quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Religião é poesia, ateísmo é palavrão

O Ricardo Araújo Pereira escreveu na Visão um texto notável a propósito da mensagem natalícia do José Policarpo. Pega no assunto pelo lado de Policarpo, ostensivamente e de forma algo provocatória, ter saudado outros monoteístas mas não os ateus. Há também a questão, quanto a mim grave, de o Policarpo estar na realidade a abusar de um formato de «tempo de antena» para entrar em polémica com os ateus e apelar à conversão de judeus e muçulmanos.
Mas vamos ao RAP. Delicioso:
  • «O ateísmo tem sido, para mim e para tantos outros incréus, a luz que me tem conduzido na vida. Às vezes fraquejo, em momentos de obscuridade e de dúvida, mas, mesmo sendo incapaz de provar a inexistência de Deus, tenho conseguido manter a fé - uma fé íntima fundada numa peregrinação que tem a grandeza e a humildade da longa caminhada da vida - em que Ele não exista. Todos os dias busco a não-existência do Senhor com renovada crença, ciente de que a Sua inexistência é misteriosa demais para que eu a tenha inventado.»
E o pedaço que me leva a escrever este artigo:
  • «Acreditar que Deus existe é uma convicção profunda, mas acreditar que não existe, curiosamente, não o é. Alguém, munido de um aparelho próprio, mediu a profundidade das convicções e deliberou que as do crente são mais fundas que as do ateu. Quando alguém diz acreditar em Deus, está a exprimir legitimamente a sua fé; quando um ateu ousa afirmar que não acredita, está a agredir as convicções dos crentes. Ser crente é merecedor de respeito, ser ateu é um crime contra a humanidade.»
E esta é uma dificuldade que nós, os que somos ateus, continuamos a ter, em alguns meios sociais: ter fé é bonito, talvez mesmo poético, enquanto afirmar-se ateu é agredir, dizer um palavrão. O que se deve ao facto de a religião significar «esperança» noutra vida, ou numa qualquer forma de contacto com entes queridos desaparecidos. Enquanto o ateísmo não tem ilusões comparáveis para oferecer. Somos uns desmancha-prazeres.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Revista de blogues (30/12/2009)

  1.  «Andaram os bispos portugueses 48 anos em paz, sem preocupações com a democracia, com direito a báculo e mitra apenas com autorização de Salazar, indiferentes aos crimes da ditadura e à guerra colonial, e tornaram-se agora os paladinos da democracia directa. Todos os dias saltam prelados a agitar a mitra contra os casamentos homossexuais, a brandir o báculo contra o aborto, a perorar sobre a família, como se disso tivessem alguma experiência. Disparam ave-marias e salve-rainhas contra os “inimigos da moral e dos bons costumes” e, finalmente, exigem um referendo sobre matéria que fez parte da campanha eleitoral e dos conselhos pios aos eleitores para se afastarem de partidos que, na sua pitoresca linguagem, são contra a família.» (Diário Ateísta)
  2. «Bom. Há uma coisa que me indigna nas discussões do casamento homossexual. Várias, aliás, mas uma em especial. Dizem que "ah, mas claro que a igreja tem de se pronunciar sobre o casamento homossexual", "ah, o casamento homossexual vai contra todos os ditâmes aceitáveis numa sociedade", e vejo aí os padres e os bispos indignadíssimos, ainda mais do que eu, a falarem e a gritarem sempre a mesma coisa: que a sociedade tem de ser ouvida e que não houve discussão suficiente. A questão é que eu não estou bem a ver por que razão acham os padres e os bispos que têm de impôr a sua opinião. Cada dia é um novo a falar e cada dia cada um fica mais indignado por não lhe serem dados ouvidos da parte do Governo. Pois bem, sabem porquê, senhores? Porque nós temos no nosso país um princípio a vigorar desde há muitos muitos anos, que se chama princípio da laicidade do Estado ou princípio da separação entre o Estado e a Igreja. Concretizando, sabem o que é que isto quer dizer? Que não interessa nada ao Governo ou à comunidade política em geral (que perceba de Direito) que os padres se oponham todos, todinhos, um por um à aprovação do casamento homossexual. Não estamos a falar de casamento homossexual pela igreja, mas sim de casamento CIVIL!» (When the Sun Goes Down...)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um pouco de futebol


Por estes dias, Barcelona e a Catalunha vivem em suspenso da decisão do Tribunal Constitucional sobre o novo Estatuto da Catalunha - que, à luz da Constituição Espanhola, só pode ser declarado inconstitucional, porque aquilo é praticamente uma declaração de independência, que faria a inveja de A. J. Jardim. Mas as coisas chegaram a tal ponto, que o próprio Zapatero torce para que o TC não veja o que todos vêem e não ouse afrontar os demónios catalães - mal adormecidos desde que, em 1640, Castela teve de optar entre opor-se à reconquista da independência portuguesa ou enfrentar o autonomismo catalão, e escolheu travar e vencer os revoltosos da Catalunha, deixando Portugal para os Braganças. Não por acaso, as reivindicações autónomas em Espanha estão directamente ligadas à riqueza das regiões: são os ricos do País Basco ou da Catalunha que querem ser independentes do poder fiscal de Madrid, para não terem de pagar impostos a favor dos pobres. Também em Itália, é o norte rico que se quer ver liberto de ter pagar a favor do Mezzogiorno, e em Inglaterra é a Escócia que quer ser independente do Midwest deprimido. A autonomia regional é quase sempre uma revolta dos ricos contra os pobres e contra o Estado central, cuja tarefa fundamental é distribuir a riqueza por todos. É por isso que eu sou ferozmente anti-regionalista, porque não tenho a mais pequena dúvida de que, ao contrário do que imaginam alguns incautos ou oportunistas, a regionalização lançaria Lisboa e o Porto contra todos os outros e ai dos alentejanos ou transmontanos, sem a República a protegê-los!
(Miguel Sousa Tavares, A Bola, 01-12-2009)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

Outro José, este xenófobo

Os imigrantes estão sujeitos à lei deste país, pagam impostos, depois de naturalizados podem votar e ser eleitos para todos os cargos à excepção de Presidente da República, mas não podem jogar na equipa da FPF. Quem o diz é um certo José Mourinho. O futebol é mesmo uma maravilha: traz ao de cima o pior tribalismo da nossa natureza humana.

