domingo, 29 de Novembro de 2009

Sobre o 25 de Novembro

Quanto mais leio sobre o 25 de Novembro, mais me convenço de que os pára-quedistas de Tancos fizeram um enorme favor a toda a gente (mesmo aos extremos aparentemente mais sedentos de sangue), ao possibilitarem que tudo se «normalizasse» nas Forças Armadas sem desastres de maior. Até talvez lhes devessemos fazer uma estátua por terem aliviado, cirurgicamente, a tensão que se acumulava e poderia facilmente descambar. Este ano, o texto mais interessante sobre o 25 de Novembro apareceu no Público e lê-se ali. Conclusão:
  • «Apesar de todos os mistérios que persistem, visto de hoje o 25 de Novembro parece antes de tudo uma imensa encenação, em que, tacitamente, todos, da extrema-esquerda à extrema-direita, conspiraram para o mesmo desfecho. Como se estivessem cansados, e optassem pela paz.»
Evidentemente, à direita (e a alguma esquerda) interessa usar a tese do «golpe da esquerda radical a 25 de Novembro» como argumento para excluir do espaço do poder as forças à esquerda do PS. À medida que os anos passam e as provas do pretenso «golpe» tardam em aparecer, o argumento perde força. E, se um dia se descobrir que boa parte da direita conspirou, depois da «normalização» do 25 de Novembro, para fazer algo semelhante ao «23-F» espanhol, quero ver como vão descalçar a bota.

Não se defende a liberdade destruindo a liberdade

Sou anticlerical e, em certa medida, anti-religioso. Mas não me regozijo com o resultado do referendo sobre os minaretes na Suíça: a liberdade não é liberdade sem igualdade. Se se entende que os minaretes serem um símbolo de poder (que são, sem dúvida) é razão suficiente para os proibir, então deveriam ter-se proibido também as torres das igrejas cristãs (que têm exactamente o mesmo significado). Interditar a construção de edifícios de uma determinada confissão religiosa, mas não de outra, chama-se discriminação.

O voto suíço contra os minaretes (57%) não é, portanto, uma expressão de laicismo. Quando muito, será de xenofobia ou, talvez, de rejeição (mal dirigida) do fundamentalismo islâmico. E se há sem dúvida um enorme debate a fazer sobre o islamismo, a submissão-humilhação das mulheres nessa religião (e noutras), os casamentos forçados, a ausência de liberdade religiosa nos países de população muçulmana, e a tibieza com que os responsáveis muçulmanos «moderados» se exprimem sobre o terrorismo de inspiração islâmica, todavia construir locais de culto com forma exterior de templo não deixa de ser um direito das comunidades religiosas, e proibir minaretes é restringir a liberdade religiosa, ou seja, a laicidade (se a volumetria é excessiva ou o mau gosto muito gritante, há as autoridades municipais; que falham). Mais facilmente defenderei a proibição do véu islâmico ou da burca, que são sinais de fundamentalismo, do que a proibição da construção de minaretes ou de mesquitas, que atinge por igual todos os muçulmanos, civilizados ou fundamentalistas.

Posto isto, não deixa de ser verdade que uma boa parte dos muçulmanos sonha  em ver-nos agachados no chão na direcção de Meca, e que o seu sector fundamentalista constitui uma ameaça à liberdade. Mas a solução não é proibi-los: é mandá-los estudar Darwin e Voltaire (de preferência, sem véu).

  • «A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Reino. Todas as outras Religiões serão permitidas aos Estrangeiros com seu culto doméstico, ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de Templo.» (Carta Constitucional, em vigor até 1910)
  • «É também livre o culto público de qualquer religião nas casas para isso destinadas, que podem sempre tomar forma exterior de templo (...)» (Lei de Separação, 1911)

Democracia sem laicidade, ou laicidade sem democracia?

O dilema dos países de população muçulmana:
  • «Entre la Turquie, le Maroc, l’Algérie et la Tunisie, on voit bien que ceux qui s’en sortent bien, sont ceux qui ont sécularisé avant de démocratiser. Si vous démocratisez sans séculariser, comme l’Algérie en 1991, vous donnez les clefs à un régime totalitaire qui ne les rendra jamais. A l’inverse, si vous sécularisez sans démocratiser, comme en Turquie ou en Tunisie, vous nourrissez aussi une alternative religieuse… Mais elle est moins dangereuse qu’en Algérie. L’AKP au pouvoir, ce n’est pas le FIS au pouvoir. Le gouvernement tunisien devrait comprendre qu’il est temps de démocratiser… Pendant ce temps, l’Algérie, qui n’a ni démocratisé ni sécularisé, se trouve dans une impasse totale.» (Caroline Fourest na ReSPUBLICA)

