sábado, 30 de abril de 2011

mais valia estarem calados...

«[...] O Bloco de Esquerda enviou hoje uma carta ao Governo indicando que pretende apresentar as ideias do partido quando o texto final do acordo sobre o apoio financeiro a Portugal estiver para avançar. [...]» [1]

Estarão a gozar? Como já aqui foi criticado, o Bloco (e o PCP) assumiram-se em definitivo como partidos de protesto ao renunciarem a participar nas negociações com o FMI. Vejamos, podem não gostar de ter o FMI em Portugal —eu certamente não gosto nada!— mas não podem renunciar ao facto. Nesse sentido, poderiam não ter participado, junto com a direita, na crise que lhe abriu as portas; se o fizeram então agora é altura de assumir as responsabilidades. Mais, Portugal não pode operar sem injecção de financiamento externo a cada trimestre, sensivelmente. Quando as taxas de juro nos mercados dispararam exponencialmente, que sugestão fizeram para assegurar um financiamento sustentável? Nenhuma? Pois...

E o que dizem agora? Ah, e tal, quando o processo estiver concluído nós lançaremos uns bitaites a ver se colam. Pois colam muito mal: se o Ricardo Alves fez uma justa crítica ao PS pelos muitos entraves que coloca aos entendimentos governativos com Bloco e PCP, não deixa de ser menos verdade que, neste momento, mesmo que os retirasse, não existe qualquer interesse por parte destes partidos em participar nas soluções de futuro. Apenas apostar nas fat tails. Para bem da esquerda, era mais do que altura de mudar esta atitude.


[1] --- Bloco enviou carta ao Governo com plano alternativo, Diário de Notícias [Abril 2010]

9 comentários :

  1. Ricardo,
    se bem entendo, o teu inimigo principal nestas eleições é o BE. Não é o PSD de Passos Coelho, não é o CDS de Portas, não é o FMI nem a ditadura dos banqueiros. É o BE em primeiro lugar e o PCP em segundo.

    Efectivamente, como apontas é óbvio que os maiores responsáveis pela situação a que chegámos são os do BE (e do PCP). Por não terem participado no governo, por terem estado em desacordo com Sócrates, por não terem seguido o Grande Líder, por serem quem são.

    Se eles tivessem apoiado a banca, as agências de notação, o Sócrates e companhia, hoje estaríamos numa situação radicalmente diferente. A caminho de um Estado com serviços públicos renovados e universalmente gratuitos, até.

    Como dizes neste post, a atitude do BE nestas negociações é danosa. Ao recusarem-se a negociar, estão a quebrar o consenso nacional pró-FMI - do qual, não sei porquê, tu te excluis. Podem estar a criar as condições para que um governo do PS tenha mais margem de manobra à esquerda na negociações com os tecnocratas - o que é indesejável, porque bom mesmo é ser governado pelo FMI, sem ambiguidades nem variações.

    Espero que me entendas. ;)

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  2. « Quando as taxas de juro nos mercados dispararam exponencialmente, que sugestão fizeram para assegurar um financiamento sustentável? Nenhuma? Pois...»

    Estás enganado.

    São propostas do BE e do PCP:

    a) renegociar a dívida, o que diminui as necessidades de financiamento (BE e PCP)

    b) acabar com benefícios fiscais, o que aumenta a receita (BE, imagino que o PCP também)

    c) aumentar o IRC efectivo pago pela banca, o que aumenta a receita (BE, imagino que o PCP também)

    d) implementar um imposto sobre as grandes fortunas, o que aumenta a receita (BE, imagino que o PCP também)

    e) Renegociar as PPPs, o que diminui a despesa (BE, imagino que o PCP também)

    f) Nacionalizar algumas empresas estratégicas com monopólios naturais (como a GALP), o que aumenta a receita (BE, PCP)

    Podes discordar das sugestões do BE e do PCP, mas faltas à verdade se dizes que elas não existem.

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  3. JV,

    o b) é um caso curioso: foi defendido pelo BE na campanha de 2009, e violentamente atacado pelo PS. O Sócrates chegou a dizer que era um ataque à classe média. Agora o fim dos benefícios fiscais já é defendido até pelo FMI.

