terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cavaco não aprendeu nada com a presente crise

  • «A recente crise económico-financeira evidenciou falhas no funcionamento dos mercados, que devem ser colmatadas. Simplesmente, as responsabilidades por tais falhas não devem ser atribuídas ao mercado enquanto tal, mas à ineficiência do sistema de regulação e à acção menos escrupulosa de certos agentes e ao seu comportamento pouco ético, como tive oportunidade de sublinhar logo que surgiram os primeiros sinais da crise internacional. Daí que, ao contrário do que muitos pretendem fazer crer, o debate não deva situar-se na questão Estado versus mercado.» (Manifesto do candidato Cavaco Silva)
  • «O projecto de integração europeia é um dos maiores sucessos da História da Europa, seja pelo contributo para a paz e a segurança, seja pela prosperidade económica e bem-estar social que tem proporcionado aos cidadãos deste espaço comum.» (Idem)
Não basta «regular» as «falhas» do «mercado» e esperar que os «agentes» ganhem «escrúpulos» e «ética». É a relação de poder entre os cidadãos e o poder económico que tem de ser alterada, e isso também implica uma União Europeia diferente da actual. Quem não entendeu isto não será um bom Presidente da República portuguesa.

    Cavaco e o papel do Estado: mínimo

    • «Entendo que o futuro do Estado deve ter presente os seguintes elementos fundamentais:
      • É essencial reconhecer, em primeiro lugar, que existem funções soberanas do Estado que não podem
      ser postas em causa. Poder-se-á discutir, naturalmente, a dimensão que essas funções devem assumir, até em termos de afectação de recursos públicos. Em todo o caso, a Defesa Nacional e a segurança dos cidadãos, bem como a Justiça, são domínios essenciais do Estado, que sempre devem ser garantidos.
      » (Manifesto do candidato Cavaco Silva)
    O que se segue, no dito manifesto, sobre o papel social do Estado, é mínimo e evasivo. O que lá está escrito sobre o serviço nacional de saúde ou a segurança social deixa pressupor que aceitará que um qualquer Passos Coelho ponha fim à gratuitidade da assistência social do Estado. E os pobres, senhor candidato? A resposta vem no mesmo «Manifesto», mas mais atrás.
    • «A sociedade civil portuguesa demonstra uma vitalidade de que nem sempre os Portugueses se apercebem. No terreno, há centenas ou milhares de associações e pessoas que se dedicam voluntariamente em prol dos mais desfavorecidos.» (idem)

    Cavaco contra o ensino público

     Quer dar ainda mais dinheiro a estes, senhor Cavaco Silva?

    A hipocrisia de Cavaco

    • «A experiência que adquiri na minha vida pública – de que muito me orgulho – não foi construída a distribuir benesses por grupos nem a satisfazer interesses de clientelas.» (Manifesto de Cavaco Silva, candidato a PR)
    Então os da fotografia são todos bons rapazes, senhor candidato?

    Wikileaks (2): o «duque de Iorque» compara o Quirguistão com a França, lança-se contra a Rússia e a China e os jornalistas do The Guardian

    Comparar a corrupção no Quirguistão com a França, que coisa feia.
    • «(...) the business representatives then plunged into describing what they see as the appallingly high state of corruption in the Kyrgyz economy. While claiming that all of them never participated in it and never gave out bribes, one representative of a middle-sized company stated that “It is sometimes an awful temptation.” In an astonishing display of candor in a public hotel where the brunch was taking place, all of the businessmen then chorused that nothing gets done in Kyrgyzstan if President Bakiyev’s son Maxim does not get “his cut.” Prince Andrew took up the topic with gusto, saying that he keeps hearing Maxim’s name “over and over again” whenever he discusses doing business in this country. Emboldened, one businessman said that doing business here is “like doing business in the Yukon” in the nineteenth century, i.e. only those willing to participate in local corrupt practices are able to make any money. His colleagues all heartily agreed, with one pointing out that “nothing ever changes here. Before all you heard was Akayev’s son’s name. Now it’s Bakiyev’s son’s name.” At this point the Duke of York laughed uproariously, saying that: “All of this sounds exactly like France.” (...)

    segunda-feira, 29 de novembro de 2010

    A greve geral

    Um amigo meu costuma dizer que “toda a gente é de esquerda até ao dia em que preenche uma declaração de impostos”. Não julguem que esse amigo meu deu em ser de direita, apesar de quando éramos colegas de curso, aos 20 anos, ele votar no PSR por causa da legalização da ganza. Continuou de esquerda, mas trabalha e, como é natural, preocupa-se com o destino dos seus impostos.
    Também eu me preocupo com o destino dos meus impostos, mas acho muito bem que os pague e nunca questionei as minhas convicções ideológicas sempre que preenchi o IRS. Este teste surgiu verdadeiramente esta semana: toda a gente é de esquerda até ao dia em que tem que fazer uma greve. (Uma greve a sério; não não ir às aulas. Essas fiz algumas no ensino superior e, mais a sério, eram no ensino secundário – também as fiz contra a PGA-: ao menos aí o pessoal apanhava faltas e podia chumbar.) Toda a gente é de esquerda até ser confrontado com prescindir de uma parte do seu salário. Na idade em que o meu amigo votava no PSR e fumava ganzas, eu não tinha a menor dúvida: um trabalhador deveria sempre fazer greve, por solidariedade com os seus colegas.
    A greve da semana passada, porém, não era uma greve setorial, e não tinha a ver estritamente com os meus “colegas”: era uma greve geral. E foi por isso que eu aderi: não creio que a minha classe tenha especiais razões de queixa, mas têm todos os trabalhadores. E os desempregados. E os precários. Aderi por estas razões, e desde então tudo tem piorado. Mas não deixo de me questionar: será uma greve o melhor modo de protestar contra as medidas de um governo? Concebo a greve para protestar contra um patrão, mas não é esse o caso. E não estarei, ao fazer greve, a reforçar uma oposição que não tem apresentado grandes alternativas? (Ou quando as apresenta são ainda piores, terríveis no caso do PSD.) Não sei. Uma greve é para exprimir um descontentamento. Eu estou descontente e fiz greve por isso.

    Wikileaks (1): o golpe de Estado nas Honduras foi «ilegal e inconstitucional»

    É a embaixada dos EUA em Tegucigalpa quem o diz... em Julho de 2009.
    • «The Embassy perspective is that there is no doubt that the military, Supreme Court and National Congress conspired on June 28 in what constituted an illegal and unconstitutional coup against the Executive Branch, while accepting that there may be a prima facie case that Zelaya may have committed illegalities and may have even violated the constitution. There is equally no doubt from our perspective that Roberto Micheletti's assumption of power was illegitimate. Nevertheless, it is also evident that the constitution itself may be deficient in terms of providing clear procedures for dealing with alleged illegal acts by the President and resolving conflicts between the branches of government.» (Wikileaks)

    Revista de blogues (29/11/2010)

    • «Há 17 anos, salvo erro, passei este dia em frente à Assembleia da República, numa manifestação de estudantes contra o aumento das propinas. (...) De repente, sem dar aviso, avançou sobre nós a polícia de choque. (...) Ficámos surpreendidos, embora pouco tempo antes de nós tivesse acontecido com os trabalhadores da TAP. Pouco depois viria a acontecer, de forma mais séria, com os trabalhadores da Pereira Roldão na Marinha Grande. E depois, de forma grave e mesmo criminosa, na repressão aos acontecimentos da Ponte 25 de Abril. (...) O primeiro-ministro era Cavaco Silva. O ministro do interior era Dias Loureiro.

    o xadrez dos mercados financeiros

    «[...] De acordo com o Financial Times Deutschland [...] o Banco Central Europeu e a maioria dos países do Euro estão a pressionar o Governo de José Sócrates para pedir auxílio ao fundo de resgate europeu e ao FMI.

    O argumento usado pelos europeus para convencer o Governo de Sócrates a ceder é a necessidade de travar o efeito de contágio e impedir que Espanha seja arrastada pela desconfiança dos mercados sobre a dívida soberana [...]»
    [1]

    Portanto a Espanha é too big to fail? Ou será que quem "é" too big to fail, no entender da Alemanha, é a própria Alemanha?


    No cenário actual de egoísmo puro, salve-se quem puder, passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo, a estratégia é simples e basta olhar para a rede financeira em cima: Portugal deve esticar a corda ao limite, quando um default nacional implicar, necessáriamente, um default espanhol. Da mesma forma, a Espanha deve esticar a corda ao limite, quando um default espanhol implicar, necessáriamente, um default Alemão. Porque só quando o "mercado" bater à porta da senhora Merkel vamos ter uma hipótese de sair do buraco para onde caminhamos e reverter, urgentemente, esta política sem sentido.

    É que daqui [2]

    «[...] O ministro da Economia alemão, Rainer Brüderle, afirma, este domingo em entrevista ao jornal Bild am Sonntag, que a Alemanha esgotou a capacidade de ajuda a outros países [...]

    O ministro da Economia alemão nega qualquer ideia de retornar ao uso das antigas moedas nacionais. «Seria fatal, as consequências de abandonar o euro seria um desastre para a economia alemã: queda na economia e na riqueza, o desemprego», afirma Brüderle. [...]»


    só podemos esperar novidades precisamente quando a corda estiver na garganta da "economia alemã". Esperemos então que os países pequenos tenham a coragem de ser os heróis improváveis: a Grécia e a Irlanda já colocaram o pescoço no cepo e saltaram fora; conseguirão Portugal ou Espanha ainda salvar a Europa?


