terça-feira, 31 de Agosto de 2010

A Lapidação das Moratórias

Desde a decisão de decretar uma moratória à lapidação já foram assassinados à pedrada uma mulher e cinco homens no Irão. Tariq Ramadan foi o grande ideólogo das moratórias (incapaz de se pronunciar claramente contra) à lapidação e à pena de morte. Já lá vão seis mortes e à sétima, dada a sua mediatização, era incontornável e foi obrigado a pronunciar-se. A prosa demorou mas saiu ontem. Misturada com a questão dos ciganos e com as inundações no Paquistão que era para temperar a condenação da lapidação de Sakineh. Ele sabe-a toda... Não vou tão longe quanto Malek Boutih do SOS racismo quando apelidou Ramadan de fascista, nem concordo totalmente com Caroline Fourest quando esta o compara a Le Pen. Mas o comunitarismo é claramente a base do discurso político de Ramadan e neste particular não difere muito dos fascistas nem de Le Pen. Apesar de tudo é um engodo mais simpático, mas como o prova o caso do Irão também tem consequências nefastas.

Os limites e as confusões do Nuno

Escreve o Nuno Ramos de Almeida:

“Um dos princípais passos no sentido de uma emancipação global é recusar os limites do pensável que a ideologia do capitalismo nos impõe. (...) Do meu ponto de vista, o erigir de reformas parciais como o alfa e omega de toda a política significa aceitar esses limites. Um verdadeiro partido socialista deve propor medidas que melhorem a vida das pessoas, mas não pode desistir da ideia de uma transformação radical da sociedade. A sua função principal é tornar essa transformação pensável e, como tal, possível.”

Nuno, nem todos os limites nos são impostos pela ideologia capitalista. Posso querer um moto-contínuo ou, mais ainda, uma máquina de produzir energia; posso querer que o calor flua naturalmente dos objetos mais frios para os mais quentes. Mas tal não me serve de nada, pois não os consigo obter. Não consigo obter tais máquinas, mas consigo pensar sobre elas. Como tal, evidentemente é falso que tudo o que seja pensável seja possível. Não é a ideologia capitalista a responsável por nada disto, mas a natureza que, ao contrário do que um teu muito histriónico colega defende, não é nenhuma construção social. E que nos impõe limites, esses sim intransponíveis.
No teu “ponto de vista” sobre as reformas parciais, não explicitas de que limites falas: se os naturais, se os impostos pelo capitalismo. Discordo de que aceitar reformas parciais seja aceitar os limites “do capitalismo” (embora concorde que seja aceitar limites não impostos pela natureza, que eu classificaria como éticos). O “socialismo científico” consiste em saber distinguir os diferentes tipos de limites. Pelo teu texto, é um conceito que pelos vistos tu deixaste cair. É pena. Assim, creio que não vais a lado nenhum.

segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Se os recursos fossem ilimitados não precisaríamos da esquerda para nada

“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.

domingo, 29 de Agosto de 2010

Ainda sobre os arautos da direita

Um artigo importantíssimo no New Yorker desta semana explica a influência que um pequeno grupo de bilionários pode ter no mundo. Neste caso três pessoas: Rupert Murdoch e David e Charles Koch. Em 10 curtas páginas a autora, Amy Davidson, explica como o dinheiro é utilizado para definir, sintetizar, editar e divulgar os slogans que depois são repetidos pelos colunistas e jornalistas de direita. E para organizar manifestaçãos, transportar os manifestantes, comprar os jornais e as televisões, pagar aos jornalistas que se prestem a propagar os slogans e noticiar os eventos. Absolutramente sinistro, mas claro como água.

Se a Coreia o diz é porque é verdade...

Do ponto de vista formal, a FIFA pouco pode fazer para contestar a veracidade ou não do conteúdo da carta da Federação Coreana sobre o castigo do treinador Kim Jong Hun. Mas quem conhece a história dos partidos comunistas, do comunismo totalitário, sabe que em países bem mais brandos que a actual Coreia do Norte os atletas chegaram a ser castigados por motivos tão nobres como a dor de cotovelo. As sanções recaíram sobre atletas bem mais populares e com carreiras bem mais brilhantes do que a carreira de Kim Jong Hun. Basta lembrar o destino do campioníssimo Emil Zatopek condenado a trabalhar nas minas de urânio da Checoslováquia.
É confrangedora a credulidade e a ingenuidade que demonstram neste caso os que reivindicam representar um comunismo emancipado dos velhos hábitos.

A rose is a rose is a rose

Há muitos anos, a propósito de um comentário ordinário e anti-semita de um político qualquer, o jornalista Miguel Esteves Cardoso escreveu que muitos fascistas, capazes das piores atrocidades se devidamente enquadrados, viviam e morriam sem nunca se darem conta disso pelo simples facto de terem vivido numa democracia.

Os meus amigos acham todos que eu sou um pessimista, provavelmente com razão, mas eu acredito que a barreira entre as democracias em que a minha geração cresceu e as ditaduras em que cresceu a geração dos meus pais é tremendamente frágil. A história demonstra que a maioria das pessoas não tem ideias: escolhe-as na televisão, em grupo, através dum processo emotimo. Quem simpatiza com Cavaco Silva e Durão Barroso provavelmente aceitará a extinção do SNS, como aceitou a invasão do Iraque, sem pensar nas consequências.

A esquerda tem acreditado que "a verdade liberta" e que basta educar as pessoas para que elas façam as escolhas certas. Mas a história demonstra que não é assim. A força da democracia reside na energia com que as pessoas que acreditam nela se baterem contra os que a querem destruir. César das Neves precisa de ser desmontado e explicado, seja dele ou não texto que aparece na internet, exista ou não o Dr. Oitke.

Os textos dele são consistentes: as pessoas são más e promíscuas e imorais, e o mundo está em decadência por falta de valores e de religião; a busca do prazer corrompe e a erosão natural dos valores do século XIX está a tornar o mundo pior. Queiramos ou não, isto são ideias fascistas, que pressupõem um autoritarismo qualquer, que ele não define, mas que se justifica algures à volta dos valores da religião. Quando César das Neves se queixa de que há informação demais, é natural perguntarmos quem definiria, segundo ele, o nível óptimo de informação, ou quem regularia o seu fuxo justo? A informação é o inimigo. Mas de quem e de quê?

César das Neves, como o improvável Dr. Arroja, não está sozinho. Este mês a Intel comprou a McAfee por 7.7 milhares de milhões de dólares, a BHP Billiton está a negociar a compra da Potash por 40 mil milhões, a Dell a preparar a compra da 3PAR por 1.2 mil milhões, e o First Niagara Finantial Group vai comprar a NewAlliance Bancshares por 1.5 milhares de milhões. A concentração da riqueza nas mãos de uma minoria continua, apesar das promessas de Obama, e a destruição da classe média com ela.

As declarações dos gangsters da Wall Street durante os anos Bush não deixam dúvidas sobre as intenções dos oligarcas: se a classe média tiver acesso à informação completa e crua, a primeira consequência é que passem a votar nos candidatos que proponham uma distribuição mais justa da riqueza. A informação crua, antes de ser editada pelos media, é o maior e mais perigoso inimigo do capitalismo selvagem.

César e "o progresso" ou a história de um "meme"

Em Fevereiro ou Março passados o Prof. Dr. César das Neves, lente da Universidade Católica, escreveu (?!) um artigo no Diário de Notícias sobre um livro que ele classificou como "polémico", alegadamente escrito por um prof. Andrew Oitke, "catedrático de antropologia em Harvard" e intitulado "Mental Obesity". Segundo o Prof. César das Neves este livro "revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral".

O texto de César das Neves já não está online, mas reverberou pela internet, como se pode ver aqui, aqui, ou aqui, por exemplo.

O artigo é uma crítica patética e infantil a um mundo supostamente "atafulhado" de informação: "a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada." Segundo César das Neves "Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo."