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  4. jv: estás completamente enganado. todas essas medidas poderiam ser medidas a negociar aquando dos diversos PECs (muitas delas com as quais concordo e já aqui defendi no blog, outras tenho dúvidas pois são apresentadas de forma algo ingénua: (a) qual o custo, em termos de taxas de juro futuras, da renegociação? imagino que incomportável. eventualmente uma renegociação da parte da dívida devida às taxas de juro "criminosas" poderia resultar; (e) e (f) soam muito bem, mas para isso é necessário romper contratos. existe dinheiro para pagar indeminizações de milhões nesse caso? duvido). contudo, nunca saberemos o resultado dessas negociações: nem ps nem bloco ou pcp realmente as tentaram fazer (em relação a este ponto, já o RA escreveu muito bem sobre o ponto de vista do ps, e, além do que escrevi, vale também a pena ler sobre o ponto de vista do BE no 3o parágrafo daqui: http://aspirinab.com/valupi/baratas-tontas/).

    mas o que eu refiro no post acontece depois do chumbo do pec 4. já ilustrei com gráficos aqui no blog que é depois disso que as taxas de juro passam de crescimento polinomial para crescimento exponencial. ora, nessa altura, já não há nada a fazer. não há proposta realista ou lírica que possa impedir uma intervenção externa. se o estado não se financia em finais de maio, o país é forçado a declarar falência. e certamente não são medidas pontuais como as que indicas que vão resolver isso nessa altura!

    daí que, sugestões para assegurar esse financiamento para maio, após o chumbo do pec4 e do disparo exponencial das taxas de juro, evitando o fmi, temos exactamente: nenhuma!

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  5. Se escreves assim, é porque falas assim; se falas assim, é porque pensas assim, e se pensas assim, pensas como um macaco. E isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes que os seres humanos. Não sei

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  6. Ricardo Schiappa:

    Dizes que estou enganado, mas o teu texto dá-me razão.

    Sustento esta afirmação citando a última frase do meu comentário:

    «Podes discordar das sugestões do BE e do PCP, mas faltas à verdade se dizes que elas não existem.»

    Nota que o teu comentário pretendeu fazer isto mesmo: fundamentar a tua discordância com as diferentes medidas que enumerei.
    Ora essa é uma discussão interessante. Não creio que os teus argumentos sejam tolos, mas também não creio que sejam definitivos.

    MAS, nota que discordar dessas medidas é diferente de afirmar que elas não existem. Essas medidas são propostas alternativas - a teu ver piores, pelas razões que apresentaste - para lidar com a questão do financiamento. Não podes dizer que não existem.

    Porque aliás essa foi uma diferença FUNDAMENTAL entre o chumbo da esquerda do PEC4, e o chumbo da direita. Enquanto o PSD não apresentou nenhuma alternativa quando chumbou o PEC4, o BE e o PCP apresentaram. Podes achar que seria um mau plano, com más consequências para o país - mas não podes negar a sua existência.

    Essa crítica (só sabem criticar, mas não apresentam alternativas), apesar no discurso comum ser mais feita ao BE e ao PCP que ao PSD, no caso do PEC4 foi o PSD o partido que mais a mereceu. Nos moldes em que a fazes, é uma crítica injusta.

    Mas é a tal batalha fraticida. Uma crítica que poderias fazer com justiça para a Direita, o verdadeiro inimigo nestas eleições, vais fazê-la de forma injusta para os partidos à esquerda do PS.

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  7. jv, acho que não leste o que eu escrevi: eu não estou a falar de medidas pré-PEC4, mas de medidas pós-PEC4. uma vez chumbado e tendo as taxas de juro entrado em crescimento exponencial, que sugestão foi feita por quem quer que seja para evitar recurso a ajuda externa? nenhuma.

    claro que o principal objectivo é derrotar a direita, mas, com atitudes destas, que descrevo no post, os partidos à esquerda do ps em nada ajudam!

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  8. «uma vez chumbado e tendo as taxas de juro entrado em crescimento exponencial, que sugestão foi feita por quem quer que seja para evitar recurso a ajuda externa? nenhuma.»

    As seis propostas que referi são propostas que, na perspectiva dos proponente, permitem evitar recurso a ajuda externa.

    Tu podes argumentar - como fizeste, e é um debate interessante - que elas teriam consequências nefastas ou que, mesmo positivas, por terem consequências diferentes daquilo que os proponentes imaginam, são insuficientes.

    Não podes alegar que não existem sem faltar à verdade.


    Eu posso compreender que a teu ver essas medidas sejam insuficientes, e que por isso dizes que eles não apresentam nenhumas medidas «que sejam suficientes» para fazer face à falta de financiamento. Mas nesse caso tens de acrescentar isso mesmo, porque esse acrescento denuncia aquilo que é uma opinião tua - a insuficiência das medidas que são propostas - da qual muitos (e não apenas os proponentes) discordam.

    Outros acreditarão que basta uma renegociação da dívida suficientemente radical para eliminar a necessidade de financiamento externo, ou que os juros até podem baixar em consequência dessa renegociação*, e assim ser desnecessário o FMI.


    *tu podes achar absurdo, mas essa é uma questão técnica em relação à qual já vi diferentes economistas a defenderem as várias posições possíveis.

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