segunda-feira, 17 de maio de 2010

a comédia dos sovietes

Há cerca de 10 dias, o PCP decidiu ser fiel ao espírito de luta do povo bem unido na construção d'A Internacional: votou contra o auxílio financeiro à Grécia (apenas acompanhado do seu fiel sidekicker, os Verdes) [1].

Falhada a tentativa de fazer a vida negra ao berço da democracia e da república, os nossos "camaradas" viraram-se hoje contra ... Portugal. Concorde-se ou discorde-se das recentes medidas de austeridade (e a essa questão espero voltar noutro post), parece claro que o que mais necessitamos neste preciso momento é de estabilidade absoluta --- pelo menos enquanto esperamos que a turbulência financeira vire de direcção, o mais depressa possível, e com ela venha a baixa de juros da dívida pública. Mas para o PCP o que vinha mesmo a calhar eram uns meses sem governo e eleições talvez lá para depois do verão [2]. Exactamente a quem é que isto iria servir?

Nada adeptos de reformas baseadas em processos democráticos, é a race to the bottom, o arrastar de todos para o caos, na esperança de acender o rastilho da reforma baseada na... guilhotina? Enfim, o mundo real segue dentro de momentos.


[1] --- Parlamento aprova apoio à Grécia com votos contra do PCP e Verdes, TSF [Maio 2010]
[2] --- Jerónimo de Sousa anuncia moção de censura ao Governo, TSF [Maio 2010]

15 comentários :

  1. "Concorde-se ou discorde-se das recentes medidas de austeridade (e a essa questão espero voltar noutro post), parece claro que o que mais necessitamos neste preciso momento é de estabilidade absoluta."

    Revela muito sobre que género de pessoas vota PS. São pessoas que não se importam com os avanços do capitalismo sobre a soberania das nações. São pessoas que não se preocupam em que haja uma resposta a nível europeu, algo para o qual a esquerda radical está mais inclinada. São pessoas que não entendem que o actual estado de desenvolvimento do capitalismo obriga o PS a tornar-se num PSD, ainda que conservasse a boa vontade, o que infelizmente não é o caso. O que o PS precisa para não morrer em breve é de tirar Sócrates do poleiro e tentar não ceder o seu eleitorado a um Bloco cada vez mais chegado ao centro.

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  2. Ops, quando vi o nome do blogue pensei que fosse de esquerda. Afinal é de direita (PS). Deixe-me só fugir daqui e depois pode continuar a enganar outras pessoas.

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  3. Ricardo,
    é óbvio que a moção de censura não tem qualquer possibilidade de passar. É «só» um gesto de protesto político.

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  4. É uma moção inconsequente, apenas para marcar a agenda, promover o protesto de dia 29 e clarificar águas com o BE, porque à direita obviamente ninguém votará favoravelmente.
    Por isso não partilho dessa teoria do caos. Mas olhando para a realidade, cada vez acredito menos que isto vá lá com meras reformas.
    Afinal, não foi reformando o Rei que se fez a República, apesar de todos os monárquicos da época terem previsto a impossibilidade ou viabilidade de qualquer governo assente na vontade popular...

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  5. não é por ser inconsequente ou não ter hipótese de passar que deixa de ser irresponsável: afinal o objectivo último de uma moção é precisamente levar à queda do governo. goste-se ou não do mesmo, neste momento a sua queda teria, por acção exterior, consequências bastante gravosas para todos --- aliás muito mais gravosas que as presentes "medidas de austeridade". daí a pergunta: a quem é que isto serve? a crítica ao pcp torna-se assim óbvia...

    daniel, tem razão na questão da república. contudo, fundadas república e democracia, parece-me que os instrumentos para a reforma estão todos nas mãos dos cidadãos. é fazer uso dos mesmos!

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  6. E você tem odesplante de dizer-se de esquerda.Em Weimar foi a mesma coisa.A puta que os pariu,não ponho mais aqui os olhos nesta bosta.Você\s bem podem fazer um superpartido psd/ps/cds e irem todos para o caralho que vos foda!

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  7. Eu próprio me repito até à exaustão acerca do poder dos cidadãos na tão propalada mudança.
    O desabafo surge apenas por ver imutável a consciencialização necessária para uma sociedade mais justa e mais solidária. Não pensava chegar a 2010 com uma juventude ainda mais alienada, um povo ainda mais resignado e elites completamente embrenhadas na simples manutenção do statu quo.
    Por isso não subscrevi o "luto nacional pela vergonha de políticos" que circula no facebook, porque a vergonha é nossa, dos eleitores, dos cidadãos. Mas isso já são outras contas...
    Entretanto o BE anunciou o apoio à moção de censura. Talvez apenas porque sabe que será inconsequente. Talvez porque o PCP tem feito um tremendo esforço na tentativa de encostar o Bloco ao centro, ao PS. Para a esquerda, a luta intestina, a marcação de território, geralmente sobrepõe-se a tudo o resto.
    O resultado é o que se tem visto.
    Mas também vos digo que quer o BE, quer o PCP, sabem perfeitamente que a direita tomaria de assalto o poder mal fossem decretadas novas eleições, isto na difícil perspectiva de que o PS ainda só é 49% de direita (o que desconfio mt sinceramente)
    Daí afirmar novamente que só o fazem por ser inconsequente. Que o fazemos. Eu sou BE.