    [1] --- Portugal não está a ser alvo de pressão europeia, Económico [Novembro 2010]
    [2] --- Ministro diz que a Alemanha esgotou capacidade de ajudar outros países, TSF [Novembro 2010]

    domingo, 28 de novembro de 2010

    addenda orçamental

    Antes de abertas as hostilidades negociações relativas ao OE2011, e noticiados diversos deslizes relativos a 2010, escrevi um post a destacá-los, insurgindo-me em particular contra os submarinos de Paulo Portas (mas dando uma borla a Passos Coelho na questão das Scuts) [1]

    «[...] O montante que poderá estar em falta também não foi adiantado, mas Teixeira dos Santos deixou uma indicação dos motivos da "derrapagem", (chegada do submarino, atraso das portagens nas Scut e quebra nas receitas não fiscais), que levaram o Diário Económico a adiantar a soma de 730 milhões. [...]»

    Aprovado o orçamento, e porque o Miguel Carvalho abordou indirectamente o assunto aqui, deixem-me voltar precisamente ao mesmo parágrafo, mas destacando agora [1]

    «[...] O montante que poderá estar em falta também não foi adiantado, mas Teixeira dos Santos deixou uma indicação dos motivos da "derrapagem", (chegada do submarino, atraso das portagens nas Scut e quebra nas receitas não fiscais), que levaram o Diário Económico a adiantar a soma de 730 milhões. [...]»

    Se é verdade, como o Miguel salienta, que o capital injectado no BPN teve origem na CGD e não directamente nos cofres do estado, não deixa também de ser verdade que isso tem e terá impacto no défice, precisamente através das tais quebras nas receitas não fiscais [2], [3]:

    «[...] [O]s prejuízos sofridos pela CGD aparecem nas provisões e na conta de lucros e perdas. Os números do BPN estão no orçamento "disfarçados" de uma quebra nas receitas não fiscais (transferências das empresas públicas para o Estado por conta dos seus lucros) e do IRC. [...]»

    «[...] [O]s prejuízos provocados na CGD significa[m] que o banco estatal não pagará ICR durante muitos anos, para além de uma redução substancial nos lucros que são transferidos para o Estado.

    Esta é uma das causas das dificuldades financeiras que Portugal está a atravessar e que se farão sentir durante vários anos. Se os portugueses estão a sofrer cortes nos vencimentos e aumentos de impostos para financiar o BPN de forma indirecta o menos que se pode esperar de um ministro das Finanças é que lhe[s] preste contas. [...]»


    E, ao que tudo indica, não nos vamos ficar por aqui [4]

    «[...] O Estado comprometeu-se a meter mais 400 milhões de euros no BPN, através de um aumento de capital a realizar antes de terminar a reprivatização do banco [...]

    O preço que o Governo tinha estipulado para a reprivatização do banco (onde vendia apenas a sua rede de balcões) era de 180 milhões de euros, mas não houve interessados.

    Este aumento de capital aumentará o dinheiro que o Estado pôs no banco, directa e indirectamente, para cinco mil milhões de euros, um valor da ordem de grandeza do pacote de austeridade que o Governo ver aprovado na sua proposta de Orçamento do Estado para 2011.

    Isto porque a CGD (banco do Estado), que ficou com o BPN quando este foi nacionalizado para não abrir falência na sequência de um conjunto de fraudes, já injectou 4600 milhões de euros no banco, com aval do Estado, segundo um relatório da agência de notação de risco de crédito Moodys. [...]»


    All things considered, e orçamento aprovado, tudo o que me resta fazer é repescar a crítica ao Paulo Portas e aos seus submarinos, levantar a borla ao Passos Coelho no que diz respeito às Scuts, e juntar-lhes Teixeira dos Santos com o seu salvamento ao BPN, e desejar-lhes a todos que vão trabalhar antes para aqui.


    [1] --- Governo aprova medidas extras e testa OE para 2011, DN Online [Setembro 2010]
    [2] --- Mande-se o Louçã para um curso de contabilidade, O Jumento [Outubro 2010]
    [3] --- O buraco BPN, O Jumento [Outubro 2010]
    [4] --- Governo vai meter mais 400 milhões de euros no BPN, Público.pt [Outubro 2010]

    quinta-feira, 25 de novembro de 2010

    Mitos Urbanos II, os PIGS estão a ser castigados por más execuções orçamentais

    Post dedicado à Angela

    Há a ideia que os PIGS estão a ser castigados pelos mercados devido ao seu mau comportamento orçamental no passado.
    Primeiro, quando os juros começaram a subir (isso sim, agravou o problema) os PIGS estavam melhor que muitos outros países (Reino Unido, EUA, Japão, etc.). Segundo, a Espanha teve de 2001 a 2007 défices orçamentais melhores que os alemães (fonte AMECO):

    Country20082007200620052004200320022001
    Germany00.2-1.6-3.3-3.8-4-3.7-2.8
    Spain-4.11.921-0.3-0.2-0.5-0.6

    Para lá de alguns detalhes (contas aldrabadas na Grécia, implosão dos sistema bancário na Irlanda), o que está a acontecer aos PIGS e não está a acontecer a outros países com défices semelhantes, deve-se principalmente ao facto de estarem incluídos numa zona monetária, sem polítical cambial e monetária própria, e não por serem cigarras.

    Mitos Urbanos I, o buraco do BPN aumentou o défice

    Um vídeo fofinho que andou a circular nos últimos dias, vários blogues e várias pessoas afirmam que o buraco do BPN aumentou gravemente o défice português - segundo algumas fontes, teria mesmo sido a principal causa.
    Ora os 5 mil milhões injectados no BPN, foram gastos pela CGD e não entram assim nas contas públicas.
    Dado que o passivo do BPN tem aval do Estado, se o negócio do BPN falir, o Estado terá que entrar com o dinheiro. É claro que há uma certa probabilidade que isso venha acontecer, mas ainda não aconteceu. O BPN não entra no défice.

    O assunto explicado pelo Público, pelo PCP e pelo Bloco.

    Elementos para a compreensão do 25 de Novembro

    A entrevista de Otelo Saraiva de Carvalho ao DN este domingo. Além disso, um excelente artigo do por estes dias tão criticado Paulo Moura publicado no Público há um ano atrás.javascript:void(0)
    Contagem decrescente para uma guerra civil

    Foram 20 dias alucinantes. O Governo mandou bombardear a Rádio Renascença. Os trabalhadores da construção civil sequestraram o Governo e a Assembleia. O Governo entrou em greve. Os líderes do PS, PSD e CDS fugiram para o Porto, porque ia ser criada a Comuna de Lisboa independente. Os pára-quedistas ocuparam as bases da Força Aérea. A guerra civil ia começar. A reconstituição hoje possível do 25 de Novembro de 1975, a partir de entrevistas com os principais intervenientes e dos livros que, para deixarem o seu testemunho para a História, alguns deles têm publicado. Por Paulo Moura

    Júdice contra Cavaco

    Segundo José Miguel Júdice, Cavaco Silva «olha para a sociedade civil com uma certa suspeição (...) aumentou o peso do Estado e apresentou-se como um líder autoritário, não permitindo a libertação da sociedade civil». E mais: transformou o PSD num partido «feito à sua imagem e semelhança: um partido tecnocrático, um catch all party, ou seja, um partido sem fronteiras, onde todos poderiam vir plantar a sua tenda, desde que aceitassem a liderança indiscutida do então primeiro-ministro, e assim ajudassem a conquistar votos e a manter suseranias».

    José Miguel Júdice, não se percebe porquê, faz parte da Comissão de Honra da candidatura Cavaco 2011.

    Revista de blogues (25/11/2010)

    • «Na última segunda-feira, numa conferência com jovens da Universidade Católica, não se coibiu de afirmar que «os mais qualificados colocam-se de fora dos cargos políticos e dão lugar aos menos competentes e, consequentemente, aos menos sérios…». Não foi a auto-crítica pelo nebuloso caso das escutas, cuja invenção partiu de Belém, para colocar em xeque o primeiro-ministro, nem pelas mais-valias das acções da SLN, acções cuja aquisição, forma de pagamento e decisão de venda já devia ter explicado ao País. Foi a habitual suspeição dos demagogos sobre a classe política de que é um lídimo expoente.

    Alguém sabe explicar-me se eu fiz greve hoje?

