sábado, 28 de agosto de 2010

do clima e da economia

Antes do início das férias, dois posts sobre climatologia aqui no blog geraram acesa discussão nas respectivas caixas de comentários. Curiosamente, mais discussão que muitos outros posts sobre política ou economia, mas, também curiosamente, num tema que acaba por ter mais semelhanças do que aparenta à primeira vista ... precisamente com a economia! De facto, enquanto ciências duras, em sentido quantitativo rigoroso, tanto a economia como a climatologia são relativamente recentes. Mas essa seria uma semelhança banal. A semelhança que acho mais curiosa diz respeito à imensa politização que é feita destas áreas: é raro ouvir alguém falar sobre economia ou sobre o clima, sem ter uma agenda política, oculta ou não, por detrás. E esta característica é, a meu ver, bastante prejudicial para um saudável desenvolvimento científico.

Mas não nos ficamos por aqui. É que, enquanto jovens ciências quantitativas, tanto a economia como a climatologia são relativamente competentes a fazer observações sobre o estado presente (pese embora uma significativa volatilidade na climatologia, ao tentar dividir a anomalia de temperatura nas suas diferentes componentes e respectivas contribuições --- recorde-se o caso da análise da variação de temperatura no Ártico, onde se chegou à conclusão que o facto de a neve estar "suja", devido a poluição não relacionada com CO2, era responsável por mais de 20% da variação de temperatura medida), mas bastante deficientes a tentar fazer previsões. Quanto vai crescer ou diminuir a economia no ano que vem? Quanto vai crescer ou diminuir a anomalia de temperatura no ano que vem? Perguntas tão simples mas também tão impossíveis de responder com exactidão. Mas, apesar disso, muitos climatólogos não se coibem de prever cenários de desastre para daqui a 30 ou 50 anos (e bastava levar em conta os erros anuais medidos para se perceber sobre o vazio destas previsões), falando em subidas de 80 metros no nível das águas oceânicas. E também na economia, embora curiosamente menos popular nos media, se esperam cenários de desastre para o bom funcionamento da sociedade num contexto de uma transição de fase tecnológica. Como diria o outro, "assim, sem explicação" (naturalmente, em ambos os lados, existem dúvidas muito em aberto: qual a verdadeira importância da componente antropogénica na anomalia da temperatura; ou se realmente poderá haver outra transição de fase no crescimento económico mundial). Da climatologia pedem-nos para adoptar medidas políticas (com as quais até podemos concordar, mas não é esse o ponto), com base em cenários apocalípticos para daqui a umas décadas, sem primeiro dar provas da real capacidade científica ... no ano que vem! Da economia então, nem sequer se dão ao trabalho de lembrar os cenários apocalípticos: limitam-se a impor medidas políticas avulsas, mesmo perante a completa incapacidade de prever crises gravíssimas, como estamos todos bem lembrados no nosso dia-a-dia. Enfim!

Perante este cenário, recomendariam os bons princípios científicos que, tanto num caso como no outro, recebêssemos as recomendações relativas a desastres futuros with a graint of salt. Que sejamos mais cuidadosos e rigorosos na análise dos dados, que sejamos mais exigentes com a capacidade de fazer previsões. E, acima de tudo, que sejamos menos politizados na forma como lidamos com os aspectos puramente científicos que estas áreas (tão interessantes!) têm para oferecer. Mas não é isso que acontece, pelo menos não de forma homogénea: aqueles que maior tendência têm para criticar cientificamente os paradigmas económicos neo-clássico e neo-liberal são aqueles que maior tendência têm para aceitar de forma dogmática o aquecimento global antropogénico, e vice-versa! Isto, para mim, é um mistério.

Deixem-me repetir: alguma pessoas acham que, em certas circunstâncias (essencialmente, as que subjectivamente acham correctas) é positivo disfarçar política como ciência, mas que, noutras circunstâncias (essencialmente, as que subjectivamente acham erradas) disfarçar política como ciência é abominável. Seja à esquerda ou à direita, enquanto ciências, economia e climatologia podem ser alvo de atitudes completamente antagónicas. Não podemos sugerir que a incapacidade da economia fazer previsões rigorosas é uma das razões para a crise de 2008, mas que a incapacidade da climatologia fazer previsões rigorosas já é irrelevante para aceitar um doomsday planetário ao virar da esquina. Não podemos aceitar as previsões do IPCC de forma dogmática e criticar as previsões das agências de rating da forma contrária (seja assumindo que ambas são feitas apenas com base científica, apenas com base política, ou uma mistura de ambas). E este último caso até é particularmente curioso, pois assim que um mercado mundial de carbono esteja em plena actividade, as duas tenderão a tornar-se indistinguíveis, conforme os tentáculos da especulação se aproximem de mais um mercado e coloquem ainda mais em dúvida as previsões que poderemos escutar... Em suma, não podemos argumentar que o disfarçar a agenda política de uma eventual agenda científica no caso económico é errado e deve acabar, enquanto que no outro caso é a única solução para um suposto futuro melhor onde o clima não exprime qualquer variabilidade (aliás em confronto com a história planetária).

