quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ateus sabem mais de religião do que crentes

Um estudo da Pew Forum on Religion & Public Life, referido pelo LA Times, mostra que ateus e agnósticos são as "classes religiosas" que mais sabem sobre temas religiosos. Atrás destes vêm os judeus e os mormons. O estudo incluía perguntas como o simbolismo do pão e do vinho no ritual cristão, quem fundou o Protestantismo, etc.
Sendo que os ateus têm em geral um nível de educação superior aos crentes, estes resultados podem não parecer surpreendentes, mas a diferença de conhecimento mantém-se mesmo quando se compara ateus e crentes com a mesma educação.
Um reverendo metodista entrevistado, explicava assim os resultados: "I think that what happens for many Christians is, they accept their particular faith, they accept it to be true and they stop examining it. Consequently, because it's already accepted to be true, they don't examine other people's faiths. … That, I think, is not healthy for a person of any faith". Ora pois...

Adenda: Como se pode ver neste resumo do estudo, os ateus até ficam melhor classificados que os protestantes e os católicos nos temas cristãos.

Esquerda e as ditaduras comunistas - I

O truque favorito da direita, quando se propõem políticas de esquerda, é alegar que elas estão todas destinadas a um fracasso catastrófico ou perigoso, apontando para os exemplos das ditaduras comunistas.

Importa mostrar os erros desses argumentos em três níveis diferentes.

O primeiro nível é deixar bem claro que a maioria da esquerda rejeita o comunismo. Mas não rejeita apenas o comunismo por considerá-lo um ideal utópico, mas inalcançável num futuro próximo - rejeita o comunismo por discordar de que uma sociedade comunista seja a ideal.

Assim, se alguém propõe uma medida de direita, não faz sentido alegar que ela "é má, porque basta olhar para o exemplo da Itália fascista ou da Alemanha nazi, e do que lhes aconteceu". Eu sei que a maioria das pessoas de direita rejeita o fascismo, não porque lhes pareça utópico e inalcançável, mas porque lhes parece mau.

O mesmo princípio se aplica à esquerda. Se há coisa que as décadas de 50, 60 e 70 mostraram é que Hayek se enganou em toda a linha no seu «Caminho para a Servidão». Se há coisa que a Suécia e o Canadá mostram é que as previsões do livro estavam bem distantes da realidade. Mas independentemente da diferença de resultados entre as políticas de esquerda moderada e as políticas de esquerda radical (que serão discutidos em breve), há - não tenhamos dúvidas - uma diferença de objectivos. É injusto e errado criticar a esquerda moderada como se fosse herdeira das alegadas asneiras feitas pela esquerda radical.

Agradecimento ao BPN e ao BPP

Depois dos cortes de 5% anunciados ontem, deveríamos estar todos profundamente agradecidos às anteriores direcções do BPN e do BPP por terem participado em roubos e em cambalachos ruinosos apenas solucionados após uma injecção de capitais públicos de ~4,5 mil milhões de euros (isto é o que se diz, resta saber se corresponde à quantia real...). 4,5 mil milhões de euros é mais do que o custo do TGV Lisboa-Madrid. Foi como se no período de cerca de um ano, mandássemos um TGV para o caixote do lixo. É preciso não esquecer isto, porque isto é mais do que grave, isto é catastrófico.

Muitos dos clientes dos dois bancos sabiam no que estavam a participar, outros suspeitavam, mas era melhor não saber, poucos foram aqueles genuinamente enganados. Por isso, poupem-nos as lágrimas de crocodilo. Os 5% que começaremos a descontar a partir de 2011 são para cobrir os devaneios e os excessos de todos os que participaram no regabofe.

Depois do anúncio de tais medidas, lamenta-se a ausência de iniciativas vigorosas que impeçam o surgimento de novos BPP e BPN. Se nada for feito daqui a 5 anos podemos estar a pagar mais 5% de salário para salvar outro banco.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

uma pergunta de mil milhões de euros

Consideremos, por um lado, a seguinte situação indicada [1]:

«[...] [O] mais difícil será mesmo justificar as medidas extras para este ano - cujo teor estava guardado a sete chaves. O montante que poderá estar em falta também não foi adiantado, mas Teixeira dos Santos deixou uma indicação dos motivos da "derrapagem", (chegada do submarino, atraso das portagens nas Scut e quebra nas receitas não fiscais), que levaram o Diário Económico a adiantar a soma de 730 milhões. [...]»

Consideremos, por outro lado, algumas consequências dessa mesma situação [2]:

«[...] José Sócrates fez saber, esta quarta-feira, que o Governo quer subir o IVA [...] O primeiro-ministro anunciou também que pretende reduzir em cinco por cento os salários de toda a função pública [...] O primeiro-ministro anunciou ainda a redução em 20 por cento das despesas com o rendimento social de inserção [...]»

A minha pergunta de mil milhões de euros, mais parafuso de 100 euros no submarino, menos parafuso de 100 euros no submarino, é assim simples: onde exactamente poderia Paulo Portas enfiar colocar o Tridente e o Arpão?

(e estou a dar uma borla ao Passos Coelho na questão das Scuts...)


[1] --- Governo aprova medidas extras e testa OE para 2011, DN Online [Setembro 2010]
[2] --- Governo quer subir IVA para 23% e cortar salários da função pública, TSF Online [Setembro 2010]

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Embaixadora mas não castradora!

De acordo com uma notícia que li no Ciência Hoje, é possível que a venhamos a ter uma mulher, a astrofísica Mazlan Othman, como Embaixadora da Terra junto a possíveis alienígenas, daqueles que eventualmente habitarão o espaço sideral, não dos que podemos encontrar ao virar da esquina.

Mas a parte da notícia que me fez pensar foi:

"Após o Tratado do Espaço Exterior de 1967, os membros da ONU acordaram que o melhor método para proteger a Terra de uma contaminação alienígena passaria pela esterilização dos extraterrestres, mas espera-se que Mazlan Othman apresente uma perspectiva mais tolerante."


De facto, quando li esterilização pensei que tivesse que ver com desinfectá-los com álcool..

Mas parece que não. O próprio Stephen Hawking não é da mesma opinião. E já o Jared Diamond dizia: se subjugámos os mais fracos da forma como fizemos, e em parte (uma parte pequena) nem sequer foi intencional, o que fariamos se encontrássemos uma civilização extraplanetária num patamar tecnológico menos avançado? E o que fariam "eles" se fosse ao contrário?...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ralph Miliband

O pai do actual líder dos trabalhistas britânicos teve uma vida bem mais interessante do que a de qualquer um dos filhos.

Max Blumenthal

No meio da histeria e do ódio e do medo e da tentação bovina de seguir a manada há sempre uns (poucos) jornalistas que se mantêm calmos e razoáveis, apesar dos insultos, dos boicotes e da censura sistemática. Max Blumenthal é um destes jornalistas: corajoso, honesto e sempre calmo e razoável, no meio da histeria da extrema direita. O vídeo dele sobre o ódio de um bando de miúdos em Jerusalem foi censurado do YouTube, do Huffington Post, e do Vimeo. Mas vale a pena vê-lo.

domingo, 26 de setembro de 2010

césar: de abominável a... gibão!

Pobre César: nem nos nossos inquéritos se safa. Eu bem lhe dei o meu apoio... mas de pouco serviu! A maior parte dos nossos leitores pode não perceber mas o pobre César não deve ter uma vida nada fácil... Afinal, quão fácil pode ser passar uma vida inteira a negar... a própria natureza humana?! [1]

«[...] [T]he human species did not evolve in monogamous, nuclear families but rather in small, intimate groups where “most mature individuals would have had several ongoing sexual relationships at any given time.” We are the descendants of these multimale-multifemale mating groups [...]

“No animal spends more of its allotted time on Earth fussing over sex than Homo sapiens,” they write. In fact, the animal world is filled with species who confine their sexual behavior to just a few periods each year, the only times when conception is possible. Among apes the only monogamous species are the gibbons whose infrequent, reproduction-only copulations make them much better adherents of the Vatican’s guidelines than we are. [...] Repressing our sexuality should not be confused with reining in an “animal” nature; rather, it is denying one of the most unique aspects of what it means to be human. [...]