    Sou investigador, e não sou obrigado a comparecer no local de trabalho todos os dias. Não tenho que "picar o ponto".
    Os Recursos Humanos da Universidade onde trabalho pediram aos contratados que quisessem aderir à greve para confirmarem por email. Os sindicatos reagiram, também por email: "Não valem e são ilegais quaisquer formas de intimidação administrativo-política, venham elas donde vierem. Ninguém é obrigado a declarar nem antes, nem durante nem depois se faz ou não greve." Esta declaração é assaz curiosa: se eu não declarar que faço greve, como é que se pode saber se a fiz ou não, se não sou obrigado a estar no posto de trabalho?
    O email dos Recursos Humanos dizia que podemos declarar até à próxima sexta feira se, mesmo a posteriori, aderimos à greve ou não. Eu ainda não lhe respondi, e ao ver estatísticas tão definitivas como as do governo e dos sindicatos, gostaria de saber se consideraram que eu fiz greve ou não! Permitam-me desconfiar que os sindicatos consideram que eu fiz greve, e o governo, que eu não fiz.

    quarta-feira, 24 de novembro de 2010

    A greve e a ciência

    Circulou uma petição onde auto-intitulados “trabalhadores da ciência” manifestam o seu apoio à greve geral. O texto da petição até está bem escrito; reconhecendo o muito investimento que tem sido feito em ciência, mas que nem por isso a greve deixaria de se justificar: é uma greve geral, e não setorial, e os motivos também são gerais, de todos os trabalhadores, e não somente dos de ciência. O título é que é absolutamente desastroso.
    “Dia 24 fechamos os livros”, dizem eles. Bem, podem estar a falar literalmente ou do trabalho.
    Se fosse interpretar tal declaração como literal, diria que é um disparate: todos os dias são bons para se lerem livros, e um dia em que não se trabalha é melhor ainda. Mas creio que tal declaração de intenções é para ser vista em sentido figurado: não trabalhamos, e o nosso trabalho é consultar livros.
    Admito perfeitamente que haja profissões totalmente respeitáveis cujo trabalho consista somente em consultar livros, mas (se participassem nas atividades da semana da Ciência e Tecnologia, saberiam…) a de cientista (ou “trabalhador da ciência”, como eles dizem) não é uma delas. Chamem-lhe outra coisa por favor.

    A greve à ciência

    Independentemente de todas as boas razões para a greve geral, lamento que esta decorra justamente no Dia Nacional da Cultura Científica. Ninguém falará neste dia (nem durante a semana) nas muitas atividades programadas. Mesmo que estas atividades decorram, todo o dia terá muito menos impacto. Dada a recorrente falta de cultura científica do povo português, é o país que fica a perder (não me refiro à greve, mas à data escolhida). É uma pena.

    Não há crise no Serviço Nacional de Religião

    Não contente com remunerar, com dinheiro estatal, mais de uma centena de capelães (todos católicos...) nos hospitais, a ministra da Saúde vem agora propor que os capelães hospitalares se desloquem também aos domicílios dos pacientes.

    Imagino que o passo seguinte seja pagar aos padres para irem a casa das pessoas dizer missa. Como se a religião fosse um serviço público. Que não é, pois trata-se do exacto contrário: de um serviço privado que deveria ser assegurado pelas comunidades religiosas e pago por quem dele necessita, nunca pelo contribuinte.

    Alguém disse que há falta de dinheiro no Serviço Nacional de Saúde?

    Revista de blogues (23/11/2010)

    • «Na manifestação deste sábado, a polícia isolou um conjunto significativo de manifestantes e obrigou-os a desfilar cercados pela polícia, dentro de um quadrado, isolando-os da manifestação principal. A polícia decidiu ainda que os manifestantes não podiam sair dos limites do quadrado policial em que estavam cercados. Entre os manifestantes estavam crianças e pessoas mais idosas. Não estou certo se a polícia pretendia, deste modo, levar os manifestantes a cometer qualquer acção violenta. Se assim foi, então a polícia fez o contrário do que é suposto fazer e alguém deve ser responsabilizado por isso. Pode também ser que as falsidades avançadas por José Manuel Anes e por responsáveis dos serviços de informação tenham convencido a polícia ou, na verdade, que esta necessite permanentemente de criar a sua própria necessidade. Sei que não se viu ninguém do Black Bloc. E que o Professor Anes deveria ser simplesmente demitido de tudo em que possa ter qualquer contributo relevante para o tema da segurança pública. A incompetência não pode continuar a ser senhora; até porque no dia em que estivermos perante uma qualquer ameaça séria à ordem pública, o mais provável é não que confiemos em Anes e nos serviços de informação. Mesmo que, nessa ocasião, tenham razão alguma.» (José Neves)

    A religião melhora as pessoas?

    Daniel Dennett declarou há uns anos numa entrevista (com Jonathan Miller) que os ateus deviam ter cuidado antes de retirar a religião às pessoas, porque se podia dar o caso de as religiões funcionarem como "moral viagras" para as pessoas sem educação. Pode ser, mas não no caso do Sr. Padre John Fiala.

    Mais uma vez, desde os anos oitenta que os superiores do Sr. Padre Fiala sabiam que pendiam queixas sobre ele.

    Aquecimento Global - mais 3 mitos

    A ciência é mais complexa que cabeçalhos sensacionalistas:

    terça-feira, 23 de novembro de 2010

    Liberdade de ensino?

    Ouvimos muitas vezes falar em «liberdade de ensino». No sentido de que as escolas privadas devem poder ensinar o que quiserem aos seus alunos.

    No Reino Unido, escolas islâmicas estão a usar livros de texto que ensinam que «os Sionistas querem controlar o mundo», que «os judeus são macacos e porcos», que o castigo para a homossexualidade é a pena de morte e que os ladrões devem ser amputados. É tudo islamicamente correcto, claro. Ah, e pago pelo governo da Arábia Saudita (provavelmente o regime mais teocrático do planeta, e um dos mais ricos).

    Deve o Estado intervir? Ou faz parte da liberdade de educação e da liberdade religiosa?

    [Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

    Laicização de Portugal

    Para os curiosos das estatísticas, mais dados pecaminosos:
    Do total de casamentos celebrados, 25,0% referiam-se a casamentos de segunda ordem (segundos casamentos) ou superior (23,4% em 2008). Em 39,2% dos casamentos os nubentes já possuíam residência anterior comum (35,4% em 2008), e em 28,1% dos casamentos existiam filhos anteriores ao casamento (27,6% em 2008).
    (...)
    Quanto à forma de celebração, 17 451 casamentos foram celebrados pelo rito católico, 22 860 [57% do total] foram realizados só civilmente e 80 casamentos foram celebrados segundo outros ritos religiosos.
    (...)
    Em Portugal, em 2009, foram decretados 26 464 divórcios (26 394 em 2008) (...).

    Tirado do INE

    Isto é uma notícia, um artigo de opinião, ou um fragmento de uma obra de ficção?

    • «Na terceira manifestação, há pacifistas, anticapitalistas, anarquistas, libertários, idealistas sem ideário. Entre eles, estão elementos cujo objectivo era de facto provocar a violência. Não muitos, que os grupos europeus partidários da estratégia do "black bloc" ficaram em casa (principalmente na Alemanha), por falta de dinheiro para a viagem. E os portugueses são poucos e desorganizados.

      O plano era espalharem-se na multidão e começarem a provocar os polícias, na esperança de que estes ripostassem indiscriminadamente contra a manifestação. Um cenário de a polícia a carregar sobre os velhos militantes do PCP era provavelmente o sonho mais selvagem dos elementos anarquistas. O Corpo de Intervenção da PSP decidiu não correr riscos. Cercou num cordão feito de corpos maciços, escudos, capacetes e cassetetes o grupo da terceira manifestação e desceu assim com eles a avenida.
      » (Paulo Moura no Público)
    Num artigo de jornal apresentado como «reportagem», o «jornalista» Paulo Moura diz-nos que indivíduos (que não identifica) tinham por objectivo «provocar a violência». Não nos diz se a fonte foram os próprios indivíduos, a PSP, o SIS/SIEDM ou a fada madrinha. A seguir, dá-nos detalhes do «plano»: iam «espalhar-se na multidão e provocar os polícias». Fantástico. E ele sabe isto tudo como? A resposta vem quase no fim: Paulo Moura conhece os «sonhos selvagens» dos anarquistas. É parapsicólogo, médium, ou, no mínimo, telepata. Em resumo: o jornalismo a fazer concorrência à Maya e ao Professor Bambo.

    Bush escritor!

    segunda-feira, 22 de novembro de 2010

    Os EUA e os Açores

    Note-se que a conversa tem lugar em Janeiro de 1975. Kissinger era o Secretário de Estado, e Schlesinger o Secretário da Defesa.
    • «Tacitly acknowledging the need for initiatives to protect U.S. interests in Portugal –especially air field in the Azores, the archipelago of islands 900 miles off the country’s coast– Kissinger commented, “We should have a program.”   He then pessimistically declared that “There is a 50 percent change of losing it.”  To that Schlesinger responded, “We have a contingency plan to take over the Azores.”  He parenthetically noted, “That would be stimulating Azores independence.”»
    • «The details of the contingency plan are unavailable, but are presumably in files held by the Pentagon.» (National Security Archive, via Público)
    Não sei se o plano consideraria a hipótese de Portugal invocar o artigo 5 do Tratado para nos defendermos dos EUA? (A pergunta é para o Ludwig.)

    O negócio das "notícias"

    O governador do Texas foi reeleito há 15 dias (com 18% dos votos) e já foi à FOX exibir a estupidez calosa e ignorante dos imbecis que o elegeram, e insultar a inteligência e o bom gosto do resto do estado com declarações obrigatoriamente idiotas e absolutamente desligadas da realidade, para atrair a atenção da populaça.

    As televisões têm de vender magotes de espectadores às empresas que fazem os anúncios e para isso precisam de atrair a atenção dos bovinos que a vêem. E isto é cada vez mais difícil num país com 24 horas de televisão e noticiários de 15 em 15 minutos.

    "Alertas" e "breaking news" e escândalos e tragédias têm de ser inventados de raiz todos os dias. Mostrar a realidade seria impensável. Ninguém quer ser confrontado com a realidade. Como a definia Hunter S. Thompson tão eloquentemente: [a América é] a nation that has given so much to those who preach the glories of rugged individualism from the security of countless corporate sinecures, and so little to that diminishing band of yesterday's refugees who still practice it, day by day, in a tough, rootless and sometimes witless style that most of us have long since been weaned away from.