À escuta de José

O Policarpo usou o seu tempo de antena natalício no canal de todos nós para responder à Associação Ateísta Portuguesa. Registe-se: «nos últimos tempos, entre nós, falou-se muito de ateísmo; exprimiram-se ateus, pessoas e organizações, defendeu-se o direito de ser ateu e de exprimir a negação de Deus».

José Policarpo, numa prova de respeito e civilidade, não se exime portanto a argumentar a existência de «Deus» com os ateus. É bem. No entanto, sabe que o diálogo é desigual e que o canal pago com os meus impostos não convida o Munir para falar no início do Ramadão, nem dará a palavra ao Carlos Esperança ou ao Ludwig Krippahl para lhe responderem como merece. E isso fica-lhe mal. Porque é abuso de posição dominante.

Quanto aos argumentos: são fracos. Concordo que «não é o facto de os crentes acreditarem em Deus que faz com que Ele exista»; e também que «não é o facto de alguém não acreditar em Deus que faz com que Ele não exista». Não acho é que haja «mistério» algum neste assunto que não tenha explicação humana. Compreendemos cada vez melhor como «Deus» foi inventado.

Finalmente, quando Policarpo quiser dar lições de humildade, que abdique do espaço na televisão de todos. Não é muito curial aproveitar um espaço numa televisão paga por todos para difundir uma mensagem tão arrogante e divisiva como a sua, centrada na crítica aos ateus e no apelo à conversão de judeus e muçulmanos. E, como já disse um comentador do Diário Ateísta, se quer fazer prova de humildade que proteste por lhe chamarem «Dom», «Eminência Reverendíssima» e outros desvarios que tais. Ah, e use menos maiúsculas. Acima de tudo menos maiúsculas, por favor.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Playing for change

Esta ideia não é nova: as pessoas não querem saber umas das outras porque não se conhecem e não imaginam as vidas umas das outras. Juntá-las com música é sempre boa idea. Imaginem o que uma ideia destas, se se espalha, pode fazer ao complexo militar industrial americano ou ao inquérito do Sarkozi sobre o que faz os franceses franceses... :o)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Guerra de civilizações

Quem ganhou a batalha dos ídolos à janela? O pai natal ou o menino jesus?
(Algum jornal devia fazer as contas.)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Cavaco e Sócrates não pensam casar; porém, se for pela igreja...

Confirma-se: Cavaco e Sócrates estão próximos do divórcio a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O jornal que escuta as fontes de Belém nos cafés da Avenida de Roma anuncia que «o mais expectável é que vete politicamente o diploma ou o envie para o Tribunal Constitucional». Do armário para fora, Cavaco já disse que procura «nada fazer que provoque fracturas na sociedade portuguesa». Arrisca ele próprio a fracturante perda da eleição presidencial no ano seguinte.
Entretanto, acicatada por uma capa de jornal que garantia haver um «pacto de não agressão» entre Governo e ICAR a propósito da mesma questão (o que seria plausível pois o Governo publicou recentemente diplomas que garantem centenas de empregos a sacerdotes católicos - como capelães do Estado), a ICAR ensaiou ontem um YMCA em defesa do referendo, com a habitual espertalhice ambígua de dizer uma coisa e a sua contrária: segundo o bispo Ortiga, «penso que o debate deveria ser alargado e profundo e, em meu entender, um referendo, como oportunidade para a reflexão, seria bem-vindo», embora, para o caso de as coisas correrem mal, «há coisas, como esta, que, para a Igreja, não são referendáveis».
A união poderia ser abençoada aquando da visita de um ex-nazi, em Maio.
«Confused? You won't be, after next year's episode of...Soap».

Obama

Peter Schiff vinha avisando deste 2006 (os dois últimos minutos deste vídeo são importantes): Bush era um anormal e a crise que resultou do desgoverno 2000-2008 é profunda e séria e não se vai embora assim, com quase um trilião de dólares atirado aos cleptocratas que a criaram. Neste contexto, Obama tem as mãos e os pés atados e já demonstrou que não tem apoios para implementar nem uma das reformas que prometeu. Continuamos nas mãos dos cleptocratas (há dias, num jantar, um texano disse-me com a cara séria que é óbvio que Deus vai intervir e salvar os EUA).

Adenda sobre a traição de Obama

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Revista de blogues (21/12/2009)

  1. «Manuel Alegre e a corrente de opinião socialista estão de parabéns. Através da sua revista (www.opiniaosocialista.org) e do livro agora lançado ("Ideias para Grandes Decisões", ed. Campo da Comunicação), que compila alguns dos artigos que aí foram publicados sobre trabalho e seus direitos, escola pública, crise e política económica alternativa e corrupção e urbanismo, contribuíram para consolidar ideias válidas: da apropriação pública das mais--valias urbanísticas à defesa e à valorização dos serviços públicos, passando pela denúncia fundamentada de um Código de Trabalho que aumenta a discricionariedade empresarial e reduz os salários ou pela defesa de um Estado-estratego dotado de instrumentos para promover o sector dos bens transaccionáveis.
    Manuel Alegre defendeu recentemente que está na altura de "repor o primado da política e da solidariedade sobre os egoísmos e os grandes interesses". O combate por um socialismo que só pode ser democrático e a defesa de um patriotismo progressista e cosmopolita, ancorado numa ideia de comunidade política inclusiva, revelam uma aguda percepção de que só as ideias podem superar interesses mal orientados
    .» (Ladrões de Bicicletas)
  2. «Pacheco Pereira não participa no debate. Aliás, Pacheco Pereira nunca participa em nenhum debate. Nem neste nem noutro qualquer. Pacheco Pereira finge que analisa debates para catalogar cada um dos participantese (independentemente do que eles digam ou escrevam) e assim condicionar opiniões – é esta a confiança que tem no juízo crítico dos seus leitores. Neste caso, divide a esquerda em três: os que são socratistas (Pacheco nunca deixa de surfar na espuma dos dias) – e por isso anónimos e assessores –, os que não sendo socratistas um dia o vão ser – e por isso oportunistas e quem sabe futuros assessores e até anónimos – e a verdadeira esquerda.» (Arrastão)

A traição de Obama

Gradualmente fui-me sentindo mais e mais traído pela postura de Obama.

