domingo, 10 de abril de 2011

a esquerda que abriu as portas às piores políticas de direita

Há uns dias escrevi sobre a cadeia de decisões que abriu as portas ao FMI. Ficou claro que o acontecimento singular que capitulou a resistência nacional foi o chumbo do PEC4, causando danos irreparáveis ao nível das taxas de juro que dispararam exponencialmente para níveis insustentáveis. Quero retomar hoje esse tema pois o chumbo do PEC4 não foi decidido apenas à direita. Muito pelo contrário, necessitou também dos votos do Bloco e PCP.

Estes dois partidos já tinham anteriormente aquecido motores junto com PSD e CDS, seja a praticar algumas políticas de direita, seja a desejar outras. Participaram também, junto com PSD e CDS, em inúmeras "coligações negativas" ao longo desta legislatura, tendo o seu ponto mais baixo a votação mais nojenta e oportunista que tenho memória ter ocorrido na Assembleia da República. Mas ... o FMI?! Custa-me compreender o que realmente se passou na cabeça desta gente!

Vejamos, neste campo partidário é frequente encontrar excelentes análises económicas, muitas vezes identificando claramente a raíz dos mais diversos problemas. É menos frequente encontrar soluções pragmáticas para os mesmos, ou disponibilidade para o compromisso e a tentativa de realmente começar a resolver no Parlamento as mais diversas dificuldades com que nos deparamos. Mas, bom, isso não invalida clareza em saber ler as mais diversas situações sócio-económicas. E é isto que me confunde.

Claro que tanto o Bloco como o PCP jogam uma politiquice interesseira, como a maior parte dos partidos, e ainda recentemente se divertiram a ver qual ganhava o título do "eu censuro mais do que tu". Mas, joguinhos e interesses partidários à parte, nunca pensei que houvesse muito mais por detrás disto. Afinal de contas, são os primeiros a afirmar que o FMI é um dos principais inimigos contra o qual lutam.

Ora sendo na altura perfeitamente claras as consequências do chumbo do PEC4 (a única dúvida, parece-me, seria se ia demorar uma semana ou um mês até ao disparo insustentável das taxas de juro), e sendo estes partidos habitualmente claros a perceber o contexto económico e financeiro que nos rodeia, o que explica então que, mesmo assim, Bloco e PCP tenham optado por abrir as portas ao FMI, que já anunciou que o PEC4, chumbado no parlamento, é apenas um ponto de partida?

Sinceramente, não sei. Resta-me apenas esperar que isso não tenha acontecido com o objectivo mesquinho de partir o PS ou de abrir espaço a um cisne negro revolucionário, objectivos muito muito mais graves do que um mero lapso de cálculo político-partidário. Em qualquer caso, agora não adianta derramar lágrimas de crocodilo. Tal como a direita, também estes partidos devem ser devidamente responsabilizados, nas urnas, pela atitude que tomaram.

12 comentários :

  1. Discordo dessa perspectiva.

    Ela seria válida caso BE ou PCP tivessem votado favoravelmente numa moção de censura para mandar o governo abaixo, coisa que esteve prestes a acontecer.

    Mas não aconteceu.

    Ela também seria válida, se o BE ou o PCP propusessem políticas semelhantes, não fossem capazes de propor qualquer alternativa, pretendessem apenas chumbar o PECIV para prejudicar o PS, e depois serem eles a aplicá-lo, como o PSD. Não foi o caso.

    BE e PCP tinham uma divergência política fundamental em relação a estas propostas de Sócrates, e Sócrates sabia-o.
    Ou Sócrates alterava as sua proposta radicalmente para acomodar as exigências do BE e PCP, o suficiente para conseguir o seu voto; ou tentava alianças à sua direita; ou não ameaçava demitir-se caso não aprovassem aquele pacote.

    Podemos culpar por esta crise a direita, que não apresentou qualquer alternativa ao PECIV, que quis simplesmente mandar o governo abaixo para se afiambrarem ao poder.

    Mas os partidos à esquerda do PS não iriam certamente aprovar este pacote sem mais, e apresentaram alternativas - podes considerá-las radicais, mas eles consideram-nas razoáveis, e o jogo democrático é assim: vota-se de acordo com aquilo em que se acredita.