    Os políticos e os cronistas americanos são assim obrigados a entrar todos os dias no concurso das enormidades e tentarem dizer a coisa mais estúpida ou mais delirante da semana.

    A vida na América é assim um inferno para quem, como eu, não nasceu aqui e não está, portanto, imunizado. E dou comigo com saudades da velha Europa e daquela extraordinária virtude social que é a hipocrisia: na Europa os canalhas e os aldrabões roubam e matam com protestos de estima e consideração. O papa preside à associação mundial dos pedófilos mas jura que adora criancinhas. O Jorge Coelho é o capo da camorra portuguesa mas jura que se pauta sempre por princípios de integridade irrepreensíveis. O PP é um coito de debochados sem vergonha que vão à missa todos os domingos. Ou seja, os criminosos europeus não questionam a ordem nem os valores: dos aldrabões de feira aos criminosos profissionais, todos nos garantem que é feio roubar aos pobres, bater nos cegos, cuspir para o chão, etc.

    Aqui não! Os Santanas Lopes americanos vão à televisão defender a mesquinhez como uma virtude social e recomendam a ganância e a violência gratuita com passagens da Bíblia.

    Acho que foi o Jacques Derrida que escreveu sobre a "responsabilidade absoluta" (sabermos que escolhemos ajudar este e abandonar aquele por razões absolutamente pessoais). Estes animais pregam a irresponsabilidade absoluta. A "anarquia" dos "libertários" é o mundo sem governo onde mandam os oligarcas que eles representam. A América é o inferno na terra.

    domingo, 21 de novembro de 2010

    é esta esquerda, é esta europa, mas que futuro?

    O Ricardo Alves tem recentemente especulado sobre o senhor que se segue na liderança do PS. Gostava de acrescentar mais um a essa lista, aquele que presentemente me parece estar a ter maior conteúdo político. Uma entrevista que vale a pena ler na íntegra e de onde destaco [1]:

    «[...] O PS não está com um problema de esquizofrenia, por ter de governar com uma agenda política e económica que combateu nas eleições?

    Há um problema de fundo em toda a esquerda europeia: nós somos profundamente europeístas no sentido em que achamos que não há resposta aos problemas que temos fora do quadro da União Europeia (UE); mas a verdade é que a UE é hoje governada maioritariamente por partidos de direita, o parlamento europeu é dominado pela direita e há hoje claramente uma orientação política e de política económica e orçamental no espaço europeu dominado por partidos de direita. E ainda por cima a Europa está a ter de reagir a uma crise que é a primeira grande manifestação de dificuldade de adaptação ao processo de globalização, com a emergência de novas potências e de novos países com outros modelos que concorrem directamente connosco e que põem em causa o nosso modelo. Portanto, temos de fazer um exercício muito difícil que é o de governarmos desta forma: mesmo tendo reservas em relação à forma como a Europa está a enfrentar esta crise, sabemos que isto é melhor do que estarmos fora do espaço europeu. Isso cria-nos algumas dificuldades e a esquerda europeia vai ter de se reinventar um pouco nos próximos anos.

    Isso coloca-nos na situação de a UE ter legitimidade para impor estas políticas, mas ao mesmo tempo o PS perder a legitimidade eleitoral porque deitou para o lixo o seu programa de governo.

    Eu não acho que tenha deitado... Neste contexto, concordo com a afirmação do primeiro-ministro sobre o facto de este orçamento proteger o nosso modelo. A essência da política é a capacidade de perceber em qualquer momento quais são as prioridades que se colocam. E nós temos de nos proteger de problemas gravíssimos de financiamento. Ao mesmo tempo, temos de proteger aspectos fundamentais e estruturantes do nosso modelo, dos quais não abdicamos, como o serviço nacional de saúde tendencialmente gratuito, o modelo educativo assente no predomínio da escola pública ou um sistema de segurança social de carácter público. Há aqui uma preocupação de preservação. O PSD tem em relação a tudo isto uma visão completamente diferente da nossa: o que o PSD propõe a prazo para o país é o desmantelamento do serviço nacional de saúde, o fim do primado da escola pública em nome da liberdade de escolha...

    sábado, 20 de novembro de 2010

    the silence of the wolves

    Em qualquer dia, em qualquer hora [1]

    «[...] “Já existem palavras a mais na vida pública portuguesa e eu não vou acrescentar mais nenhuma”, afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, em declarações aos jornalistas [...]»

    Esta afirmação representa a invariância temporal de Cavaco; é a mesma não importa a data ou o contexto. O político profissional português com mais anos de activo é mais escorregadio que um leitão na lama no que diz respeito... precisamente à política! Cavaco não se compromete com uma ideia, com uma opinião, com uma política: baseia o segredo da sua (maldita) longevidade em ser ... um emplastro.

    É para isto que serve o mais alto magistrado da nação?


    [1] --- Cavaco diz que “existem palavras a mais na vida pública”, Público [Novembro 2010]

    sexta-feira, 19 de novembro de 2010

    Revista de blogues (19/11/2010)

    • «"Um novo grupo de ateus surgiu na sociedade. Chamados de "novos ateus", eles não se contentam em guardar para si mesmos seus conceitos. Numa cruzada ativa, furiosa e intensa, eles tentam convencer os religiosos a pensar como eles", como escreveu o colunista Richard Berstein
    • Curiosamente, este texto pode ser lido em folhetos não solicitados, colocados na nossa caixa do correio após recusarmos a entrada a simpáticas velhinhas testemunhas de jeová.» (Sexo Oral Paraned, «Os Tomates»)

    Servilismo na OTAN

    Apesar de concordar com as críticas que o Rui faz à OTAN, não acho que sejam razões para abandonar a organização, mas para a reformular e dar mais peso à Europa.
    Um dos perigosos terroristas finlandeses que vinha munido de panfletos anti-OTAN que ontem foi barrado à entrada de Portugal, explicava que se opunha à OTAN porque era contra a guerra no Afeganistão, e esta era uma guerra dos EUA e não da OTAN. Ele não poderia ter sido mais explícito: o problema não está na OTAN mas nos EUA, e é apenas o servilismo dos restantes membros - especialmente de alguns dos novos membros da Europa de Leste que se põem em bicos dos pés a gritar "eu, eu, eu também quero ajudar" - que deixam que ambas as coisas se embrenhem.
    Esta submissão bateu hoje novos recordes quando Hillary Clinton disse ao lado de Luís Amado, que entendia as dificuldades orçamentais portuguesas e agradecia o esforço nacional na presença no Afeganistão. Entende e agradece? Temos uma sorte em ter um patrão tão generoso.

    4 razões para sair da NATO

    1- Por uma questão de princípio. A NATO é provavelmente a organização internacional menos democrática a que Portugal pertence. Todos sabemos que são os EUA quem manda na NATO (sublinho o verbo mandar) e os restantes países são simples figurantes, úteis para legitimar as decisões tomadas em Washington. Em geral, o quadro agrava-se durante os mandatos do Partido Republicano. Eu nem quero pensar o que terá que aceitar um membro da NATO europeu se alguma vez os EUA tiverem um presidente do Tea Party. Nesse caso fazer parte da NATO será sinónimo de dormir com o inimigo.

    2- Os EUA nunca cumpriram inteiramente com as suas obrigações nas Lages e violaram frequentemente a legislação nacional, usando a base para transporte ilegal de prisioneiros e trânsito ilegal de armas nucleares. Dada a posição estratégica das Lages, o Estado Português poderia usar o espaço da base para outros fins, transformando as Lages numa base de socorro internacional com patrocínio da ONU, equipada com navios rápidos, helicópteros e aviões de socorro, busca e transporte de mantimentos. Só nos últimos anos uma base desse tipo teria sido muito útil para agir com rapidez no Haiti, em Nova Orleães (os primeiros a chegar foram guardas canadianos...), na busca do avião da Air France caído ao largo do Brasil, etc.

    O mundo é belo, tra-la-la

    O dia parece ser bom para panegíricos da OTAN. Um tal Luís Coimbra diz-nos que «a NATO salvou os muçulmanos na Bósnia-Herzegovina e no Kosovo de serem massacrados por uma Sérvia militarista ainda saudosista do seu colonialismo nos Balcãs», mas esquece-nos de explicar por que razão a OTAN não salvou os mesmos muçulmanos de serem atacados pelos croatas, ou os sérvios de serem expulsos pelos albaneses do Cosovo, ou os croatas e os sérvios de se massacrarem uns aos outros, ou o porquê de haver tanta resistência a reconhecer a independência do Cosovo quando, agora sim, é «etnicamente puro» e (que chatice!) um narco-Estado no coração da Europa, criado com a participação activa do «humanismo militarista» OTAN.

    Também nos diz que não quer os talibã no Afeganistão. De acordo, eu também não quero. Mas não estou nem convencido de que os barbudos gozem do apoio tão residual que refere (1.5%), nem que a perpétua ocupação militar «ocidental» resolva o problema. A raiz parece estar mesmo ao lado, num Estado amigo da OTAN chamado Paquistão, e noutro amigo chamado Arábia Saudita, que por razões  mais de afirmação regional ou de fanatismo islamista, respectivamente, continuam a apoiar talibã e quejandos. Enquanto não se confrontarem esses verdadeiros monstros, a ocupação do Afeganistão continuará a ser um efeito colateral.