Não pela sua moderação, eu próprio sou bastante moderado e aprecio isso. Mas pelo facto de condicionar toda a sua actuação à defesa dos interesses corporativos instalados.

Voltando costas aos que o elegeram, preferiu tentar a sua sorte para as próximas eleições com avultadas contribuições das seguradoras, mesmo que implique uma militância democrata menos motivada. Arrisca-se a perder.

Entretanto, as grandes seguradoras sorriem. Os cidadãos dos EUA estão a caminho de ser obrigados a adquirir um seguro de saúde ao preço que elas entenderem cobrar. E se antes já eram pouco gentís na hora de fixar os preços, agora têm ainda menos razões para gentilezas.

A opção pública foi desfeita, e aqueles senadores que tiveram a ousadia de ameaçar impedir a aprovação da reforma sem esta opção foram criticados pela casa branca com uma dureza de que o mefistofélico Joe Lieberman nunca foi vítima. Há que lembrar que este senhor - que nos anos de Bush era tão radicalmente contra os bloqueios no senado, que votava repetidas vezes para desbloquear propostas do GOP mesmo quando afirmava publicamente discordar das mesmas; e que ainda há cerca de três meses, com medo da opção pública, propunha o alargamento do Medicare para os 50 anos - manteve todo o processo refém dos seus caprichos, e foi capaz - derradeira falta de escrupulos e coerência - de ameaçar bloquear o processo se fosse mantido o alargamento do programa medicare para os 55 anos - sim, iria bloquear algo menos ambicioso que aquilo que tinha proposto 3 meses antes!

No que diz respeito à reforma financeira, McCain está a fazer mais pela defesa dos interesses do contribuinte norte-americano face aos interesses dos grandes bancos do que a casa branca. Na verdade, do senado e da casa dos representantes têm vindo propostas muito interessantes, sensatas e razoáveis para impedir que uma crise como a que aconteceu se repita. A casa branca tem sido o maior adversário destas propostas. E quando Obama é mais amigo dos grandes bancos que McCain, muito está dito.

Obama começou com o pé direito. Mas neste momento não passa de um traidor.
Oxalá acorde antes que seja tarde de mais. Por agora é a maior desilusão com um político que já tive.

Há 20 anos

Ceausescu despede-se do povo romeno. Sem o saber.

Supostamente, deveria ser uma manifestação «espontânea» ao bom estilo semi-maoísta da ditadura de Ceausescu (um admirador da «Revolução Cultural» chinesa e de Kim Il-Sung). Espantosamente, a multidão começou espontaneamente a vaiar o ditador. Nos dias seguintes, morreram cerca de mil pessoas nos combates entre a facção do exército que tomou o poder e o que restava da Securitate. Ceausescu foi executado com a mulher no dia 25.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Religião e GDP

Com excepção dos EUA e do Kowait, há de facto uma curva ao longo da qual os países se parecem arrumar muito bem: quanto mais ricos (industrializados) menos religiosos.
Quando se confronta este gráfico com o da educação vs. GDP, vê-se que as posições dos países não variam muito.
O mesmo se passa dentro dos EUA: quanto mais educadas, menos religiosas as pessoas são. Os cientistas da National Academy of Science declaram-se 97% ateus ou agnósticos. E mesmo no Sul Profundo verifica-se que a universidade (sobretudo as chamadas "artes liberais") tem um efeito adverso na religiosidade. Eu vejo aqui na universidade todos os semestres que montes de miúdos deixam de acreditar nas superstições que lhes foram empurradas pela boca abaixo quando ainda não tinham idade para se defenderem.

Religião e qualidade de vida

O gráfico fala por si:



Obrigado, Ludwig.

Contra a Burca

O debate sobre a burca chega à imprensa portuguesa.
  • «(...) O ministro explicou: as correntes islâmicas que defendem a burka argumentam que as mulheres exercem a sua liberdade em querer andar assim, certo? Pois era exactamente o argumento dos patrões das discotecas onde anões ganhavam a vida deixando-se ser lançados contra redes: perguntem aos anões, eles gostam! Porém, em 1995, o Conselho de Estado francês proibiu o lançamento de anões por ser contra a dignidade humana. As mulheres islâmicas são menos que os anões? Como a pergunta do ministro não foi feita a certos xeiques, mas a deputados de uma democracia em 2009, talvez a burka seja banida de Paris.» (Ferreira Fernandes)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dois passos à frente, um passo atrás

A aprovação pelo Governo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, é, paradoxalmente, um avanço e um recuo para a igualdade de direitos. Um avanço porque há a possibilidade de os casais do mesmo sexo se poderem casar já em 2010; um recuo, porque ficam excluídos da adopção. Trata-se, em boa verdade, de um casamento de segunda categoria.
Evidentemente, mesmo este projecto governamental pode ser travado. Na Assembleia da República, bastará o voto contra de doze deputados do PS (e há pelo menos duas que ninguém imagina a votarem a favor). Depois, há o possível veto de Cavaco (o Tribunal Constitucional não parece ser um obstáculo). Sendo possível que o Parlamento seja dissolvido na Primavera, o veto de Cavaco seria suficiente para adiar o assunto casamenteiro.
Enfim. Os homossexuais não sabem no que se estão a meter. Mas esse problema é deles.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Mais sobre o «climategate»

Sapatos, tomates e igrejas...

Concedo que atirar um calhau à cabeça de um político é um acto de violência condenável. Mas quando a democracia se torna uma anedota e os empresários nos dão a escolher, cada vez mais, entre os fantoches "da esquerda" e os fantoches da direita, parece-me difícil evitar que os empresários e os fantoches passem a ter medo dos cidadãos. Já é assim na América Latina e em todas as ditaduras do mundo.

Nunca pensei acabar a citar o Mao, mas é verdade que não se pode culpar o rio por ser tormentoso e ignorar as margens que o apertam.

