quinta-feira, 12 de maio de 2011

emprego, exploração e estabilidade 2/2

Continuando com a discussão de ontem, analizemos o desejo de estabilidade de um trabalhador, eventualmente factor importante que o impede de se libertar das amarras a formas mais tradicionais de emprego. Será que, nos dias de hoje, existem empregos "para a vida"? De preferência "à porta de casa"?

A ideia de um trabalho "para a vida" é uma ideia ultrapassada pela realidade. E ainda bem: as profissões só podem durar uma vida se não existir qualquer progresso científico, tecnológico, mesmo sócio-económico. Muitas das profissões mais requisitadas hoje em dia não existiam há 20 anos. Da mesma forma, não fazemos a mais mínima ideia quais serão as profissões que vão estar na berra em 2040. Sabemos que cerca de metade da força laboral especializada, a nível mundial, se vai reformar na presente década, e podemos tentar estimar que cerca de 80% dos futuros empregos irão, de alguma forma, necessitar de skills em matemática, ciência ou engenharia. Mas pouco mais podemos saber ou estimar. Do meu lado, apenas posso esperar que as profissões da berra em 2040 sejam completamente distintas das de hoje, num sinal inequívoco de progresso da sociedade. E refiro-me mesmo às profissões mais clássicas, nos sectores da saúde, da educação, da justiça, mais imutáveis ao longo da vida de um trabalhador. Por exemplo, não é difícil imaginar que a cirugia pode estar em vias de extinção e que, num futuro próximo, possa ser aberrante lembrar que alguma vez se abriu uma pessoa para proceder a um intervenção médica, ao invés de o fazer através de nanorobots. Também não é difícil imaginar que o policiamento ou a fiscalização passem a ser feitas de forma automática (e muito mais eficiente) sem fazer uso de qualquer trabalhador humano. E isto sem mencionar um aspecto mais tradicional em que muitos trabalhadores nestas profissões "clássicas", frequentemente, ao longo das suas carreiras, transitam de funções activas para funções de gestão.

Assim, achar que se pode ou se deve ter um emprego fixo para a vida é, no fundo, um sinal claro de conservadorismo ou corporativisimo, dois dos grandes inimigos dos modelo social europeu. Aquilo a que realmente um trabalhador pode e deve ansiar, não é por um emprego para a vida, mas por uma vida de estabilidade no acesso ao trabalho. E esta é uma questão diferente, que importa não misturar com a anterior, pois este é o ponto fundamental. A estabilidade. Deve ser possível a um trabalhador poder adaptar-se, (re-)educar-se, ganhar novas e distintas funções, aceder a trabalhos diferentes, numa carreira mais dinâmica e menos tradicional, naturalmente sem ter que passar por períodos de desemprego (ou, pelo menos, de inactividade) ou ter que sofrer a consequente contracção salarial. O conceito de carreira, naturalmente, terá que evoluir, mais a ideia de estabilidade laboral na vida é, a meu ver, o valor a defender.

Uma breve palavra também sobre o emprego "à porta de casa". Este conceito depende, claramente, da economia de escala associada a onde fica o lar ... quanto maior, eventualmente mais fácil, quanto menor, naturalmente mais difícil. Mas, no segundo caso, cair num fado de imobilismo provinciano não me parece ser a melhor escolha: o mundo está em mudança e nós também. Adaptemo-nos. Com espirito de iniciativa pode partir-se em busca de melhores condições da mesma forma que se podem empreender as suas próprias ideias e a sua própria inovação.

A esquerda, na minha opinião, no seu combate às desigualdades e às explorações, na sua defesa da igualdade de oportunidades e de um futuro melhor para todos, não deve ter qualquer problema com esta realidade. Esta realidade não é um sinal de exploração capitalista, mas um sinal de desenvolvimento humano e tecnológico. Mais ainda, num contexto de estados-nação, é importante que a(s) esquerda(s) compreendam que o segredo da competitividade do seu próprio estado, passa, em grande medida, pela sua resiliência, pela sua flexibilidade e pela sua independência. Se queremos uma vida melhor para todos, temos também que saber concretizá-la.