    Os pacifistas não são bem vindos em Portugal

    A paranóia securitária reinante já chegou a isto: quarenta pacifistas que tentaram entrar por Vilar Formoso foram recambiados para Espanha. Será legal? Imagino que o caso seja fronteiriço (passe o trocadilho): Portugal suspendeu temporariamente o acordo de Schengen, e portanto as garantias «europeias» de livre circulação cessaram de existir; mesmo assim, será necessário um pretexto, que creio que seja a «ordem pública».

    A situação merece dois comentários.

    Primeiro, em modo cínico: prova-se que as apregoadas «liberdades» dos tratados e acordos da União Europeia só estão garantidas enquanto não incomodam quem manda.

    Segundo, em modo (duplamente) irritado: opressão gera repressão. Tanta palermice securitária, na aparência desnecessária (a não ser como exibição do poder das polícias), pode bem levar o mais pacato dos cidadãos a participar nas manifestações anti-OTAN, até a exceder-se...

    Resultados do inquérito sobre os «avisos e alertas» de Cavaco

    O inquérito «como estaria Portugal sem os "avisos e alertas" de Cavaco?» deu um resultado surpreendente: uma maioria relativa dos respondentes (30%) nem sequer se deu conta dos «avisos e alertas» do nosso Presidente. E, significativamente, do grupo dos que se aperceberam dos «avisos e alertas» de Cavaco Silva, são mais os que acham que sem esses «avisos e alertas» Portugal «estaria na mesma» (24%), ou até os que acham que «estaria melhor» (19%), do que aqueles que acham que «estaria pior» (apenas 5%). Merece reflexão que 18% tenham escolhido a opção «que se lixe o Cavaco, eu quero é emigrar». (Apenas 4% escolheram a opção «nenhuma das anteriores».)

    quinta-feira, 18 de novembro de 2010

    Que las hay, las hay...

    Não deixa de ser uma pitoresca coincidência que a jornalista que plantou no Diário de Notícias uma notícia objectivamente falsa sobre a presença do «Black Bloc» em Portugal seja a mesma que, poucas horas depois, dá em primeira mão a notícia da demissão do menino birrento do SIED.

    Eu não acredito em trocas de «informações» e favores entre jornalistas e meninos da «inteligência» (neologismo inventado pela Valentina Marcelino para referir os «serviços de informações», que aliás não primam pela dita, como se vê). E também não acredito em bruxas, mas...

    Islândia e Singapura no ranking de transparência

    No ranking de percepção da corrupção da Transparency International divulgado recentemente, países como Singapura, Irlanda, Barbados, Qatar e Islândia aparecem muito bem classificados, até ao vigésimo lugar.
    Ando a ler "Meltdown Iceland" de Roger Boyes que descreve a sucessão de acontecimentos que levaram ao descalabro financeiro da Islândia. A Islândia em 2008 era de longe um dos países da Europa cujo sistema financeiro era menos transparente, onde clãs e máfias familiares controlavam os principais fluxos de dinheiro do país. No entanto, ao contrário de outras crises a componente ideológica, em particular o thatcherismo doentio do ex-primeiro ministro David Oddsson, teve um contributo importante para se atingir a bancarrota. Dois anos depois a Islândia mudou de governo mas as elites, embora falidas, são basicamente as mesmas. Não imagino como é que um país que era tão corrupto e opaco em Outubro de 2008 possa estar de volta ao topo da transparência, acho mesmo obsceno.
    Em relação a Singapura só o dogmatismo ideológico pode explicar esta classificação. Um país não democrático controlado por uma máfia familiar é tão transparente como um Airbus 380 pintado de rosa-choque. Também só a fé no Deus Mercado explica as posições da Irlanda e do Qatar, que passam cada um pela sua versão da crise islandesa, e a dos Barbados, onde repousa e circula dinheiro de alguns dos maiores criminosos do mundo.
    Enquanto os reguladores continuarem fascinados com os regulados não vamos a lado nenhum.

    quarta-feira, 17 de novembro de 2010

    Vai e não voltes

    Demitiu-se o chefão do SIED - Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa. Não deixa saudades:  este é o personagem pidesco que chegou a pedir publicamente que se alterasse a Constituição da República no sentido de limitar a liberdade e privacidade dos cidadãos para melhor poder vigiá-los («a impossibilidade constitucional de os serviços poderem realizar "intercepções telefónicas" constitui uma "situação grave por privar o país de um meio de defesa face a determinados tipos de ameaças"»). O senhor Silva Carvalho demite-se por achar que, num momento em que se cortam verbas em serviços públicos essenciais como a saúde, ou na assistência a quem mais precisa (RSI), os serviços de «informaçõezinhas» (ou «intelligence», como ele gosta de dizer) não deveriam ter cortes. Como se tivéssemos a obrigação de pagar para violarem as nossas liberdades.

    O céu é o limite

    E o desemprego não pára de subir: 10.9% no terceiro trimestre de 2010 (dados do INE). Sempre a subir. Yu-pi-hei!

    terça-feira, 16 de novembro de 2010

    Detidos dois perigosíssimos terrrrrroooristas!!!

    Não posso deixar de parabenizar a nossa querida polícia pelo desvelo com que cuida da nossa segurança. Ao contrário do que pretendem alguns mal intencionados que se atrevem a afirmar que os riscos apresentados pela Al-Qaeda e pela perigosíssima nebulosa-anarquista-de-cara-tapada-que-atira-pedradas-na-polícia seriam melhor controlados se mandassem a cimeira para a Madeira, poupando aliás nas chatices de trânsito e nas tolerâncias de ponto de quem quer trabalhar e na realidade anda a pagar para a Madeira existir e não ir ao fundo, existe todavia, dizia eu, um real e evidente perigo para a ditosa lusitana pátria. Segundo se acaba de saber, foram detidos na fronteira do Caia dois perigosos terroristas que tentaram, sem êxito, infiltrar-se no nosso território e que se encontravam pesadamente armados com «uma navalha, uma catana e um estilete», utensílios com os quais almejariam obviamente iniciar a guerra de guerrilha na Serra da Estrela, e que transportavam «panfletos em língua espanhola», o que pode configurar que se colocassem como objectivo sublevar a minoria linguística do concelho de Barrancos, colocando em causa a unidade da pátria.
    Obrigado, senhores guardas! Só é pena que não tenha havido tanto zelo quando me assaltaram o carro...

    Sobre o futuro dos resíduos nucleares

    (publicado no Esquerda.net)
    Os recentes protestos contra o transporte de onze vagões de resíduos nucleares entre a unidade de tratamento de La Hague em França e Gorleben na Alemanha, contribuiriam para reabrir o debate sobre o futuro dos resíduos radioactivos produzidos por centrais nucleares. Actualmente, os resíduos nucleares mais perigosos acumulam-se em piscinas de arrefecimento e hangares ventilados. Espera-se poder vitrificar os produtos de fissão não recicláveis em blocos que serão acondicionados em contentores de aço selados e posteriormente armazenados em galerias escavadas em extractos subterrâneos de granito, argila ou sal situados a mais de 500 metros de profundidade. Este tipo de resíduos mantém uma actividade acima do nível da radioactividade natural durante mais de 600 mil anos.

    O governo alemão tencionava construir um depósito com custos da ordem de alguns milhares de milhões de euros para os seus resíduos mais perigosos numa mina de sal em Gorleben, onde ocorreram alguns dos recentes protestos. No entanto, a 15 de Janeiro deste ano foram evacuados 126 mil barris de resíduos nucleares de perigosidade mediana que tinham sido depositados em 1967 numa mina de sal de Asse, depois de terem sido detectadas numerosas fugas de água contaminada. Klaus-Jürgen Roehlig, perito em gestão de resíduos da Universidade de Clausthal, declarou que este incidente “coloca em causa a escolha de minas de sal para armazenar os resíduos nucleares mais perigosos”.

    O senhor que se segue 2

    Não é só António José Seguro a marcar território: António Costa não dá tolerância de ponto a propósito da Cimeira da NATO em Lisboa. E faz muito bem: tal tolerância de ponto (ainda mais restrita à cidade de Lisboa) é injustificável.

    segunda-feira, 15 de novembro de 2010

    As vantagens (de que ninguém fala) das portagens nas ex-SCUTS

    Portagens nas SCUT dão mais três mil clientes diários ao Metro do Porto.

    Na introdução de portagens nas SCUTS, posso concordar com os protestos de utentes em Aveiro (as povoações da Barra e Costa Nova estão completamente isoladas, a menos que paguem portagem) e Gaia (uma situação descrita pelo Pedro Fragoso). Ambas estas situações resultam da transformação em autoestradas (que as populações locais não pediram) de antigas estradas nacionais, sendo que não existe efetivamente alternativa nenhuma. Não apoio os protestos dos concelhos de Matosinhos e Maia, nem os de Viana do Castelo (ali ao lado, para Braga, Guimarães e Valença, sempre se pagou portagem). No norte da área metropolitana do Porto, se não querem pagar portagens vão de metro!

    Berlusconi finito?

    Os pós-ex-fascistas de Gianfranco Fini retiraram-se do governo de Berlusconi, que poderá ser forçado a eleições que dificilmente ganhará. Não é claro o que se seguirá, mas não é impossível o regresso da esquerda ao poder.