In 1967 George P. Murdock’s Ethnographic Atlas reported that only 14.5% of modern preindustrial societies could be classified as monogamous. Yet, in the West, researchers commonly refer to humans as “serially monogamous,” [...] But with over half of divorces occurring because of infidelity and one in 25 dads unknowingly raising children that they didn’t father, this is not a picture that fits comfortably with monogamy of any sort, serial or otherwise. [...]»



[1] --- Sexy Beasts, Seed Magazine [Setembro 2010]

ICAR lança tentativa de controlar as Misericórdias

Os portugueses, distraidamente, olham para as «Santas Casas da Misericórdia» como instituições católicas. Na realidade, são associações. Antiquíssimas (a de Lisboa já tem mais de cinco séculos), mas que sempre dependeram de trabalho voluntário e do apoio do Estado. A forte presença do clero católico nestas instituições de solidariedade social é coisa do passado (hoje, 99% serão geridas por leigos, ou até por não católicos).

Na quinta-feira, não foi outro senão o subtil Cardeal Patriarca de Lisboa quem lançou, para o Sol do dia, a bomba: houve um decreto da Conferência Episcopal Portuguesa que determinou que as misericórdias ficam sob a autoridade dos bispos da ICAR, ou seja, de eles próprios. As consequências: a hierarquia da ICAR poderia demitir e nomear os dirigentes das Misericórdias, que teriam que ser necessariamente católicos e não poderiam ter cargos em partidos políticos.

Estão em causa cerca de 400 Misericórdias: um património imobiliário imenso, o essencial da rede nacional de apoio à velhice e de cuidados continuados, grande parte da rede de pré-escolar. Os bispos, como é evidente, têm do seu lado o Vaticano. Mas o actual presidente da União das Misericórdias Portuguesas não é padre e não se chama Melícias, e o direito civil  prevalece, em qualquer Estado laico, sobre o direito canónico. Será uma luta complexa, mas não me parece que os bispos a ganhem.

Inquérito: o melhor candidato presidencial para a direita católica

Segundo os leitores deste blogue que se dignaram responder ao inquérito «qual o melhor candidato presidencial para a direita católica?», a resposta certa é «Bagão Félix» (37% dos respondentes), «Isilda Pegado» (24%) ou «César das Neves» (também 24% dos respondentes), enquanto apenas 7% escolheram Santana Lopes e 5% Ribeiro e Castro. Apenas 2% dos respondentes (um voto) não se reviram nestas possibilidades (sim, responderam 41 leitores do Esquerda Republicana).

sábado, 25 de setembro de 2010

Revista de blogues (25/9/2010)

  • «As oposições querem que o governo e o PS aumentem os impostos e ataquem a função pública mas que se queimem eles e só eles, PS e governo, com a impopularidade das medidas. O governo e o PS tentam sacudir o peso do ónus e pretendem o compromisso do partido alternante para que não se dê a alternância e dando mostras do seu velho estrabismo que o faz sempre olhar para a sua direita quando necessita de alianças ou compromissos. Entretanto, o CDS assobia a música do “nim” e pede mais câmaras de vigilância e sentenças de julgamentos em 24 horas. Quanto às esquerdas radicais, estas persistem no mais clássico equívoco histórico da esquerda e que arrasta uma idade à beira do centenário e se mostrou resistente aos constantes desmentidos: festejar cada novo desempregado como mais um sério candidato à militância na luta e cada agravamento social como uma janela de oportunidade para aproximar a revolução. Esta fuga colectiva, desordenada mas convergente, do problema e do contexto, da crise, subjectivando o objectivo, empurra a realidade política, económica e social para a esfera da esquizofrenia, cujo primeiro sintoma é a ilusão de que é controlável e que se pode operar o regresso ao real quando bem se entender.» (João Tunes)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Pelo fim de todos os benefícios fiscais

Agora que o Governo propõe o corte em alguns benefícios fiscais* devemos perguntar se queremos manter um complexo sistema de benefícios no IRS**. Da minha parte defendo a sua abolição completa.
  • Cada benefício acarreta um enorme custo no funcionamento máquina fiscal, na contratação de consultores, contabilistas, etc. sem qualquer vantagem. Imagine-se a enorme poupança que seria para o país, se estes serviços totalmente improdutivos desaparecessem amanhã.
  • Cada excepção à regra fiscal é uma nova porta para corrupção e fugas ao fisco. E mais um custo para o Estado para as combater.
  • As deduções fiscais pervertem a progressividade fiscal do IRS (razão pela qual a direita está contra a abolição proposta pelo PS). Quem tem rendimentos maiores tem obviamente uma colecta maior, logo mais espaço para deduções. É também quem tem acesso aos truques legais de fuga ao impostos.
A grande maioria dos benefícios fiscais até foram criados com boas intenções, mas também aqui há melhores soluções.
  • Saúde, educação, etc. Nada tenho contra a prestação privada destes serviços sociais, mas não cabe ao Estado apoiá-la. Aceitar estes benefícios é subsidiar o esvaziamento da Saúde, da Educação e do sistema de pensões públicos.
  • Ambiente: há vários incentivos com objectivos ambientais, alguns legítimos como apoio a energias alternativas, outros ilegítimos essencialmente criados por pressão da indústria automóvel. Mas todas estas políticas nascem de um concepção errada sobre a intervenção estatal que deve acontecer quando há externalidades. Não poluir não é uma externalidade positiva a ser apoiada (como é por exemplo a investigação científica), a poluição é que é sim uma externalidade negativa a ser taxada.
  • Incentivos fiscais a tecnologia, produtos ambientais, etc. Pelo que foi dito acima, estes incentivos em sede de IRS favorecem quem tem rendimentos mais altos. Se o Estado quer incentivar a compra de computadores (por ex.) deve criar um subsídio directamente no preço, e não um benefício que dependerá do IRS de cada um.
* A este propósito lembrar a oposição do PS* à proposta do BE na campanha eleitoral de 2009). Não estou a criticar a mudança de posição do PS, a situação é hoje diferente. Critico sim a sua defesa dum sistema que reduz a progressividade do IRS.
** Não estou com isto a defender um aumento da carga fiscal, apenas uma reformulação das suas fontes.

Reconhecer a verdade?

É surpreendente ver um bispo católico integrista a reconhecer a verdade, que «a 1ª República deu à Igreja mais liberdade» (evidentemente, a notícia pode não estar a reproduzir fielmente o sentido da intervenção; mesmo assim...).

Na realidade, a 1ª República libertou a ICAR portuguesa das amarras do regime de «religião de Estado» monárquico, que incluía o controlo estatal da nomeação de bispos e dos professores dos seminários. No entanto, à época a ICAR reagiu violentamente e criou o mito da «horrível perseguição», que dura até hoje. Talvez agora venham dar razão aos republicanos. A seguir.

Revista de blogues (24/9/2010)

  • «A direita tem um problema: é-lhe difícil dizer claramente o que pensa e o que quer. A direita pensa que os despedimentos individuais não precisam de justa causa, que deve haver um serviço nacional de saúde e uma escola pública para pobres e um mercado de saúde e de educação para ricos que paguem menos impostos. Mas quando o diz ou dá a entender, as pessoas não gostam de ouvir. É então que a direita cai do alto nas sondagens. Isso parece ter sido exactamente o que aconteceu ao PSD com as suas propostas de revisão constitucional.
    É claro que as pessoas têm muita razão em não gostar das coisas que a direita realmente quer. Não gostam de empresas em que é preciso obedecer ao chefe para lá do aceitável sob pena de despedimento por razão “atendível”. Não gostam de um país dividido com hospitais e escolas pobres para os pobres e hospitais e escolas mais a sério para os ricos que pagam menos impostos. As pessoas sabem que isto tudo para além de injusto, é estúpido: ainda sai mais caro a todos do que o SNS e a escola pública universal e tendencialmente gratuitos.
    » (José M. Castro Caldas)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

«Delito de consumo de alimentos»?!


Uma dezena de jovens são acusados de consumir água e café às escondidas e irão a tribunal. Dois operários da construção civil foram apanhados a matar a fome no interior da obra, e arriscam uma pena de três meses de prisão, apesar de serem cristãos.

