quinta-feira, 2 de junho de 2011

diagnóstico estrutural ilustrado, 3/3

Para terminar a discussão que iniciei aqui e continuei aqui, recordemos a pergunta que concluía o último post: porque temos um paradigma errado no sector produtivo e exportador nacional?

O problema reside, naturalmente, nas fundações: a qualificação de trabalhadores e empregadores. Comecemos pelas qualificações gerais da população. Nos últimos 50 anos muito muito se tem caminhado, como podemos ver aqui. A taxa de escolarização aos 5 anos:


e aos 15 anos:


Para ajudar a melhorar estes números, assistiu-se recentemente também a um enorme esforço no combate ao abandono escolar, como podemos ver aqui:


Finalmente, alguns dados relativos à conclusão do ensino secundário, daqui. Podemos ver que, pese embora ainda nos encontremos a sofrer de um atraso estrutural, o nosso progresso recente nesta área tem sido de absoluto destaque:


Ou seja, o quadro começou negro mas tem vindo a recuperar lentamente. Contudo, conforme nos viramos para os empregadores, descobrimos que o quadro destes é ainda pior! Como podemos ver aqui, comparados com a UE27 os trabalhadores portugueses têm muito baixas qualificações, mas, na mesma comparação, os empregadores portugueses têm muito piores qualificações:


De facto, este quadro é de tal forma negro que podemos mesmo dizer que o grande problema da produção nacional não são os trabalhadores mas os patrões — que logo à partida não sabem gerir os seus empregados!

Ora este problema de gestão é também muito importante no que diz respeito à competitividade nacional, como foi bem ilustrado num artigo recente. Por exemplo, podemos ver que, regra geral, as empresas em Portugal são bastante mal geridas:


Mas ficamos substancialmente pior na fotografia quando comparamos, em Portugal, companhias nacionais (i.e., com gestão puramente nacional) e companhias multinacionais (i.e., com práticas de gestão internacionais):


O diferencial é aberrante no caso português, ilustrando claramente que uma grande componente na falha da nossa competitividade se encontra do lado do patronato, ao contrário da mensagem que muitas vezes é transmitida nos media. De facto, os mesmo trabalhadores, com gestões diferentes, produzem ganhos de competitividade também substancialmente distintos.

Para terminar, voltemos ao início destes textos, para deixar uma palavra relativa ao investimento público — um dos possíveis motores do crescimento económico. Devemos ou não devemos manter o investimento público numa altura de crise? No espírito deste post, ao invés de uma longa discussão sobre esta questão, limito-me a apresentar um gráfico com os dados, de um artigo recente. A análise diz respeito a 100 anos de dados macroeconómicos, aplicados ao Reino Unido. A conclusão é simples, comparando diferenças associadas à despesa pública e à dívida externa:


A consolidação fiscal não é solução para resolver o problema da dívida externa, muito pelo contrário. Um investimento público estratégico, orientado para resolver muitos dos nossos problemas estruturais mencionados anteriormente, é fundamental para podermos, no futuro, resolver o problema da dívida externa!

15 comentários :

  1. Os patrões portugueses são uns mentecaptos - e portanto é natural que queiram um mentecapto para PM.

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  2. uma das coisas que me dá gozo no paper do bloom e van reenen é que podes fazer essa afirmação com base científica!

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  3. Ricardo Alves,

    "Os patrões portugueses são uns mentecaptos..."

    um pouco menos do que aqueles que, julgando-se mais competentes, não arriscam concorrer com eles.

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  4. Basta ver que os trabalhadores portugueses, apesar das suas baixíssimas qualificações, quando emigrantes são considerados excelentes em todas as partes do mundo. Seja onde fôr neste mundo, os imigrantes portugueses são muito bem vistos e tidos como trabalhadores e disciplinados.

    Só mesmo cá em Portugal é que as suas baixas qualificações parecem constituir um problema inultrapassável.

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  5. essa dos trab port serem considerados "excelentes" tb é um mito antigo. são bem considerados quando cumprem, só isso. e não se lhe pede mais.
    fazemos da diplomacia de quem não está à espera de feitos notáveis, ou compara com outros por ele considerados truculentos, um afago de ego.
    e para prova, já ouvi generalizarem o oposto...

    Ricardo S., o último gráfico carece de alguma descrição... aquela reta serve para quê?

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  6. é a interpolação linear, descontando as grandes guerras. não está claro?

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  7. Está para fazer 10 anos sobre o dia em que, à conversa sobre a situaçäo económica portuguesa (que já aí era... enfim...), um interveniente disse, e com imensa razäo:

    "em Portugal existem patröes a mais e empresários a menos"

    Desde aí tenho repetido essa frase, porque encerra nela própria o problema e a soluçäo da economia portuguesa.

    Os mesmos trabalhadores portugueses pouco qualificados säo 300.000 vezes mais produtivos lá fora? Näo é por acaso, é que "lá fora" estäo gestores competentes.

    Mas outra: os gestores portugueses säo dos mais bem pagos na Europa. É de ficar a cogitar...

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  8. eu percebi q era uma interpolação linear... se calhar convinha explicar ao leitor incauto que essa reta revela uma correlação inversa entre despesa pública e dívida externa, independente das épocas, ie, que, ao longo dos tempos, parece q quanto mais o estado investiu menos o país deveu ao exterior (esta seria a "minha" legenda ;)).

    agora, há pormenores q falham: por exemplo, pq se considera períodos completamente diferentes? temos 3 anos entre 44 e 47 e depois 33 entre 1976 e 2009? eu sei q não podes transcrever o artigo todo mas isto assim fica muito estranho.

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  9. dorean, deixei links para todos os artigos originais, para quem os quiser consultar...

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  10. "em Portugal existem patröes a mais e empresários a menos"

    Grande frase!

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  11. e em portugal existem empresários muito bons que a fiscalidade leva a emigrar

    muitos empresários eram antigos empregados

    logo essa teoria do patrão

    é patranha

    no vale do ave na cova da beira a partir dos anos 80 as antigas dinastias industriais desapareceram e surgiram muitas novas e mais dinâmicas

    há muitos e bons empresários
    não há é apoios ó lorpas

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  12. vão dizer isso ao pessoal que em exportava roupa de luxo para a europa e que a crise de crédito levou a que deixassem de pagar à segurança social para pagar os salários aos 20 30 40 trabalhadores que tinham

    gente nova com 30 e tantos anos ou nos 40's antigos operários com empresas criadas enfim...

    ignorância pega-se

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  13. «ignorância pega-se»

    Alguns nem os gráficos sabem entender...

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  14. nem por isso podem-se construir gráficos de tal modo que...

    no vale do ave e alhures até eu construi uns
    muito esperançosos
    infelizmente a segurança social e o fisco precisava de receitas imediatas

    e o pessoal foi para o desemprego
    na maior parte empresas familiares

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