    Sócrates disse "se não votam naquilo que quero, demito-me e vem aí a direita e o FMI". Se no fim o faz, a culpa dele concretizar a ameaça não pode ser de quem não se deixou intimidar.

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  2. joão vasco, lembra-me lá, que eu devo estar esquecido, quando é que o bloco ou o pcp responderam com alguma disponibilidade (onde "alguma" significa qualquer epsilon maior do que zero) aos reptos do ps para que se negociassem acordos (e para teres mais margem de manobra, isto vale para qualquer pec ou orçamento). quando se é parceiro menor num qualquer acordo, a postura "ou é como eu digo ou não é" não é muito dada ao jogo democrático...

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  3. O Ricardo Alves tem afirmado neste blogue - e bem, a meu ver - que esse problema está dos dois lados da barricada. Em Portugal a falta de entendimento entre PS e restantes partidos de esquerda tem estado de ambos os lados. E isso viu-se bem nas presidenciais.

    Mas eu agora estava a falar desta situação específica, da votação do PECIV. O panorama geral é esse da falta de entendimento, com muita culpa de ambas as partes.

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  4. mas a crítica que eu faço também é muito específica ao pec4: se, do ponto de vista do bloco e pcp, e do meu ponto de vista correctamente, o fmi é pior que o pec4 (e, digo-o à vontade, pois salvo algumas medidas de equidade fiscal, discordei da grande maioria dos pec's), então porque é que, confrontados com pec4 versus fmi, estes partidos escolhem o fmi? acho que a minha opinião do "porquê" ficou expressa no post...

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  5. Ricardo Schiapa:

    Vamos olhar para aquele quadro clássico em que o indivíduo tem uma loja, e chegam uns capangas dizendo que ou ele paga uma determinada quantia, ou eles danificam a loja de tal forma que o seu prejuízo é muito superior.

    Neste caso, se ele se recusar a pagar, vai agir contra os seus interesses. Em vez de ter como prejuízo o valor que lhe exigiam, teve um prejuízo dezenas de vezes superior.

    Aquilo que não se pode dizer é que ele foi o principal responsável pela destruição da sua loja. Não foi.

    Para a direita, Sócrates teve alguma abertura ao diálogo - pouca, mas muitas vezes mais do que a direita. Mas para a esquerda Sócrates disse "ou aprovam isto, ou vem aí o FMI. E agora? Que é que vão fazer?"
    Mas era previsível o que é que os partidos à esquerda do PS iriam fazer.
    Sabia-se que a sua perspectiva era de que o PECIV não devia passar, e se existisse um pacote de austeridade teria de ser muito diferente - inclusivamente apresentaram pacotes de austeridade alternativos. Que para eles o PECIV era um "prejuízo". E depois - irracionalmente, a teu ver, e não é isso que estou a disputar - não cederam à ameaça de sofrerem um prejuízo muito superior caso não pagassem aquele prejuízo menor.

    Não se pode é dizer que foram os culpados. Quem fez a ameaça e a concretizou, certamente tem alguma culpa no meio disto.

    E nota que no parlamento há questões de princípio que ultrapassam a lógica das consequências práticas.
    O PSD concordava com o essencial do PEC, queria era ir mais longe. Nesse sentido é perfeitamente asqueroso que o tenham chumbado sem sequer ter o pudor de apresentar alguma alternativa. Chegaram mesmo ao ponto de afirmar que o problema não era o PECIV mas quem o aplicava (!!!!). Mas do ponto de vista das consequências práticas, a sua falta de princípios resultou bem: agora vão poder aplicar medidas algo mais severas que as do PECIV, que era também o seu objectivo - o principal era apenas chegar ao poder, desses por onde desse.

    Os partidos à esquerda do PS, pelo contrário, por princípio defendem o contrário daquilo que é proposto no PECVI. Mesmo sabendo que as consequências poderiam ser piores, votaram naquilo que acreditavam: que o PECIV era mau. Podemos discordar dessa escolha, mas afirmar que existe mais culpa desta parte da vinda do FMI do que da parte do PS parece-me um erro.

    Agora a coisa pior para os partidos da esquerda será uma batalha fraticida. É preciso juntar forças para que a direita não tenha maioria absoluta: com uma coligação pré-eleitoral bastam 44% dos votos, e a esquerda está muito longe dos 56% necessários para evitar essa situação.

