claro que o PCP não deixa de saudar os manifestantes, mas desconfia deles por não participarem nas suas iniciativas. Do tipo “os malandros manifestaram-se no sábado passado, mas na manifestação da CGTP do próximo sábado só vêm os do costume”. Na blogosfera há vários exemplos de militantes e apoiantes do PCP que o afirmam explicitamente, como aqui e aqui.
Do lado do governo, é natural que haja algum desconforto e relutância. Uma manifestação, de certa forma, é sempre contra quem detém o poder, embora esta não fosse explicitamente uma manifestação contra o governo. Não teria ficado mal ao PS ter-se pronunciado sobre a mesma, de uma forma moderada, obviamente sem entrar em confronto com o governo. Afinal, o eleitorado base do PS revê-se, de uma forma creio que esmagadora, na manifestação. O estar a fingir que nada se passou (ou, pior ainda, a fazer graçolas de gosto duvidoso) revela um divórcio entre o PS e a sua base natural de apoio, e isso não augura nada de bom.
Não deixa de ser curioso que ambos os partidos, que divergem em tanta coisa, encarem a manifestação com a mesma desconfiança: por escapar ao seu controlo. Mais ainda no caso do PS: por não querer aceitar que lhe façam críticas. Mas não é essa a crítica mais habitual que se faz ao PCP? Não digo que os partidos devessem ter aderido à manifestação; agora, não deveriam fingir que nada se passou.
É notável que a maior manifestação desde o PREC não tenha sido convocada por nenhum partido, estando à margem deles. De certeza que o apoio explícito de um desses partidos só a enfraqueceria e levaria ao afastamento de muitos participantes. Não quero com isto alinhar num discurso bota-abaixo anti-partidos, que nunca foi o meu e que sempre me causou repugnância. Mas a verdade é que os dois partidos tradicionais da esquerda portuguesa estão fechados sobre si mesmos. Este atavismo é um dos maiores problemas da esquerda portuguesa, como eu não me canso de denunciar (por exemplo, aqui). Anteriormente queixava-me de estes partidos viverem de costas voltadas um para o outro (e a culpa é de ambos). Com as reações que vejo à manifestação da parte deles e ao sucesso que esta foi, apesar deles, ou por causa de eles lá não estarem, receio que estes partidos estejam de costas voltadas para uma grande parte da sociedade (daí o descontentamento do “povo de esquerda”). Se estes partidos continuarem assim (principalmente o PS), receio que passem uma grande travessia no deserto e que, por falta de comparência à esquerda, o poder acabe naturalmente à direita.

Portugal tinha tudo para ser pobre?

Aquilo que mais me incomoda no actual discurso sobre a crise é o constante atribuir dos problemas actuais ao endividamento nas décadas passadas.
Pessoalmente não fui o maior entusiasta da construção do Aeroporto, TGV, e tenho sido crítico dos gastos relacionados com o Magalhães, os submarinos, os estádios, e o meu crivo para aquilo que considero gasto excessivo tem sido, ao longo dos anos nos quais estou atento à política nacional, relativamente apertado. O Estado deve ser criterioso na forma como gere o dinheiro dos contribuintes, e muitas vezes existem desperdícios devidos ao jogo de interesses dos políticos próximos do poder (PS, PSD, PP), que me revoltam profundamente não apenas pelo prejuízo concreto que causam à vida das pessoas, mas também pela injustiça dos mesmos.

Mas não é verdade que Portugal «esteja neste estado» porque os políticos se têm endividado desde o 25 de Abril. Aliás, afirmo o contrário: Portugal estaria bem pior se nenhum governante depois do 25 de Abril tivesse gasto mais do que aquilo de que dispunha.

E passo agora a fundamentar esta afirmação. Portugal é um país rico e desenvolvido, mas menos rico que a maioria dos países da UE. Porquê? A resposta óbvia está na boca de todos: são os políticos incompetentes e trapaceiros que nos governam desde o 25 de Abril, dirão. São as políticas de direita que têm vindo a ser seguidas desde essa data, dirá a esquerda. São as políticas de esquerda que têm vindo a ser seguidas desde essa data, dirá a direita.

Mas vejamos antes de onde pode vir a riqueza. Existem três sectores de actividade, e observemos quais as «vantagens comparativas», ou falta delas, de Portugal em cada um deles.

No que diz respeito ao sector primário, Portugal tem desvantagens comparativas face aos outros países da UE. O relevo do nosso solo não é o melhor para a agricultura, temos poucas planícies. O nosso clima não é o melhor para a agricultura, temos mais chuva no Inverno que no Verão (regra geral acontece o oposto) e uma distribuição muito assimétrica de pluviosidade durante o ano. A distribuição das propriedades do nosso território não é a ideal, temos alguns solos muito férteis, mas não assim tantos, etc. É possível, com políticas adequadas e uma boa gestão dos recursos hídricos obter rendimento da actividade agrícola em Portugal. Mas à partida, no que diz respeito à agricultura no geral, a nossa situação é menos propícia à criação de riqueza do que aquilo que acontece em grande parte da Europa (em particular França, Espanha, Alemanha, Irlanda). E se temos uma situação vantajosa em relação às pescas, já no que diz respeito a recursos minerais estamos longe de estar numa situação privilegiada. Se as economias dependessem fundamentalmente do sector primário, dificilmente Portugal deixaria de estar na «cauda da Europa» - se bem que actualmente não é esse o caso: as economias dos países ricos dependem mais dos outros sectores de actividade.