É esta a Argélia actual, em que os islamistas foram derrotados, mas em que o governo sente necessidade de os apaziguar. Imagine-se se tivessem tomado o poder...

Questão após o Dia Sem Carros

Após capas como a da figura, alguém me sabe dizer por que é que o Automóvel Clube de Portugal ainda é considerado uma "instituição de utilidade pública"?
E pergunto-me que credibilidade terá o mesmo Automóvel Clube de Portugal para manter aberta uma escola de condução - e um centro de exames! Após ler estas declarações inacreditáveis do seu presidente ("os peões atiram-se para a passadeira", diz o senhor), pergunto-me como pode esta instituição atribuir cartas de condução, quer dando aulas quer fazendo exames (neste caso de código).

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Eleições brasileiras: o lado extravagante


Se os brasileiros morrerem de alguma coisa, não será de sono, mas de riso...

E o leitor? Vota no super-herói, na gostosona 1969, no Eneas ou no Saci Pererê?

Escândalo! Imoralidade! Chamem o diácono Remédios!

Há escolas que recomendam aos alunos um dicionário com palavrões.

PSD contra PSD

Não tenho uma incondicional simpatia por todas as instituições e costumes políticos do Reino Unido. Mas  é impossível não reconhecer vantagens ao costume de os líderes partidários serem necessariamente deputados ao parlamento (o líder tory é até eleito pelos deputados conservadores), quando se vê o grupo parlamentar do PSD a ser obrigado, nitidamente a contra-gosto, a aceitar «propôr» uma revisão constitucional que lhe é imposta por uma facção extra-parlamentar. Não foi para apresentar aquele projecto de revisão constitucional que aqueles deputados foram eleitos. E ao apresentá-lo, estão a representar muito mais a actual direcção do PSD do que o eleitorado que os elegeu.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A «horrível perseguição religiosa» durante a 1ª República: o caso judaico

Demonstra-se até que ponto é verdade que os republicanos de 1910 laboravam para extinguir toda e qualquer forma de religião quando se analisa a forma como esses terríveis jacobinos do PRP trataram os cidadãos de religião judaica.

Revista de blogues (21/9/2010)

  • «Sarkozy, com esta sua política edificante da deportação cigana (uma espécie de "solução do problema cigano"), está a recuperar, de facto, um conceito que floresceu na Europa há sessenta anos: o da culpa objectiva. Não interessa o que tu fazes, interessa o que tu és. És culpado não por aquilo que fazes ou deixas de fazer, mas por aquilo que és. Independentemente de sofrerem leis humilhantes ou não, de serem internados em campos ou não, de serem deportados, de serem espancados na rua ou de serem abatidos a tiro ou em câmaras de gás, o princípio é o mesmo. Os ciganos estão a ser expulsos não por roubarem ou mendigarem, mas por serem ciganos. É essa a culpa daquela gente. Nesse sentido, o facto de alguns dentre eles se entregarem a práticas ilícitas é apenas um pretexto acidental.» (Carlos Botelho)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Hitler e os livre pensadores alemães

A Liga dos Livre Pensadores Alemães foi fundada em 1881. Em 1930 tinha 500 000 membros. Foi encerrada na Primavera de 1933, por ordem de Adolf Hitler. A sede nacional foi transformada numa repartição para dar informações ao público sobre as igrejas.

Max Sievers (a principal figura do movimento livre pensador) seria guilhotinado em 1944. Quando Hitler se vangloriou, num discurso em Outubro de 1933, de ter «eliminado o movimento ateísta», era à dissolução da Liga dos Livre Pensadores que se referia.

Noutro discurso, em Agosto de 1934, Hitler afirmou: «o Nacional Socialismo não se opõe à Igreja nem é anti-religioso, pelo contrário, está no campo de um verdadeiro cristianismo. Os interesses da Igreja não podem deixar de coincidir com os nossos no nosso combate contra os sintomas de degenerescência no mundo de hoje (...)».

Ao contrário do que pretende Ratzinger, nem Hitler era ateu nem os nazis pretendiam «erradicar Deus da sociedade». A Concordata de 1933, que foi um triunfo para ambas as partes, aconteceu justamente porque os nazis (em que se incluíam católicos como Hitler e Goebbels) concebiam um lugar para as igrejas na sociedade alemã. E Hitler favoreceu os «Cristãos Alemães», um movimento protestante abertamente racista, que destacava os aspectos potencialmente anti-semitas e racistas do cristianismo.

É portanto uma mentira reles dizer que os nazis pretendiam «erradicar Deus da sociedade», como afirmou o papa romano.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Revista de blogues (20/9/2010)

  • «No dia 9 de Setembro, no Parlamento Europeu, todos os deputados socialistas portugueses votaram sem hesitações a favor de uma resolução que "expressava profunda preocupação pelas medidas tomadas pelas autoridades francesas e de outros Estados Membros tendo por alvo os ciganos", instando tais autoridades a imediatamente suspender as expulsões e apelando à Comissão, Conselho e a outros Estados Membros que interviessem nesse sentido. (...) Incredulidade e apreensão - foram as minhas primeiras reacções às notícias de que o Grupo Parlamentar do PS, na 6a.feira passada, se dividira no voto de um texto proposto pelo BE, que visava associar a AR ao voto do PE. Por não ser o PS a tomar a iniciativa e por revelar descoordenação entre o que o PS faz na AR e no PE, ainda por cima num assunto de excepcional sensibilidade política (ao ponto de, finalmente, levar Durão Barroso a engrossar a voz face ao seu correlegionário de direita Sarkozy no último Conselho Europeu). Vergonha e amargura - é o que expresso agora, depois de ter falado com deputados socialistas na AR para apurar o que se passou: "ordens de cima!" (...) Para registo: diante de tais ordens, eu desobedeço.» (Ana Gomes)

domingo, 19 de setembro de 2010

Liberais-Democratas britânicos mostram as suas garras conservadoras

Danny Alexander, o imberbe liberal-democrata que hoje ocupa uma das posições mais poderosas no Tesouro britânico, revelou mais, do que se calhar devia, sobre a reviravolta ideológica sofrida pelo seu partido. Numa historiazinha que contou aos jornalistas do "Guardian" durante uma longa entrevista, Alexander disse que a primeira coisa que fez quando chegou ao seu gabinete de ministro foi mudar um dos retratos que o decorava. O retrato do economista liberal John Maynard Keynes (que ajudou a criar as políticas económicas seguidas por sociais-democratas europeus até aos anos 80) foi substituído pelo do ex-primeiro-ministro liberal, William Ewart Gladstone.
A mudança de retratos é significativa. Entre o início do século XX até ao acordo de governo de coligação de Maio passado, a tradição mais forte do Partido Liberal-Democrata foi a social-liberal (também conhecida como Novo Liberalismo) e inspirou medidas tão importantes como o sistema de apoio estatal aos desempregados, a criação do Estado-Providência e a defesa da economia mista. Keynes, assim como Beveridge, e antes deles Hobhouse, Hobson e (de certa forma) J.S. Mill eram as luzes intelectuais desta tradição.
Em contrapartida, a tradição que o "austero e inflexível " (segundo as palavras de Alexander) Gladstone representa (e é importante referir que este eminente líder liberal começou a sua carreira política no Partido Conservador) o liberalismo do ataque ao Estado que a Sra. Thatcher tanto admirava.
Esta mudanca radical de compasso ideológico vai custar cara ao partido. Mas por agora tanto Alexander como o líder Nick Clegg parecem estar a gostar de brincar "aos governos" mascarados de "He-Man" .

A República e a guerra de 1914-18

A verdade é que se não entrássemos teríamos ficado sem as colónias.
  • «Hoje, sabe-se que em Agosto de 1913 foi concluído um acordo de partilha das colónias portuguesas. A Alemanha teria ficado com Angola e o território de Moçambique seria dividido. A França poderia ter recebido São Tomé. A República portuguesa não teria hipótese de travar o acontecimento, mas o acordo não foi concretizado porque Londres queria torná-lo público e Berlim quis mantê-lo secreto. Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, houve nova tentativa de partilhar as colónias portuguesas, o que talvez tivesse adiado ou até evitado o conflito europeu.» (Diário de Notícias)

sábado, 18 de setembro de 2010

Os malandros dos desempregados e do rendimento mínimo

Governo quer todos a ajudar na limpeza das matas e florestas diz a notícia da TSF. Por todos poderia entender-se uma campanha de apelo à participação das populações na limpeza das florestas.
Mas não. O governo pela mão do secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural alinha com a direita mais populista e quer pôr especificamente "os desempregados e beneficiários do Rendimento Social de Inserção" a "ajudar".
A avançar, seria um precedente grave e uma total distorção do conceito de solidariedade do Estado Social.