Em Julho o Blog Diário de um Sociólogo levantou a questão de o livro ser impossível de encontrar.

Ontem um amigo mandou-me o artigo e eu verifiquei, com uma simples busca no Google que não existe nenhum prof. Andrew Oitke no departamento de antropologia de Harvard e não consegui encontrar este livro em nenhum dos catálogos de livros online, incluindo o WorldCat. Nem encontrei nenhum artigo com este autor nas bases de dados de artigos nas "Humanidades", nem nas Ciências Socias".

Não sei se o livro e o autor existem ou não, mas parece-me que um livro que "revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral" devia aparecer nas bases de dados universitárias. Não creio que o Dr. César das Neves tenha inventado o famoso "catedrático de Harvard": numa busca rápida pela internet encontrei duas referências a este misterioso livro, sempre em segunda mão, aqui e aqui, a última datada de 2007.

Julgo que não vale a pena perder aqui muito tempo com a possibilidade de o livro ter sido inventado. A ironia, básica mas divertida, do autor de um artigo sobre falta de rigor citar um livro que não existe perde-se no universo de "estereótipos, juízos apressados, ensinamentos tacanhos e condenações precipitadas" publicados regularmente por César das Neves. O que importa aqui é esta ideia de que a informação é uma coisa má ou, pior, de que uma sociedade com menos informação faria melhores juízos ou teria ideias mais precisas.

Até há poucos anos, nunca soube se os idiotas que acham que o mundo está decadente são mais irritantes do que os idiotas que acham que tudo o que é novo é bom (lembram-se de Fukuyama?). O Fernando Pessoa escreveu aliás um texto delicioso sobre este assunto (O Provincianismo Português). Mas quando leio um texto tão completamente idiota como este, a criticar o progresso no mundo da informação, e depois o vejo repetido entre Portugal e o Brasil dúzias de vezes, por pacóvios sem qualquer sentido crítico, exactamente por causa do progresso no mundo da informação, vejo-me obrigado a concluir que os "campónios" de Fernando Pessoa são muito mais perigosos que os "provincianos". Esta forma de reaccionarismo absurdo levou a Igreja Católica instituir o Index e a decretar que a anestesia epidural era um pecado porque as mulheres deveriam sofrer dores de parto para expiarem o pecado da Eva.

O texto de César das Neves é mais que idiota: é criminosamente estúpido porque argumenta que é melhor um mundo em que os algarvios da serra nunca tinham visto o mar, do que um mundo em que "todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto".

Esta atitude perante o devir histórico é a mesma dos que decretaram que a música de Arnold Shoenberg era decadente, que o jazz era uma música de degenerados, e dos que condenaram a arte do século XX por inteiro, indo ao ponto de mandarem picar os frescos de Almada Negreiros.

Hoje Portugal está muito longe desse mundo, em grande parte graças à liberdade e ao ao progresso no mundo da informação, e Almada não teria de escrever no seu Manifesto: "…uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração! Morra o Dantas, morra! Pim!".

A mesma liberdade de circulação de informação que permitiu que o seu texto se difundisse pelo mundo lusófono faz com que César das Neves não represente senão uma pequena e triste franja da sociedade.

Sobre a santidade do casamento

Acho que isto já tem um ano, mas só ontem é que vi este discurso no TED, sobre o casamento gay e a santidade do casamento heterossexual.

Manter o bom nome da ICAR

Mais um reconhecimento por parte da ICAR sobre o silenciamento das vítimas de pedofilia. O Cardeal belga Godfried Danneels, então líder da ICAR na Bélgica, pediu a uma vítima de um bispo que esta apenas tornasse os abusos públicos depois de o bispo ter abandonado o cargo.
Ao contrário do que muitos fazem crer o chocante aqui não é a existência de pedófilos na Igreja (porque os há em todo o lado). O que choca é a tentativa organizada por parte da mais alta hierarquia em manter o bom nome (?) da ICAR, em detrimento do funcionamento da justiça e da proteção das crianças abusadas.

Manifesto pelo SNS

Eu apoio este manifesto.
  • «Portugal adoptou o Serviço Nacional de Saúde (SNS) como modelo de organização dos cuidados de saúde. Cobre toda a população residente, mesmo os emigrantes e estrangeiros, garante a prestação da totalidade de cuidados e nada cobra dos doentes quando estes o procuram, a não ser taxas moderadoras relativamente pequenas das quais a maioria da população está isenta. Cumpre-se o que prescreve a Constituição: o SNS é universal, geral e tendencialmente gratuito. No final dos anos setenta fomos capazes de adoptar uma solução de plena modernidade, com provas dadas no Reino Unido e Países Nórdicos. Depois de nós, italianos, espanhóis e gregos adoptaram o modelo SNS com variantes locais. No ano corrente, no final de uma longa batalha política, os EUA adoptaram um sistema universal baseado nos modelos europeus do SNS.

    O nosso SNS detém um admirável registo de ganhos em saúde, em especial na área materno-infantil, com os melhores valores internacionais. O SNS é considerado uma das mais bem sucedidas conquistas da Democracia, demonstra bons níveis de satisfação para utilizadores e profissionais, garantiu o acesso universal aos cuidados de saúde, promoveu desenvolvimento, contribuiu para a economia, criou milhares de postos de trabalho com elevada qualificação e prestigiou o País nas comparações internacionais. Se outro tivesse sido o modelo adoptado em 1976, o País estaria hoje porventura menos saudável, gastando mais e sendo, certamente, mais desigual. As recentes celebrações dos trinta anos do SNS geraram elogios e manifestações de apreço em todos os quadrantes da cena política portuguesa.

    O SNS é um bastião da qualidade. É a ele que se recorre nos casos mais difíceis. Existe liberdade de recurso ao sector privado, em áreas de diagnóstico e terapêutica e em outras complementares, todas, em geral de menor complexidade. O sector privado foi sempre livre de se estabelecer no internamento e nas consultas, de forma separada e sem dependência financeira do Estado. É este o entendimento constitucional da complementaridade e não o de uma suposta concorrência que o privado vem reivindicando e que se faria sempre às custas do sector público.

    O SNS carece de modernização constante, tanto nas tecnologias, como na organização, como ainda na cobertura dos novos riscos. Mudanças demográficas, epidemiológicas, culturais e sociais determinam problemas de saúde que não nos preocupavam décadas atrás, como a prevalência de doentes idosos e dependentes, a sinistralidade, as tóxico-dependências, as novas infecções virais e bacterianas e as novas doenças degenerativas. A todos estes desafios tem respondido o SNS de modo eficaz, mais rápido e menos dispendioso que nos sistemas da Europa Central, de tipo convencionado. E sendo bem gerido, permitiu reformar os cuidados de saúde primários e criar unidades de saúde familiar (USF), cuidados continuados a idosos e a cidadãos com dependência (UCI), cuidados de saúde oral (através do cheque dentista), prevenção do tabagismo, rápida e eficaz assistência na emergência médica, procriação medicamente assistida, prevenção do aborto clandestino, entre muitas outras acções.

    Recentes intenções de revisão constitucional propõem o abandono dos princípios da universalidade, pelo alargamento do papel do sector privado de complementar a alternativo, financiado pelo Estado, o que resultaria em cuidados a duas velocidades. E o abandono da tendencial gratuitidade, com a mudança do sistema para pagamento universal no ponto de contacto do doente com o sistema. Em vez do reconhecimento automático da gratuitidade, teríamos o sistema universal de pagamento no acto, com excepções, segundo o nível de pobreza individual. Voltaríamos ao inquérito assistencial da caridade do antigo regime, estigmatizante e gerador de compadrio e fraude.