No que diz respeito ao sector secundário, o da Indústria e transformação, Portugal tem duas desvantagens competitivas. Uma delas é a localização periférica: se a cultura, a educação, os gostos e competências de todos os europeus fossem iguais, os salários dos trabalhadores industrais dos países do centro seriam necessariamente superiores. Paul Krugman explicou isto num dos artigos que lhe valeram o Nobel: para uma indústria vir para Portugal, os salários dos trabalhadores teriam de ser inferiores o suficiente para compensar os custos acrescidos de transportar os produtos para todo o mercado. Esta desvantagem pode ser atenuada investindo nas vias de comunicação (férreas, por exemplo), mas não deixará de existir.

No que diz respeito ao sector terciário, o dos serviços, é evidente que Portugal tem uma forte vantagem competitiva no que diz respeito ao Turismo. Mas Portugal tem aproveitado esta vantagem com muito sucesso recentemente. E no que diz respeito a outros serviços? Eles dependem em grande medida do grau de instrução da mão de obra: um país como a Suécia pode ser periférico como Portugal, mas tendo uma mão de obra extremamente qualificada, tem uma vantagem competitiva nas prestação de inúmeros serviços (patentes, desenho, etc..).

Nesta questão, Portugal tem ainda uma enorme desvatagem comparativa, que afecta tanto o sector terciário como o secundário. Mas aqui é preciso atender ao seguinte: esta desvantagem não vem de agora, é uma situação que já vem desde a Monarquia. A primeira República tentou revertê-la, mas nas décadas de Estado Novo fez-se pouco ou nada a este respeito. Não se gastando «o que não se tinha», não se investiu em Escolas, Liceus e Universidades o que se deveria ter investido, e inúmeras crianças cheias de potencial não o puderam desenvolver. Pessoalmente conheci uma senhora, costureira, que era a melhor aluna da sua turma, adorava matemática e queria continuar a estudar, mas os seus pais tiraram-na da escola para ir trabalhar. São estas as faces de uma realidade que as estatísticas confirmam: não se apostou na educação, e por isso o país não pôde deixar de ser pobre. Não havia o «tudo quer ser doutor», mas Portugal era um país menos própero, mais injusto e com menos oportunidades.

Claro que educar uma geração cujos pais tiveram um reduzido acesso à instrução é mais caro e difícil do que educar os filhos de pais instruídos. Em parte é por isso que o enorme investimento que foi feito em educação ainda não foi suficiente, e merece ser continuado.

Assim, a geração de políticos que governa este país desde o 25 de Abril fez muitas asneiras, e certamente que desviou muitos recursos para a defesa de interesses particulares, como alias acontecia antes do 25 de Abril, com a diferença de que antes a responsabilidade era menos de um eleitorado pouco atento, e mais da repressão dos poderosos.
Mas também fez coisas muito acertadas, tais como um investimento sério e estruturado num Sistema Nacional de Saúde relativamente decente, e num sistema de Educação que possibilitará ultrapassar as desvantagens competitivas que Portugal tem face aos outros países ricos e desenvolvidos, e trazer prosperidade e oportunidades. Fizeram bem em gastar o que não tinham em escolas e hospitais, que salvaram vidas e nos deram uma hipótese de ultrapassar um entrave ao desenvolvimento fundamental, sem sequer termos atingido níveis de endividamento (face ao PIB) muito fora do normal para um país desenvolvido (muito abaixo dos EUA, Japão, Bélgica, Itália, etc.)

Seria possível fazê-lo sem tanto desperdício, mas antes o que foi feito que a política salazarista de hipotecar o nosso futuro à lógica da mercearia.

Possíveis consequências de Fukushima

As consequências económicas são imediatas para a economia com a paragem por tempo indeterminado dos 6 reactores de Fukushima Daiichi que representam cerca de 10% dos reactores nucleares do país. A longo prazo muito certamente os reactores 1, 2 e 3 ficarão irremediavelmente inutilizados e os custos da reparação da central ascenderão facilmente a milhares de milhões de euros. Se houve alguma economia na produção de energia nuclear (nem todos os programas nucleares civis são rentáveis, ao contrário do que se pensa), esta será largamente suplantada pelos custos de reparação, tal como aconteceu em Three Mile Island, em Sellafield, em Forsmark e obviamente em Chernobyl.

Os riscos para trabalhadores e população serão piores do que Three Mile Island (acidente de nível 4) mas certamente bem menos graves que Chernobyl (nível 7), mesmo que haja uma explosão da cúpula de confinamento dos reactores (e não do edifício como já ocorreu) causada pela operação de arrefecimento. As fissuras e as brechas de 8 metros detectadas nos confinamentos de dois reactores estão a deixar escapar radiação altamente perigosa para as imediações e o incêndio ocorrido na piscina de arrefecimento do reactor 4 lançou uma nuvem radioactiva para a atmosfera durante duas horas. Não é de excluir que estes problemas se possam agravar e estender à piscina do reactor 5 que continua a aquecer e a perder água. Se houver fusão do combustível nuclear é provável que a parte inferior do confinamento de segurança do reactor possa ceder com a consequente contaminação dos solos. O incêndio nas piscinas também poderá contaminar o solo envolvente. Comparando com Chernobyl e o acidente de Palomares (B52 que se despenhou com 4 bombas nucleares) onde houve contaminação radioactiva dos solos é de esperar a criação de uma área interdita à população de alguns quilómetros quadrados durante mais de 50 anos.