Adenda (19 Out):
O Secretário de Estado explica que será trabalho remunerado, embora com valores baixos de 20€ ao dia. Se for remunerado e de participação estritamente voluntária, não me choca a ideia. Julgo contudo que deveria ser um "biscate" aberto a todos, jovens, pessoas fora do população activa, etc.

Outros socialistas

Os socialistas de Espanha, sobre os ciganos:
  • «El PSOE ha mantenido en las últimas semanas una posición de crítica abierta a las expulsiones, como lo demuestra la iniciativa registrada en el Congreso a mediodía del pasado jueves, aunque elaborada el lunes 13 de septiembre y firmada por el máximo responsable del Grupo Socialista, José Antonio Alonso, y el portavoz de la Comisión Mixta de la Unión Europea, Juan Moscoso.El texto no menciona expresamente a Francia, pero empieza por asegurar que "muchos europeos, así como del resto del mundo, contemplan con profunda preocupación lo que está ocurriendo con la minoría gitana en algunos países".
    (...) en la web del PSOE aún se puede leer que la actuación del Gobierno francés supone una "expulsión colectiva y objetivada sobre base étnica que va contra la construcción europea y contra su principio de ciudadanía". (...) Unos días antes, el PSOE se sumó a las concentraciones convocadas en toda Europa contra las expulsiones. El secretario de Movimientos Sociales del PSOE, Pedro Zerolo, aseguró que la actuación del Gobierno francés "estigmatiza a las personas por su origen étnico".» (El Pais, via Joana Lopes)
O PS faz questão de ser como a direita, numa questão de direitos fundamentais?

Complexos de direita?

Os partidos do «arco da governabilidade» votaram todos (com excepções individuais) contra uma resolução de protesto contra as expulsões de ciganos (moderada, e que pode ser lida aqui). As honrosas excepções foram a abstenção de um deputado do PSD, o voto a favor de um PS (Sousa Pinto) e quinze abstenções no PS. Curiosamente, no Parlamento Europeu o PS votara a favor de algo semelhante. E António Vitorino escreve coisas destas.

Será que o PS tem «complexos de direita»?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os tais nazis que queriam «erradicar Deus», na (interessada) opinião de Ratzinger


Tradução

«Porque é um católico obrigado a votar na lista parlamentar de Adolf Hitler? Porque no estado Nacional Socialista intrinsecamente e através da Reich-Concordata

  1. A Fé é protegida,
  2. a paz com a Igreja está assegurada,
  3. a moralidade pública é preservada,
  4. o Domingo é permitido,
  5. as escolas Católicas são mantidas,
  6. a consciência Católica não é dificultada,
  7. um Católico tem direitos iguais perante a lei e na vida da nação,
  8. as organizações e associações Católicas, enquanto servem fins exclusivamente religiosos, caritativos e culturais, podem trabalhar livremente.
Portanto um Católico é obrigado a votar no dia 12 de Novembro [1933]


Referendo: Sim

Eleição parlamentar: Adolf Hitler»

Fonte: National Secular Society

Nota: trata-se da primeira eleição em que apenas se apresentaram candidatos nazis, e que foi ganha com 92% (o referendo era para sair da Sociedade das Nações).

Comentário: estes nazis são os mesmos que Ratzinger acusou ontem de «[desejarem] erradicar Deus da sociedade». E levaram-no a sério.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

O Vaticano e o Multiculturalismo à britânica

Já sabíamos o que a Igreja Católica pensa sobre o papel das mulheres na sociedade, sobre os direitos dos homossexuais e sobre a impunidade dos padres pedófilos. Esta semana a Santa Casa que é o Vaticano ofereceu-nos mais uma lição de moral, e que demonstra bem (para aqueles que ainda têm dúvidas) como a Igreja Católica está desfazada do mundo que diz representar e a quem quer oferecer liderança espiritual.
Ao chegar ao aeroporto de Heathrow, um dos conselheiros do Papa, o Cardeal Walter Kasper, comparou o Reino Unido a um país do Terceiro Mundo. Pelos vistos, os funcionários do Serviço de Fronteiras britânicos com os seus turbantes Sikhs e “hijabs” muçulmanas, as empregadas de limpeza filipinas e os passageiros vindos dos cinco continentes representam uma dose excessiva de multiculturalismo para o eminente cardeal. E pensar que este senhor é responsável pelo diálogo ecumánico na Igreja Católica...

A liberdade de circulação não é para todos

A Europa rica estava, há duas décadas, madura para o regresso da xenofobia. A «liberdade de circulação» propagandeada pelos eurocratas sempre foi pensada para os estudantes universitários, os investigadores, os reformados de classe média, os quadros das grandes empresas e os burocratas de Bruxelas. Só existe para o lumpen-proletariado se aceitarem ser pagos no país de destino abaixo do que se paga aos trabalhadores locais, dormir em contentores, comer e calar. Nunca foi pensada para os eternos nómadas de remota origem indiana a que chamamos «ciganos».

As «expulsões voluntárias» de Sarkozy foram um passo decisivo na «lepenização» da França. Outros se seguirão: a extrema-direita no governo em Itália quer ir ainda mais longe, para as expulsões coercivas de «cidadãos da UE». A semente está lançada, e é má.

Pouco podemos esperar dos políticos no poder. Sócrates nem percebe o que se passa (ou não lhe interessa), e da privada berraria entre Sarkozy e Barroso saiu uma condenação da única comissária que se opôs publicamente às expulsões, e uma investigação que dará em nada.

Num contexto de agravamento da crise económica, a Fortaleza Europa fecha as portas. Vão ficar muitos de fora.

Inquérito: qual é o melhor candidato presidencial para a direita católica?

Regresso aos grandes inquéritos do Esquerda Republicana com a questão política mais premente do momento: qual é o melhor candidato presidencial para a direita católica?
Respostas:
  • Bagão Félix
  • Ribeiro e Castro
  • Santana Lopes
  • Isilda Pegado
  • César das Neves
  • Outro
Agradece-se a participação dos leitores (ver na coluna da direita).

Christine O'Donnell

Esta lambisgóia ganhou as primárias em Delaware e vai-se candidatar ao senado. Tem angariado mais de um milhão de dólares por dia. Se alguém pensou que a Dona Sarah Palin era doida varrida e tão ignorante que muitas pessoas não conseguem acreditar nas histórias da campanha presidencial (entre outras coisas julgava que a Africa era um país e que a Africa do Sul era o sul desse país), esta desgraçada ultrapassa as marcas todas. Já prometeu que vai legislar a moralidade.

Uma das grandes causas que ela vem defendendo é a proibição da masturbação. O problema dos crimes sem víctimas é que às vezes as leis contra eles são difíceis de implementar. Neste caso, acho que vai ser facílimo prender os masturbadores: basta fazer-lhes um exame oftalmológico e verificar se têm pelos nas palmas das mãos. Mas parece-me que as masturbadoras vão ser mais difíceis de apanhar. No entanto, não sou especialista no assunto e tenho a certeza que a Dona Christine O'Donnell saberá como é que se apanham estas desavergonhadas.

No século XVII havia especialistas que iam de terra em terra e cheiravam as bruxas, que eram despidas e examinadas - para os homens da aldeia verem se tinham marcas de terem relações com o diabo - e depois eram queimadas vivas, para grande alegria da comunidade. Os puritanos são adoráveis e o partido Republicano faz bem em acolhê-los "para restituir a honra e a dignidade no governo e na Casa Branca" como eles dizem.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Proselitismo: a minha vocação perdida!

No sábado passado fui visitado por duas senhoras Jeovás, muito simpáticas, que não deixei falar e a quem enchi as orelhas de conselhos e opiniões.