    Estas propostas são inaceitáveis. Os abaixo assinados, oriundos de diversas tendências e famílias políticas, têm dedicado boa parte da sua vida a servir os Portugueses no SNS, prestando cuidados, organizando-os e aperfeiçoando o modelo. Defendem a continuação do SNS na sua matriz universal e o seu aperfeiçoamento constante. O actual contexto político e social exige posições claras. No nosso entender o Serviço Nacional de Saúde é um Direito de Todos e um Dever do Estado Moderno e Democrático.

    SIGNATÁRIOS DO MANIFESTO DO SNS:

    Adalberto Campos Fernandes, Albino Aroso, Ana Jorge, António Arnaut, António Correia de Campos, António Ferreira, António Rendas, Carlos Arroz, Constantino Sakellarides, Eduardo Barroso, Fernando Regateiro, Francisco Ramos, Jorge Almeida Simões, Manuel Pizarro, Manuel Sobrinho Simões, Maria Antónia Almeida Santos, Maria Augusta Sousa, Maria de Belém , Maria do Céu Machado, Mário Jorge, Orlando Monteiro, Pereira Miguel .
    » (Retirado daqui.)

sábado, 28 de Agosto de 2010

Lapidar

Há sempre um Renato Teixeira para nos abismar. Ao dizer-nos que protestar contra a chária e as lapidações (e sim, contra a República Islâmica do Irão) é «[embarcar] na campanha montada pelos interesses sionistas e norte-americanos», o Renato demonstra como está tão enterrado na areia do anti-americanismo que até já  uma comunista iraniana ele acusa de ser agente da CIA. Entre os comunistas iranianos no exílio, e os islamofascistas no poder em Teerão, escolhe os últimos. Lapidar.

Ao contrário do Renato, não me considero marxista-leninista. E não sei que tipo de regime o Partido Comunista dos Trabalhadores do Irão implantaria, no século 21, na ex-Pérsia, se para tal tivesse capacidade. Mas há vários anos que divulgo iniciativas  e textos saídos desta corrente da diáspora iraniana. Porque são solidamente laicistas, feministas e progressistas. E tenho mais confiança em comunistas que evoluíram e são laicistas do que nos islamofascistas no poder.

do clima e da economia

Antes do início das férias, dois posts sobre climatologia aqui no blog geraram acesa discussão nas respectivas caixas de comentários. Curiosamente, mais discussão que muitos outros posts sobre política ou economia, mas, também curiosamente, num tema que acaba por ter mais semelhanças do que aparenta à primeira vista ... precisamente com a economia! De facto, enquanto ciências duras, em sentido quantitativo rigoroso, tanto a economia como a climatologia são relativamente recentes. Mas essa seria uma semelhança banal. A semelhança que acho mais curiosa diz respeito à imensa politização que é feita destas áreas: é raro ouvir alguém falar sobre economia ou sobre o clima, sem ter uma agenda política, oculta ou não, por detrás. E esta característica é, a meu ver, bastante prejudicial para um saudável desenvolvimento científico.

Mas não nos ficamos por aqui. É que, enquanto jovens ciências quantitativas, tanto a economia como a climatologia são relativamente competentes a fazer observações sobre o estado presente (pese embora uma significativa volatilidade na climatologia, ao tentar dividir a anomalia de temperatura nas suas diferentes componentes e respectivas contribuições --- recorde-se o caso da análise da variação de temperatura no Ártico, onde se chegou à conclusão que o facto de a neve estar "suja", devido a poluição não relacionada com CO2, era responsável por mais de 20% da variação de temperatura medida), mas bastante deficientes a tentar fazer previsões. Quanto vai crescer ou diminuir a economia no ano que vem? Quanto vai crescer ou diminuir a anomalia de temperatura no ano que vem? Perguntas tão simples mas também tão impossíveis de responder com exactidão. Mas, apesar disso, muitos climatólogos não se coibem de prever cenários de desastre para daqui a 30 ou 50 anos (e bastava levar em conta os erros anuais medidos para se perceber sobre o vazio destas previsões), falando em subidas de 80 metros no nível das águas oceânicas. E também na economia, embora curiosamente menos popular nos media, se esperam cenários de desastre para o bom funcionamento da sociedade num contexto de uma transição de fase tecnológica. Como diria o outro, "assim, sem explicação" (naturalmente, em ambos os lados, existem dúvidas muito em aberto: qual a verdadeira importância da componente antropogénica na anomalia da temperatura; ou se realmente poderá haver outra transição de fase no crescimento económico mundial). Da climatologia pedem-nos para adoptar medidas políticas (com as quais até podemos concordar, mas não é esse o ponto), com base em cenários apocalípticos para daqui a umas décadas, sem primeiro dar provas da real capacidade científica ... no ano que vem! Da economia então, nem sequer se dão ao trabalho de lembrar os cenários apocalípticos: limitam-se a impor medidas políticas avulsas, mesmo perante a completa incapacidade de prever crises gravíssimas, como estamos todos bem lembrados no nosso dia-a-dia. Enfim!

Perante este cenário, recomendariam os bons princípios científicos que, tanto num caso como no outro, recebêssemos as recomendações relativas a desastres futuros with a graint of salt. Que sejamos mais cuidadosos e rigorosos na análise dos dados, que sejamos mais exigentes com a capacidade de fazer previsões. E, acima de tudo, que sejamos menos politizados na forma como lidamos com os aspectos puramente científicos que estas áreas (tão interessantes!) têm para oferecer. Mas não é isso que acontece, pelo menos não de forma homogénea: aqueles que maior tendência têm para criticar cientificamente os paradigmas económicos neo-clássico e neo-liberal são aqueles que maior tendência têm para aceitar de forma dogmática o aquecimento global antropogénico, e vice-versa! Isto, para mim, é um mistério.

sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

É já amanhã

«Este texto será lido amanhã, durante o protesto contra a lapidação de pena de morte, apelando pela vida da iraniana Sakineh Ashtiani.

Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos, viúva, dois filhos, condenada à morte na República Islâmica do Irão. Condenada à morte pela República Islâmica do Irão. Condenada à morte por viver numa República Islâmica, com base nisso a que se dá o nome de “lei islâmica” e que na declinação iraniana decreta que as mulheres acusadas de relações sexuais “fora do casamento” devem ser lapidadas. Mortas à pedrada. Com pedras do tamanho certo para que a morte seja lenta e atroz, para que a mulher enterrada até ao rosto possa sobreviver a dezenas de golpes enquanto à sua volta a turba faz pontaria e se congratula com “a vontade de deus”.

Mais de uma centena de pessoas foram assim executadas no Irão nos últimos anos, quase todas mulheres, quase todas por “adultério”. Há pelo menos 15 neste momento a aguardar execução. A outras foi à última hora comutada a pena, de lapidação para enforcamento. Houve alegações nesse sentido por parte das autoridades iranianas: esta mulher iria afinal ser enforcada. A morte, menos atroz, menos bárbara. Mas a morte.

Quarta-feira, 25, o tribunal reuniu mas parece não ter chegado a uma conclusão. Entretanto, as agências de direitos humanos denunciam que nos últimos meses houve centenas de enforcamentos no Irão e que estão milhares de pessoas no corredor da morte. Pelo menos 135 são menores. Os crimes em causa vão do homicídio à homossexualidade, mas também presos políticos têm sido executados. Em Dezembro de 2009, o Irão opôs-se a uma resolução da Assembleia da ONU que propunha a suspensão das execuções.

Sim, morre muita gente todos os dias. Morre muita gente executada, muita gente torturada, e não só no Irão. Gente condenada por regimes iníquos a nem sequer ter nome num túmulo. Gente cujo rosto nunca veremos, nunca fará cartazes, nunca povoará manifestações à volta do mundo. Sim, é assim. Tantas as tragédias, tantas as vidas à mercê, tanto o terror, a injustiça, a barbárie, tantas as celas escuras onde se tortura e mata, tantos os gritos e as lágrimas e as súplicas de que nunca saberemos e de que talvez não queiramos saber, tanto tanto por fazer, por acudir e nós sem sabermos como.