    Do azeite e o atraso de Portugal

    Ao mau funcionamento da Justiça e ao crónico baixo nível de educação dos portugueses (herança da outra senhora), eu costumo juntar a falta de qualidade do empreendedorismo nacional na minha lista de fatores pouco referidos na explicação do nosso atraso e baixo crescimento económico face ao resto da Europa.
    Isto a propósito da inauguração há dias de um grande lagar de produção de azeite, que me recordou algo que a grande maioria dos portugueses deve desconher: Portugal não é auto-suficiente em termos de azeite. Que um país (quase) mediterrânico tenha que importar azeite é algo surpreendente. De 2004 a 2009 Portugal produziu 1,8% do total europeu, quando a Grécia, Espanha e Itália faziam 16,9%, 51,5% e 29,2%.
    Poderia argumentar-se com maus terrenos ou mau clima do país, mas olha-se para lá da fronteira e vemos as mesmas condições. Talvez a burocracia ou outras questões legais, mas o enorme investimento de empresas espanholas no olival português nos últimos anos, prova o meu ponto. Portugal tem maus empresários.
    Felizmente há uma nova geração e uma nova cultura a aparecer, e este novo lagar é prova disso.

    sexta-feira, 12 de novembro de 2010

    Os malefícios de ser Lisboa

    Entre quinta-feira e domingo da próxima semana, Lisboa estará novamente sitiada e paralisada. É a segunda vez este ano. Entre Papas e Obamas, o total são uns quatro dias de tolerâncias de ponto, diminuição da produtividade e incómodos no trânsito em menos de seis meses.

    As medidas de segurança são o disparate do costume: desde câmaras de videovigilância até escutas telefónicas (presumivelmente ilegais), passando pelos já famosos «blindados de guerra» de cinco milhões de euros que afinal vêm é para intimidar os habitantes da Cova da Moura, e terminando na prevenção contra as «armas laser» que penso possam ser utilizadas pelos invasores marcianos que não terão dificuldade em dizimar os navios de guerra estacionados no Tejo.

    Num momento de crise, o governo investe dinheiro em armas e dispositivos de segurança, pára alguns centros de decisão da capital, e concede, pela segunda vez no ano da «contenção» e dos «cortes», tolerância de ponto. É a preferência pelo Carnaval e pelo securitarismo contra o trabalho e a poupança.

    Não poderiam fazer o raio da cimeira onde incomodasse menos gente, por exemplo no Algarve ou numa qualquer ilha atlântica?

    Revista de imprensa (12/11/2010)

    • «Charlie McCreevy é irlandês e foi, até Fevereiro de 2010, comissário para o Mercado Interior e Serviços. Saltou da Comissão Europeia para a companhia aérea Ryanair. Isto depois de muitas queixas de outras companhias aéreas pelo financiamento público a esta low-cost. E também arranjou emprego na NBNK Investments PLC, depois de ter sido um dos principais responsáveis pela regulação bancária na União.
      Meglena Kouneva é búlgara e foi comissária para a Protecção do Consumidor. Foi para o BNP Paribas, depois de ter elaborado a "Directiva Crédito", simpática para as instituições bancárias.
      Benita Ferrero-Waldner é austríaca e foi Comissária para as Relações Externas e Política Europeia de Vizinhança e entrou para o conselho fiscal da Munich Re, a principal empresa de resseguros da Alemanha, depois de se ter empenhado no projecto Desertec de abastecimento de electricidade da Europa por uma rede de centrais solares na África do Norte. Negócio onde a mesma Munich Re tinha um papel central.
      Gunter Verheugen é alemão e foi vice-presidente da Comissão. Depois de a abandonar foi para o Banco Real da Escócia, para a agência de influências Fleishman-Hillard e para a instituição bancária BVR. Mais relevante: criou a sua própria agencia de lobbying para servir empresas e grupos de pressão junto das instituições europeias, incluindo a comissão que ainda há pouco integrava.
      Dos 13 ex-responsáveis que deixaram a Comissão Europeia em Fevereiro de 2010, seis já estão a trabalhar no sector privado, quase todos contratados por empresas que de uma forma ou de outra foram afectadas pelas suas decisões, muitos deles sem experiência empresarial relevante anterior à sua entrada na Comissão. Da política para a Comissão, da Comissão para grandes empresas europeias.

    quinta-feira, 11 de novembro de 2010

    Dois terços dos portugueses aceitam uso de células estaminais para investigação e 12% não acreditam em qualquer deus

    No Eurobarómetro sobre a opinião dos europeus sobre vários assuntos de bio-ética, apenas 26% dos portugueses se opõe a uso de células estaminais embrionárias para investigação científica, algo considerado criminoso pelo monarca absoluto da ICAR. São 64% dos portugueses que aprovam especificamente este tipo de investigação, um valor acima da média europeia.
    É ainda perguntado se se acha que certos grupos (políticos, médicos, investigadores, etc.) estão a fazer um bom serviço à sociedade ao falarem de biotecnologia. Os líderes religiosos aparecem no fundo da tabela, apenas 39% dos portugueses acham boa a sua contribuição.
    No fim e para enquadrar as respostas, pergunta-se "acredita que existe um deus?". 70% dizem que sim, 12% dizem que não, 15% que há um espírito ou uma força. No último eurobarómetro onde isto foi perguntado, em 2005, apenas 6% dos portugueses disse abertamente que não e 81% que sim.

    ADSE II

    Há por aí alguns "anti-capitalistas" confundidos... a ADSE é um sistema de saúde privada. O facto de ser gerido pelo Estado e de servir funcionários públicos, em nada altera altera a sua natureza. A ADSE serve para pagar a médicos privados, que funcionam numa lógica de mercado - tal como a Multicare e a Médis - e que nada têm a ver com o Serviço Nacional de Saúde.

    Outra confusão muito comum (esta alimentada pelo marketing das seguradoras) que existe e que me deixa estupefacto, é pensar-se que sem um seguro de saúde não se tem acesso a cuidados de saúde. O SNS é para todos os cidadãos, do desempregado esfomeado ao bancário com uma ilha privada. E é exactamente isso que separa a nossa civilização da barbárie americana.

    Revista de blogues (11/11/2010)

    • «Restou-nos a fotografia — e um filme curto — do “homem do tanque”, no qual um desconhecido segurando dois sacos de compras se posiciona calma e metodicamente em frente a uma coluna de tanques. Os tanques desviam-se, ele acompanha. Os tanques ameaçam, ele insiste. E depois os tanques param porque algum soldado lá dentro terá sentido que não conseguiria matar ali aquele homem. Houve muitas tentativas para encontrar a identidade e confirmar o seu destino, que eu saiba sempre infrutíferas. Será melhor assim; seria bom que o “dissidente desconhecido” fosse simplesmente a corporização de algo que existe em cada um dos humanos. Trata-se, quanto mais pensamos nisso, de um documento simples e muito perturbador. A realidade lembra-nos todos os dias que nós humanos estamos predispostos à obediência; e ali está a prova em contrário, contra todas as evidências mesmo, de que afinal um desobediente consegue deter um império. Coisa difícil de acreditar.

    quarta-feira, 10 de novembro de 2010

    Revista de blogues (10/11/2010)

    • «O ditador chinês Hu Jintao esteve em Portugal durante o fim-de-semana. A china tem dinheiro. Portugal não o tem. Nem vergonha. Receber um ditador é, só por si, um vexame. Recebê-lo de mão estendida, ainda por cima imitando a China na limitação da liberdade de expressão, como aconteceu com a proibição da manifestação da Amnistia Internacional, é uma exposição do país a uma humilhação inaceitável do tamanho do mundo.
      (...)

    terça-feira, 9 de novembro de 2010

    FIM

    Os juros da dívida portuguesa ultrapassaram esta manhã os 7%, o limite fixado por Teixeira dos Santos para chamar o FMI. E agora?

    ADSE

    A alteração do regime da ADSE, de obrigatório para voluntário, é um passo no sentido certo mas um passo torto.
    É certo porque num período de cortes orçamentais, é difícil perceber por que é que os contribuintes devem continuar financiar a saúde privada dos funcionários públicos. O Estado deve garantir um serviço de saúde pública a todos, e não deve esvaziar este serviço pagando a saúde privada a uma minoria. Os fundos seriam melhor gastos em melhorar o SNS, por exemplo em áreas com pouca cobertura como a medicina dentária.
    Contudo, é fácil prever quem vai abdicar da ADSE, utentes com salários altos (a contribuição para a ADSE depende do salário ao contrário dos restantes seguros privados de saúde) e utentes que pouco usam os serviços, ou seja os poucos que dão alguma rentabilidade à ADSE. Por isso julgo que é um passo torto, correndo-se o risco de se aumentar os gastos com esta saúde privada.

    Revista de blogues (9/11/2010)

    • «O governo autónomo galego gastou cerca de três milhões de euros para apoiar a peregrinação do papa a Santiago de Compostela. Espalhou-se a ideia de que iriam estar em Santiago cerca de 200.000 peregrinos para ver o papa. A visita do papa a Santiago foi um fiasco horrível. Na Praça do Obradoiro estiveram uma escassas dez mil pessoas, a acrescentar a mais alguns milhares que estariam dentro da catedral. Parece que na Praça eram quase tantos os polícias, repórteres dos mídia, e pessoal de assistência médica, como os peregrinos.
      Na Espanha ainda mais do que cá, o catolicismo já não é o que era. Mas os políticos ainda não assimilaram perfeitamente esse facto. Os políticos andam sempre umas dezenas de anos atrasados em relação à realidade social.» (Luís Lavoura)

    segunda-feira, 8 de novembro de 2010

    Lata não lhe falta...