Disse-lhes que era agnóstico, que acreditava que todos os deuses eram invenções dos homens e que tudo o que era importante na Bíblia tinha sido resumido por um ateu espanhol chamado Miguel de Unamuno em oito linhas dum poema para crianças: “Anoche cuando dormia, soñé, ¡bendita ilusión!, que una colmena tenía, dentro de mi corazón; y las doradas abejas, iban fabricando en él, con las amarguras viejas, blanca cera y dulce miel.”

O resto eram, em minha opinião, tretas: as leis contra os mariscos e as febras e os chouriços e a sodomia e a impureza das mulheres, as ordens para matarmos os nossos filhos desobedientes à pedrada e violarmos as filhas dos nossos vizinhos, os medos, as culpas, os ódios, as vinganças, a conta astronómica para pagar por um serviço que não mandámos vir (Jesus matou-se por mim e agora tenho de dar 10% do meu ordenado à Igreja), nada disso fazia sentido na minha cabeça, sobretudo quando olhava para o cristianismo no contexto das outras religiões todas.

Fé?! Citei-lhes Nietzsche: qualquer curta visita a um asilo de malucos demonstra que a fé por si só não prova coisa nenhuma.

Amor?! Lembrei-lhes que nada divide mais as pessoas e nada lhes dá mais a ideia de serem melhores que os vizinhos: os que adoram o outro Deus, o que é falso, lembram-se?

Perguntei-lhes se sabiam de alguma ideologia que desencorajasse mais as pessoas de pensarem: não são os dogmas os piores inimigos da razão e da paz? Contei-lhes a história do Daniel Dennett: não é a bondade uma coisa muito mais palpável e sólida e susceptível de ser acarinhada e promovida do que a vontade de cada um dos deuses do panteão nacional (o dos judeus, o dos muçulmanos, etc.)?

A senhora da direita disse-me educadamente que tinha gostado muito de falar comigo, mas que se estava a fazer tarde e a senhora da esquerda apertou-me a mão com muita força e disse-me, contentíssima: “You are a very good man”. Fiquei a pensar que fiz a minha primeira conversão! :o) E agora estou a pensar em ir-me pôr à porta das igrejas.

Protestar o Papa


Os britânicos preparam-se para receber Ratzinger com uma manifestação de Hyde Park Corner (local com tradição na liberdade de expressão) até Withehall, e que terminará com um comício em Downing Street (em frente da sede do governo). Com várias organizações presentes, os oradores previstos para o protesto incluem o cientista e activista ateu Richard Dawkins, Terry Anderson da National Secular Society (a associação laicista britânica), Peter Tatchell (um militante histórico dos direitos dos homossexuais), o jornalista e laicista Johann Hari, o padre católico homossexual Bernard Lynch e a laicista iraniana e ex-muçulmana Maryam Namazie.

Esta visita acontece num momento em que o laicismo atinge, pela primeira vez em décadas, um pico de reconhecimento público, gerado pela progressiva secularização da Europa e pela ofensiva do islamismo radical. Nunca fomos tantos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A escola e os guetos

As notícias sobre «turmas especiais» para ciganos são cíclicas. Agora fecharam uma. Espera-se que de vez: o papel da escola pública é integrar os futuros cidadãos, e não segregá-los por «etnia».

Adenda (16/9): um estudo de José Gabriel Pereira Bastos colige dados sobre mais três «turmas especiais» (Bragança em 2005, Viseu em 1996, Figueira da Foz em 2000). Quantas serão?

O Partido dos animais não humanos

Existe um novo partido político: o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN). Acusam os partidos ecologistas existentes (PEV e MPT) de estarem «ao serviço de outros objectivos ideológicos». Terão razão nesse aspecto.
  • «O PAN assume-se como um partido inteiro, que visa promover o bem de todos, humanos e não-humanos, e não apenas de alguns» (é logo o partido com maior eleitorado potencial: inclui  as  ovelhas e os ratos, mas, escandalosamente, creio que discriminam as baratas e as formigas por falta de senciência);
  • «Os interesses humanos e animais devem ser igualmente tidos em consideração e procurar-se a solução eticamente mais justa quando pareçam estar em conflito» (os interesses do porco preto e das minhas papilas gustativas não «parecem» estar em conflito, caros senhores, estão mesmo);
  • «os preconceitos esclavagistas, racistas, sexistas e especistas têm uma mesma natureza injustificável: presumir-se superior e com direito a maltratar, oprimir e explorar outros seres só por se ter mais poder, um diferente tipo de inteligência ou pertencer a uma raça, sexo ou espécie diferentes» (o mau gosto desta passagem até dói, porque no fundo compara dramas históricos que afectaram milhões de pessoas, como a escravatura, ao sofrimento das galinhas poedeiras);
  • «O PAN defende a consagração na Constituição da República Portuguesa da senciência dos animais e do seu direito à vida e ao bem-estar, usufruindo do habitat e da alimentação adequados» (uma pérola, esta proposta de revisão constitucional).
Enfim, há ainda outras pérolas, mais previsíveis, como a «proibição imediata de todas as actividades de entretenimento que causem sofrimento animal, tais como as touradas, as chegas de bois, os rodeos (...) do foie gras e das peles», a «abolição total da experimentação em animais», a «obrigatoriedade dos restaurantes oferecerem pelo menos um prato vegetariano» e a «eliminação progressiva da produção de ovos em aviário».

Registe-se que se trata do primeiro partido português que, mais do que propor política, preconiza uma ética e um estilo de vida. Nesse sentido, é quase um partido confessional. Mas o Tribunal Constitucional não o compreendeu.

Obama tem coisas boas

Este discurso, por exemplo (via Diário Ateísta). Que é de 2008 (em campanha).

(E teve um bom predecessor. Este.)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

E por falar em mulheres horríveis...

Há uma ou duas semanas um comediante daqui - Louis CK - embebedou-se durante um voo e mandou umas mensagens para o twitter em que dizia que a Sarah Palin era um Hitler. Caiu-lhe o Carmo e a Trindade em cima (na América não se pode comparar ninguém com Hitler!)

Na semana passada foi convidado para um show ao vivo e quando chegou ao estúdio percebeu que a outra convidada era a filha da dona Sarah Palin: uma miúda feia, gorda, mãe solteira, sozinha, nervosíssima...

As palavras dele, mais tarde, sobre esta situação são deliciosas e merecem ser repetidas:

"Yeah. OK. I wrote mean things about Sarah Palin on Twitter. And not because I'm political. But because it's fun. I do think she's Hitler. But that's not why I do it. I do it because it's fun. But I let myself have fun at her expense, because she's Hitler. Her being Hitler allows me in my head to say mean things about her, but that's not the reason. The reason is because it's just fun. Because she's just an amazing, beautiful perfect villain. She's just crystalline. She says things that are at perfect right angles to truth and reason, and that blows me away. It's poetry when that woman speaks. And I'm sexually attracted to her boobs. She's sexually attractive, to me. But I do think she's terribly dangerous, and I do think she could really Hitler up the place. And by the way, once, I wrote on Twitter that she's the new Hitler, and I got this immediate -- like, immediate -- email on the same device, from somebody that I kinda, whatever, I don't want to say who, who said, 'You gotta take that down. You can't compare a person in the public eye to someone who killed six million Jews.' And I said, 'Well, I'm not saying that she's that Hitler. She's the early Hitler, when he was building power. I don't know how many Jews he was going to kill. But I know that she's building power the same way. Hitler was voted into office through this weird, like he took a bunch of seats, and he got this party going, and he just started intimidating people, and that's exactly what she's doing. Again. I don't care. I'm not political, but why not? Fuck it. If Hitler was running, I'd say 'Hey, fucking losers, suck my dick, Hitler!' And I wouldn't feel like, oh, that's not that nice. Fuck 'em. He's Hitler.