Sim, precisamos talvez de uma ocasião assim, de uma causa assim, de um nome e um rosto para nos sentirmos justos e capazes, para sentir que não somos indiferentes. Precisamos de Sakineh como ela de nós.

Precisamos de te dizer isto, Sakineh: que, dependa de nós, e a nossa voz, o nosso não, a nossa fúria, a nossa vontade e exigência moverão as montanhas que nos separam e os poderes que te condenaram, moverão até os deuses, se deuses houver para mover.

Vamos fazer de Lisboa uma das 103 cidades que no sábado, 28 de Agosto, da Austrália à Finlândia, do Brasil ao Iraque, da Turquia à Índia, se unem em resposta ao apelo do International Committee Against Execution num protesto global contra a lapidação e a pena de morte, e apelando pela vida de Sakineh Mohammadi Ashtiani. É às 18 horas, no Largo Camões. Contamos todos.» (Via Joana Lopes; ver o contexto no El Pais e no International Committee Against Execution)

As mulheres na República de 1910

O jornal Público contém hoje dois artigos interessantes sobre as mulheres no movimento republicano («Quando as feministas influenciaram o poder», de São José Almeida, e «O papel central da Maçonaria»). A mais importante lacuna, na minha opinião, é a ausência de referências a Angelina Vidal, socialista e republicana, uma precursora da afirmação feminina na política e na propaganda republicana.

Deve referir-se que o movimento republicano foi o primeiro movimento político português que permitiu a expressão organizada do feminismo. E embora o regime republicano tenha decepcionado algumas feministas ao não reconhecer às mulheres o direito ao voto, em rigor deve notar-se que essa questão só então começava a ser resolvida em alguns (poucos) países europeus. E, à época, não era considerada prioritária por todas as feministas. Lendo, por exemplo, A Mulher e a Criança (órgão da Liga das Mulheres Republicanas) nota-se que a prioridade era o reconhecimento dos direitos políticos chamados «de segunda geração»: divórcio, igualdade no casamento e no Código Civil. Essas reivindicações foram satisfeitas pelo Governo Provisório da República. Os direitos políticos «de terceira geração», como o direito de eleger e ser eleito, foram todavia reivindicados por algumas republicanas feministas, e a primeira mulher que votou (Carolina Beatriz Ângelo) era republicana e votou apoiada por republicanas (como Ana Castro Osório). Outras republicanas, como a anticlerical Maria Veleda, opunham-se ao direito de voto feminino naquele momento (os homens também se dividiam).

(Ilustrações: à esquerda, Maria Veleda; à direita, Ana Castro Osório.)

Abstinência

Os meus filhos, que têm 12 anos, estão a estudar o livro "Teen Health - Course 3" onde aprendem que o sexo é mau para a saúde, que os teenagers responsáveis não têm relações sexuais antes do casamento, que a abstinência é a única forma 100% certa de evitar gravidezes indesejadas, doenças sexualmente transmitidas e etc.

Antes de escrever uma carta ao taliban que me vendeu este livro fui ver as estatísticas. Os EUA têm mais ou menos um milhão de gravidezes indesejadas de teenagers por ano, 80% dos miúdos têm relações sexuais antes do casamento, a idade média da primeira relação sexual varia entre 15.8 e 16.6 anos, segundo as fontes, e o aborto entre teenagers é proporcionalmente quatro vezes mais alto do que na Holanda, onde a idade média da primeira relação sexual são 17.7 anos.

Perguntei ao taliban se não lhe parece que a educação sexual é uma estratégia melhor que a superstição e o obscurantismo. Em vão, claro está. O mamífero nunca me respondeu.

E depois fiquei a pensar numa coisa: eles são capazes de ter razão quando dizem que o sexo é mau para a saúde. Estas coisas são culturais e o sexo entre os republicanos involve sempre magotes de prostitutos, objectos cilíndricos enormes, inseridos nos orifícios mais implausíveis, crianças, as irmãs, animais, etc... NUNCA se ouve uma história de um republicano que anda com a secretária!! São sempre histórias sinistras, em casas de banho públicas com o chão imundo e a cheirarem horrivelmente. Ou seja, quando eles dizem "sexo" não se referem às relações normais, românticas ou fortuitas, entre dois adolescentes.

quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

O cheiro do dinheiro

Um grupo de sunitas vai construir uma mesquita no centro de Manhattan, a poucos quarteirões do sítio onde um grupo de sunitas se esborrachou com dois aviões contra as torres gémeas do WTC, em nome dum amigo imaginário chamado Allah, e matou milhares de inocentes.

Isto não é obviamente uma coincidência: milhões de muçulmanos sonham todas as noites com a destruição do Ocidente, o inimigo milenar do Islão. Não vale a pena explicar aqui as minúcias do sentido de humor wahabi, mas esta mesquita é a alegria de muitos muçulmanos e vai servir para comemorar a victória de Bin Laden - esse poço de virtudes! - sobre a perversão das democracias ocidentais, onde as mulheres vão à escola e se vestem como lhes apetece, e as adúlteras não são apedrejadas em público.

Nova Iorque, o governo e o país tiveram de aprovar o projecto, ao abrigo dos princípios mais elementares da liberdade de culto.

A extrema direita, sempre exaltada, reagiu. Bronca, aos berros, com o mesmo ódio irracional com que apoiou a cruzada de Cheney e Bush. Sobretudo a FOX, a televisão dos simples, onde os aldrabões de serviço não falam de outra coisa.

Esta semana "descobriram" que o financiamento vem da Arábia Saudita, dum príncipe sinistro, sobrinho do rei Abdullah e chamado Al-Waleed bin Talal. Segundo a FOX, Al-Waleed bin Talal tem relações com organizações suspeitas de simpatizar com terroristas!

O problema é que o príncipe bin Talal é também... o segundo maior acionista da FOX!

Nem o pessoal da FOX - sobretudo o pornógrafo Rupert Murdoch - se parece preocupar com a proveniência do dinheiro que é investido na FOX, nem os wahabis se parecem importar com a proveniência do dinheiro que vai pagar a mesquita, nem a família real saudita se parece importar com o facto de financiar ao mesmo tempo os EUA e os wahabis, nem os EUA se parecem importar com a crescente importância do investimento wahabi na sua economia... mas os idiotas da FOX têm andado excitadíssimos com esta descoberta estraordinária: a mesquita vai ser financiada por um saudita com simpatias wahabis! (Para a semana ainda vão desobrir que o papa é católico!)

Revista de blogues (26/8/2010)

  • «(...) Admito que Lobo Antunes não tenha sido rigoroso no número de mortos que atribuiu ao seu batalhão e tenha errado nas motivações que levavam os tenentes-coronéis a querer «acumular pontos», sem esquecer que uma das companhias era comandada pelo grande intelectual, humanista e democrata Melo Antunes, herói de Abril, que ele tanto admirou.
    (...)

    Trinta e seis anos depois do fim da guerra, já é tempo de saber se todos as companhias e batalhões abdicaram da tortura dos prisioneiros; o que sucedia aos presos que a tropa entregava à PIDE; o que faziam os sipaios às populações que os militares prendiam e entregavam à autoridade administrativa; o que lançavam os aviões militares sobre as palhotas e quem matavam; se os portugueses invadiam os países limítrofes e com que fim. Um país só se reconcilia com a história se a verdade e a justiça triunfarem, não com ameaças de quem ainda crê que defendeu a pátria e a civilização cristã e ocidental, como afirmava a propaganda fascista e clerical.