    O cromo que actualmente fala pela conferência episcopal portuguesa, Jorge Ortiga de seu nome, não se coíbe de lamentar a «crise» e a «austeridade», de apelar a que «as classes mais desfavorecidas sejam menos penalizadas e mais ajudadas» e de criticar os «interesses instalados nas estruturas público-privadas», para logo de seguida pedir mais dinheiro para as «escolas particulares», as tais em que 44% dos alunos são pagos pelo Estado, e que não são propriamente conhecidas por abrir a porta aos «mais desfavorecidos».

    Descaramento não lhe falta. E, num país em que tudo depende do Estado, até o que supostamente seria privado tem que ser pago pelo Estado. Mesmo em época de crise...

    Quando será que a Helena Matos vai entender...

    ...que o Islão não tem a capacidade de influenciar as leis espanholas (ou portuguesas) que a ICAR tem? E que para mais não é subsidiado pelo Estado da mesma forma que a ICAR, e que não tem um «Papa» que seja recebido por chefes de Estado?

    Revista de blogues (8/11/2010)

    • «O Joseph tenta assustar o seu rebanho dando ao ateísmo umas pinceladas de nazismo se está em Inglaterra e uns salpicos de guerra civil quando vai a Espanha. A ironia deve escapar aos muitos que já não sabem em que equipa jogava a Igreja dele. (...) Os protestos não são motivados pelo racismo nazi nem pelo ódio que levou nacionalistas e republicanos a matarem-se uns aos outros. Por um lado, muita gente não fica convencida que o Joseph fala mesmo com o criador do universo, ou que este, depois de ter feito milhares de milhões de galáxias, agora passa os dias preocupado com preservativos ou rezas. Para muitos, o Joseph Ratzinger faz o mesmo que a Maya ou o “professor” Bambo.» (Ludwig Krippahl)

    domingo, 7 de novembro de 2010

    Se Ratzinger fosse apenas um líder religioso

    O problema que Ratzinger gera em cada visita que efectua é amplificado pela sua dupla qualidade de líder religioso e chefe de Estado, e pela sua recusa em separar as duas condições. Em Espanha, foi recebido no aeroporto pelo filho e pela nora do rei, apesar de a visita, supostamente, ter apenas «carácter pastoral» (e não ser uma visita de Estado). E quando partir terá a presença do Primeiro Ministro espanhol no aeroporto.

    Em Portugal, sendo uma «visita de Estado», foi recebido no aeroporto pelo Presidente.

    Se o Vaticano não fosse reconhecido como «Estado» (e há boas razões para que não o seja), os seus pronunciamentos não seriam tão amplificados pela relevância de alguém que não seria necessariamente recebido pelas mais altas autoridades do Estado. Uma igreja não necessita de ser um Estado, e o problema político que Ratzinger representa seria assim limitado.

    Persistiria o problema gerado por os Papas não conseguirem circunscrever-se a «assuntos espirituais», e insistirem em pronunciar-se sobre leis que são feitas para cidadãos, e sobre comportamentos sociais que não se enquadram nos parâmetros do catolicismo.

    Se a sobrevivência da «Monarquia Católica do Vaticano» é um problema de laicidade que só estará resolvido quando a ICAR deixar de se arrogar privilégios estatais, a verdade é que só nesse dia poderemos então ter um verdadeiro diálogo, porque mais justo e menos desigual, sobre as ideias que o senhor Ratzinger tem do casamento, da IVG, ou do papel da mulher na sociedade. E aí o problema será outro: o catolicismo não ser uma mera doutrina espiritual, mas também uma doutrina social e política.

    [Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

    Petição: China

    Assinei esta petição:
    • «Os signatários saúdam como uma boa notícia para a causa global da defesa e extensão das liberdades e direitos democráticos em todo o mundo a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo.
      Sendo assim, e perante as notícias difundidas nas últimas semanas dando conta das pressões exercidas pela diplomacia chinesa junto das autoridades de diversos outros países em vista de estes não se fazerem representar na cerimónia da entrega do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, chamam a atenção da Presidência da República Portuguesa, da Assembleia da República e do Governo para o facto de que a eventual ausência de representação da República na referida cerimónia equivaleria a uma capitulação intolerável perante as pressões das autoridades chinesas. Por isso, exigem que Portugal esteja oficialmente representado em Oslo, saudando o Nobel da Paz Liu Xiaobo.
      »
    Podem assinar aqui.

    sábado, 6 de novembro de 2010

    A amargura maniqueísta de Helena Matos

    Helena Matos vive amargurada com a esquerda. Com as suas hipocrisias e contradições.

    Isto decorre naturalmente da forma como vê a esquerda - onde qualquer um poderia ver correntes divergentes (sim, discute-se muito à esquerda), a Helena Matos vê posições contraditórias. Como se cada pessoa de esquerda fosse doida por subscrever cada uma das posições dos vários partidos e movimentos de esquerda, apesar das suas contradições.

    Um bom exemplo disto é este texto no Blasfémias, em que Helena Matos ironiza o facto da oposição às ditaduras de direita ser vista como heróica pela esquerda; mas o mesmo já não acontecer em relação às ditaduras comunistas. Os duplos critérios da esquerda!

    Um pequeno detalhe: existiu um partido que decidiu estar ausente do parlamento durante a recepção ao governo chinês, em protesto contra a opressão da ditadura na China. Não, não foi o Partido Popular; não, não foi o PSD. Foram os deputados do Bloco de Esquerda que tomaram essa decisão. Louvável ou condenável, este facto ilustra as limitações da visão de Helena Matos.

    Não é uma questão de cada esquerdista ter múltiplos critérios e as inúmeras contradições que ela pensa ir apontando. É que tal como existem várias correntes de direita e muita discussão à direita; existem muitas correntes à esquerda, e muita discussão à esquerda. Não se enquandra na lógica a preto-e-branco do nosso clube direita contra o clube dos mauzões à esquerda, mas está mais próximo da realidade.

    Inquérito: como estaria Portugal sem os «avisos e alertas» de Cavaco?

    Regressamos aos inquéritos, com a pergunta que neste momentos nos preocupa a todos: como estaria Portugal sem os «avisos e alertas» de Cavaco?
    Respostas:
    1. Estaria melhor;
    2. Estaria pior;
    3. Estaria na mesma;
    4. Que se lixe o Cavaco, eu quero é emigrar;
    5. Quais alertas? 
    6. Nenhuma das anteriores.
    O inquérito estará na barra lateral durante dez dias. 

    Revista de imprensa (6/11/2010)

    • «O pior que Manuel Alegre poderia fazer seria tentar agradar às segundas, quartas e sextas ao PS; às terças, quintas e sábados ao Bloco; e aos domingos aos seus antigos apoiantes. Quem tenta agradar a todos ao mesmo tempo quase nunca agrada a ninguém. Há equações impossíveis: em tempo de crise, não há como casar as direcções destes dois partidos. O mesmo não se pode dizer dos dois eleitorados: nem o eleitor do BE é estruturalmente anti-PS, nem o eleitor socialista está satisfeito com as grandes opções deste Governo.

      Manuel Alegre tem um caminho e tem sido esse que, nos últimos meses, tem seguido: não se preocupar com esta contradição. Dizer o que pensa e confirmar a independência que o levou a contestar José Sócrates quando muitos socialistas que agora mostram incómodo seguiam o chefe. Sabemos que irá muitas vezes desagradar a direcção do PS, que o gostava de ver convertido a porta-voz do Governo, e que irá desagradar à direcção do BE, que o gostava de ver como uma farpa no pé de José Sócrates.

    Passos Coelho quer mandar Alberto João Jardim para a prisão

    Passos Coelho acha que «aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus atos e pelas suas ações». É certo que menciona «aqueles que estão nas empresas privadas» para além dos que «estão no Estado», mas a mensagem parece ser que os políticos que anunciam que «a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300» devem ser metidos na choça.

    Esta fantástica ideia é típica da demagogia mais extremista, mas não foi emitida nem por um taxista, nem à mesa do café depois de oito rodadas de imperiais. Saiu da cachimónia do líder do maior partido da oposição e foi publicitada num encontro partidário que não era do PNR, era do PSD.

    Palermices destas, regra geral, não devem ser levadas a sério. Ninguém imagina a Assembleia da República, mesmo com uma maioria PSD, a sentar-se a escrever uma lei que preveja penas criminais exclusivamente por «má gestão» para políticos eleitos. Mas mesmo a demagogia mais desmiolada deve ser levada a sério, nem que seja por cinco minutos, antes que fiquemos todos loucos ou insensíveis ao disparate. Imaginemos então: um ano de prisão por ultrapassar o OGE em 50%; dois anos de prisão por o ultrapassar 100%; etc; uma alínea que preveja que os desastres naturais são atenuantes; imagino que Passos não quereria que as especulações da finança internacional fossem atenuantes.