Há 10 anos eram tartes: Bill Gates, Jean Chretien, Jacques Delors, Gerrit Zalm e tantos outros políticos e figuras públicas levaram com tartes na cara.

Parece-me sintomático que hoje os protestos sejam mais duros. Muntadar al-Zaidi, o homem que atirou os sapatos a George W, Jeremy Paul Olson, o homem que atirou os tomates a Sarah Palin (hoje o supermercado Costco de Salt lake City tirou os tomates dos escaparates durante a visita dela) e agora este homem, que atirou uma igreja a Berlusconi, são imediatamente aclamados heróis por tanta gente.

A pergunta que me parece lógica no contexto político em que vivemos é quando é que a pobreza e o desemprego vão transformar os sapatos e os tomates em balázios. Os assassinatos políticos do princípio do século XX foram o resultado lógico da miséria e da injustiça social das décadas de desregulamentação, arrogância e enriquecimento indecente que caracterizaram o final do século XIX.

Os oligarcas que compram e vendem os recursos naturais do planeta têm tido uma vida óptima, mas parece-me lícito perguntar se este sistema é sustentável. A maioria parece estar convencida que basta controlar os jornais e as televisões e, como se dizia nos anos Bush, fazer a própria realidade. Mas eu não sei. Os oligarcas que apoiaram a ascensão de Hitler também estavam optimistas nos anos trinta. O avô de George Bush fartou-se investir na Alemanha (inclusivamente na IG Farben). Há uns anos li que o pai de George Bush que tem um projecto para derreter três glaciares no Chile e escavar o ouro que lhe subjaz. E destruir a vida a quem depende dos rios que o glaciar alimenta (70 mil famílias). Os banqueiros da Wall Street continuam a pagar-se milhões de dólares e a advogar a desregulamentação... eu acho que se corre o risco de um dia acordarem num mundo cheio de Gavrilos Princeps, Costas e Buiças.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Duas ou três coisas sobre o “caso Berlusconi”

Não posso de forma nenhuma apoiar acções como a de que o primeiro ministro italiano foi vítima. Mas o facto de ter sido vítima deste acto tresloucado não faz de maneira nenhuma de Berlusconi um herói, ao contrário do que afirma Ferreira Fernandes. Herói teria sido se enfrentasse uma multidão adversa. Mas o acto de Silvio Berlusconi ao exibir a sua face ferida e deformada àquela multidão (mesmo se esta lhe fosse maioritariamente adversa) não é um enfrentamento: o ataque de que Berlusconi foi vítima foi, claramente, um acto isolado, de uma pessoa. Não foi nenhum linchamento popular. Berlusconi não se esconder, repito, não tem nada de heróico.
O autor deste lamentável incidente foi identificado e, dentro da sua (in)imputabilidade, foi ou vai ser responsabilizado pelo seu acto. Entretanto parece que o autor já tem mais de 30000 “amigos” no Facebook. Quantos destes “amigos” eram capazes de praticar e dar a cara por um acto destes? Tornar-se amigo no Facebook, escrever em blogues, comentar em jornais é muito fácil. Diz-se que o governo de Berlusconi foi o responsável pelo esmagamento dos protestos de Génova, em 2001. Como tal, quem lá estava “sorri” ao ver Berlusconi “esmagado”. Eu não estava em Génova em 2001, mas estava na Assembleia da República em 1993 (com muitos colegas de curso de membros deste blogue), quando o governo de Cavaco Silva também esmagou brutalmente, sem justificação, protestos contra a lei das propinas. Os subscritores portugueses deste grupo do Facebook também estariam dispostos a atirar uma réplica da Catedral de Milão, ou do Centro Cultural de Belém, a Cavaco Silva, assim que o vissem? (Este não é um apelo à violência, que eu condenaria. É uma questão de retórica.)
Muito interessantes os debates que têm ocorrido sobre o assunto no Cinco Dias e no Arrastão (vale a pena ler os textos e os comentários), nomeadamente sobre o papel do Estado como agente da luta de classes (que eu recuso – o Estado deve ser neutro) e monopolizador da violência. Não se pode “acabar” com a violência, por isso ser “contra” ela não tem muita utilidade prática. Pode ser-se contra a violência indiscriminada e irresponsável – o recurso à violência tem de ser mesmo o último recurso, mas por não podermos acabar com a violência não podemos exluir este recurso. sendo assim, o importante é que quem recorre à violência o faça mandatado pela sociedade, seja sempre identificado e possa ser responsabilizado (ou os seus superiores hierárquicos) pelos seus actos perante a sociedade.

Uma semana depois, vale a pena ler o artigo (premonitório) de José Saramago sobre o "no B-day":

Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a "coisa" Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos.

Peso do estado na economia abaixo da média europeia

«O último relatório da Eurostat sobre as contas do Estado, contraria mais uma vez uma visão errada que existe por aí que diz que o Estado português tem um peso acima da média da economia.
Tanto do lado das receitas como das despesas (a nossa posição relativa não depende portanto do nível do défice) os valores para Portugal em % do PIB estão abaixo da média comunitária nos dados já apurados de 2009 e nos dados de 2008.»


Aqui, no Fado Positivo.

Tem de se repetir muitas vezes os factos, porque há quem repita muitas vezes os mitos...

E depois do pior, há ainda pior

  • «Os portugueses estão cada vez mais longe do estilo de vida dos europeus. O poder de compra das famílias é 76% da média da União Europeia e há mais de uma década que Portugal não descola na escala do bem-estar. Países como a Grécia evoluíram e mesmo os checos e os eslovenos ultrapassaram o nível de vida dos portugueses. (...) Enquanto a República Checa, Malta, Portugal e Eslováquia fazem parte do grupo que está 20% a 30% abaixo da média, a Polónia, Estónia e a Hungria estão entre os países 30% a 50% distantes do nível médio de vida dos europeus. Um terceiro pelotão de países está na cauda da Europa dos 27. Roménia e a Bulgária têm menos de metade do poder de compra dos europeus (...) Nos próximos 17 anos - de acordo com um cenário de médio prazo - prevê-se que Portugal volte a crescer, anualmente, abaixo da Zona Euro. Se assim suceder, nas próximas duas décadas os portugueses não conseguirão fazer progressos na convergência rumo ao estilo de vida europeu.» (Diário de Notícias)