    É tempo de denunciar a escalada reaccionária e a intimidação contra quem pretenda exumar treze anos de guerra. Quando um primeiro-ministro concedeu a dois pides a pensão que negou a Salgueiro Maia, tornaram-se mais ousados os nostálgicos do salazarismo. A Alpoim Calvão, já sem peito onde coubesse, deram a única venera que lhe faltava, a Jaime Neves mandaram-lhe estrelas de general à reforma e o 10 de Junho, de má memória, integra nostálgicos em manifestações intimidatórias depois de o último PR ir convertendo a data, de novo, no Dia da Raça.
    (...)» (Carlos Esperança)

A escolha do PCP

O PCP poderia escolher Carvalho da Silva e garantir um resultado de quase 15%, apanhando metade do eleitorado do BE. (Mas sabe-se lá se o líder da CGTP ainda é do PCP.) Ou escolher Odete Santos e fazer ainda um bom resultado, com uma personagem carismática e heterodoxa. (Mas Odete não deve ser de confiança.) Ou escolher Bernardino Soares e testar a possível sucessão de Jerónimo. (Mas não devem querer pensar nisso.)

Portanto, avança Francisco Lopes. Um apparatchik como o PCP deve ter muitos. Glória a Cunhal nas alturas. Um exército de autómatos uniformizados presta-te honras.

quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

Revista de blogues (25/8/2010)

  • «No dia 9, a Google e a Verizon emitiram um comunicado conjunto acerca da neutralidade da Internet (...) a Google e a Verizon começam por defender a neutralidade da Internet dizendo que esse princípio foi responsável pelo seu sucesso e crescimento espantoso, mas depois dizem que não deve haver neutralidade no acesso móvel porque é um mercado nascente e em crescimento. Uma treta óbvia, mas como a Verizon vende telemóveis com o Android da Google, ambas querem manter o controle sobre o tráfego nas redes móveis. Que cada vez vai ser maior. Daqui a uns anos, quando qualquer telemóvel estiver permanentemente ligado à Internet, ninguém vai querer pagar chamadas telefónicas se pode usar o Skype ou assim. Nessa altura os operadores de redes móveis vão dizer lamento, mas Skype por aqui não passa.

    Isto é muito mau porque o princípio da neutralidade da rede não é uma mera questão de mercado, de preços e muito menos para descartar quando dá jeito à Google e a Verizon. A neutralidade destes serviços é uma salvaguarda importante da nossa privacidade e liberdade de expressão. Quem transporta as cartas não as deve ler. Quem fornece redes telefónicas não deve escutar as conversas. E quem providencia ligações à Internet não deve controlar o que estamos a enviar. É indispensável que a lei especifique que o provedor aluga o canal de comunicação. Que permita cobrar pelo volume de tráfego e distinguir tráfego com custos diferentes, por exemplo nacional e internacional. Mas que o proíba de bisbilhotar a informação que partilhamos
    .» (Ludwig Krippahl)

Manifestação dia 28 de Agosto

terça-feira, 24 de Agosto de 2010

Ainda a historiografia da República

O artigo de Fernando Catroga no Público de hoje é muito desigual. Tem parágrafos com que só posso concordar, como o seguinte (o final).
  • «Igualmente marcantes foram as consequências da constitucionalização da liberdade de consciência, premissa maior da liberdade de pensamento, de expressão e de religião, e fundamento último da laicidade. Mais uma vez, aqui, contou o exemplo dos republicanos franceses. Com esta diferença: estes levaram mais de 20 anos a concretizar um plano que, em Portugal, só demorou seis meses a implantar. Voluntarismo laicizador, mas também resposta a uma Igreja - com raras excepções - aguerridamente antimoderna: o anticlericalismo foi sempre irmão siamês do clericalismo. E, afinal, a República não inventou a questão religiosa. Convicta de que sem a libertação da tutela eclesiástica não haveria escolha racional, nem nacionalização do sentimento de pertença, ela integrou a herança de Pombal e do liberalismo monárquico para ir mais longe. Assim, a Igreja foi sendo separada: do Estado; da família (divórcio); do controlo prioritário dos ritos de passagem (registo civil obrigatório); da escola (ensino obrigatório, gratuito e laico). Escola sem Deus, mas não contra Deus, e "Igreja cívica do povo", onde se socializaria a ética republicana, ensinando-se a cultivar a virtude política. Projecto muito reiterado, embora, por várias razões - incluindo as resistências sociais à alfabetização -, o seu progresso tenha sido muito lento, como foi o da conquista da cidadania, o maior legado da cultura republicana.»

Revista de blogues (24/8/2010)

  • «Na Europa, que é o nosso mundo, o governo francês continua com a sua política de repatriação de ciganos romenos. A imprensa ajuda sendo eufemística — ninguém usa a expressão “limpeza étnica” — ou incorreta — aqui ou ali vai aparecendo a expressão “imigrantes ilegais”. Vamos ser rigorosos sobre o que isto é e o que não é. Não, não se trata de imigrantes ilegais: os cidadãos romenos são comunitários e têm direito à livre circulação pelo território da União. E, sim, isto é uma limpeza étnica, ou seja, uma expulsão de um dado território de uma população circunscrita por critérios étnicos.
    Como seria de esperar, a Itália de Berlusconi já manifestou vontade de seguir o exemplo francês. Quando a Croácia entrar na União Europeia, até 2012, ouviremos discursos sobre o caminho que ela fez desde as limpezas étnicas dos anos 90. Da maneira que as coisas estão, parece-me que é antes a UE que vai aderir à Croácia dos anos 90.
    O que a França está a fazer é ilegal, uma clara violação dos tratados e do espírito fundamental da União Europeia. A Comissão Europeia, que é suposta ser a “guardiã dos tratados”, não se insurge. Durão Barroso está silencioso. Dá-se tempo a que Sarkozy faça o seu número para as sondagens.» (Rui Tavares)

Revisão constitucional: afinal era a brincar

Parece que afinal o projecto de revisão constitucional do PSD era só um rascunho. Diz um Calvão da Silva, membro da comissão de redacção do dito projecto:
  • «"O presidente do partido fará no texto aquilo que quiser e não está vinculado àquilo que a comissão está a fazer" (...) "[Pedro Passos Coelho] pode até pôr tudo o que nós quisemos no lixo, se quiser. Mas também pode ver alguns méritos e aproveitá-los", ilustrou, insistindo que as ideias já divulgadas não vinculam o partido.» (Público)
Portanto, andaram a testar a opinião pública? Foi só para conhecerem as reacções da malta ao programa passista?

Quando for a sério, avisem.

segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

O fascismo é um caso de polícia

Mário Machado é um político e um criminoso. Enquanto político, dinamizou uma milícia de extrema direita (a «Frente Nacional»), que fornecia o essencial do pessoal de rua do PNR. Enquanto criminoso, atraía possíveis compradores de droga a locais isolados para lhes extorquir dinheiro. Os seus cúmplices no crime eram os seus «camaradas» de fascismo, na «Frente Nacional» e nos «Hammerskins Portugal».

Mário Machado é um político ou um criminoso? Evidentemente, ambas as coisas. Mas tornou-se criminoso por ser fascista, ou tornou-se fascista por ser criminoso? Não haver qualquer relação entre as duas coisas é excluído pelo próprio, e não foi outro senão o importante mediocrata Pacheco Pereira quem o classificou como «preso politico».

E no fundo têm razão. A essência do fascismo é o desprezo pela vida e dignidade alheias, é auto-designar-se membro de uma «raça de senhores» destinada a mandar. É considerar que uns (eles) só têm direitos (e nenhuns deveres) e que outros (quase todos) são meios para um fim. Por alguma razão é uma ideologia que fascina quase exclusivamente jovens do sexo masculino. Sem testosterona não haveria fascismo (e haveria muito menos crime, também). Quem está acima da lei não tem que cumprir a lei, e assim se compreende que Mário Machado tenha liderado, em 2005, uma célebre «Marcha contra o crime», e que tenha, poucos anos passados, condenações em tribunal por vários crimes. Os crimes a que ele se opunha eram, obviamente, os crimes dos outros. Os dele, não são crimes. São o direito legítimo à violência.