    A ironia é que o primeiro a dar com os ossos na choça, se esta genial ideia de Passos fosse aplicada, seria Alberto João Jardim, a quem não faltam condenações do Tribunal de Contas.
    Enfim, fantasias populistas. Mas que o indivíduo que os disparates de Sócrates ainda podem tornar primeiro ministro resvale abertamente para o mais desbragado populismo não augura nada de bom para a saúde da democracia...

    sexta-feira, 5 de novembro de 2010

    Uma sugestão aos autonomistas

    Na terça feira, enquanto estava encalhado no comboio em Vila Nova de Gaia, fui avançando na leitura do Guerra e Paz. (Na verdade eu li foi durante a viagem. Enquanto o comboio esteve parado em Gaia, fazendo-me perder duas ligações, eu não consegui ler nada, stressado que estava a protestar por mais um suicida ter tido a desconsideração de se atirar à linha de comboio, prejudicando a vida de quem queria ir trabalhar, quando tinha o rio Douro ali mesmo ao lado.) A páginas tantas (530, para ser exato), cheguei à seguinte passagem, que aqui transcrevo:

    "A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que cumpria um dever, embora inactivo, esse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atractivo do serviço militar."
    Guerra e Paz é uma obra fundamental e Tolstoi é mesmo um génio, pois descobriu o que deveriam os autonomistas fazer: talvez devessem era ir todos para a tropa.

    Chegados a Vias de Facto

    O meu texto Semântica no Trabalho originou uma discussão interessante no Vias de Facto, que eu vou tentar abordar de forma sintética.
    A minha ideia era contrapor, ou mesmo refutar, uma tese do Miguel Madeira que me pareceu simplista. Não era apresentar uma tese nova, alternativa. O Miguel Madeira agarrou-se a uma tese que ele pelos vistos julga que eu defendi. Mas não o vi em lado nenhum defender a sua tese inicial, que eu critiquei.
    Nos comentários ao texto do Miguel, Manuel Resende, tradutor e cultivador de cenouras que eu tive o prazer de conhecer no salão nobre do Hotel de Ville de Paris aqui há uns anos, perora sobre um futuro tecnológico onde desaparecerão os trabalhos desagradáveis como limpar as retretes. Intuo do texto do Manuel que não sou o único a urinar no pomar (no meu caso, da minha avó), mas para um pomar é uma coisa; para cima das cenouras (ou da salsa) é outra. (Eu sei, é o que fazem os animais selvagens, mas adiante.) E defecar, então, nem pensar (eu é que não queria andar num pomar com esse tipo de adubo não compostado). Isto é para dizer ao Manuel que podemos ser muito tecnológicos e dar excelentes aplicações aos nossos detritos: acho tudo isso ótimo. Mas enquanto não descobrirmos alternativas precisaremos sempre de retretes nas nossas casas e teremos que as limpar. O resto é ficção científica, género que nunca me agradou.

    O senhor que se segue

    António José Seguro iniciou a sua campanha para líder do PS. Começou bem: contra a corrupção e contra apparatchiks socretinos como José Lello.

    o misterioso caso dos neurónios desaparecidos

    Conforme caminhamos todos alegremente para o abismo, há quem já tenha neurónios emigrados, ou, pelo menos, teime em não perceber o mundo (não tão complicado) em que vive [1]:

    «[...] O PSD sustentou hoje que a subida dos juros da dívida portuguesa se deve à “fraca execução orçamental de 2010” [...] “É uma situação preocupante, que resulta da fraca execução orçamental de 2010” [...] declarou o deputado e vice-presidente do grupo parlamentar do PSD Luís Montenegro, no Parlamento. [...]»

    Diga-se, em abono da verdade, que o Luís nem sequer é o campeão da encefalite letárgica [1]:

    «[...] Questionado pelos jornalistas, Luís Montenegro afastou a possibilidade de a troca de acusações no debate de terça e quarta feira do Orçamento do Estado para 2011 ter contribuído para esta subida dos juros da dívida portuguesa [...]»

    Eu sei que o Miguel já abordou este assunto aqui, mas penso que nunca é demais voltar ao mesmo para ver se nos entendemos [2]:



    Caros amigos do PSD, eu quero acreditar que qualquer rede neuronal hominídea consegue detectar a correlação à vista desarmada. Com um pouco de esforço segue que os juros não saltitam ao sabor do debate ou da execução orçamental, mas, provavelmente, apenas para podermos financiar a vida sexual de betos imaturos que nunca conseguiram falar com uma mulher sem antes se verem obrigados a dar o número do cartão de crédito...


    [1] --- PSD explica subida dos juros da dívida com “fraca execução orçamental de 2010”, Público [Novembro 2010]
    [2] --- Dar confiança aos 'mercados' é o último objectivo, Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas [Novembro 2010]

    quinta-feira, 4 de novembro de 2010

    «A missa é obrigatória»(!)

    O PP espanhol acha que Zapatero é obrigado a assistir aos truques de magia que o Ratzinger vai fazer a Barcelona. Como para primeiro ministro beato já basta o nosso, desejo que Zapatero se mantenha coerente com as suas convicções...

    Petição para a Biblioteca do Conhecimento Online

    Assinei a seguinte petição:

    «É um lugar comum dizer-se que o progresso das nações se encontra hoje profundamente entrosado com o seu desenvolvimento científico e tecnológico. Quer isto dizer que um país que não se interroga, não tem curiosidade de saber as causas dos fenómenos que o afectam, que não investiga os seus problemas e procura soluções, é um país que indicia declínio. Inverter este estado de coisas leva às vezes décadas, senão séculos.

    A disponibilização da Biblioteca do Conhecimento Online (B-ON), uma ferramenta informática de consulta bibliográfica, acessível electronicamente a todas as instituições públicas de ensino superior e investigação, mediante negociação nacional com a entidade estrangeira que o disponibiliza, foi talvez a medida alguma vez tomada por qualquer governo português que mais impacto directo teve na ciência que se produz em Portugal.

    Com efeito antes de se iniciar qualquer investigação em qualquer tema é preciso perguntar se alguém, em algum lugar do mundo, já pensou e produziu trabalho sobre tal tema. Depois pode-se iniciar o trabalho e construir-se sobre o que já existe, não fazer o que já outros fizeram, nem repetir trabalho documentado que outros tentaram sem sucesso. Poupa-se assim uma fortuna em meios e em tempo. E tempo é coisa que tem custos para Portugal bem documentados nos tempos actuais.

    Soube-se que o Governo preconiza a suspensão do serviço nos moldes até agora existentes, transferindo para as Instituições o seu pagamento, numa altura em que os orçamentos de funcionamento já se revelam exíguos face às necessidades básicas existentes.

    Numa época de crise aguda a investigação tenderá mais uma vez a ser considerada uma actividade sem um interesse prático imediato.

    Por isso os utilizadores do serviço informático B-ON, professores, investigadores, técnicos e alunos, solicitam a continuação da sua disponibilização às universidades, institutos, centros e laboratórios de investigação do modo eficiente como até agora foi disponibilizado.»

    Infelizmente a petição torna público quer o nome, quer o número de BI, o que desencorajará algumas pessoas de participar na petição. Ainda assim, aqui fica a informação.

    80%

    Só agora descobri esta sondagem. Como todas as sondagens, deve ser tomada com uma pitada de sal. Mas quando 80% definem como «má» ou «muito má» a actuação do governo, e apenas 12% a definem como «boa», o jogo acabou. A crise é sem dúvida internacional, o governo dificilmente a poderia minorar, etc. Mas quando há oito pessoas contra uma a darem este parecer, Sócrates é um cadáver adiado. O que faz António Costa?

    Revista de blogues (4/11/2010)

    • «Em Portugal existem duas instituições das quais é como que interdito dizer mal. Qualquer crítica que lhes seja endereçada é refutada com o mesmo tipo de argumentos, que, na verdade, se resumem a um: a pessoa que critica deve ter (tem de ter) “um problema qualquer” com a instituição em causa, assim a modos que um trauma, uma mania persecutória, um complexo, uma fobia. (...) Não é pequena ironia que as duas instituições em causa sejam historicamente consideradas como arqui-inimigas, porque o tipo de reacção que partilham em relação às críticas está longe de ser a única característica em comum. Na verdade, são praticamente gémeas. Da inquestionabilidade dos dogmas à declaração da infalibilidade dos respectivos líderes e modelos; da capacidade de negar a realidade e funcionar em universos paralelos à apologia da vitimização; da forma como lidam com as diferenças de opinião e com a liberdade de expressão (que não a sua de declarar as outras inexprimíveis, ou blasfemas) à cega obediência hierárquica e ao esmagar das dissensões; da monótona reprodução da doutrina à apresentação de um devir paradisíaco como justificação de todas as agruras e malfeitorias presentes, passadas e futuras. (...)

    quarta-feira, 3 de novembro de 2010

    Notícias sobre o silêncio (2)

    Se o Público consegue dedicar um artigo (on-line, vá lá) a uma reles tuítada do candidato presidencial Cavaco Silva, acho que não é demais dedicar um artigo de blogue à time-line inteira. Então, é assim (como se diz em português moderno): desde que me fiz seguidor das tuítices de Cavaco Silva 2011, experimentei uma sensação primeira de horror, e depois de pânico completo. É que mais parecia que tinha assinado uma linha de auto-ajuda, cheia de mensagens de «pensamento positivo» como «Está ao nosso alcance agarrar o futuro com determinação e generosidade» e «Está ao nosso alcance construir um Portugal mais desenvolvido e mais justo», para não falar de obviedades assustadoras como «Em nenhuma circunstância me deixarei arrastar para uma linguagem imprópria de um candidato a Presidente da República» (importa-se de repetir?), ou, entre as piores de todas, «A minha candidatura é uma candidatura de futuro e de esperança. Temos de olhar em frente». Finalmente, a mensagem que me lançou em desespero completo: «A dignidade de Portugal está primeiro» (haveria de estar em último?).