"So I write things about her, people living in her cunt, or whatever it is, and then, yeah, so I go on the Tonight Show. I had no idea. Until I arrived, and I'm walking past the dressing room and it's Bristol, her fucking daughter is on the show. And we sat there, and she talked to Jay, but she, to me, I just saw a young girl who's very nervous -- she was terribly nervous -- be on the Tonight Show. And after her segment I told her, 'You did a good job. That's not easy.' And she said, 'Thank you.' She's very nice. So she invited me to stand there and dance. And I knew I was paying some kind of penance, for what I'd done, I'm standing there like this, me, Bristol Palin, fucking Jay Leno, and some dude from Dancing with the Stars, and I'm standing there kinda like this, and I'm like, this is totally karma. Pretty direct karma."

Ayn Rand

Dizem-me que há mais de 50 anos que esta mulher horrível inspira a extrema-direita americana e parece que os dois livros dela - que eu desconhecia até há poucos meses - têm sido considerados por várias gerações de críticos os livros mais influentes do século XX americano.

Duas biografias desta apologista do egoísmo foram publicadas recentemente e ontem li parte de um artigo na Nation sobre esta velha tenebrosa que aconselho vivamente. Aqui ficam uns trechos, para dar uma ideia:

(...) "She claimed to have created herself with the help of no one, even though she was the lifelong beneficiary of social democratic largesse. She got a college education thanks to the Russian Revolution, which opened universities to women and Jews and, once the Bolsheviks had seized power, made tuition free. Subsidizing theater for the masses, the Bolsheviks also made it possible for Rand to see cheesy operettas on a weekly basis. After Rand's first play closed in New York City in April 1936, the Works Progress Administration took it on the road to theaters across the country, giving Rand a handsome income of $10 a performance throughout the late 1930s. Librarians at the New York Public Library assisted her with the research for The Fountainhead. Still, her narcissism was probably no greater—and certainly no less sustaining—than that of your run-of-the-mill struggling author."

"The chief conflict in Rand's novels, then, is not between the individual and the masses. It is between the demigod-creator and all those unproductive elements of society—the intellectuals, bureaucrats and middlemen—that stand between him and the masses. Aesthetically, this makes for kitsch; politically, it bends toward fascism."

"Rand may have been uneasy about the challenge her popularity posed to her worldview, for she spent much of her later life spinning tales about the chilly response she and her work had received. She falsely claimed that twelve publishers rejected The Fountainhead before it found a home. She styled herself the victim of a terrible but necessary isolation, claiming that "all achievement and progress has been accomplished, not just by men of ability and certainly not by groups of men, but by a struggle between man and mob." But how many lonely writers emerge from their study, having just written "The End" on the last page of their novel, to be greeted by a chorus of congratulations from a waiting circle of fans?”

“Had she been a more careful reader of her work, Rand might have seen this irony coming. However much she liked to pit the genius against the mass, her fiction always betrayed a secret communion between the two. Each of her two most famous novels gives its estranged hero an opportunity to defend himself in a lengthy speech before the untutored and the unlettered. Roark declaims before a jury of "the hardest faces" that includes "a truck driver, a bricklayer, an electrician, a gardener and three factory workers." John Galt takes to the airwaves in Atlas Shrugged, addressing millions of listeners for hours on end. In each instance, the hero is understood, his genius acclaimed, his alienation resolved. And that's because, as Galt explains, there are "no conflicts of interest among rational men"—which is just a Randian way of saying that every story has a happy ending."

A não perder. :o)

domingo, 12 de setembro de 2010

Não se importem de repetir: não há consequências

As críticas do Conselho de Administração da RTP, do Provedor do Telespectador e da Entidade Reguladora para a Comunicação Social à tentativa de «inocentação» mediática do condenado Carlos Cruz chegam tarde demais: o mal já está feito. Carlos Cruz conseguiu numa semana lançar dúvidas e suspeições que o terão inocentado aos olhos de muita gente (o atraso na entrega do acórdão, e o site, que eu não vou lincar, também contribuem para que a formação de opinião lhe esteja, presumivelmente, a ser favorável).

Incrível é que não haja consequência alguma. O Conselho de Administração não demite ninguém? O governo cala-se?

sábado, 11 de setembro de 2010

Nove anos à espera

Passados nove anos desde as alegadas quedas de um avião no Pentágono em Washington, e de outro em Pennsylvania, ainda não vi uma única foto de um ou de outro.
Vi contudo vários relatos de jornalistas presentes em ambos os locais, onde se menciona a estranha ausência de destroços.

Agora na Bélgica

Abusos sexuais por padres católicos num relatório de 200 páginas que arrepiou os cabelos ao país inteiro.

O papa João Paulo II, claro, não sabia de nada. E este também não. Amanhã aposto que nos vai dizer: "I'm shocked!"

Um amigo meu, jesuita, dizia-me há poucas semanas que os papas, coitados, têm a vida muito ocupada e não tiveram tempo de seguir este problema como deviam. Curiosamente, dizia ele, não lhes escapou um único jesuita que tenha alinhado do lado dos pobres contra a brutalidade dos ricos na América Latina. Foram todos punidos, chamados a Roma, colocados atrás de secretárias, expulsos, ou excomungados.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quem não usa guarda-chuva, molha-se

Seria interessante investigar, daqui por uns anitos, quantas gravidezes indesejadas acontecerão no segmento de alunos cujos pais os impedem de frequentar as aulas de educação sexual. E no imediato, o ministério da tutela deveria esclarecer se a original «objecção de consciência» que lhes é tolerada (as faltas às aulas são «justificadas», e é o ensino público...) será alargável a outras matérias, ou se é exclusivamente para a  dita «educação sexual».

Sexo! Sexo! Sexo!

Há dois ou três meses a minha filha de cinco anos decidiu que só queria usar calças de ganga e só muito mais tarde é que percebemos porquê: uma das educadores do jardim de infância disse-lhe - e a outras duas crianças - que tinham de usar calças, se queriam pendurar-se nos tubos e nas cordas do jardim "porque com os vestidos viam-se-lhes as cuecas e era indecente".

Já ouvi evangélicos gabarem-se de terem vidas sexuais extraordinárias por causa da repressão: a simples palavra sexo faz-lhes suar as mãos e arregalar os olhos, e parece que o consumo de pornografia entre eles gera lucros anuais de 10 a 14 mil milhões de dólares por ano. Por outras palavras: são todos tarados sexuais!

Para um europeu é incomodativo viver entre estes puritanos. Penso que nem o Santana Lopes - que como se sabe não é esquisito - aguentava isto. São tão porcalhões! Há 10 anos, numa piscina pública, um pai de uma criança pediu-me para "pôr a parte de cima do bikini" à minha filha de dois anos.

Não sei se as estatísticas indicam que haja mais crimes sexuais nos EUA que em outros países. Mas a televisão tem programas sobre crimes sexuais dia e noite. Os texanos só pensam em sexo e frequentemente tenho a sensação humilhante que a mulher com estou a falar acha que eu lhe gostaria de saltar para cima. Pode ser impressão minha, mas há uma expressão na cara delas que trai uma indignação qualquer, entre o perverso e o puritano, uma atenção histérica aos sítios por onde os meus olhos andam, como se estivessem a falar comigo e a verem um pénis falante, entumescido e com veias roxas, com olhos e cabelo. E como o sexo entre eles é uma coisa violenta e degradante, ser incluído nos pensamentos deles incomoda-me. Apetece-me dizer-lhes, educadamente, que não lhes tocava nem que fossem as últimas mulheres do mundo, que as camadas de tinta que metem na cara me repugnam, que a cabeleireira delas é delirantemente incompetente, que não deviam meter os umbigos ao léu sem fazerem uma dieta séria primeiro e que o mero facto de falarem com um sotaque do sul mata qualquer resto de desejo que a minha idade avançada pudesse ter preservado.

Para não falar dos chinelos, dos calções e das t-shirts com frases da Bíblia, que são o traje nacional do Texas.

Portugal, país católico

Na imprensa estrangeira (e mesmo na nossa) Portugal é frequentemente descrito como um país muito tradicional e católico.
O Ricardo Alves fez há uns anos uma série de posts sobre a secularização da sociedade portuguesa, com vários números interessantes, que mostram que esta visão precisa urgentemente de um update. Eu junto mais um número que saiu há pouco no Eurostat.