É proibido obrigar

O Supremo Tribunal do Bangladesh proibiu instituições de ensino e empresas de obrigarem ao uso de vestes religiosas. A proibição é dirigida aos véus integrais, mas é duvidoso que seja seguida fora da capital.

domingo, 22 de Agosto de 2010

Pão, sal e rótulos

Quem defende que o pão com excesso de sal pode continuar a ser vendido normalmente desde que convenientemente “rotulado”, ou só come pão de forma às fatias ou só compra pão em supermercados e há muitos anos não entra numa padaria. Claro que essa hipótese de o pão salgado ser rotulado é defensável em teoria (embora devesse ser sujeito a um imposto especial, semelhante ao tabaco). Mas não sei onde está com a cabeça quem pensa que numa padaria tradicional, que venda pão a granel, possa haver uma distinção entre pão salgado e pão com menos sal.

sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

Leituras recomendadas

O Público tem vindo a publicar uma série de textos interessantes a propósito do centenário da implantação da República. Recomenda-se a leitura a republicanos, monárquicos e outros.
  1. «A revolução no seu "dia inicial"» (Amadeu Carvalho Homem; sobre os movimentos militares em Lisboa nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910; infelizmente omisso sobre os movimento militares noutras localidades).
  2. «Portugal perdeu os seus chefes mas a revolução fez-se» (Joaquim Romero Magalhães; sobre as personalidades de Cândido dos Reis e Miguel Bombarda, chefes militar e civil da revolução,  respectivamente, mortos a 3 e 4 de Outubro, uma coincidência que poderia ser construída como evidência de um contra-golpe).
  3. «As sociedades secretas e a revolução» (António Ventura; sobre a Carbonária, a Maçonaria e o papel de cada uma na implantação da República).
  4. «Portugal 1900 Uma granja e um banco» (Maria Fernanda Rollo; sobre o contexto geral de Portugal nas vésperas da República).
  5. «A queda de um trono» (José Miguel Sardica)

quinta-feira, 19 de Agosto de 2010

Revista de blogues

A propósito das recorrentes propostas do CDS sobre os beneficiários do rendimento mínimo (desta vez a propósito dos fogos florestais), recordo aqui um texto lapidar do Miguel Madeira:
Se esses trabalhos que se sugere que os desempregados deveriam fazer são mesmo necessários, faria mais sentido, pura e simplesmente, o Estado contratar pessoas para os fazer, não?
A propósito da regulação do teor de sal no pão (mais um tema que demonstra quão reacionários são os defensores da “liberdade individual acima de tudo”), "Imagine um país que deixa morrer os seus cidadãos" no StatuQuo:
Era uma vez um país, onde as panificadoras, a seu belo prazer, vendiam 50% da Dose Diária Recomendada (DDR) de sódio numa simples carcaça de 100g. A pândega era tanta que admitiam, com todos os dentes e sem pudor ou vergonha, que o cloreto de sódio (vulgo sal) era colocado a olho. (...) É sempre esclarecedor, que perante um Estado representativo, atento e responsável, existam nichos opositores, desde minarquistas até colectivistas, que criticam o garante da “saúde em dignidade” da população portuguesa. Perante o problema, a solução destes é deixar morrer… Fixem os seus nomes.

Descriminalização de drogas bem sucedida

A descriminalização de todas as drogas em Portugal no início da década, e os bons resultados daí provenientes, continuam a ser notícia por esse Mundo fora. O tema voltou à baila graças a um artigo científico de saúde pública no British Medical Journal, e por no México se ter finalmente levantado a hipótese de fazer algo semelhante de modo a controlar a guerra dos cartéis da droga que já matou dezenas de milhar de pessoas.
Tal como na Holanda anos antes, também em Portugal a política de descriminalização viu o consumo e a dependência diminuir.

segunda-feira, 16 de Agosto de 2010

«Estrangeiros fora!»

A França expulsa ciganos, Israel expulsa imigrantes, a Florida promete fazê-lo. Por todo o mundo rico, as portas fecham-se. Mesmo os que por cá nasceram ou trabalharam podem ser expulsos, mesmo que tenham filhos ou ainda que sejam crianças. A xenofobia dos ricos está em alta.

domingo, 15 de Agosto de 2010

Goodbye, American Dream

Intitulado "Goodbye, American Dream" na edição em papel do Financial Times (The crisis of middle-class America na edição electrónica), este artigo do director da secção de Washington, Edward Luce, interpela os seus compatriotas sobre o fim do sonho americano, sobre uma avaria grave no chamado elevador social. A ideia do indivíduo de classe média que é promovido de escalão social através do trabalho árduo e do mérito é cada vez mais uma ideia do passado. Os ricos da América de hoje formam um clube restrito onde é cada vez mais difícil aceder.
É um artigo muito longo, mas extremamente interessante, muito bem ilustrado por exemplos da realidade actual da América e que vale bem a pena ler até ao fim. É curioso constatar uma colagem às teses expostas por Jeremy Rifkin no seu excelente "O Sonho Europeu".

Contraponto a Pacheco Pereira

Há pessoas que preferem enterrar-se ainda mais do que admitir um erro. É o caso de Pacheco Pereira.

Pacheco tem um programa na SIC em formato de «provedor do telespectador».  Na realidade, é um espaço de opinião. Em Maio, considerou «mau jornalismo» a única peça factual sobre o Vaticano e o Papa (por coincidência emitida pela própria SIC), porque a jornalista se referia ao Vaticano como «monarquia absoluta». Três meses depois, com toda a redacção contra ele, insiste no dislate.

Entretanto, a página oficial do Vaticano continua, impávida e serena, a descrever esse Estado como «monarquia absoluta»...

Assunção da Virgem Maria

A 1 de Novembro de 1950 o Papa Pio XII promulgava o decreto Munificentissimus Deus, que estabelecia como dogma, e por infalibilidade papal, a Assunção do corpo da Virgem Maria aos céus. Boa parte do mundo cristão já celebrava a Assunção há vários séculos a 15 de Agosto.
Que a ICAR tenha demorado vários séculos a chegar a este dogma, que a declaração se preste a várias interpretações (sobre o momento de falecimento da Virgem Maria, por exemplo), que as fontes sagradas evocadas não sejam explícitas, que nem todos os credos cristãos o aceitem apesar de se basearem nas mesmas escrituras, não é obviamente de admirar.

E é por isto que hoje é feriado.

Trabalhos forçados

O CDS-PP quer que os malandros do rendimento mínimo sejam obrigados a fazer trabalho físico não remunerado.

sexta-feira, 13 de Agosto de 2010

«Levem a cruz para a igreja! A Polónia é um Estado laico!»

Em 2007, eu espantava-me e envergonhava-me que existisse na Europa um regime tão clerical e tão extremista como o que aqueles dois filhos do mesmo espermatozóide comandavam na Polónia. Nessa época remota, parecia não haver esperança para os polacos.

Passam-se poucos anos e uma pequena multidão manifesta-se nas ruas de Varsóvia pela laicidade. Sem dúvida um sinal que permite algum optimismo para o futuro, naquele que é um dos seis Estados mais populosos da Europa.

quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Na sequência do desenho de André Carrilho

Um vídeo notável de Norman Finkelstein via Renato Teixeira. A ver com atenção.

quarta-feira, 11 de Agosto de 2010

Há boas notícias

Parece que ainda há (algum) respeito pela privacidade em Portugal: a videovigilância na Amadora foi travada pela Comissão Nacional de Protecção de Dados.

Adenda: infelizmente, o MAI não desiste.

terça-feira, 10 de Agosto de 2010

A evolução das espécies

Desenho de André Carrilho publicado a 01-08-2010 no Diário de Notícias.

