quinta-feira, 1 de abril de 2010

o que faremos quando tudo arder?

Desde a descoberta do fogo que um vírus pirómano se apoderou da humanidade: para libertar energia adoramos queimar coisas. O que quer que seja, madeira, carvão, petróleo, urânio. Posso compreender o fascínio primitivo pelo fogo mas... a certa altura não resta nada para queimar.

E isso não é menos verdade para o urânio do que para o petróleo --- o que vale a pena lembrar quando, chegados perto da fase de peak oil, se começam a voltar a ouvir as vozes ... da malta nuclear.

Contudo...

«[...] The perception is that nuclear power is a carbon-free technology, that it breaks our reliance on oil and that it gives governments control over their own energy supply. That looks dangerously overoptimistic, says Michael Dittmar [...]

Perhaps the most worrying problem is the misconception that uranium is plentiful. The world's nuclear plants today eat through some 65,000 tons of uranium each year. Of this, the mining industry supplies about 40,000 tons. The rest comes from secondary sources such as civilian and military stockpiles, reprocessed fuel and re-enriched uranium. "But without access to the military stocks, the civilian western uranium stocks will be exhausted by 2013, concludes Dittmar. [...]»
[1]

«[...] [T]hese civilian stocks will be essentially exhausted within the next 5 years. [...] All data indicate that a uranium supply shortage in many OECD countries can only be avoided if the remaining military uranium stocks from Russia and the USA, estimated to be roughly 500000 tons are made available to the other countries. [...]» [2]

Numa imagem:


Para quem quer ficar sentado à espera de melhores dias, optimismo moderado:

«[...] [W]hat of new technologies such as fission breeder reactors which generate fuel and nuclear fusion? Dittmar is pessimistic about fission breeders. "Their huge construction costs, their poor safety records and their inefficient performance give little reason to believe that they will ever become commercially significant," he says.

And the future looks even worse for nuclear fusion: "No matter how far into the future we may look, nuclear fusion as an energy source is even less probable than large-scale breeder reactors."

Dittmar paints a bleak future for the countries betting on nuclear power. And his analysis doesn't even touch on issues such as safety, the proliferation of nuclear technology and the disposal of nuclear waste. [...]»
[1]

Alheios a estas preocupações, e possivelmente sedentos de trocar a nossa dependência energética exterior do Médio Oriente para o desmantelamento das ogivas nucleares russas ou norte-americanas (teremos um negócio em vista?), alguns "iluminados" cá da praça fazem-se ouvir:

«[...] É mais um manifesto da sociedade civil que junta personalidades políticas, economistas, engenheiros e empresários contra opções do governo PS. [...] [É] a política energética e a aposta nas energias renováveis, uma das principais bandeiras de José Sócrates, que vai ser posta em causa. [...]

O manifesto [...] tem em Mira Amaral um dos seus subscritores [...] [e] na lista dos subscritores [...] estão mais ex-ministros dos governos de Cavaco Silva [...] e personalidades da área do PSD [...]

O objectivo é relançar a discussão do nuclear. O ex-presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, Francisco van Zeller responde: "O nuclear é como as marés ou como o vento. É uma alternativa a analisar." [...]»
[3]

É verdade, Francisco, é verdade... só que o vento vai continuar a soprar e as marés vão continuar a subir e a descer muito muito depois de teres queimado o urânio todo do planeta. Lá está o vírus pirómano sempre em acção, pelo menos até chegada a altura de queimar os pelos do rabo... Não seria melhor procurar alternativas que apontem na direcção da independência energética ao exterior?

Infelizmente a malta nuclear cá do burgo aparenta apenas andar em sintonia com o resto da direita Europeia:

«[...] A União Europeia procura "um novo paradigma energético" para o século XXI capaz de ser uma alternativa à dependência dos combustíveis fósseis e, simultaneamente, mais amigo do ambiente e susceptível de travar as degenerações climáticas. [...] Se boas são as intenções, já o mesmo não pode dizer-se dos métodos e dos objectivos, pelo menos no momento actual. Comissão e Conselho apresentaram um projecto envolvido em secretismo quanto a financiamento e processo político e daí não saíram [...]