terça-feira, 15 de março de 2011

Não foi bem esta a História que me contaram desde pequenino

  • «Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar» (Cavaco Silva)
Sei que houve até quem fosse voluntário para a «guerra do ultramar» (Jaime Nogueira Pinto e outros da mesma estirpe fascista), mas o que ouvi da esmagadora maioria dos que conheço foi que desprendimento não foi  certamente o que sentiram, e determinação muitas vezes também não. E penso que o regime democrático actual começou justamente pela recusa da guerra colonial (a designação é relevante). O actual PR começou a assumir a sua ruptura com o regime do 25 de Abril? Veremos.

Eu votei em Manuel Alegre.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Trickle-down economics

Só os links aqui deste blog é que me fazem, e mesmo assim muito esporadicamente, ler as coisas que aparecem escritas no blog "Blasfémias" e nunca consigo deixar de me sentir um bocado embaraçado com as coisas que lá encontro. Há mais de 20 ou 30 anos que a direita americana não cita os autores que eles citam nem defende os argumentos que eles defendem. Alguém lhes devia oferecer uma assinatura do Weekly Standard e o endereço electrónico do Drudge Report... :o)

A vitória da direita

A lista dos bilionários da Forbes e as notícias do envolvimento dos irmãos Koch no movimento TeaParty demonstram duas coisas: os mais ricos vivem muito bem e têm nas mãos o poder para perpetuar este estado de coisas.

A direita está a tornar duas ideias absolutamente inaceitáveis há poucos anos em verdades indiscutíveis: 1) embora o planeta seja muitas vezes mais rico do que em 1950, não há dinheiro para solidariedade social; e 2) as pessoas não têm direito a mais do que o que produzem.

A solidariedade social do século XX é hoje apresentada por uma parte cada vez mais importante dos media como uma forma de parasitismo, uma vitória nietzschiana dos medíocres sobre o génio e os direitos dos proprietários e dos empresários.

Podemo-nos ir manifestando com queixas mais ou menos difusas, mas creio que já não está nas nossas mãos mudar as coisas. Eles são donos dos media e dos políticos, e agora da internet.

O excesso de confiança no sector nuclear

O secretismo em torno dos programas nucleares soviético e americano e o clima de competição da Guerra Fria explicam a falta de comunicação tanto dos EUA como da URSS de problemas e acidentes que iam ocorrendo nas centrais nucleares. Inclusivamente a nível interno pequenos acidentes eram prontamente abafados, sobretudo na URSS. Os engenheiros soviéticos não tinham qualquer informação sobre os acidentes nas outras centrais do país, logo na prática estavam convencidos que a estatística de acidentes era próxima de zero. Gerou-se assim um clima de excesso de confiança que foi uma das principais causas do acidente de Chernobyl, quer no desleixo como foi implementado o projecto durante a construção da central, como na negligência dos engenheiros durante o teste de segurança que ironicamente originou o acidente.

Mas o excesso de confiança estende-se às sociedades mais abertas, sobretudo quando a lógica de mercado é aplicada aos programas nucleares civis, como adverte Georges Charpak (Nobel da Física e um dos responsáveis do programa nuclear francês) na obra "De Tchernobyl en tchernobyls", Odile Jacob, 2005. Por exemplo, o acidente de 1999 em Tokaimura no Japão ocorreu porque a lógica do lucro de uma empresa privada se sobrepôs às regras mais elementares de segurança. A construção de 55 reactores no arquipélago japonês em permanente risco sísmico não são uma opção que se possa considerar razoável, por muito que se possa fazer pela segurança de uma central. Também aqui a lógica do lucro não estará certamente dissociada desta decisão.

domingo, 13 de março de 2011

Os avestruzes do fanatismo e os avestruzes do conformismo

Começo por agradecer aos organizadores da manifestação de ontem por terem conseguido transformar a «geração rasca» em «geração à rasca». Durante duas décadas, a minha geração foi designada de «rasca» por causa dos excessos de uma manif e devido a um editorial de Vicente Jorge Silva alegadamente desfigurado por uma gralha.

Como o Miguel Carvalho, tenho ambivalências perante manifestações com objectivos tão difusos, e sem uma organização estruturada. Mas é muito significativo que tenha sido justamente a ausência de partidos e sindicatos que tenha permitido uma mobilização impressionante. Assim como, é evidente, o viver-se a maior crise social desde os anos 80.

A manifestação deve ser tomada por aquilo que foi: um protesto essencialmente de esquerda nos símbolos adoptados e nas pessoas presentes, contra as consequências sociais da crise económica, e desencadeado pelas frustrações do precariado. E a principal questão a enfrentar é essa: desde os anos 80, multiplicaram-se as variadas formas de fazer trabalhar as pessoas sem lhes garantir um emprego: os recibos verdes, os contratos a prazo, as empresas de trabalho temporário, os estágios com e sem remuneração, até as bolsas. É óptimo para as empresas, é bom para os governos, mas é péssimo para as pessoas. Não permite que os indivíduos consigam ter perspectivas de vida estruturada, com continuidade laboral. Não mata tanto como o desemprego, mas mói, e muito.