De mal a pior

  • «Portugal e a Grécia correm o risco de estar a entrar num ciclo de baixo crescimento económico e dívida cada vez mais insustentável, que faz com que nem o facto de pertencerem à zona euro lhes sirva de protecção, avisou ontem a agência internacional de notação financeira Moody"s.  (...) Para a agência, os dois países, mesmo tendo atravessado sem danos muito graves a crise financeira, poderão vir agora a enfrentar dificuldades maiores do que os seus parceiros do euro. "Apesar de o euro os ter protegido durante a crise de liquidez, não irá agora ajudar estes países a recuperar. Pelo contrário, poderá mesmo constituir uma perturbação", afirma o relatório, assinalando que "o risco agora é que possa vir a ocorrer uma lenta mas inexorável erosão da vitalidade económica, semelhante à que pode acontecer nos casos das cidades pequenas e sem competitividade dos grandes países".» (Público)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Revista de blogues (14/12/2009)

  1. «Se eu e outros como eu consideram que o Prémio Pessoa 2009 foi atribuído a Manuel Clemente mais como uma ofensiva catolicista que nos prepara um 2010 beato, com papa e circunstância, e que corroa o laicismo constitucional, do que um reconhecimento isento e prestigiante de méritos próprios, isso não diminui nem ofende o premiado, se ele for eucuménico e com uma tolerância tamanha que abranja os incréus, os jacobinos, os blasfemos e até os carbonários do tempo presente, todos cidadãos com direito à vida.» (ÁguaLisa)
  2. «Jogos de aritmética parlamentar levaram a que o orçamento rectificativo autorizasse um aumento de 79 milhões de euros no limite de endividamento da Madeira – uma das regiões nacionais com mais elevado índice de desenvolvimento - com os votos favoráveis do PS, contra do BE e a abstenção dos restantes grupos parlamentares.
    Enquanto este negócio se consumava, o Ministro das Finanças denunciava o
    regabofe despesista nessa região.
    Alguma descoordenação política e uma visível inexperiência começa a vir à tona nestes processos negociais…
    » (Ponte Europa)

Berlusconi

Se calhar não devia alardear aqui as minhas fraquezas, mas ver a cara de Berlusconi, depois de levar com uma igreja nos dentes (ironia deliciosa) deu-me um prazer enorme.

Depois de ter escrito aqui duas linhas sobre o ignóbil Blair, que nos vendeu o ambiente, a economia e a paz à indústria americana e agora se passeia pelo mundo com dezenhas de milhões de libras dos energúmenos a quem ele nos vendeu o futuro, ver este boçal, este mafioso aliado dos fascistas e da extrema-direita religiosa, levar com uma igreja na cara, deu-me um prazer enorme. Pode não ser um prazer civilizado, mas é um grande prazer. :o)

Camus contra Sarkozy

O ateu Michel Onfray toma posição contra o projecto de Nicholas Sarkozy de transferir o cadáver de Albert Camus para o Panteão francês.
  • «Camus parlait en effet dans L'Homme révolté de la nécessité de promouvoir un "individualisme altruiste" soucieux de liberté autant que de justice. J'écris bien : "autant que". Car, pour Camus, la liberté sans la justice, c'est la sauvagerie du plus fort, le triomphe du libéralisme, la loi des bandes, des tribus et des mafias ; la justice sans la liberté, c'est le règne des camps, des barbelés et des miradors. Disons-le autrement : la liberté sans la justice, c'est l'Amérique imposant à toute la planète le capitalisme libéral sans états d'âme ; la justice sans la liberté, c'était l'URSS faisant du camp la vérité du socialisme. Camus voulait une économie libre dans une société juste. Notre société, Monsieur le Président, celle dont vous êtes l'incarnation souveraine, n'est libre que pour les forts, elle est injuste pour les plus faibles qui incarnent aussi les plus dépourvus de liberté. (...)» (Le Monde)

Se a justiça fosse cega...

Blair ainda se tramava. Mas infelizmente para nós, os ricos estão acima da justiça.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ainda a assistência espiritual nos hospitais

Fernanda Câncio sobre o recuo do Governo PS face às exigências do clericalismo:
  • «(...) Mas o burburinho surtiu efeito: o pré-diploma foi, como disse na altura Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, "metido na gaveta". Dois anos passaram. E eis que em Setembro último, em plena campanha para as legislativas, era publicado um novo regulamento, desta vez sem arrufos nem alarde. À primeira vista, parece ter mudado pouco. A extinção do cargo de capelão mantém-se; o direito a assistência religiosa de qualquer confissão está estatuído, assim como o direito a recusá-la; as unidades de saúde devem ter local específico para essa assistência (sem símbolos religiosos específicos de qualquer confissão) e local de culto misto. Só que, se os pacientes podem requerer a assistência de qualquer confissão, nem todos os assistentes têm direito a remuneração - só os que se encontrem vinculados à unidade "por contrato". E que contrato é este? É "um regime de contrato de trabalho em funções públicas" ou "contrato de prestação de serviços". E o critério? Um assistente por 400 camas - e "respeitando a representatividade de cada confissão religiosa". Tradução: as unidades de saúde vão continuar a contratar assistentes católicos em exclusivo e em permanência e os pacientes de outras confissões poderão continuar a fazer o mesmo que antes: a pedir que lhes chamem a sua gente, que virá de graça e é se quiser. Igualdade religiosa, faz de conta. Quanto à moral da história, é muito boa. Mentira, chantagem e cobiça não só não são pecado como dão lucro. E o governo laico socialista tem dias.» (Diário de Notícias)
Em rigor, a situação é pior do que a explicada por Fenanda Câncio: 1) a ICAR mantém a gestão das capelas que já tem em estabelecimentos do Estado; as outras confissões ficam com um gabinete; 2) o modelo encontrado para os hospitais foi também aplicado às forças armadas e prisões, e estendido para as forças de segurança, onde anteriormente não existiam «capelanias».
Realmente, como «laicos» como os do PS de Silva Pereira - que foi quem realmente negociou estes diplomas- o clericalismo tem a porta aberta no governo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Tudo como dantes, bloco central em Abrantes