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  6. o problema dessas analogias exageradas é que perdem todo o contacto com o que estamos a discutir. e o ponto chave aqui é o que já escrevi num post anterior: "...vivemos no mundo real; sabemos qual o contexto em que temos de resolver as nossas dificuldades mais imediatas e sabemos também que esse contexto muito provavelmente não sofrerá qualquer tipo de alteração por muitos e longos meses. Assim sendo, não resta outra alternativa a não ser, ao mesmo tempo que se luta pela implementação de um sistema monetário e financeiro alternativo, saber aguentar num percurso firme dentro de todos os constrangimentos contextuais que existem...". quanto a lutar contra a direita, todos os dias ;-)

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  7. O segundo governo de Sócrates começou torto: reconduziu o essencial do governo, mesmo tendo perdido a maioria absoluta, e, pior, tentou governar como se não a tivesse perdido. (Francisco Assis e Paulo Pedroso já reconheceram que isso foi um erro.) E um problema de fundo da política portuguesa está aí: acha-se que as eleições legislativas são a eleição de um Césarzinho que com mais um voto que o 2º partido pode governar sozinho sem dar contas a ninguém e, se algo correr mal, a culpa é sempre dos outros. O PPC sonha ser o próximo Césarzinho, mas pode dar-se mal.

    Não sabemos o que se passou nos bastidores de Setembro de 2009 para cá. Não sabemos se houve tentativas de aproximação de Sócrates ao BE ou ao CDS. Ele dá a entender que sim, mas que a culpa foi dos outros. Os outros dirão que a culpa é dele. Enfim.

    Culpar a oposição de esquerda (ou a da direita) pela queda do governo é só metade da história. Nada obrigava a que o PM se demitisse a seguir à reprovação do PEC 4. Foi ele que quis chantagear/colocar condições. E, depois, não era obrigatório que viesse o FMI. Foi a máfia dos banqueiros que quis assim, como se sabe: reuniram-se no Banco de Portugal e telefonaram ao Teixeira de Santos a falar grosso. Não culpemos os partidos quando o centro do poder passou para os conselhos de administração dos bancos.

    Portanto, vamos concentrar-nos no essencial, que é haver uma cultura de negociação e compromisso entre partidos em Portugal, e saber ver para além da partidarite. Porque a UE transformou-nos numa democracia de soberania limitada pela banca e pelos mercados.

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  8. "...depois, não era obrigatório que viesse o FMI..."

    ricardo, como ilustrei num post anterior as taxas de juro passaram de crescimento polinomial para crescimento exponencial. é óbvio que vinha fmi.

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  9. E as taxas de juro sobem sozinhas?!
    Não são só os políticos quem tem poder, sabes?

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  10. sei: daí correlacionar a vinda do fmi ao chumbo do pec4 (que tinha sido precisamente negociado em bruxelas para evitar o fmi). foi precisamente depois disso que o bce deixou de comprar dívida pública e os juros dispararam irreparavelmente.

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  11. Ricardo Schiappa, "lembra-me lá, que eu devo estar esquecido, quando é que o PS respondeU com alguma disponibilidade (onde "alguma" significa qualquer epsilon maior do que zero) aos reptos do be E pcp para que se negociassem acordos?
    É que a questão está mal formulada. Você sabe perfeitamente onde é que o BE e PCP estavam dispostos a "pactuar", e não seria certamente através do congelamento de salários e pensões deixando mais uma vez a banca, a finança e os off-shores de fora que se conseguiria acordo.
    Você comprou a retórica do "coitadinho" que Sócrates começou a encenar este fds (aliás, sempre o fez, mas enfim). Sinceramente, não o creio tão ingénuo assim.

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  12. viseu, lembro-lhe, por exemplo, o que já aqui escrevi aqui no blog:

    http://esquerda-republicana.blogspot.com/2009/10/mant-o-sectarismo-be-e-pcp-dizem-n.html

    http://esquerda-republicana.blogspot.com/2009/10/mas-foi-o-que-se-preparou-para-reuni.html

    tiveram uma excelente oportunidade que optaram por não concretizar... e, depois disso, enverdaram pela atitude de se comportarem (mais o bloco) como o "líder da esquerda" esquecendo que, eleitoralmente, este papel pertence ao ps... não me parece que essa atitude leve a lado algum. e, neste caso, ajudou a levar ao fmi.

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