Os partidos do arco governativo, que são os principais responsáveis por esta situação, não manifestam qualquer interesse em a alterar. Sócrates, ontem, sentiu-se obrigado a manifestar «compreensão» pelo protesto. Mas, nas medidas que elencou em defesa própria, não fez qualquer referência aos problemas laborais na origem desse mesmo protesto, o que não sei se terá sido uma confissão de impotência para alterar as regras do jogo, ou um sinal do seu desinteresse ideológico pelo sentido da manifestação.

Há dois tipos de avestruzes nas reacções à manifestação: os avestruzes do fanatismo ideológico e os do conformismo situacionista. Os primeiros, reconheça-se-lhes a honestidade, são a favor de mais e maior precariedade. Escravatura, para eles, é ter um emprego de longo prazo. Que dezenas de milhares de pessoas gritem na rua o exacto contrário não belisca o seu dogmatismo neoliberal. Os segundos, de esquerda mas incapazes do mais pequeno acto que possa ser entendido como crítica ao socrático governo, murmuram que «não há alternativa» e que são «meninos mimados» os que se queixam. A esses, gostaria de perguntar se a sociedade ideal em que gostariam de viver é uma em que virtualmente ninguém com menos de 35 anos tem um emprego estável? É que a situação não está a melhorar, e não é ignorando os sintomas que se trata a doença.

sábado, 12 de março de 2011

A Geração à Rasca e o Aborto, ou Porque torci o Nariz à Manif

Todos somos contra o aborto. Ninguém ficará contente por ele existir, seja ele legal ou ilegal. Aliás, o debate nunca se centrou sobre isto, mas sobre o como lidar com o problema. Em traços gerais, a esquerda considerou que a consciência da mãe seria o melhor critério a usar e que a mulher deveria ter condições de segurança para o fazer, enquanto a direita opinou que era um acto hediondo de mais para não ser tratado como um crime... e depois havia o Marcelo Rebelo de Sousa. Uma manifestação contra o aborto nunca aconteceu apesar de o tema ter dominado o espaço público durante largos períodos.
Todos somos contra precaridade, o desemprego e as condições de trabalho da minha geração. Alguns defenderão uma solução próxima ao antigo modelo cubano (com empregos garantidos), outros ao americano (flexibilidade total), ao escandinavo (flexível mas com segurança), ao mediterrânico (inflexível e com segurança), etc. mas até hoje ninguém tinha marcado um protesto que englobasse toda a gente. A manif de hoje o que defenderia? Nunca o saberemos, o manifesto é o mais vago possível.
Uma manifestação que consegue englobar desde anarcas, estalinistas até neo-nazis, e que conta com participação de deputados do PCP ao CDS (excepto do PS, não vá o diabo tecê-las), é uma manifestação de Marcelos.

Antecipando-me às críticas: não, não estou com uma situação laboral aconselhável, nem nunca fui de crítica de mesa do café: poucos participarão em tantas manifestações como eu.

O terramoto nas centrais nucleares japonesas

(publicado esta manhã no portal Esquerda.net)

A informação vai saindo a conta-gotas, mas é já uma certeza a ocorrência de um incêndio na central de Onagawa e a existência de problemas muito graves de arrefecimento em dois reactores da central de Fukushima, onde se produziu uma violenta explosão.

A explosão danificou o edifício onde se encontra um desses reactores tendo provocado vários feridos. A central de Fukushima está em alerta máximo e tudo indica que material combustível sobreaquecido entrou em fusão num dos reactores. O governo japonês confirmou uma fuga radioactiva de alta perigosidade e ordenou a evacuação da população num perímetro de 20 km à volta da central.

Em Chernobyl a gravidade do acidente resultou de uma explosão causada pela pressão do vapor da água produzido no circuito de arrefecimento de um dos reactores. Essa explosão pulverizou o tecto do edifício do reactor e projectou grandes quantidades de materiais altamente radioactivos na atmosfera. Neste caso, negligências graves durante a construção e o não respeito do projecto inicial da central tornaram possível um acidente que em condições normais não deveria ter ocorrido.

Ainda se ignora se em Fukushima as cúpulas dos reactores, que servem para impedir a fuga de radiação em caso de acidente, foram destruídas pela explosão como aconteceu em Chernobyl. No entanto, materiais altamente radioactivos armazenados no exterior dos edifícios principais foram já dispersos nas redondezas e na costa japonesa pela inundação provocada pelo tsunami.

O Japão tem 55 reactores nucleares, 11 dos quais pararam automaticamente através de protocolos específicos de segurança assim que ocorreu o terramoto. Teoricamente as centrais japonesas estavam preparadas para lidar com sismos desta intensidade, mas o inesperado tsunami poderá explicar algumas das falhas graves que estão a acontecer.

Para informações mais actualizadas seguir o sítio da Agência Internacional de Energia Atómica e a Euronews.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Acidente nuclear grave no Japão

Ainda não há muita informação disponível, mas é já uma certeza que há um incêndio na central de Onagawa e, como se temia esta manhã, há problemas muito graves de arrefecimento de dois reactores na central de Fukushima.
Relembro que em Chernobyl a gravidade do acidente foi agravada pela explosão causada pela pressão do vapor da água do circuito de arrefecimento de um dos reactores e por falhas graves no projecto da central. Na central de Fukushima pode estar a acontecer o pior, mas para já não há indicações de problemas com as cúpulas que encerram os reactores e que evitam fugas radioactivas significativas. No entanto os materiais altamente radioactivos armazenados no exterior foram dispersos pelo tsunami.
11 dos 55 reactores japoneses pararam durante o terramoto.
Ler e/ou ouvir a reportagem da Euronews.