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  8. Anónimo das 8:01

    o verbo é uma arma, admito que por vezes insuficiente, mas usado assim é uma arma apontada à própria cabeça porque retira qualquer validade ao discurso...

    cps

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  9. Ricardo,
    toda a gente sabe que o governo não vai cair. É só uma moção de clarificação: vai ficar claro que o PS é apoiado pelo PSD.

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  10. não concordo: não é por não passar que perde o seu intuito ou sequer se pode levantar a responsabilidade de quem decide avançar com tal moção.

    da acção "queda do governo", neste momento particular, resulta "piores condições económicas para o país como um todo". da atitude "estamos a fazer isto muito convictos mas na realidade não queremos mesmo que aconteça" resulta a característica de "hipócrisia política" (e, sim, eu sei, calha a todos, infelizmente).

    além de que, do PCP muito em particular, nem uma ideia decente para enfrentar a turbulência financeira --- aliás como ilustra bem a sua postura inicial face ao auxílio "grego".

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  11. Curioso mesmo, é o BE ser criticado (à esquerda) por ter votado a favor do apoio à Grécia.

    http://www.marxist.com/portugal-bloco-esquerda-votes-greek-bailout.htm

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  12. RicardoS,
    a apresentação de uma moção de censura por parte do PCP é um direito inquestionável. Bem como inquestionável é o teu direito a criticar essa moção. Mas não a pô-la em causa.
    A atitude do PCP em relação ao financiamento à Grécia é compreensível e coerente, mesmo que não concordemos com ela.

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  13. O que eu não percebo é que o empréstimo à Grécia não escandalize as hostes de esquerda. O banco central europeu emprestou dinheiro aos seus bancos (responsáveis pela crise) a um juro de 1% e empresta agora à Grécia a 5%! Porque devemos votar a favor disto? Isso é o mesmo que alinhar na ideia que é mais importante salvar os bancos alemães do que um país da zona euro. Porque muito mais facilmente se foi ao resgate dos bancos falidos... E é preciso não esquecer que este empréstimo também tem contrapartidas, como a sua aplicação para compra de material de guerra, por exemplo.

    E não acho que faltem alternativas a esta linha de austeridade. A banca que tão depressa recuperou da crise paga impostos ridículos. E que eu saiba não vão apertar muito o cinto. O que não pode haver é debaixo deste clima de pânico um branqueamento de medidas que vão aumentar o fosso entre ricos e pobres.

    Luciano

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  14. ricardo, o artigo é de facto caricato. provavelmente escrito por um português militante do pcp ;-) em qualquer caso ilustra bem o desejo de uma certa esquerda, que optou por estar fora de qualquer processo governativo e não tem hipótese de conquistar a maioria do eleitorado, em seguir pela via de desejar o colapso das estruturas (seja a grega, que "sempre é melhor fica lá longe", seja a nossa, seja a que for) na esperança de vir a lucrar com o processo caótico que se seguiria.

    e isto responde também ao luciano: naturalmente que o empréstimo não é "ouro sobre azul" para a grécia e tem inúmeros pontos criticáveis. mas o compromisso mínimo passa, parece-me, por não provocar o colapso da grécia. como escrevi, a quem é que isso iria interessar? ao povo grego não certamente, sofreriam consequências bem mais graves.

    filipe, onde raio está a diferença entre o criticar uma posição e "pô-la em causa"? nem percebo o que queres dizer. e não é pelo facto de a posição do pcp ser sempre coerentemente contra o que devia ser o seu próprio espírito de luta internacional dos trabalhadores que se deve encolher os ombros. pelo contrário.

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  15. Ricardo,

    Eu não defendo que não se deva ajudar a Grécia. Pelo contrário, se esta ideia da unidade europeia não são palavras vazias é uma obrigação. O problema é que se vê esta questão como "este empréstimo ou nada". E eu acho que não deve ser assim. Mais uma vez, se o projecto europeu é a sério, e não apenas uma forma da Alemanha aumentar as suas exportações e domínio diplomático, a Grécia merecia um acordo "diferente". Merecia no mínimo que a urgência de ser salva fosse a mesma urgência com que os causadores da crise foram salvos.

    Aqui em Portugal eu acho que a questão é a mesma. Se a moção de censura foi ou não a melhor ideia, não sei. Mas o PCP tem nestes momentos de crise uma obrigação ainda maior de se colocar ao lado dos trabalhadores. Se eles sentem (e eu sinto) que estas medidas só apertam o cinto a quem nada teve a ver com a crise acho muito bem que levantem a voz. Acredito que seja inevitável pedir sacrifícios a todos, mas para mim está-se a usar esse pretexto para servir interesses. Devia-se ter sempre como pano de fundo a luta de classes e o objectivo de reduzir o fosso entre muito ricos e muito pobres, e as directivas recentes remam contra isso. Nesse sentido acho que o PCP faz bem em não fazer compromissos. Exigir que os grandes gestores tenham os mesmos cortes percentuais que os restantes é tão rídículo como insultuoso.

    E como país "periférico" na realidade europeia acho que nos devíamos questionar sobre as instruções de Bruxelas. Porque para mim é claro quem é que está aqui a defender os seus interesses. A queda do euro é uma tragédia para as exportações alemãs. Se é suposto a UE defender os interesses de todos e não apenas colocar os pequeninos bem comportados enquanto o gigante decide o que fazer, acho que nos devemos questionar sobre o rumo actual.

    Luciano

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