domingo, 21 de novembro de 2010

é esta esquerda, é esta europa, mas que futuro?

O Ricardo Alves tem recentemente especulado sobre o senhor que se segue na liderança do PS. Gostava de acrescentar mais um a essa lista, aquele que presentemente me parece estar a ter maior conteúdo político. Uma entrevista que vale a pena ler na íntegra e de onde destaco [1]:

«[...] O PS não está com um problema de esquizofrenia, por ter de governar com uma agenda política e económica que combateu nas eleições?

Há um problema de fundo em toda a esquerda europeia: nós somos profundamente europeístas no sentido em que achamos que não há resposta aos problemas que temos fora do quadro da União Europeia (UE); mas a verdade é que a UE é hoje governada maioritariamente por partidos de direita, o parlamento europeu é dominado pela direita e há hoje claramente uma orientação política e de política económica e orçamental no espaço europeu dominado por partidos de direita. E ainda por cima a Europa está a ter de reagir a uma crise que é a primeira grande manifestação de dificuldade de adaptação ao processo de globalização, com a emergência de novas potências e de novos países com outros modelos que concorrem directamente connosco e que põem em causa o nosso modelo. Portanto, temos de fazer um exercício muito difícil que é o de governarmos desta forma: mesmo tendo reservas em relação à forma como a Europa está a enfrentar esta crise, sabemos que isto é melhor do que estarmos fora do espaço europeu. Isso cria-nos algumas dificuldades e a esquerda europeia vai ter de se reinventar um pouco nos próximos anos.

Isso coloca-nos na situação de a UE ter legitimidade para impor estas políticas, mas ao mesmo tempo o PS perder a legitimidade eleitoral porque deitou para o lixo o seu programa de governo.

Eu não acho que tenha deitado... Neste contexto, concordo com a afirmação do primeiro-ministro sobre o facto de este orçamento proteger o nosso modelo. A essência da política é a capacidade de perceber em qualquer momento quais são as prioridades que se colocam. E nós temos de nos proteger de problemas gravíssimos de financiamento. Ao mesmo tempo, temos de proteger aspectos fundamentais e estruturantes do nosso modelo, dos quais não abdicamos, como o serviço nacional de saúde tendencialmente gratuito, o modelo educativo assente no predomínio da escola pública ou um sistema de segurança social de carácter público. Há aqui uma preocupação de preservação. O PSD tem em relação a tudo isto uma visão completamente diferente da nossa: o que o PSD propõe a prazo para o país é o desmantelamento do serviço nacional de saúde, o fim do primado da escola pública em nome da liberdade de escolha...

Teremos de nos conformar a ganhar o mesmo que os chineses daqui a 20 anos?

Se nada fizermos em sentido contrário corremos seriamente esse risco: a destruição do nosso modelo social por via de uma liberalização absoluta da economia mundial, que leva a que as nossas empresas deixem de ter capacidade de concorrer. É impossível concorrer com empresas que fabricam a preços muito mais baixos, com modelos onde não há direitos sociais, preocupações ambientais ou direitos políticos.

E há solução para esse nó cego?

Não há solução simples. Mas a Europa tem áreas onde pode ter intervenção: ao nível da organização internacional do trabalho, onde podemos exigir que haja, progressivamente, mais respeito pelos valores do trabalho em várias partes do mundo; ao nível da organização mundial do comércio, onde temos uma voz única que é a UE; e ao nível das várias instâncias internacionais. E temos de criar aliados noutras zonas do mundo: a América Latina é um aliado potencial, com Obama, os Estados Unidos também podem ser aliados, e há países que vão emergindo e onde se podem encontrar aliados porque têm opiniões públicas mais fortes e mais exigentes.

[...]

Existe o risco real de uma implosão do projecto europeu. Porque a verdade é que face a uma crise esmagadora como aquela com que nos confrontamos, que é a primeira grande crise pós-globalização, a Europa não reagiu muito bem e permitiu que vários egoísmos nacionais ressurgissem. E olhando hoje para o panorama europeu vejo coisas muito perigosas: há países que estão quase impossibilitados de dar um grande contributo para o projecto europeu, devido ao conservadorismo dos respectivos parlamentos nacionais, que estão muito fragmentados e com muitos partidos anti-europeístas. Estamos numa situação muito difícil em que, perante a crise, grande parte dos europeus não esteve à altura das suas responsabilidades. Não tenho respostas únicas para tudo isto, mas tenho algumas e uma delas é que é preciso relançar rapidamente o debate político e económico da esquerda europeia. O problema em Portugal é que nós temos um debate político muito fechado e as questões europeias ficam à margem.