O documento estabelece uma série de áreas de trabalho consideradas "fundamentais" como sejam desenvolver a eficiência energética através de fontes mais baratas e de emissões reduzidas; aposta na investigação e financiamento; captação e armazenamento de carbono; energia nuclear; bioenergias; energias solar, eólica e hidráulica. [...]

Em relação à energia nuclear, uma aposta de governos e grandes indústrias que se tornou ainda mais impetuosa a seguir à cimeira de Copenhaga, a questão é abordada em dois aspectos centrais: o desenvolvimento da investigação do processo de fusão nuclear [...] e a inserção do nuclear no grupo das tecnologias de baixo carbono. [...]

Os sectores conservadores e de direita ligados à grande indústria alegam que suscitar este debate é uma questão meramente ideológica que não deve perturbar o desenvolvimento da "reinvenção da energia". Esta posição prevalece no Parlamento Europeu. [...] O novo sistema energético deverá assentar nas parcerias público-privadas, através das quais se mantém a pouca transparência em questões como de onde vem e para onde vai o dinheiro, como se percebeu na passada semana em Estrasburgo. O comissário presente respondeu a estas dúvidas dizendo que o dinheiro para estes projectos "está onde está", sendo esse sítio localizável "nas grandes indústrias e nos Estados membros". [...]»
[4]

Ou seja, nuclear is business as usual, independentemente de ser bom ou mau negócio do ponto de vista das necessidades energéticas sustentáveis e independentes do exterior... É que se calhar ninguém deu por isso, mas existe um espetacular reactor de fusão nuclear ---em perfeito funcionamento há milhões de anos, e sem quaisquer custos extra--- a escassos minutos-luz daqui!


[1] --- The Coming Nuclear Crisis, Physics arXiv Blog [November 2009]
[2] --- arXiv:0908.3075 [physics.soc-ph]
[3] --- Ex-ministros atacam aposta de Sócrates nas energias renováveis, ionline [Março 2010]
[4] --- O "novo paradigma energético" e os velhos métodos, Esquerda.Net [Março 2010]

19 comentários :

  1. perfeitamente de acordo. até doi ver o inefável patrick de barros a pagar entrevistas nos jornais periodicamente.
    mas tenho pena que até tu mistures fissão com fusão no mesmo artigo. independentemente da viabilidade comercial.

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  2. Não vejo qualquer razão para se apostar em simultâneo na energia nuclear e nas renováveis.

    E negociatas e lóbis há em tudo o que dá dinheiro. Nas renováveis também.

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  3. Concordo com o texto.
    Contudo, actualmente temos vários problemas a ter em conta: 1) necessitamos cada vez mais de mais energia; 2) para haver crescimento económico é importante que a energia seja relativamente barata.

    O problema 1 pode ser resolvido (em parte) com energias renováveis (eólica essencialmente, dado o custo da solar) mas, mesmo a eólica irá acarretar aumentos de preços afectando o ponto 2.

    Ou seja, necessitamos de apostar em formas de energia que:

    1) Produzam bastante energia;
    2) Não sejam poluentes;
    3) Sejam estáveis (ou seja, em que possamos prever e controlar a produção, o que não acontece com as renováveis)
    4) Sejam relativamente baratas;
    5) Não sejam perigosas.

    Actualmente não temos nenhum método de produzir energia que cumpra os 5 pontos. Actualmente temos energias renováveis que são relativamente caras e são intermitentes, ou seja, temos sempre de produzir parte da energia de fontes constantes (seja o carvão, gás natural ou nuclear).
    O que nós necessitamos é de investimento em grande quantidade nas energias renováveis para: 1) Agilizar os processos de fabrico tornando-as mais baratos; 2) Arranhar métodos de armazenamento que possam contrapor a intermitência na produção.

    O problema é que o investimento em I&D em Portugal é bastante baixo e não parece haver sinais de aumento e seja de que forma for os resultados de futuras investigações demorarão alguns anos a entrar no mercado.

    No entretanto (e mesmo assumindo que o investimento em I&D aumenta, muito) necessitamos de meios energéticos baratos e estáveis que possam de algum modo atenuar o investimento e o aumento de preços das energias renováveis e também colmatar os altos e baixos na produção. Actualmente usa-se uma combinação de carvão e gás natural. Que outras soluções existem?