É claro que vou à manif

Vou à manifestação porque é preciso dizer bem alto que a precariedade não é a solução. Qual é “a” solução? Eu tenho as minhas opiniões; provavelmente outros manifestantes terão outras. Participei nas manifestações contra a PGA e provavelmente não estaria de acordo com toda a gente que se manifestou comigo sobre acesso ao ensino superior. Idem nas propinas e sobre o financiamento do ensino superior. Ou contra a guerra no Iraque e sobre política internacional. Quem acha que os manifestantes devem propor soluções concretas não percebe o que é o “direito à indignação” e provavelmente nunca deve ter participado numa manifestação. Soluções concretas devem ser discutidas quando se discute política, principalmente (mas não só) nas campanhas eleitorais. Esta manifestação não serve para mais nada – nem deixemos que lhe dêem outros aproveitamentos políticos: serve somente para dizer que a precariedade para toda a vida não é uma solução aceitável.

Eu não gosto nada da canção dos Deolinda (mas é claro que vou à manif à mesma) (II)

Mas a parte mais parva, a parte que mais irritação causa (a mim e a muitas outras pessoas) é

E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.


Conheci os “Deolinda” num arraial no Instituto Superior Técnico, em 2008. Gostei to muito do concerto e do grupo. Na altura, ao apresentar a banda, e tocando para engenheiros, a vocalista Ana Bacalhau disse que o seu próprio marido era engenheiro, mas tinha acabado por se dedicar à música. Para de seguida recomendar aos futuros engenheiros que “estudassem muito, pois senão iriam acabar como ele”, perante a risota geral. Mais de dois anos depois, gostaria de perguntar ao marido da Ana Bacalhau (peço desculpa, mas não me recordo do seu nome) se, a título pessoal, cantaria “que parvo que eu sou: tirei um curso de engenharia para tocar nos Deolinda”...
Repito: gosto dos Deolinda e acho que representam uma verdadeira lufada de ar fresco na música portuguesa – não aprecio particularmente é o seu mais recente sucesso, muito devido aos polémicos e criticados versos acima. Há que afirmar sem complexos: uma (hipotética) sociedade de escravos educados é melhor que uma sociedade de escravos analfabetos ou pouco educados. Mesmo pensando em termos de liberdade, a educação liberta ou, pelo menos, torna muito mais difícil manter preso alguém educado (que tenderá a revoltar-se) que alguém pouco educado. Não aceito esta secundarização da educação e do conhecimento face à liberdade.
A mentalidade subjacente é, infelizmente, tipicamente portuguesa: estuda-se não para sermos melhores, em todos os aspetos, mas para “termos um diploma” e “sermos «doutores»”. Com a democratização do ensino, ter um grau académico já não garante nada, mas não é por isso que devemos deixar de procurar obter os graus académicos, desde que isso represente obter conhecimentos.
Há que dizer que o maior representante deste paradigma é o atual primeiro ministro.

Eu não gosto nada da canção dos Deolinda (mas é claro que vou à manif à mesma) (I)

Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Eu tenho confiança no futuro, e esperança em que, daqui a umas décadas, quando se ler esta letra, se dirá, sem ironia: “Sim, és mesmo parva!” Uma geração onde alguém afirma que se quer casar e ter filhos mas que não o faz porque se queixa de precariedade e baixos salários, mas cuja prioridade é ter um carro é uma geração parva e mimada. O retrato dos seus pais.

Racionalizar a fiscalidade automóvel

Na fórmula 1 e nos rallies há limites para a capacidade dos motores e há novas categorias para automóveis com soluções ecológicas. No entanto apesar do cidadão comum não ter ambições de piloto de corridas, nas nossas ruas e nas nossas estradas pode circular praticamente tudo sem restrições. Num continente em que a velocidade máxima oscila tipicamente entre os 50 km/h em cidade e os 120 km/h, continuam a vender-se bem carros com motores com mais de 2000, 3000, 3500 cc (mais que nos rallies), com 150, 200 cv, que atingem velocidades máximas de 200, 220, 250 km/h. Continuam a comercializar-se veículos todo-o-terreno que podem circular com toda a liberdade em centros históricos medievais sobre calçadas centenárias, entre fachadas milenárias.