A ponta do véu apenas se levanta dada a forte politização de ambas as questões, sendo que respostas mais à esquerda ou mais à direita costumam ser colocadas em locais opostos da barricada (lembremos o famoso caso do "cientista" que dizia que devíamos parar de comer carne de vaca pois a flatulência do animal contribuía para o aquecimento global ... apenas para se descobrir mais tarde que a personagem em questão defendia uma agenda vegetariana escondida). Mas se assim é, não é uma discussão científica que estamos a observar. E, para mim, é aberrante discutir política disfarçada de ciência económica ou de ciência climatológica. O rigor é útil, e impõe-se.

Se é verdade que é sempre importante que as decisões políticas tenham algum tipo de base científica a suportá-las, deve também ser sempre claro o que é política (mesmo que baseada em conclusões científicas) e o que é ciência pura. Assim, como não me canso de repetir, as razões políticas para iniciar as muito importantes mudanças de paradigma energético devem ser baseadas na sustentabilidade e na independência em relação a importações, e não em fenómenos científicos complexos que ainda estamos no processo de entender completamente. Não se vá cair no cúmulo do ridículo ao "atacar" as eólicas devido à sua possível influência na anomalia de temperatura... A respeitabilidade destas ciências, que sem dúvida um dia poderão atingir níveis comparáveis aos de outras ciências naturais e exactas mais desenvolvidas, passa em primeiro lugar por quebrar o cordão umbilical que as prende à política. Após a necessária despolitização, poderá mais facilmente seguir-se uma evolução das suas capacidades de previsão, resolvendo assim muitos dos seus problemas, e podendo um dia mais tarde voltar, aí sim, à arena política, com um novo estatuto.

Hoje é certo dizer que o inverno de 2100 será, em média, mais frio que o verão de 2100. E é também certo que, no futuro, passaremos por períodos de clima mais quente e mais frio, por novas idades de gelo, tão somente baseados no passeio que o Sol faz pela galáxia. Mais ainda, assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio. Subidas de 80 metros nas águas do mar para 2050, devido ao degelo polar, ou o colapso do valor do trabalho humano, e consequente ruir da sociedade, numa transição de fase tecnológica em 2060... eu não susteria a respiração. Existem inúmer@s economistas e climatólog@s respeitáveis, que fazem ciência pura e dura ao mais mais alto nível e da maior seriedade. Desejo-lhes melhor sorte para aturar quem os persegue para poder defender agendas políticas.

5 comentários :

  1. Excelente artigo. Como tu, a minha confiança na capacidade dos climatologistas para fazer previsões de longo prazo é tão grande como a minha confiança na capacidade dos economistas para fazer previsões de longo prazo. O que não significa que não reconheça a essas ciências capacidade para lidar com o presente e com o curto prazo (e.g., fazer medidas). E basear decisões políticas em ciências tão imperfeitas deve, realmente, ser feito com muita prudência e muita atenção às margens de erro...

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  2. Eu discordo deste artigo em toda a linha.

    No que diz respeito à climatologia, mas também (!) no que dz respeito à economia.


    E começo por aqui. A máquina de propaganda da direita faz-nos crer, e creio que vocês Ricardos caiem nesse erro, que os economistas em geral são de direita. Como se a economia recomendasse medidas de direita, mas nós não as devêssemos seguir porque sabemos que os economistas se enganam, e sendo a economia uma cêcia jovem assuas prevsões não são de fiar.

    Ora este é um cenário errado. A economia é de facto uma ciência jovem e complexa, mas não faz previsões de longo prazo nem prescreve medidas de direita. E não é verdade que a generalidade dos economistas seja de direita.
    Na verdade, aparte das questões normativas, mesmo nas questões descritivas, não existem grandes consensos em economia. Existem várias "escolas" que descrevem a realidade de forma diferente, e fazm diferentes previsões do futuro.

    Muitos ecoomistas previram esta recente crise com excelentes argumentos, com razões sólidas, e faria pouco sentido ignorar suas recomendações com base na ideia de que "os economistas se estão sempr a enganar". Poder-se-ia dizer que muios economistas previram o oposto, e dar o exemplo das agência de Rating, outras consultoras e grandes empresas, mas esse é outro equívoco do texto - essas NÃO são instituições científicas. E os economistas que vão à televisão comentar a situação económica não são muito representativos daquilo que a academia pensa. Daí essa percepção errada de que os académicos da economiasão de direita, quando a realidade é a oposta - nos EUA a maioria dos académicos dessa área prefere as propostas do partido Democrata às do partido republicano.

    Mas se existisse uma previsão de longo prazo que reunísse o consenso generalizado dos economistas das diferentes escolas, seria extremamente insensato e quase infantil desenhar a política de longo prazo assumindo que eles não sabem do que falam. Eles são os maiores especialista no assunto, e se (praticamente) todos concordam que algo é previsível a longo prazo, faz mais sentido apostar nisso que nos nossos preconceitos.

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  3. Riscardo S.,

    A "física" da economia e do clima são muito parecidas em muitas coisas, particularmente nesse caracter de imprevisibilidade, no sentido em que não consegues retirar momentos estáveis e finitos das distribuições e tal demonstra-se... cientificamente.

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  4. joões, dá ideia que leram outro texto. onde é dito que os economistas são todos de direita (imagino que, tanto entre os profissionais como entre os académicos, eles vêm em todas as cores), ou onde é dito que o carácter estatístico inerente a ciências de many bodies não é conhecimento científico?...

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