A impunidade de Israel explica-se pelas reações como as que assistimos a propósito desta desenho. Israel (e a "comunidade israelita") ou não se apercebem ou fingem não se aperceber do mal que causam aos outros (os palestinianos). E têm a desfaçatez de falarem em nome de "toda a gente": "toda a gente" terá ficado indignada com este desenho, segundo o sr. Carp (exceto os anti-semitas, claro). Olhe, sr. Carp: eu não fiquei. O que me indigna, e o que deveria indignar "toda a gente", é o tratamento diariamente inflingido por Israel ao povo palestiniano.

A herança de Sócrates

Um dos poucos aspectos positivos da herança de Sócrates (talvez o mais positivo de todos) será o investimento em energias renováveis. Não tanto por ser energia «limpa» - mais pela independência que confere. Outra mudança positiva dos mandatos de Sócrates foi o aumento do investimento em ciência(*).

Os aspectos péssimos são o desinvestimento em saúde, a guerra inútil na educação, e a criação do «monstro» das informações.

(*) Para além da IVG e dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, claro.

segunda-feira, 9 de Agosto de 2010

2003

E por falar nos anos Bush, vi há poucos dias o documentário com o Philip Seymour Hoffman The Party's Over. Já me tinha esquecido de muitos dos pormenores repugnantes das eleições de 2000, em que os gangsters da extrema-direita roubaram as eleições e indigitaram aquele desgraçado, ex-drogado e ex-alcoólico, para presidente dos EUA.

Tony Judt

O conhecido professor da NYU morreu hoje, aos 62 anos. A direita nunca lhe perdoou o ensaio brilhante da New York Review of Books de 2003. A ideia básica não era nova - Tom Friedman já a tinha explicado no livro From Beirut to Jerusalem - mas a verdade às vezes dói e é preciso coragem para a enfrentar: o número de não judeus dentro das suas fronteiras não permite que Israel possa ser um estado judeu e democrático ao mesmo tempo. Mas Tony Judt foi mais longe e explicou que Israel é um anacronismo no mundo de hoje, "a world where nations and peoples increasingly intermingle and intermarry at will; where cultural and national impediments to communication have all but collapsed; where more and more of us have multiple elective identities and would feel falsely constrained if we had to answer to just one of them;"

O aviso, claríssimo, caíu mal nos meios da direita americana: "In today’s “clash of cultures” between open, pluralist democracies and belligerently intolerant, faith-driven ethno-states, Israel actually risks falling into the wrong camp."

Quando construirem o TGV, lembrem-se do transporte de mercadorias!

Espanha pondera aumentar portagens a camiões estrangeiros.

Mas então a nossa legislação laboral não era muito pouco flexível?

Portugal é o terceiro país da Europa com mais contratos a termo.

domingo, 8 de Agosto de 2010

Revista de blogues (8/8/2010)

  • «(...) entre 1960 e 2008 a permilagem da taxa de mortalidade infantil desceu de 77,5 (a pior entre os 27 países da actual União Europeia) para 3,3 (a sexta mais baixa); a esperança de vida subiu dos 60,7 e 66,4 (homens e mulheres) para 75,5 e 81,7; entre 1972 e 2008 o orçamento do Estado para as funções sociais passou de 1,9% do PIB para 16,4%; a população com 15 ou mais anos sem escolaridade passou de 65,6% em 1960 para 9,2% em 2001; o ensino médio e superior subiu em flecha; entre 1960 e 2003 o número de livros nas bibliotecas públicas passou de 5,4 milhões para 32,2 milhões, tendo estas passado de 89 para 1.018; sensivelmente pelos mesmos anos o número de museus subiu de 96 para 300; os médicos e enfermeiros de 188 para cerca de 900 por cada 100.000 habitantes; os pensionistas da segurança social passaram de 120 mil para quase 3 milhões; o público de espectáculos ao vivo subiu de 161 mil em 1960 para mais de 6 milhões em 2008» (Rui Bebiano)

António Dias Lourenço (1915-2010)

É de pessoas assim que o PCP se deve orgulhar. Vale a pena ler o depoimento do Nuno Ramos de Almeida e esta pequena biografia, de que destaco as seguintes partes:

"Sou membro do Comité Central do PCP, mas recuso-me a dizer seja o que for", declarou, quando foi preso pela primeira vez, em 1949, antes de ser espancado a cassetete com a preocupação de manter uma expressão que não fosse de dor, como conta no documentário "O Segredo", de Edgar Feldman.

Na fuga de Peniche, quando viu que o grupo de pescadores com quem seguia queria entregá-lo à polícia, abriu o jogo: "Sou membro do PCP, acabei de fugir do Forte, vocês têm de me ajudar". Eles ajudaram.

Em 1960, é Dias Lourenço quem organiza a fuga de Álvaro Cunhal e de mais dez membros do PCP, num "trabalho meticuloso e sigiloso que durou muitos meses", como o próprio recordou numa entrevista dada em 2004 ao jornal Setúbal em Rede.

Entre 1962 e Abril de 1974, haveria de voltar à prisão onde "não podia inventar nada, porque nem papel tinha para escrever".

Mas Dias Lourenço "ia pensando em tudo, fazendo versos, cantando cá para mim", como recorda numa das muitas vezes que voltou a Peniche para recordar passo a passo a audaciosa fuga de 1954.

"Engendrou tudo sozinho, estudou as marés, avisou que ia partir, destruiu a vedação de uma cela solitária, atirou-se ao mar em pleno Dezembro - quando a polícia chegou ao local, constatou que é preciso gostar muito da liberdade para fugir daquela maneira".

sábado, 7 de Agosto de 2010

O único sector do Estado em que não há crise

Nos últimos anos, o Estado tem exercido contenção de gastos em serviços públicos fundamentais, como a Saúde e a Educação. É a crise e tal, há que cortar aqui e acolá. E no entanto, há um sector em que o pessoal admitido aumentou 20% desde 2004: os serviços «de informações». Que serviço público prestam? Nenhum. Com várias agravantes. Primeira: ao contrário de outros serviços do Estado, em que o escrutínio dos cidadãos é efectuado sem grandes entraves, os «informaçõezinhas» eximem-se, à partida, ao controlo pelos cidadãos do seu desempenho. A existência de uma cultura de «funcionários do Estado acima da lei»,  dentro destes serviços, é inevitável, e parece evidente quando o próprio «Secretário Geral da Segurança Interna» circula a 120 km/h na Avenida da Liberdade, provocando um acidente grave, e depois declara, aparentemente sem remorsos nem problemas de consciência, que «não notou excessos por parte do motorista que o conduzia». Segunda agravante, mais delicada: alguns destes serviços praticam, ao que parece rotineiramente, crimes de escutas ilegais. E, possivelmente, tortura. O regime em que vivemos desde Abril de 1974 partiu, penso eu, do princípio de que o Estado não tortura nem vigia ilegalmente quem não cometeu crimes.

Incrivelmente, os cidadãos estão calados. Parecem achar mais grave a licenciatura ao domingo e a estética das casas que Sócrates assinou na Covilhã. Enquanto os cidadãos dormem, pode estar a criar-se um monstro. É o momento de o questionar. Como já se faz nos EUA, por exemplo.

Adenda: o orçamento SIS+SIED subiu de 22.4 milhões em 2005 para 37.1 milhões  em 2009. Um aumento de 65%. Acho que em nenhuma outro departamento do governo o orçamento aumentou tanto. E para quê?

A Pide perante o novo mundo

A pérola que anda a circular pela blogo-esfera neste momento: o relatório da PIDE sobre o festival de Vilar de Mouros. Notar as preocupações dos «informaçõezinhas».
  • «Distribuição Presidência do Conselho, Ministério do interior, Ministério da Educação Nacional
    Assunto: Festival de música “Pop” em Vilar de Mouros
    (...)
    O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.
     

    Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade.
    Entre outros havia:
    crianças de olhar parado indiferentes a tudo
    grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda
    um rapaz deitado, com as calças abaixadas no trazeiro
    um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos
    relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada
    sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados
    bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo.
    porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades

    (...)
    A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”. Foram vistos alguns a comer com as mãos e a limparem os dedos à cabeleira.
    Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada.