Já referi que gosto de automóveis e por isso sei perfeitamente que estas motorizações são exageradíssimas e irracionais quando a esmagadora maioria das pessoas quer é uma caixa com rodas que as leve de um ponto A a um ponto B, estão-se nas tintas para a cavalagem do motor, quando muito exigem que a caixa com rodas seja gira e estilosa. Um ex-engenheiro da VW demonstrou que transformando o motor e a carroçaria de um VW Golf era possível reduzir o consumo abaixo dos 3 litros/100km. Optimizando um novo motor às necessidades básicas do condutor e aos limites de velocidade concebeu um motor apenas de 25 cavalos mas de binário elevado adequado às subidas e acelerações.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Não só os transportes públicos devem ser subsidiados como é inteiramente expectável que as empresas de transporte público dêem prejuízo

Discordo de quem discorda dos subsídios aos transportes públicos, como parece ser o caso do Miguel.
As políticas que pretendem implementar um dado comportamento não podem partir do pressuposto (largamente contrariado pela experiência quotidiana) de que as pessoas são boazinhas ou responsáveis. Pode-se esperar que, um dia, uma população muito educada decida prescindir do uso quotidiano do carro (sempre que existirem transportes públicos) pelo custo que tal acarreta em combustíveis, dependência energética, emissão de gases poluentes... Para o cidadão médio isso não quer dizer nada: é sempre com os outros. Pode-se esperar que um dia o mesmo cidadão compreenda o prejuízo social e a perda de tempo que constituem os engarrafamentos, mas ele acha mais confortável e sinal de um certo status fazer as viagens em carro próprio, e quanto a isso da perda de tempo, não se perde tempo num carro: vai-se ouvindo rádio sentado, e os atrasos devidos ao trânsito são socialmente bem aceites. Pode-se esperar, finalmente, que ele compreenda que os engarrafamentos são causados pelo excesso de tráfego automóvel, e que tal é incomportável, mas ele pensará que a culpa é sempre do governo e das câmaras que não constroem mais estradas e túneis.
Não se pode esperar que as pessoas sejam boazinhas ou responsáveis, pelo que se queremos que a generalidade da sociedade adote um determinado comportamento ou se governa por decreto ou se lhes (nos) vai ao bolso (eu prefiro a segunda opção). Tal como se demonstra que o aumento do petróleo (e a introdução de portagens em certas SCUTs) levou a um aumento da utilização dos transportes públicos, creio que ninguém contestará que a diminuição ou cessação da comparticipação dos preços dos transportes públicos, por si só, como propõe o Miguel, levará à diminuição do uso dos mesmos e ao aumento do transporte privado.

Parece um pouco bizarro

Em tempo de crise, este contrato.

Gostaria de conhecer mais detalhes, mas lá suspeito parece.

Censo de 2011: quantos infiéis somos?

Está na rua o Censo de 2011. Como ateu consciente e cidadão atento à evolução do fenómeno religioso, interessa-me a última pergunta do questionário individual: a delicada «qual é a sua religião». A situação é conhecida: o grupo em que me incluo, os «sem religião», é a maior minoria, e também a que mais cresceu entre 1991 e 2001.

O censo é a única operação oficial de contagem dos residentes em Portugal por critério de religião. Felizmente a única, porque o Estado não deve meter o nariz no que é matéria de convicção pessoal. E assim a Constituição nos garante, como deve, o direito de nem responder à questão.

As respostas registam sempre um número elevadíssimo de católicos, quase quatro vezes superior aos que se encontram na missa em qualquer domingo. O que acontece, em primeiro lugar, porque muitas pessoas entendem a pergunta «qual é a sua religião» como uma questão sobre se foram baptizados ou não. Mas não é disso que se trata.

Não ajuda que a pergunta do censo mencione, logo em primeiro lugar, a resposta «católica». Em mais nenhuma pergunta se seguiu, como a da religião aparenta, o critério da maioria (esperada) das respostas para as ordenar. Por exemplo: as respostas para o país de nascimento (quando no estrangeiro, questão 8) seguem a ordem alfabética. E as respostas à pergunta «como se desloca para o trabalho» (questão 21) começam com «a pé», e não «de carro» ou «de autocarro». No mínimo, o ordenamento é capcioso.

Também não ajuda que as categorias não católicas que se oferecem como resposta tenham designações tão estranhas que dificultam a identificação. «Ortodoxa» é um modo de viver a religião, não é uma religião. Seria melhor usar «católica romana» e «católica ortodoxa». «Protestante» será adequado para luteranos ou anglicanos, mas não para a maior minoria religiosa não católica, os que se designam a si próprios como «cristãos evangélicos». «Judaica» levanta outra questão: porquê incluir uma comunidade religiosa tão diminuta (quatro locais de culto no país inteiro) quando o Censo ignora as Testemunhas de Jeová (650 congregações em Portugal, dizem eles) ou a IURD (que chegam a usar estádios de futebol)? Parece, sejamos claros, discriminatório. Porque, das duas, uma: ou o critério aqui deveria ser o número, e as opções seriam outras, ou a lista deveria ser exaustiva, e seria muito mais longa (ou com uma opção em aberto para se acrescentar «ateu», «agnóstico», «pagão», «satânico» ou «cavaleiro de Jedi»).

Seja qual for a opção, nada melhor do que escolhê-la esclarecidamente.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Mas estavam à espera de quê?

Parece que certos personagens não estavam a contar que o Cavaco PR-2 fosse o exacto contrário do Cavaco PR-1. Ai pois. Não conheciam o historial do cargo? Ou não conheciam o Aníbal António?
Houve uma eleição, certo? Tentaram derrotá-lo? A sério? Suaram? Não? Então, agora aturem-no. Não necessita de mais nenhuma eleição na vida. Vai ser sempre a abrir...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Revista de blogues (08-03-2011)

Para ler com atenção (uma reflexão sobre o significado da vitória dos Homens da Luta): A nostalgia dos homens da luta, do Daniel Oliveira.