Número de nascimentos fora do casamento em 2008
Portugal 36,2%
União Europeia 35,1%
Espanha 31,7%
Polónia 19,9%
Itália 17,7%
Suiça 17,1%
Grécia 5,9%

Sarkozi e os ciganos

Julgo que ninguém, aqui e em França, duvida que Sarkozi é um crápula e que a expulsão de cidadãos da UE, legal ou não, é uma jogada política populista.

Acho importante, no entanto, que nos metamos na pele dos franceses que aplaudem esta iniciativa e tentemos imaginar porque o fazem.

Os imigrantes são frequentemente difíceis de integrar. Não se aprende uma língua de um dia para o outro e não se abraça uma cultura diferente em poucos anos. Sobretudo numa Europa economicamente deprimida e cheia de tensões étnicas e religiosas, onde os tecnocratas conspiram contra a classe média num ambiente tenebroso e anti-democrático.

Parece-me fácil demais atirar pedras a quem está farto de ser roubado, ou vive aterrorizado com a criminalidade associada a grupos de imigrantes. Estes problemas são sérios e requerem soluções sérias. Não se podem ignorar sob pena de vermos a extrema-direita eleita em toda a Europa em poucos anos.

A França tem um atradição longa de tolerância e tem feito um esforço enorme para receber e integrar milhões de imigrantes económicos. Quem é que não viu o filme de Laurent Cantet "Entre les murs"?

Acho que não nos devemos esquecer que as tensões entre franceses - de ascendência francesa ou outra - e imigrantes recentes têm causas reais: criminalidade, ruído, problemas sanitários, diferenças religiosas ou culturais difíceis de conciliar.

Quem de entre os críticos de Sarkozi na imprensa europeia não se importava se o vizinho de cima convidasse os primos todos (dúzias e dúzias de primos) para matar, esfolar e cozinhar um cabrito no andar de cima, ao domingo, a começar às sete da manhã, com a telefonia aos berros e o sangue a escorrer da varanda e pelas escadas abaixo? E o elevador (mais uma vez) vandalizado por magotes de miúdos mal educados?

Tenho um amigo holandês cuja mulher é frequentemente insultada em Amesterdão por andar sozinha e com a cara destapada. Em Zandvoort, o carro da minha sogra foi vandalizado quatro vezes seguidas em frente à casa para lhe roubarem gasolina. O vizinho de cima tentou impedir os miúdos, foi brutalmente espancado e acabou internado num hospital.

Há muitos anos, em Santarém, tive um acampamento de ciganos no jardim da casa em frente da minha durante mais de um ano. Adorei. A minha experiência foi óptima. Eram simpáticos e divertidos, tinham sempre a música aos berros dentro de uma das carrinhas - flamenco! - e tive imensa pena quando se foram embora. Mas sei que há pessoas que têm experiências muito diferentes com vizinhos de outras culturas.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Telenovela: siga as actualizações, hora a hora

(Este post poderá vir a ser actualizado.)

    Proibir? Não.

    A pequena igreja da Florida que tenciona queimar publicamente o Corão quer, principalmente, atenção. Está no seu direito. E vai consegui-la. A atenção. Todos vamos ficar a saber que são fundamentalistas cristãos apostados numa «guerra santa» de isqueiro e papel.

    Proibir a queima do Corão está fora de causa (e seria tão errado como proibir o Corão, já agora). O papel e o cartão não têm sentimentos e não vão chorar ao ser queimados. E nenhum país civilizado proíbe que se queimem símbolos ou textos em público (com a excepção, discutida, dos símbolos nacionais).

    Hillary Clinton critica publicamente a anunciada fogueira. E está bem: cabe-lhe garantir a ordem pública interna e a afirmação externa. Não pode, pelo contrário, proibir o acto em si, como pede um senhor do Cairo. Ainda se está dentro dos limites da liberdade de expressão. Embora haja muita coisa que, sendo legal, é ética e politicamente condenável.

    [Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

    quarta-feira, 8 de setembro de 2010

    Revista de imprensa (8/9/2010)

    1. «O cardeal Mazarin nasceu Giulio Mazarino, em Nápoles, e foi primeiro--ministro francês, de Luís XIV. Marie Skolodowska nasceu em Varsóvia, foi Nobel da Física duas vezes mas entretanto já era Madame Curie e francesa. Três tipos juntaram-se e fizeram três grandes filmes: Z, A Confissão e Estado de Sítio. O que escreveu as histórias nasceu em Madrid, Jorge Semprún, o que realizou nasceu em Atenas, Costa-Gravas, e o que deu cara nasceu numa aldeia italiana, Yves Montand. Três filmes franceses, três tipos franceses. Também Serge Reggiani, nascido italiano, Dalida, nascida no Cairo, e Moustaki, nascido em Alexandria, se tornaram cantores franceses.  (...) Belga de nascimento era Marguerite Yourcenar, a primeira mulher eleita para a Academia Francesa. Por escrever bem em francês, como Milan Kundera, que nasceu em Brno, na Moldávia. Todos franceses. Mas, atenção, de segunda. Esta semana, Sarkozy decidiu que há essa raça à parte: franceses a quem se pode tirar a nacionalidade porque não nasceram franceses. Como é que ele explica isso lá em casa à mulher, que nasceu italiana, e ao pai, que nasceu húngaro?» (Ferreira Fernandes)
    2. «A entrevista "non stop" que, desde que foi condenado, Sua Inocência tem estado ininterruptamente a dar às TVs teve o mais respeitoso e obrigado dos episódios na RTP1, canal que é suposto fazer "serviço público". Desta vez, o "serviço" foi feito a um antigo colega, facultando-lhe a exposição sem contraditório das partes que lhe convêm (acha ele) do processo Casa Pia e promovendo o grotesco julgamento na praça pública dos juízes que, após 461 sessões, a audição de 920 testemunhas e 32 vítimas e a análise de milhares de documentos e perícias, consideraram provado que ele praticou crimes abjectos, condenando-o à cadeia sem se impressionarem com a gritaria mediática de Suas Barulhências os seus advogados, o constituído e o bastonário.» (Manuel António Pina)

    Governo de iniciativa... da Beatriz

    Na Holanda, a Beatrix Wilhelmina Armgard acaba de ignorar a vontade de 3 partidos de direita para prosseguir as negociações para formar um governo de coligação, tendo ordenado o arranque de negociações com outros partidos.
    A Beatrix em Portugal seria felizmente tão importante como qualquer um dos bloggers do ER. Mesmo na Holanda a sua ordem apenas representa a sua vontade - nunca foi eleita por ninguém. A única razão pela qual tem direito a escolher a composição do novo governo, é que a mãe dela já o fazia.


    Revista de blogues (07-09-2010)

    Gosto do Avante. Assim. Simplesmente. (...) No Avante o movimento é realmente popular. (...) Confesso que quanto mais me afasto do PCP do ponto de vista ideológico mais me aproximo da ideia da Festa do Avante e não é por esta estar melhor todos os anos. Este, por exemplo, a palavra de ordem que mais se repetiu foi “patriótico”, que segundo os camaradas é a mais-valia do Francisco Lopes relativamente aos candidatos patrióticos contra o patriótico Cavaco Silva.

    Não gosto do Avante para ouvir o comício a ou b, mas para pressentir os abafos e os desabafos de quem salta ao som da Carvalhesa ou dos que enchem a cara numa das tascas regionais. Além de rever alguns companheiros de luta (bem… outros nem tanto) do PCP, agrada-me o júbilo do povo de esquerda que de Norte a Sul do país enche a quinta da Atalaia muito além das fronteiras orgânicas do partido. Logo depois dos cortejos do 25 de Abril e do 1º de Maio, este é o terceiro momento do calendário onde tal abstracção, a do povo de esquerda, se concretiza.

    Dos recantos mais ortodoxos, do Barreiro a Coimbra, à ecuménica secção internacional (onde paradoxalmente aflui uma quantidade incrível de esquerdistas), quem ali se desloca (por bem) é seguramente gente de esquerda. (...)