    Em Viana do Castelo dizia-se que os “hippies” tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade.
    Havia muitos estudantes de Coimbra, e outros que talvez fossem de Lisboa ou do Porto. Alguns passaram a noite em Viana do Castelo em pensões, e viam-se alguns de muito mau aspecto, parece que vindos de Lisboa, que ficaram numa pensão.

    Houve gritos de Angola é... (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg).
    (...)»

sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

Lisboa, a capital do vazio

O excelente El País, "periódico global em espanhol" onde muitas vezes se encontra a melhor informação sobre Portugal e o mundo, publicou no fim de semana passado uma reportagem sobre o abandono a que são votadas muitas casas na capital portuguesa. Destaco a seguinte passagem:
Romão Lavadinho, presidente de la Asociación de Inquilinos Lisboetas, reconoce que "hay muchos pisos en mal estado, por los que el inquilino paga unos 70 euros al mes". "Pero no es menos cierto", añade, "que muchos propietarios dejan que las casas estén al borde de la ruina, para lograr su demolición y construir un inmueble con más pisos y más rentable". Lavadinho también acusa a los ayuntamientos de ciudades como Lisboa y Oporto: "Son los mayores propietarios y los que tienen el patrimonio más deteriorado".

Qual era a alternativa?

Eu sei, o Estado vai vender por 180 milhões um banco que já custou 4 mil milhões de prejuízos assumidos pelo Estado (ou seja, pelos contribuintes). Mas, o que eu gostaria que o BE e o PCP me explicassem é, muito simplesmente, qual era a alternativa (neste momento)?

Sobre o panfletismo de Rui Ramos

Há militantes políticos que passam por historiadores. O caso mais notório será Vasco Pulido Valente, autor de um romance («O poder e o povo»), que passa por ser uma história dos dois primeiros anos da República de 1910-1926 (e, para os mais ingénuos, como uma caracterização fiel da totalidade desses dezasseis anos).

Rui Ramos é um caso ainda mais extremo. É portanto refrescante ler uma desmistificação do seu militantismo. Palavra a António Rego Chaves:
  • «Assim, sustentar que «o confronto entre liberais e miguelistas tem uma dimensão fundamentalmente religiosa», que o regime nascido em 1910 e que durou até 1926, «pelos padrões do princípio do século XXI, não foi democrático nem pluralista», ou que «Portugal passou o século XX a pagar a factura do 5 de Outubro» é, no mínimo, demasiado subjectivo para se poder falar de um interpretação rigorosa do que ocorreu nas épocas em causa. Pouco importará se Rui Ramos «gosta» mais dos miguelistas ou dos liberais, dos monárquicos ou dos republicanos, dos salazaristas ou dos antifascistas. A verdade é que nos brinda com «pérolas» como estas: «A ‘democracia’ [as aspas são do autor] contra a qual Salazar fez doutrina na década de 1930 não significava um estado de direito e representativo, como hoje, mas o domínio exclusivista e sectário da esquerda republicana.» (…) «Salazar chegou ao governo depois de cem anos de hegemonia política das esquerdas, primeiro em versão liberal e depois republicana.» (…) «Em 1945, na hora da derrota do fascismo, as esquerdas exigiram eleições em Portugal. Salazar fez eleições. Nem ele nem as oposições estavam de boa fé.» Todas estas arbitrariedades falam por si e dispensam quaisquer comentários de ordem «científica»: situam-se à margem da História. (...) Classificando o dia 25 de Abril de 1974 como «carnaval esquerdista do Largo do Carmo», dizendo que «Salazar, ao contrário do general Franco em Espanha, fez sempre eleições» ou não disfarçando o seu entusiasmo perante a contra-revolução de Julho e Agosto de 1975, o autor renuncia às suas funções de historiador tanto quanto possível isento e adopta o tom do propagandista. Está no seu pleno direito, desde que não venda gato por lebre e se assuma como aquilo que de facto se revela – um panfletista.» 
(Agradeço a dica à Joana Lopes.)

quinta-feira, 5 de Agosto de 2010

O candidato «amigo dos animais»

  • «Assumindo-se como o candidato presidencial «que é amigo dos animais», Defensor de Moura quer «sensibilizar a opinião pública contra as touradas», argumentando que «o sofrimento público de animais é perfeitamente inadequado». » (TVI 24)
Aqui está uma diferença entre este candidato e os outros. Alguém quer comentar?

terça-feira, 3 de Agosto de 2010

Depois da Manuela, os bispos angolanos

Investimento público em Angola só serve para reduzir o desemprego na China:

Privatizar a RTP? Extinga-se antes o SIS...

O Ricardo Pinho começou por me dizer (no Twitter) que se deveria privatizar a RTP. Agora diz que a quer «reciclar». Vamos ver.

É verdade que a televisão (e principalmente a por antena), está cada vez mais obsoleta enquanto meio de informação ou de entretenimento. Eu e o Ricardo Pinho devemos passar mais tempo em frente ao ecrã de computador, até fora das horas de trabalho, do que em frente ao da televisão. Mas convém não esquecer que existem sectores consideráveis da população portuguesa (talvez a maioria), que não serão como nós: idosos, crianças, e pessoas sem meios para aceder à internet ou à TV por cabo. E é por essa razão que a TV por antena continua a ter relevância.

A RTP presta um serviço público relevante a essas pessoas, nomeadamente através do RTP 2, que tem horas seguidas de programação para crianças e adolescentes, provas desportivas, debates com a «sociedade civil», séries que (dizem-me...) têm alguma qualidade, e um noticiário que é o melhor do panorama audiovisual português. E quase não tem blocos de publicidade. Esse é o melhor do serviço público da RTP.

O RTP Internacional e o RTP África, pese embora o facto de serem canais pouco ambiciosos, são  também importantes na medida em que o Estado português ainda se coloca como tarefa afirmar a língua portuguesa no mundo. E creio que o custo destes canais será pouco relevante.

Finalmente, o canal mais caro: o RTP 1. Enferma do mal de querer pescar nas mesmas águas dos seus concorrentes directos. Mas tem algumas vantagens: noticiários menos tablóides (e independentes do poder económico, que não do político); debates políticos verdadeiramente plurais (ao contrário da concorrência) e um provedor (o que permite dar voz ao consumidor, e não existe nos outros).

Se querem um Estado mais pequeno, não extingam a RTP mas sim o SIS e o SIED, que supostamente prestam um serviço público mas na realidade não servem rigorosamente para nada, a não ser para  dar ao governo do momento armas que são mais próprias das ditaduras (notar como o debate político está cada vez mais dominado por «guerras» de dossiês supostamente comprometedores que nunca se chegam a materializar), e com a agravante de incentivarem funcionários do Estado a cometer pequenos e grandes delitos. Num momento em que se corta tanto na saúde e na educação, parece-me mais racional cortar nas «informaçõezinhas». Para segurança, já existem a PSP, a GNR, o SEF e a PJ. E chegam.

domingo, 1 de Agosto de 2010

Afeganistão: o início da retirada

A Holanda começou hoje a retirar do Afeganistão. O Canadá sai em 2011. Nos EUA e no Reino Unido discute-se quando tirar as tropas. Foram lá para apanhar o Bin Laden, não era?

Coragem

  • «"O meu namorado, com quem vivo há seis anos, agrediu-me passado um ano de partilharmos a mesma casa. Ultimamente, receava pela minha própria vida porque ele tinha armas em casa." As palavras são da presidente social-democrata da Câmara de Rio Maior, Isaura Morais» (Diário de Notícias)

Eu já tuíto

Quem quiser ser meu «seguidor» no Twitter (não prometo o paraíso a ninguém, só uns linques e umas bocas de vez em quando...) pode ir aqui.