Para rir à gargalhada e prolongar o Carnaval por um dia: Então não é que à entidade “doliveiresca” agora lhe deu para plagiar Marx, não tendo para tal jeito nenhum, e ainda por cima para de novo (depois de RTavares) vir em defesa da vida estilo “mal menor”…, de Carlos Vidal.

terça-feira, 8 de março de 2011

O "Prós e Contras" da "geração à rasca"

Visto finalmente o “Prós e Contras” de há uma semana. Foi uma pena que não comparecesse nenhum promotor da manifestação do próximo sábado: está certo que pretende ser uma manifestação sem promotores, mas não surgiu espontaneamente. E convinha que houvesse outras vozes pelos jovens precários (nomeadamente do movimento FERVE) que não fosse somente Tiago Rodrigues, o dramaturgo a quem Fátima Campos Ferreira achava muita graça mas que escrevia na “Grande Reportagem” umas crónicas sem graça nenhuma. Rodrigues aproveitou para promover uns festivais portugueses supostamente “referência internacional” mas de que ninguém ouvia falar (não percebi se eram de cinema, se de teatro ou dança – ele também não disse). Fez de Isabel Stilwell o seu saco de pancadas, compreensivelmente pela famosa crónica do Destak. Claramente as posições de Stilwell não eram as de Rodrigues e era natural que não se entendessem, mas havia melhores maneiras de a contrariar que apontar-lhe a referência à Guerra do Ultramar da anterior geração (Stilwell só queria dizer com isto que todas as gerações tiveram as suas razões de queixa), como Rodrigues fez de uma forma pouco delicada.
Foi uma pena que ninguém tivesse confrontado o senhor da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, que pôde fazer livremente a propaganda demagógica que quis: que a solução requer menos estado, maior flexibilidade e que pediu explicitamente menores contribuições para a Segurança Social por parte das entidades empregadoras (houve quem lhe perguntasse se ele aceitaria passar a precário, uma pergunta muito válida mas que o senhor considerou “descabida”, mas ninguém lhe perguntou se se importaria que lhe cortassem a reforma). Fez a propaganda de Passos Coelho (num programa que a apresentadora disse que “não era suposto ser político”) sem nenhum contraditório, e no final ainda disse que não deveria haver “numerus clausus” e que as “universidades de excelência” deveriam poder recrutar os alunos que quisessem. Como se o Estado pudesse aceitar tal negócio numa universidade pública nos atuais moldes – o senhor esqueceu-se de dizer que o seu modelo implicaria um valor brutal de propinas. Mas, de acordo com Isabel Stilwell, deveríamos ouvir o “senhor professor”, que o que ele dizia era “a verdade” e que era muito melhor do que a “demagogia do Sócrates” (textualmente). Enfim, “Prós e Contras” melhores virão, esperamos.

O Carnaval dos Homens da Luta

Ao nível do gosto pessoal, subscrevo este texto do Nuno Ramos de Almeida. Mas (quadraturas do círculo de que só um tipo não sectário é capaz) ao nível político subscrevo este texto (aparentemente contraditório) de Carlos Vidal – na comparação dos Homens da Luta com os Gato Fedorento. Mesmo se achei (antes da overdose “meo”) alguma graça aos primeiros e nunca achei particular piada aos segundos.
No entanto, do que se trata aqui não é de humor. Nem de política. Mas de música. E aí, sinceramente, acho que os Homens da Luta estiveram bem, com uma boa música, alegre e agradável de ouvir (e sendo satírica é bastante portuguesa). E que me fizeram ligar alguma atenção ao Festival da Eurovisão, algo que já não acontecia há 20 anos. Vai ser interessante ver a reação da Europa. Prevejo votos em massa de Espanha, Grécia, Itália e talvez Irlanda. Tolerância e sorrisos da parte da França e da Alemanha. E desagrado da parte dos países de Leste.
De qualquer maneira, a música dos Homens da Luta não é mais do que isso: somente uma música. A política faz-se no dia a dia. Na rua, particularmente, no próximo dia 12.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Esclarecedor

Anda toda a gente a falar deles, fui ouvir os próprios.




Fiquei esclarecido.

Sistemas de saúde públicos

Numa escolha dos 20 artigos de topo ao longo de 100 anos de publicação da «American Economic Review», um deles recai sobre as «falhas de mercado» no universo da saúde. Alguns liberais de direita deveriam prestar alguma atenção ao artigo abaixo descrito em vez de repetir as falsidades que são tantas vezes usadas para defender o desmantelamento do SNS:


Arrow, Kenneth J. 1963. «Uncertainty and the Welfare Economics of Medical
Care.« American Economic Review, 53(5): 941–73.

This paper provided a framework for thinking about the economics of the market for medical care using the language and tools of modern microeconomics. It argued that the aforementioned market is beset by market failures because consumers are exposed to risks that are not fully insurable (in large part due to problems of moral hazard), and because they lack the information and expertise required to assess risks and treatments. It hypothesized that various salient features of the institutions governing the provision of medical care are best understood as social adaptations aimed at redressing the resulting inefficiencies. It also noted that in some cases those institutional adaptations undermine competition and perversely contribute to inefficiency. Though written well prior to the emergence of the formal literature on asymmetric information, the paper anticipated many of the central issues that continue to occupy health economists today.