Está encontrada a solução: PS+PSD+CDS>115. Com as abstenções do PSD e do CDS, o PS aprova o orçamento rectificativo. Fica tudo bem. Depois de uma viragem eleitoral à esquerda, uma viragem governamental à direita. Povo de esquerda, governo de direita. O BE agradece.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Revista de blogues (9/12/2009)

  1. «O ateu, aquele que nega a crença na existência de deuses, seja um, seja mais de um, não parte do princípio que tem de provar cientificamente e racionalmente que não existe um deus ou que não existem vários deuses.
    Pelo contrário, o ateu constata que não há nada de racional e de científico na crença que afirma, precisamente, a existência de tais divindades. Como facilmente se compreende, o ónus da prova não é do ateu, mas de quem afirma a existência de seres transcendentais.» (Jugular)

  2. «O facto de nunca ter votado em Cavaco Silva nem no seu partido não belisca a consideração pela legitimidade que ele teve para governar e agora possui para nos presidir. Como não diminui o meu direito à indignação, laica, perante o anúncio de que Sua Excelência, o Presidente da República, durante a visita papal, vai utilizar a força do seu cargo institucional, obtida por eleição numa república laica e democrática, para funcionar como diácono coadjuvante da Eminência dos católicos, em todos os passos, incluindo os de natureza religiosa, que este der. Esse papel de presidente-sacristão não o dignifica nem dignifica os portugueses. Será apenas mais uma fraqueza catolicista de reverência bimba e beata do actual inquilino provinciano de Belém.» (Água Lisa)

PS+CDS+...>115

Anunciada a abstenção do CDS no orçamento rectificativo (abstenção e não voto a favor), o PS ainda precisa de mais qualquer coisita para passar entre os pingos de chuva sem se molhar (as abstenções do BE ou do PSD chegam, a da CDU não).
Enfim. O momento é da teoria de jogos. Vários dilemas do prisioneiro em perspectiva. Como se sabia desde as eleições de Setembro.
Seja como for, isto não pode durar. A fronteira final é a eleição presidencial. Depois, aconteça o que acontecer, muda-se de jogo.

A nação e a tropa

Têm razão Fernando Rosas e o BE: as forças armadas portuguesas só devem sair para o estrangeiro com a autorização prévia do Parlamento. Atribuir à prerrogativa do Governo e do PR a movimentação de tropas em tempo de paz é colocar um poder excessivo nas mãos do poder executivo.
A nação é representada pelo Parlamento, não pelo Governo, e é aos representantes da nação que cabe decidir se e quando as forças armadas saem do país. Mas eu iria mais longe do que o BE e exigiria dois terços dos votos dos deputados.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A morte do vegetarianismo?

A carne artificial vai chegar em 2014. Contorna a maior parte das objecções éticas geralmente levantadas ao consumo de carne: não exige que se mate um animal para comer a sua carne; reduz as emissões de metano devidas à criação de gado. Será que o vegetarianismo se vai transmutar em artificialismo? Ou vai desaparecer enquanto filosofia de vida?

Glenn Beck

Acho que foi Bertrand Russel que escreveu que os cientistas estão sempre cheios de dúvidas e os ignorantes de certezas. Ver o vídeo abaixo deu-me vontade de rir porque pensei em pessoas com Bill Maher, que não têm deixado de sublinhar a estupidez demente e criminosa dos comentadores da extrema direita. Um dos anormais que tem aparecido na televisão a defender as vantagens da poluição e a inventar teorias conspirativas completamente anormais é um ex-alcoólico completamente ignorante, chamado Glenn Beck, que convida os amigos do Ku-Klux-Klan para o programa e chora porque acha que o Obama é um Hitler que quer dar seguros de saúde a todos os americanos.

Bill Maher descreve-o com muita sensatez aqui:

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Aquecimento Global - Aqueles mails

Muito se tem escrito a propósito dos e-mails que vieram a lume.
Aconselho qualquer um que se queira volta a pronunciar a esse respeito (como os Ricardos que aqui escrevem*) a ver este pequeno video sobre esse assunto:



* ;)

Existem coincidências!

  • «José Sócrates também trocou de telemóvel no mesmo dia em que Armando Vara e outros arguidos do processo ‘Face Oculta’ mudaram de aparelho.» (Sol)

Aquecimento Global

Aqui nos EUA as empresas poluidoras têm conseguido baralhar a mensagem, acusar os cientistas de alarmismo, estupidez e incompetência, e penso que já bloqueram qualquer boa intenção da administração Obama. Apesar da emissão de CO2 per capita dos EUA ser 8 vezes maior que a da China, os chineses estão a ser culpados nos media pelos problemas todos do planeta (mesmo o aquecimento global que, segundo as empresas, é um problema que não existe).

O costume. Os americanos do campo (a maioria) são umas crianças grandes, mas devem ter percebido que alguma coisa se passa, porque as sondagens mostram que uma percentagem crescente não quer falar disso, levanta a voz quando se fala no assunto e desata a insultar os cientistas e a ciência com invectivas irracionais.

Contudo, se se lhes pergunta se apoiariam subsídios às energias "verdes", mais de 90% diz que sim.

Excepto aqui no Texas, bem entendido. Como Deus é texano e fez a natureza para nós a destruirmos, o pessoal despreza os maricas e os comunistas que dizem palavras incompreensíveis como "sustentabilidade" e continua a comprar carros do tamanho de casas e a deixar o motor a trabalhar quando vão ao supermercado (com o ar condicionado no máximo). E o nosso governador anda há dois anos a tentar implementar, com um entusiasmo evangélico, mais centrais térmicas a carvão.

domingo, 6 de dezembro de 2009

«Aquecimento global»

Parece que amanhã vai haver barulho. Em estereofonia.

Do antidemocratismo: autoritarismo e desigualdade

O Ludwig Krippahl tem razão: uma associação de ateus que divide os sócios em escalões, dando dez votos aos fundadores e um aos recém-inscritos, dá mau nome ao ateísmo. Uma associação de ateus que não defenda os valores de liberdade e igualdade, e sim os de autoritarismo e desigualdade, não me representa enquanto ateu.
Felizmente que me demarquei, em devido tempo, da «Associação Portal Ateu». A Associação Ateísta Portuguesa, pelo contrário, continuará a merecer o meu apoio de ateu democrata que sou, enquanto continuar a ser dinamizada por pessoas como o Carlos Esperança e o Ludwig Krippahl, entre outros.