[...]

Tendo em conta esta conjuntura que leva o PS a aplicar medidas em que não se revê, não faria mais sentido estar na oposição?

Isso seria uma marca de irresponsabilidade, que é o que fazem o PCP e o Bloco de Esquerda: instalam-se na oposição e pronto. Mas isso não é contribuir para a mudança das coisas. Apesar de tudo, é muito diferente a aplicação de medidas pela esquerda e pela direita. Porque a esquerda aplica algumas medidas necessárias acompanhadas por outras, mas a direita aplica-as com prazer porque correspondem à sua orientação ideológica mais profunda. São duas realidades muito distintas. Nós temos a noção de que governar é governar por vezes em circunstâncias muito difíceis onde há muitas coisas que escapam à nossa vontade, mas não é por isso que vamos fugir às nossas responsabilidades. O lugar do PS é o lugar que os portugueses quiseram que ele tivesse, que é estar no poder.

As próximas eleições o PS vai perdê-las. Isto é um dado adquirido...

Não tenho essa certeza. Não acho que devamos governar a pensar nisso. Uma coisa são sondagens, outra são eleições. O PS terá capacidade para resistir, terá de travar um combate de explicação destas medidas. Tem que travar um combate contra a extrema-esquerda, PCP e Bloco de Esquerda, uma esquerda inútil do ponto de visto do contributo para a resolução dos reais problemas do país. Uma esquerda de protesto, meramente tribunícia, que a atingir determinado patamar só tem um efeito - inviabilizar um governo de esquerda em Portugal. Tem que se dizer claramente aquilo que é uma questão de fundo - que esta extrema-esquerda pode inviabilizar soluções de esquerda em Portugal. E há o combate contra a direita, que tem posições mais radicais do que as nossas em todos os domínios, nomeadamente no que diz respeito ao papel do Estado na sociedade. Se nós fizermos isso, não dou por adquirido que o PS perca as próximas eleições. E se as perder isso faz parte da vida. Não é nenhuma tragédia.

[...]

Mas há quem lhe diga "você é que dava um bom líder para o PS"?

Quando se é líder parlamentar, com o grau de exposição como o que eu tenho tido, é inevitável que essa ideia surja. Agora o que para mim é fundamental é não deixar de fazer o que deve ser feito em função de uma qualquer ambição. Por isso não me resguardo, não me refugio em calculismos, não me afasto nas horas mais difíceis, não me importo nada de estar a aparecer como a imagem do PS mesmo quando tomamos decisões muito duras e impopulares. O que se exige de mim é que seja um bom líder parlamentar, leal e integrado neste projecto. O que daqui vai resultar? Já sei o suficiente da vida política para saber que pode resultar tudo, o melhor e o pior. Já vivi momentos bons, momentos maus, já ganhei e perdi eleições. Não vivo obcecado por isso. Estou aqui, sou líder parlamentar, disposto a ser o rosto do partido num momento em que o partido vai passar maus bocados. [...]»



[1] --- Entrevista a Francisco Assis, iOnline [Novembro 2010]

3 comentários :

  1. mais um demagogo ~

    um São Francisco de Assis versão 2011

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  2. LARANJEIRA, Manuel. - PESSIMISMO
    NACIONAL. Lisboa. Contraponto. S. no jornal O Norte, 1907-
    1908, quase nas vésperas do regicídio. Tiragem
    de apenas 300 exemplares,
    numerados e assinados por
    Luis Pacheco, proprietário da
    editora Contraponto.
    € 40

    Encadernação da época em pergaminho
    flexível com o título caligráfico na lombada.
    € 3.000 / 5.000

    e são estes vampirozitos que graças ao seu novo riquismo cultural...compram a outros vampiros falhos de contribuições

    logo se o PS ou o PSD

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  3. O inimigo principal continua a ser a «extrema-esquerda», a tal que andou estes anos todos a dizer que a UE não podia funcionar assim, coisa que agora o próprio Assis reconhece. Nada de novo.

    Nota marginal, Ricardo: um dos posts que lincas no primeiro parágrafo é do Filipe Moura.

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