Racionalidade automóvel: o exemplo espanhol

A decisão do governo espanhol em limitar a velocidade a 110 km/h nas auto-estradas a partir de hoje é um exemplo de uma medida racional que implica um esforço muito menor do cidadão para combater a crise e que tem implicações positivas na segurança rodoviária e na qualidade de vida. Sabendo que o problema principal da crise nacional é a nossa elevadíssima dívida privada, uma parte dela resultante da importação do petróleo, faz todo o sentido tomar medidas que reduzam a dependência e o consumo do petróleo. Faço notar que a velocidade máxima nos países europeus que detêm reservas de petróleo é inferior à do nosso país: Reino Unido ~113km/h, Noruega 100 km/h e Rússia 110km/h. 110 km/h é uma velocidade mais do que suficiente para trajectos longos (já fiz muitos de cerca de 2000 km) e para a qual os motores funcionam perto da melhor parte do seu regime quando se considera a poluição, a fiabilidade e o consumo. Acrescento que gosto de automóveis e que adoro conduzir, por isso estou bem consciente das irracionalidades motorizadas que circulam nas nossas estradas. Por isso, seria muito mais racional para a crise da dívida privada proceder a alterações profundas na fiscalidade automóvel, tal como a taxação mais severa de veículos particulares com motores com mais de 2000 cm3 ou de veículos todo-terreno (autênticos luxos com rodas), em vez acentuar a pressão sobre os cortes de salários ou nos serviços públicos que pouco ou nada contribuíram para a crise.

domingo, 6 de março de 2011

sábado, 5 de março de 2011

Citações e mentiras de Monckton Bunkum

Com o excelente trabalho de Potholer54, pode ser que este indivíduo desonesto (Monckton Bunkum) perca grande parte da influência mediática que tem, a qual tem sido usada para mentir descaradamente, e viciar o debate público sobre as alterações climáticas:

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pedofilia na ICAR

No NYT de hoje: apesar dos discursos e das promessas, continuam as histórias de bispos que protegem activamente padres suspeitos de crimes sexuais sobre menores e conspiram contra a justiça.

Claro que a primeira pergunta que se põe perante esta história é: como é possível que depois de mais de uma década de histórias terríveis, que ilustram ad nauseam a atitude da ICAR perante esta questão, ainda haja pais que entregam os filhos a padres católicos!

Subsidiar a alimentação e os transportes?

A actual subida do preço do petróleo e dos alimentos é uma excelente ocasião para desmontar uma ideia que é consensual* em todo o espectro político nacional, a ideia que se devem baixar artificialmente os preços dos bens que os pobres mais consomem. Falo do IVA reduzido para "bens essenciais", subsídios aos transportes públicos, descontos no IRS etc.

1. Este tipo de subsídios são invariavelmente mal direccionados. Os ricos gastam mais em alimentos do que os pobres, e os habitantes das zonas urbanas ricas usam mais os transportes públicos que os do interior pobre. Em termos absolutos, os subsídios apoiam mais quem não deveria ser apoiado (em termos relativos não, mas isso não contraria o essencial).
2. Eles levam a uma distorção artifical de preços, induzindo comportamentos indesejáveis. Alguém que poderia produzir alguns produtos na sua horta abaixo do preço normal, não o fará com esta distorção. O subsídio é assim um pagamento para que alguém não o use alternativas mais baratas. Alguém que esteja a escolher um local para arrendar casa poderá optar por um local mais longe do que seria desejável (tendo em conta o custo do transporte para a sociedade), porque lhe estamos a pagar para tal.
3. Este tipo de instrumentos acarretam sempre altos custos burocráticos e fraudes. Quanto mais complexo um sistema legal, mais difícil é de o controlar a sua aplicação e mais fácil é fugir a ele. Prova disso são os milhões gastos em consultores fiscais que nenhum valor contribuem para a sociedade para lá da ajuda à fuga aos impostos.
4. Muitas políticas ambientais são totalmente bloqueadas com o argumento de atingirem os pobres. Taxas de poluição, por exemplo na electricidade, são fortemente criticadas. Haverá muitos casos onde haveria alternativas mais amigas do ambiente que se tornariam viáveis, se o uso da electricidade pagasse o custo total que tem para a sociedade. Estamos assim a incentivar comportamentos prejudiciais ao ambiente.

O que defendo em termos de política desigualdade de rendimentos é simples e é baseado na ideia de que se deve actuar directamente nos rendimentos e não causar distorções posteriores nos preços. E há uma maneira simples de o fazer, transferir todos os custos que advêm das políticas mencionadas acimas (que são uns bons milhares de milhões) directamente para os pobres, por exemplo com IRS negativo para os escalões mais baixos. Quem recebesse o salário mínimo teria um bónus de 200€ por exemplo. Poderíamos assim eliminar os problemas acima, sem afectar o combate à desigualdade.

Tendo esta alternativa em mente, é curioso notar que quando a esquerda defende este tipo de subsídios, nem se apercebe que está a fazer algo que critica na direita. Falo das senhas de alimentação para os pobres, que a direita defensora da caridadezinha tanto gosta de promover. Ao defendermos uma actuação nos preços e não nos rendimentos, estamos a ter o mesmo comportamento assistencialista, ao arrogarmo-nos o direito de indicar o tipo de bens que as pessoas de baixos rendimentos devem consumir com o apoio estatal.

*Há apenas alguns economistas, particularmente o Miguel Madeira, que têm escrito esporadicamente sobre este assunto.