    Sobre o Avante há apenas uma coisa certa: todos os anos voltam a terreiro os avantólogos cheios de novas leituras sobre o certame, sendo que quanto mais filosofam menos revelam perceber sobre o assunto. Como acabei de cair nessa armadilha o melhor é mesmo deixar esta posta por aqui, acrescentando apenas os parabéns ao PCP por ao menos fazer uma festa como esta, e a reboque lamentar a escolha e a estratégia na definição do candidato e do caminho presidencial, que não garante sequer moral suficiente para ir a votos na primeira volta das eleições.
    (Renato Teixeira)

    terça-feira, 7 de setembro de 2010

    Rumo ao federalismo de gabinete

    O ministro das Finanças da nossa República decidiu numa reunião privada que «as grandes orientações» do nosso Orçamento Geral de Estado serão submetidas à apreciação da Comissão Europeia, e dos ministros das Finanças de outros Estados, antes de passarem por essa miserável instância democraticamente eleita, a Assembleia da República.

    Tempo de Antena para um Manipulador

    Independentemente de Carlos Cruz vir a ser confirmado culpado ou conseguir ser pronunciado inocente, acho chocante a deferência para com o imenso poder manipulador deste indivíduo e para com as suas jogadas à margem da lei. Desde o famoso directo simultâneo em três telejornais, passando pela sua exibição em programas de variedades durante o processo, até à conferência de imprensa e o Prós e Contras de hoje, Carlos Cruz não perdoou uma. O que é mais lamentável é o serviço público televisivo ter alinhado num programa de pós-julgamento na praça pública - as questões puramente de justiça discutidas eram perfeitamente banais - em que o principal assunto foi o branqueamento dos crimes pelos quais foi dado como culpado Carlos Cruz. Vimos um verdadeiro manipulador em acção, um indivíduo que não tem problemas em fazer uso da boa vontade dos seus ex-colegas, fazendo-se tratar por tu pela apresentadora e pedindo para ter "mais 2 ou 3 minutos de tempo de antena" após ter falado bem mais do que qualquer elemento do público. Vimos um manipulador que usa passagens cirúrgicas das palavras prudentes de uma vítima, de um psicólogo e de um advogado das vítimas, para as colar ao seu discurso de defesa. Assistimos a referências da treta a apoios nas redes sociais e a comentários em que admite violar a lei para defender os seus interesses. E assistimos a um painel que na prática alinhou naquilo, uns por ingenuidade ao citar passagens e problemas do processo lançados pela defesa de Cruz outros por pura passividade crítica à manipulação permanente de Carlos Cruz. A única coisa que há a louvar neste programa é a posição das pessoas que se recusaram a participar naquilo. Uma verdadeira náusea televisiva.

    segunda-feira, 6 de setembro de 2010

    Novo Mundo: Questões do nosso tempo 1 - Domesticação

    "Viver calado não confere grande alegria, mas tem a vantagem de não desestabilizar a vidinha."
    Da Isabela, claro está.

    Promessas

    Passos Coelho prometeu qualquer coisa a Jardim relativa à RTP-Madeira. O PS/Madeira acha que foram saneamentos políticos. A seguir.

    sábado, 4 de setembro de 2010

    O primeiro julgamento do resto da vida deste país

    A blogo-esfera está estranhamente silenciosa. Não sei por indiferença ao que não é directamente político, se por pudor de comentar sentenças judiciais, a verdade é que a comentarite aguda está de férias em setembro.

    Arrisco. O «processo Casa Pia» é o primeiro em que poderosos são condenados por crimes, o termo é adequado, «de sangue». Esse é um facto indubitavelmente positivo. Outro, que a sociedade portuguesa se pode ter começado a consciencializar de que existe, em muitas instituições de acolhimento de crianças, uma cultura de abuso sexual que passa de geração em geração, e que o silêncio é a pior forma de lidar com esse problema.

    Há também constatações negativas. Enquanto cidadão, não me agrada uma justiça que demora oito anos a julgar um caso (eu sei, foram ouvidas quase mil pessoas; mesmo assim). Mais confusão ainda me causa perceber que os condenados podem aguardar em liberdade pelo resultado de recursos que demorarão anos. E gostaria que alguém esclarecesse como se tentou arrastar a direcção socialista de Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso para este imbróglio.

    Em qualquer dos casos, não é todos os dias que a justiça portuguesa condena um mediocrata e um ex-embaixador.

    Manifestação contra as deportações de ciganos

    Hoje, às 15h e 30m, há manifestações contra as deportações de ciganos decididas pelo governo de Sarkozy, em Lisboa (frente à embaixada da França, na Calçada Marquês de Abrantes) e no Porto (frente ao consulado francês, na Avenida da Boavista).

    Num momento de crise económica, a direita no poder em França (e na Itália, e na Alemanha...) escorrega para a xenofobia. Nada que não esteja nos livros. E que merece, sem dúvida, oposição organizada.

    sexta-feira, 3 de setembro de 2010

    Revista de blogues (3/9/2010)

    1. «O Guardian tornou públicas as pressões de Thatcher sobre Gorbachov aquando da greve dos mineiros ingleses. Ao que parece, os sindicatos soviéticos estavam disponíveis para ajudar financeiramente os grevistas ingleses. Sem independência face ao poder político, acabaram por ceder. A greve durou um ano e foi o mais duro confronto entre os conservadores britânicos, pioneiros da vaga liberal na economia europeia, e um dos mais fortes movimentos sindicais do Mundo. Foi ganha pelos primeiros. Com ajuda, já agora, do general Jaruzelsky, ditador polaco que tratou de garantir o fornecimento de carvão ao Reino Unido. Neste confronto estava em causa muito mais do que as questões concretas que preocupavam os mineiros ingleses. Era um confronto entre o Estado Social que vigorava no Reino Unido e o neoliberalismo.
      (...) Disse o barbudo que o capitalismo não tinha pátria. E daí concluiu que também não a tinham os trabalhadores. Não perceberam os sindicatos da Europa que a greve dos mineiros ingleses era a sua greve. Não percebem que a crise grega ou portuguesa é a sua crise. E enquanto não perceberam isto estarão sempre a perder.» (Daniel Oliveira)

    quinta-feira, 2 de setembro de 2010

    Um rabino racista e instigador da violência

    O rabino Ovadia Yosef é «líder espiritual» de um partido político israelita (o que em Israel é assumido, embora fosse profundamente anacrónico na Europa civilizada). Tem um longo passado de declarações controversas, que incluem dizer que «os pretos» de Nova Orleães mereceram o «tsunami»(sic) Katrina, porque não estudavam a Torá e porque Bush apoiou o desmantelamento de colonatos em Gaza. No passado, já pediu a «aniquilação» dos árabes («é proibido ter piedade deles», disse).

    Esta semana, desejou publicamente a morte dos líderes palestinos. Deve ser a sua forma de contribuir para as negociações de paz e para o diálogo inter-religioso.

    Haverá alguma religião abraâmica sem fanáticos instigadores da violência sectária?

    Uma República de cidadãos

    Raramente se mencionam as dificuldades que a República de 1910-26 enfrentou, a nível interno e externo. E também raramente se destaca como o projecto dos republicanos de 1910 era uma República centrada no exercício da cidadania.
    • «(...) seria injusto não reconhecer a difícil conjuntura que marcou os breves 16 anos da República e que condicionou a acção dos Governos republicanos: a pesada herança da Monarquia, tanto no plano económico e social como no plano cultural, a violenta e persistente reacção monárquica, a Grande Guerra e as suas consequências internas, desde as dificuldades de abastecimento e o agravamento do custo de vida até ao crescente protagonismo político dos militares, as epidemias de 1918-1919 e o seu efeito depressivo na sociedade portuguesa, a posição conservadora das elites económicas, bem como a agitação social. Neste contexto, seria injusto não reconhecer aspectos positivos da obra realizada, em diversos domínios, tanto pelo poder central como pelos poderes locais. Poderia destacar-se o esforço de desenvolvimento e descentralização da instrução primária, diversas medidas de fomento económico ou alguma legislação, avançada para a época, como com as leis da família ou várias leis laborais. E, sobretudo, para muitos republicanos, o exercício da cidadania aparecia como elemento-base da vida política e social.» (Gaspar Martins Pereira, Público, 30/8/2010)

    quarta-feira, 1 de setembro de 2010

    O clericalismo sobrevive, subsidiado por todos nós, na Madeira

    A pérola que hoje fez a volta ao mundo da blogo-esfera lusitana veio directamente da Madeira.