    Uma solução seria investir em centrais a carvão com sequestração de carbono contudo, até que ponto é que isso não levaria a um aumento de preços?

    Esta é um problema que me parece complexo e cuja discussão em Portugal é diminuta. Todos dizm que o investimento do governo no sector energético é acertado mas, voltando aos meus dois pontos iniciais, apenas resolve o ponto 1 e agrava o ponto 2 e um aumento importante do preço da energia é algo que a economia nacional dificilmente aguentará.

    Cumprimentos,
    Pedro

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  4. Dittmar pode acreditar nisto:

    «And the future looks even worse for nuclear fusion: "No matter how far into the future we may look, nuclear fusion as an energy source is even less probable than large-scale breeder reactors."»

    Mas sem que o texto apresente as justificações que ele dá para acreditar nisso, parece-me pouco persuasivo.
    Trabalho na área da fusão nuclear e não me parece nada que o futuro seja a desgraça apresentada, bem pelo contrário.
    Reactores que foram projectados para determinada ficácia têm sistematicamente alcançado eficácias muito superiores. O ITER foi desenhado para dar 10 vezes a energia que lá for colocada, e dentro de cerca de 10 anos deve estar concluído. O cenário dificilmente poderia ser mais promissor.

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  5. Parece-me que o problema não é tanto o crescimento económico, mas o crescimento da população. Sem educação, os casais tendem a ter taxas de fertilidade incomportáveis para o planeta e como não há recursos que sejam inesgotáveis...

    A energia eólica é limpa e renovável, mas destrói completamente a paisagem. Desculpem-me, mas ainda não me consegui habituar às florestas de moinhos.

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  6. ricardo s.,

    respondo com outra pergunta: onde fizeste a separação?

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  7. JV, deixei o link para o arXiv caso queiras ler mais. mas mesmo sem entrar na discussão da fusão enquanto promise to be delivered, um das coisas que saem do texto (e que para ti deve ser óbvio) é que, tal como o urânio, o deutério e o trítio não caem do céu...

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  8. dorean, em lado nenhum --- a fusão é referida na citação do dittmar (a que o JV também se referiu em cima). o main point é o urânio (mas vê também o comentário anterior).

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  9. RA, negociatas há em todo o lado, mas nas renováveis podem ser muito mais interessantes do ponto de vista do interesse nacional. lá voltarei no próximo post.

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  10. é comum quem pretende propagandear a fissão, comentar sobre a fusão. fazem-no porque a confusão (literalmente...) lhes convém.

    por outro lado, explicar as desvantagens da fissão não requer qualquer referência à fusão.

    quanto ao combústivel: o deutério não cai do céu mas vem do mar.
    já o trítio é mais raro mas a própria reação produ-lo.
    talk about recycling, han?

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  11. Por acaso, sempre que chove, cai um pouco de deutério do céu...

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  12. O deutério é muito abundandte, e "cai do céu" como diz o Francisco. Mas enquanto uma típica central a carvão consome cerca de 800 toneladas por dia, um reactor de fusão com a mesma potência consumiria 3 toneladas de deutério por ano. Se nos lembrarmos que o deutério é muitíssimo mais abundante que o carvão, percebemos que a "doca de Cascais" tem deutério suficiente para alimentar as actuais necessidades energéticas do planeta durante vários milhares de anos. E existem oceanos cheios de deutério.
    Além das 3 toneladas anuais de deutério, também é consumido algum lítio para produzir Trítio. Uns avassaladores 100kg.

    Se a fusão for implementada, temos de nos preocupar com o fim do combustível, sim. Mas não é o Deutério por cá: é o combustível do Sol, esse reactor a fusão que alimenta todas as renováveis, que também não é eterno.