Jesus causa problemas no Alabama

Toda a gente conhece a América de Hollywood, da NASA, do Frank Lloyd Wright, de Nova Iorque, do John Coltrane, do Miles Davis e do Woody Allen. Mas há outra: a que votou no Bush, que acredita que o mundo tem seis mil anos e que vê os 'talk shows' da FOX. :o) A história de hoje é de uma senhora chamada Dorothy Killingworth que mudou o nome para Jesus Christ e foi expulsa de um juri em Birmingham, Alabama... :o)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

olho por olho...

«[...] Manuela Ferreira Leite foi questionada sobre a acusação do PS de que teve acesso prévio ao teor dessas escutas. “O problema que está em causa não tem a ver com o acesso às escutas - tem exactamente a ver com o facto de o povo português não conhecer o conteúdo das escutas”, respondeu a presidente do PSD. [...]»

[PÚBLICO.PT --- 03.12.2009]


comentário: agora que penso nisso, o "povo português" também não conhece o conteúdo das conversas privadas que mfl manteve com cavaco silva no que diz respeito, por exemplo ... ora deixa lá ver ... ao "caso fernando lima". estará mfl disposta a ser coerente e publicá-las?

mas porque não se entendem?

«[...] Francisco Louçã [...] tornou públicos quatro projectos-lei de combate e prevenção da corrupção [...] O líder dos bloquistas revelou [...] que levará os projectos de lei para votação na Assembleia da República, no próximo dia 3 de Dezembro [...]

Uma das propostas do BE advoga o levantamento do sigilo bancário, através de um modelo que é semelhante à lei espanhola e em que as instituições bancárias comunicam duas vezes por ano ao fisco os movimentos dos depósitos de clientes, em comparação com as declarações de IRS. [...] [O]s serviços da administração fiscal só verificarão os casos em que existir uma discrepância significativa.

No que diz respeito ao crime de enriquecimento ilícito, Francisco Louçã esclareceu que o BE não defende a inversão do ónus da prova - inversão essa que a lei criminal rejeita - sublinhando no entanto que consagrar este tipo de crime é "extremamente importante". [...] [É] a acusação que tem de demonstrar a ilicitude do enriquecimento, que, a existir, contribuirá para o cúmulo jurídico.

Uma terceira proposta prende-se com "o fim da protecção das luvas", que [...] mais não é do que acabar com a distinção entre corrupção para acto lícito e corrupção para acto ilícito. [...] A proposta visa que a corrupção para acto lícito não seja tratada como uma infracção "pequena e benévola" e é por isso que o BE quer que haja "um único crime de corrupção" em todas as circunstâncias [...]»


[RTP --- 15 Novembro '09]


«[...] O PS vai apelar, esta quinta-feira, ao Bloco de Esquerda para aceitar que as propostas integradas no pacote anti-corrupção baixem à comissão sem votação, caso contrário os socialistas votarão contra todos estes diplomas. [...]»

[TSF --- 03.12.2009]


«[...] O Parlamento aprovou, esta quinta-feira, na generalidade o projecto de lei do BE para acabar com a distinção entre corrupção por acto lícito e ilícito, diploma que foi viabilizado pela oposição parlamentar. [...] O projecto-lei bloquista teve os votos contra do PS, mas contou com a abstenção do CDS-PP, o que permitiu a sua viabilização. [...]

A votação dos diplomas do BE e PCP que criam o crime de enriquecimento ilícito e do projecto do Bloco que determina o levantamento do sigilo bancário como instrumento para o combate à fraude fiscal foram adiadas para a próxima semana.

Ao justificar este adiamento, José Manuel Pureza disse que o Bloco quer dar mais uma oportunidade ao grupo parlamentar do PS para que se junte ao BE «neste combate». [...] No Parlamento, o PS disse que está disponível para encontrar soluções para a criminalização do enriquecimento ilícito que não inverta o ónus da prova. [...]»


[TSF --- 03.12.2009]


comentário: sempre estive em total acordo com a "teimosia" do PS no que diz respeito a impedir a inversão do ónus da prova na questão do enriquecimento ilícito. parece-me claro que, com o sistema judicial que temos, tal inversão iria rápidamente gerar uma quantidade doentia de processos que fariam de kafka um simples e infantil optimista.

mas, se esse ponto parece poder ser ultrapassável, ultrapassa-me também porque não se entendem agora o bloco e o PS. é que, mesmo de um ponto de vista puramente eleitoralista por parte do PS, avançar com um forte pacote de medidas anti-corrupção ---e para além de um colectivo suspiro de alívio nacional em som de "finalmente!"--- iria encerrar o que tem sido uma das principais bandeiras políticas do BE...

entendam-se! e aprovem as medidas.

ah! e já que estão nisto, entendam-se também com estas questões (pendentes há demasiado tempo):


«[...] Como se pode esperar que sejam vistos como legítimos os pedidos de mais sacrifícios salariais aos funcionários públicos se não se combater a injustiça fiscal? Introduza-se então um novo escalão de IRS de 45%, siga-se a recomendação dos peritos e taxe-se as mais-valias bolsistas e outros rendimentos de capital em 20%, tenha-se a coragem de ir para além das suas recomendações: um imposto sobre as grandes fortunas, um imposto sucessório bem desenhado, uma taxa de solidariedade a recair sobre os consumos conspícuos, uma taxa sobre os bónus dos gestores. Garanta-se que os bancos pagam uma taxa de IRC semelhante às restantes empresas [...] Assuma-se também que as contas bancárias não podem ser, muito menos em tempos de crise, um segredo de família. [...] Voltemos ao slogan socialista a recuperar: os ricos que paguem a crise. Também. [...]»

[João Rodrigues | Ladrões de Bicicletas --- 25 de Novembro de 2009]

Uma mentira, repetida em muitos blogues, acaba por se tornar verdade?

