terça-feira, 31 de maio de 2011

diagnóstico estrutural ilustrado, 1/3

Discuti recentemente, num post ilustrado, como a adesão ao euro junto de uma paranóia inflacionária germânica efectivamente criaram uma situação em que a nossa tentativa de convergência económica com o centro europeu teve como combustível económico primário o crédito. Ilustrei ainda o reverso desta medalha: o crescente endividamento público, mas, acima de tudo, privado que se notou em Portugal nos últimos anos.

Volto agora a essa questão para perguntar: mas porque é que nesta última década o crescimento da nossa economia foi marginal e sustentado no crédito? Vou tentar algumas respostas em novo post ilustrado...

Comecemos pelo básico: como podemos conseguir crescimento económico? Essencialmente de quatro formas distintas: por via do consumo interno (como discutimos aqui, foi sustentado pelo crédito), por via do investimento privado (da mesma forma, como discutimos aqui, foi sustentado pelo crédito), por via do investimento público (parcialmente sustentado pela dívida pública, o que não seria um problema como veremos mais tarde, mas muito limitado pelo "PEC 3%" original que abriu espaço à "necessidade" das PPP por forma a tentar efectivar —mal— o investimento público), ou por via das exportações.

Ou seja: restam as exportações, sempre tão discutidas ultimamente. Assim, a minha pergunta em cima resume-se a esta: porque é que as nossas exportações não são competitivas e não nos permitem ter real e sustentado crescimento económico, libertando-nos, no processo, do crédito?

Este é, de facto, um ponto absolutamente chave! Claramente, ao longo dos últimos 100 anos, e como discutido aqui, podemos observar que Portugal convergiu com a Europa sempre que a capacidade exportadora aumentou:


E nos dias de hoje? A história começa, depois da adesão ao euro, com o custo das nossas exportações. Para fora da Europa, exportando em euros, esse custo tem vindo continuamente a aumentar. Para termos uma ideia, podemos ver aqui a evolução do euro em relação ao dólar na última década:


Tudo o resto constante, cada vez os nossos produtos são mais caros, em dólares. Mas, de forma análoga, cada vez temos que gastar mais dinheiro (em custo energético) para produzir os mesmos produtos. De facto, sendo um país ainda tão dependente do exterior do ponto de vista energético (apesar da grande ajuda iniciada com a aposta nas renováveis), podemos compreender esse problema ao ver aqui como evoluiu o preço do petróleo nos últimos 20 anos:


Claramente, a coisa não está famosa no que diz respeito a exportar para fora da Europa. E dentro da Europa? Bom, para além de estarmos a competir com um motor germânico já em plena marcha e muito bem oleado, para além da abertura aos mercados a leste com mão de obra mais qualificada (a discutir em seguida), temos um problema geográfico: encontramo-nos na periferia! Esse assunto foi recentemente discutido aqui e é útil ilustrá-lo. Comparando o peso das exportações, em % do PIB, com a distância em quilómetros das respectivas capitais a Berlim (o "centro" europeu), encontramos:


Curioso, não é?... E finalmente, um problema estrutural: não existe um claro compromisso das empresas nacionais com o "objectivo exportação". Como foi discutido aqui, um país pequeno, com mercado interno limitado, deveria apostar principalmente nas exportações. Não é esse o nosso caso:


Apostamos consideravelmente menos nas exportações do que outros países de dimensão semelhante; comportamo-nos como se o nosso mercado interno fosse alargado (e livre de crédito, como discuti aqui). Sendo herança do Estado Novo uma baixíssima componente exportativa do PIB, é ainda herança do Cavaquismo a aposta única na construção e na privatização do tudo e do nada (abrindo muitos sectores de negócio orientados exclusivamente para o mercado interno nacional), não existindo assim qualquer estímulo ou incentivo a uma aposta exportativa por parte do tecido produtivo nacional.

Bom, mas se estamos à partida numa situação desfavorável no que diz respeito às nossas exportações, podemos (devemos!) sempre tentar minorizar os aspectos negativos apostando em exportações de elevado valor acrescentado, de elevado conteúdo tecnológico. Mas, aqui chegados, deparamo-nos com toda uma nova série de problemas, de trabalhadores a empregadores.

2 comentários :

  1. Boa análise!

    Mas näo esqueçamos o cerne do problema, que é mesmo a falta de visäo exportadora. Tudo o resto constante, é a diferença de Portugal para a Irlanda e Finländia, também muito periféricos no contexto da UE.

    Agora de repento toda a minha gente quer exportar. Mas para onde e o quê? Temos produtos óptimos, pois temos, mas agora é tarde! Porque é que näo há Sumol fora de Portugal? Ou café português? Ou vinhos? Ou queijos? Nisto podemos competir de certeza, näo há estrangeiro nenhum que näo se encante com estes produtos.

    Mas näo, a táctica (e também nas grandes empresas) é sempre explorar um mercado interno limitado (populaçäo, salário médio do pior na Europa) e sustentado a crédito. Näo dá. E ter durado 10 anos acho que já foi muito!

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  2. está bom (vou agora ler o segundo capítulo) mas recuso a ideia da fatalidade da periferia, por várias razões. no mínimo, pode ser tornada numa vantagem logística, um setor sub-aproveitadíssimo - 98% do comércio mundial é por via marítima. infelizmente, a privatização da tap mostra que a trend é mesmo a redução ao quintalinho.

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