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  13. naturalmente que "cair do céu" é só uma expressão, pese embora não me pareça nada realista arranjar combustível para fusão da água da chuva...

    em qualquer caso, é óbvio que a investigação em fusão deve continuar, é importante saber se o processo de breeding pode gerar o trítio necessário ou não:

    "...But tritium is far more rare. Reports have it that only 20 kilograms of tritium remain here on earth. The U.S. had only produced 225 kilograms of tritium from 1955 to 1996 [...] Currently supplies come principally from nuclear reactors, specifically Canada’s heavy water reactors. They can produce enough tritium to supply current experimental fusion plants but not enough, nowhere near enough, for commercial production. Today’s prices are about $30 million per kilogram..."

    http://newenergyandfuel.com/http:/newenergyandfuel/com/2010/03/11/will-there-be-enough-fuel-for-fusion/

    (isto, naturalmente, acarreta alguns pontos de interrogação, associados também com a fissão, devidos à produção de material radiactivo --- sem falar na questão da independência energética nacional em relação às necessidades de trítio, ou de nações que nem orla marítima têm)

    é importante saber quais os custos associados à extracção de deutério dos oceanos (e qual a energia necessária a fazê-lo), etc.

    bom, e é importante que funcione!

    em qualquer caso, estamos a falar de um futuro a longo prazo... que pode ser muito promissor se se conseguirem resolver muitos problemas pendentes. mas, como dizia no texto, todos os dias vemos um reactor de fusão em excelente funcionamento a poucos minutos-luz daqui. que tal começar por fazer melhor uso dele?

    ou o urânio ou as renováveis é o que temos agora em cima da mesa, e assim é no que temos de nos focar a curto e a médio prazo.

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  14. Ricardo Shiappa:

    O Deutério já hoje é baratíssimo e fácil de extraír.
    Quanto ao Trítio, é caro. Mas se considerares o processo de fusão nuclear no seu todo (não só a reacção de fusão em si), a matéria prima não é o Trítio, mas o Lítio.
    O Trítio é produzido a partir do Lítio no próprio processo que produz energia de fusão. E como te digo, estamos a falar, para uma centrar de potência típica, de 100kg de Lítio por ano. Isto compara com 800 toneladas diárias(!) de carvão para uma central térmica com a mesma potência.

    Isto é um pouco repetitivo, mas realmente a abundência de combustível para a fusão está longe de ser um problema com que nos devamos ter de preocupar. Muito antes teríamos de nos preocupar com a matéria prima para construír geradores eólicos.

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  15. Caro Ricardo,

    «Ou o urânio ou as renováveis é o que temos agora em cima da mesa, e assim é no que temos de nos focar a curto e a médio prazo.»

    Curto e médio prazo? O problema da energia é a médio e a longo prazo. A curto e médio prazo podemos continuar a usar petróleo.

    E porque não urânio e renováveis? Porque energia eléctrica produzida em centrais nucleares já usamos todos os dias. Basta olhar para a factura da EDP.

    E, já agora, não esquecer a eficiência energética. Seja qual for a fonte de energia, gastar energia em importações só para poder comer, no Inverno, bananas pálidas que vêm cruas do outro lado do planeta parece-me um luxo ridículo quando as coisas estão como estão. Contar com as renováveis sem investir seriamente na eficiência energética não faz sentido nenhum.

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  16. "...A curto e médio prazo podemos continuar a usar petróleo..."

    o francisco vive na arábia saudita? ou não lê jornais?

    o problema energético nacional é, neste preciso momento, um problema de independência em relação ao exterior e, a médio prazo, um problema de soluções minimamente sustentáveis.

    grande parte das nossas importações são importações de energia (e tão pouco é aqui relevante se de petróleo ou electricidade "nuclear", em ambos os casos estamos a pagar a factura ao estrangeiro). se queremos aliviar o défice externo e pensar em melhores dias para todos, a independência energética é um problema para resolver agora e não a longo prazo! (quanto muito a longo prazo podemos sonhar em exportar o nosso sol e o nosso vento em forma de energia...)

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  17. Ricardo,

    Certo. Não foi bem o oposto disso que eu quis dizer.

    Longo prazo não significa que não se comece a actuar agora. As soluções a longo prazo pretendem-se duradouras - é uma estratégia a grande escala.

    A curto-médio prazo vamos continuar a usar petróleo, porque as alternativas ainda se estão a implementar.

    Portanto, a legislação relacionada com a energia não se deve preocupar com o curto/médio prazo, mas com o médio/longo.

    A curva de adaptação a novas formas de energia tem de ser sustentada, e isso é uma estratégia a longo prazo. Não queremos estruturas energéticas que alimentem o consumidor particular a curto prazo - queremos muita energia disponível, no futuro, para alimentar a indústria e a sociedade.

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