6 comentários :

  1. reeducar é difícil

    e desenraizar gentes pouco habituadas à mobilidade

    pois os que a tinham

    iniciativa e adaptabilidade já emigraram

    ficaram os que têm alma de funcionários

    estabilidade

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  2. Concordo em parte como o artigo, parece ser minimamente objectivo.
    No entanto, pretender que não haja contração salarial, num período em que aumentou substancialmente a formação académica na área das profissões referidas...apenas se pode considerar idealismo, ou pior, outra forma de conservadorismo.

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  3. Eu defendo há muito o fim das "tenures" essa coisa anacrónica dos professores universitários.

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  4. "Deve ser possível a um trabalhador poder adaptar-se, (re-)educar-se, ganhar novas e distintas funções, aceder a trabalhos diferentes"

    Tudo isto são palavras muito bonitas de uma pessoa que, provavelmente, não tem mais de 30 anos de idade. Mas as pessoas de facto não são assim.

    A partir de uma certa idade as pessoas têm cada vez mais dificuldade, não apenas em aprender novos métodos, mas até mesmo em adaptar-se a novas tecnologias. Essa adaptação e aprendizagem tornam-se lentas e incompletas. O trabalhador, por mais "reciclado" que tenha sido, estará sempre em inferioridade perante jovens que aprenderam desde o princípio os novos métodos e tecnologias.

    É como exigir que os portugueses de 60 anos de idade entreguem uma declaração de IRS pela internet... não são capazes.

    Esta conversa muito bonita não é aplicável na prática.

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  5. Concordo parcialmente com o artigo, e concordo parcialmente com os comentários.

    "É como exigir que os portugueses de 60 anos de idade entreguem uma declaração de IRS pela internet... não são capazes."

    Luís, as pessoas de 60 anos têm filhos, sobrinhos e se não tiverem podem dirigir-se às repartições de finanças e lá serem ajudados. Concordo com o seu ponto de vista, sim, mas não podemos deixar que tal entrave a modernização.

    "pretender que não haja contração salarial, num período em que aumentou substancialmente a formação académica na área das profissões referidas...apenas se pode considerar idealismo, ou pior, outra forma de conservadorismo."

    Concordo totalmente com este comentário, e essa já é uma discussão antiga (mais de dez anos) entre mim e o Ricardo. Da minha parte, prescindia de uma parte substancial do meu salário em troca de mais estabilidade. Preferia ter um salário base, mesmo que fixo, e o resto como estímulo à minha produtividade. Mas acho que, em geral, num país que vive claramente acima das usas posses muita gente deveria ganhar menos.

    "Também não é difícil imaginar que o policiamento ou a fiscalização passem a ser feitas de forma automática (e muito mais eficiente) sem fazer uso de qualquer trabalhador humano."

    E era o autómato que depois ia bater nos anarquistas? :)

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  6. a inércia é uma constante desde o sistema de ensino

    aos pretensos cursos de desformação dos desinstitutos de emprego

    apesar disso o nº de pessoal já com certa idade entre os 50 e os 70 anos que preenche formulários electrónicos é impressionante basta ver nas bibliotecas públicas

    agora fazer generalizações ao pessoal que é feirante e quer continuar a sê-lo ou é desempregado profissionalizado desde os 20 e subsidiodependente desde os 40

    e forçá-lo a mudar

    e anarcas que colaram tanto cartaz e estrategicamente pintaram a janela do Dóitch BAnk menos visível

    podem até intitular-se anarkas

    mas são mais um bando daqueles miúdos

    que correm pró pai aqueles miúdos bateram-me

    assinado: um gajo que partiu um dente a morder uma faca (de pão)

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