Alguém me pode explicar o raciocínio deste texto? De onde é que se conclui, das suas afirmações, que o deputado do PS conhece o teor das escutas? Ricardo Rodrigues está admirado, obviamente, por Manuela Ferreira Leite falar como se soubesse o conteúdo das escutas (não por "o primeiro ministro estar a mentir"). São coisas diferentes. Mas a má interpretação de um texto pega-se e repete-se. Esta gente não tem um mínimo de sentido crítico? A falta que faz a matemática obrigatória até ao 12º ano!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Perdoai-lhes homens, que elas não sabem do que falam






(Dedicado à Ana Vidigal; a propósito de uma discussão sobre excisão e circuncisão.)

Os ex-comunistas (não) são um perigo

Segundo um colega de blogue de Mário Lino:
  • «(...) sublinhe-se a ordem de valores que Mário Lino preserva da militância comunista (disciplina, honestidade e sentido da responsabilidade) inteiramente compatíveis com o desempenho de quaisquer funções. É algo que sempre me impressionou nas reivindicações públicas de alguns ex-comunistas. Neles permanece o que melhor se pode aproveitar no convento, no seminário ou numa academia militar. Entrega, disciplina, acatamento das consignas superiores. Quanto à base programática e ideológica, zero. Fica-se às vezes com a impressão que o mundo entretanto deu uma volta e a natureza do capitalismo se alterou. Socialistas de esquerda, bloquistas e comunistas teriam perdido por completo a razão quando apontam a fundamental imoralidade do desprezo pelos trabalhadores e pelo trabalho que parece ter feito escola nos últimos tempos. Sobre o capitalismo, nem uma palavra. Até parece que estamos cá todos, felizes e contentes, a gerir como nos mandam uma sociedade que não pode mudar.» (PuxaPalavra)
E assim se conclui que a direita nada tem que temer dos ex-comunistas quando chegam aos respeitáveis governos da lusitana social-democracia. Do PCP não terão guardado nada da ideologia, e tudo do espírito de corpo militar.

    terça-feira, 1 de dezembro de 2009

    Os que dão mau nome à ciência

    Delgado Domingos:
    • «(...) O que sucedeu em 1967 em Lisboa e se repete cada vez mais agravado por esse mundo fora não é devido a emissões de CO2eq ou alegado aquecimento global.
      É devido simplesmente ao facto de fenómenos climáticos naturais, que sempre existiram, terem efeitos cada vez mais catastróficos porque as acções humanas sobre o território criaram as condições para isso ao desflorestarem as cabeceiras de rios (que agravaram o seu assoreamento e as consequentes inundações), ao aumentarem os riscos de deslizamento das encostas (porque eliminaram a vegetação que as estabilizava), ao construírem cada vez mais em leitos de cheia, e ao provocarem alterações cada vez mais extensas e profundas no uso do solo. 
      (...)

      ###

      Em termos científicos, o que os emails revelam são os esforços concertados dos seus autores, junto de editores de revistas prestigiadas, para não acolher publicações que pusessem em causa as suas teses ou os dados utilizados pelo grupo, recorrendo mesmo a ameaças de substituição de editores ou de boicote à revista que não se submetesse aos seus desígnios.
      Propuseram-se mesmo alterar as regras de aceitação das publicações para consideração nos Relatórios do IPCC de modo a suprimir as críticas fundamentadas às suas conclusões. Em resumo, procuraram subverter, em seu benefício, toda a ética científica da prova, da contraprova e de replicação de resultados que está no cerne do método científico, controlando o próprio processo da revisão por pares.
      Em conjunto, conseguiram impedir que fossem publicados a maioria dos dados e conclusões que pusessem em causa e com fundamento o seu dogma do aquecimento global devido às emissões de CO2eq. 
      (...)
      O comportamento escandaloso e intolerável de um grupo restrito de cientistas que atraiçoaram o que de melhor a Ciência tem só foi possível porque um grupo de políticos, sobretudo europeus, criou as condições para o tornar possível.
      (...)
      Seria também irresponsável agir como se as consequências da variabilidade climática e da utilização desbragada de combustíveis fósseis tivesse desaparecido com a revelação do escândalo. Muito pelo contrário. (...)» (Expresso)

    Suíça: um recuo para a laicidade

    Há quem (por exemplo, em Itália), não perceba por que é que remover crucifixos de salas de aula é muito diferente de proibir a construção de minaretes. Algumas razões.
    1. Proibir torres de uma religião e não de todas é discriminar negativamente uma religião; remover crucifixos das salas de aula põe fim à discriminação positiva de uma religião e deixa as religiões em igualdade na escola. Todas as discriminações positivas de uma religião são negativas para as outras; todas as discriminações negativas de uma religião são positivas para as outras.
    2. Uma escola (pelo menos, se for pública) existe para difundir o conhecimento; uma igreja ou uma mesquita existem para difundir a respectiva religião. É por servirem funções diferentes que não se exige para os templos religiosos o que se exige para a escola pública.
    3. Uma escola pública é um espaço onde os alunos são obrigados a estar; ninguém é obrigado a passar por uma mesquita, e muito menos a entrar nela (já mudei de caminho para não passar em Finsbury Park).
    4. Os crucifixos foram colocados nas escolas (portuguesas ou italianas) por decisão, estatal, de ditaduras defuntas. Compete ao Estado tirar o que mandou pôr. Construir templos é da competência das comunidades religiosas, dentro dos limites legais que devem ser iguais para todos.

    Os suiços e os minaretes

    Acho que o Ricardo tem toda a razão: a proibição dos minaretes na Suiça é xenofobia pura. E é natural que estes actos se repitam à medida que a demografia vai influenciando a guerra entre o laicismo e o islão.

    Não me admirava muito se dentro de uns anos não estivéssemos aqui a pedir actos semelhantes aos oligarcas da EU. Como escreve o Ricardo, também com muita razão, a democracia sem laicidade é perigosa para as minorias. Parece-me natural que nos círculos eleitorais europeus onde o islão ganhar terreno se comece a sentir a pressão e se instale o mal estar.

    Como aqui nos EUA, no sul profundo, onde a maioria evangélica impõe a sua vontade aos outros e torna os "pecados" ilegais, ou distorce a lei para perseguir as minorias.