Duplicidade de critérios

O mesmo Ministério da Administração Interna que multa os cidadãos que estacionam o carro em cima do passeio auto-atribuiu-se o direito de estacionar em cima do passeio na Baixa de Lisboa. Até colocaram uma plaquinha para se auto-autorizarem a fazer o que eu presumo que seja uma ilegalidade. Ver no blogue Passeio Livre.

sábado, 28 de Novembro de 2009

O país dos doidos

Portugal é um país cheio de doidos que se orgulham de conduzir depressa, de violarem as regras de trânsito e de se colocarem a si próprios e aos outros em risco. Uma sub-casta de doidos, por conduzir veículos do Estado que costumam carregar os que «fazem as leis», acha-se «acima das leis» e não hesita em fazer ralis em plena Avenida da Liberdade.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Os mesmos valores, prioridades diferentes

De leitura indispensável esta entrada do Arrastão. Da minha parte, não só por causa do texto do Daniel Oliveira em si, mas sobretudo por causa da discussão que se segue (no que diz respeito à Alemanha - o caso francês referido parece ser mais um fait-divers sarkozyano). Sobretudo com o comentadores Bossito e JP, com quem estou de acordo. Valores como a igualdade básica e a liberdade de imprensa não podem ser relativizados. Ao pé desta discussão fundamental - como deve a Europa tratar os seus imigrantes? - , a do véu islâmico (onde mais uma vez defendo a não relativização da igualdade básica) parece marginal. Mas sempre a vi como fundamental, pois evidencia as diferentes concepções sobre integração de imigrantes e diferentes culturas em vista. Esta é uma questão a que, cada vez mais urgentemente, a esquerda não pode fugir. Quanto mais tempo esta discussão demorar, mais a extrema direita subirá.
"Quem fala assim certamente nunca perdeu o emprego para mão de obra mais barata vinda do estrangeiro. O perigo da esquerda continuar a alimentar estas visões completamente irrealistas, alienadas e sem qualquer possibilidade de aplicação prática sobre as questões da imigração, está precisamente em deixar para as mãos da direita o exclusivo do tratamento do tema. Isso sim, assusta-me."

"O que se defende aqui (e reparará que a maioria defende uma solução de “bom senso”) é que a abertura é bem vinda desde que, pela sua quantidade, não degrade as condições de vida, e pela sua qualidade, não ponha em causa os direitos liberdades e garantias que tanto custaram a conquistar. (...)O argumento (do nosso lado digamos assim) é que quem defende o mesmo que o Daniel geralmente vive em locais pouco afectados por aquilo que defende (acontece o mesmo com a localização dos bairros sociais ou com a co-incineração. São óptimos mas niguém os quer ao pé de casa.)."

mérito? quéisso?

«[...] "Todo o documento assenta no princípio de uma carreira única", acabando a divisão entre professor e professor titular, disse João Dias da Silva aos jornalistas no final de uma reunião no Ministério da Educação.

Este foi um dos pontos apresentado como positivo pelo dirigente da FNE, segundo o qual a proposta que o ministério hoje entregou à federação manifesta abertura para o diálogo: "Não é um documento fechado, vamos reunir e elaborar uma contra-proposta". [...]»


[RTP --- 25 Novembro '09]


sugestão: sugiro que na contra-proposta também se assegure que nas universidades só vamos ter professores catedráticos, acabando com essa chatice dos auxiliares e associados. e que nas forças armadas só vamos ter militares generais... ser sargento ou coronel é tão démodé. bem, já que estamos nisto, bom bom era tudo a entrar directo para chefe; toda a gente sabe que receber ordens é uma seca!

Entretanto, num café da Avenida de Roma...

...Parece que Fernando Lima não tomou um café a mais. Pelo contrário, até parece que alguém lhe pagou o café. E não foi o jornalista do Público.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Comunista homenageia Cerejeira

Parece que já nem os comunistas se recordam do que foi o Estado Novo e do papel que desempenhou a ICAR e um certo cardeal Cerejeira: um vereador CDU da Câmara Municipal de Almada esteve presente na inauguração clericalista de um busto do cardeal fascista Cerejeira, junto ao horrendo «Cristo-Rei». E teve palavras simpáticas: «este é um momento importante para a nossa terra. Portugal está mais rico e a nossa cidade também».
Ainda hei-de ver o Jerónimo de joelhos em Fátima. Ou os comunistas ao lado da ICAR contra os ricos, os homossexuais e a burguesia. Tudo é possível.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

On the Origin of Species

Foi publicado há precisamente 150 anos!

Os ingleses fizeram um filme a comemorar os 150 anos da publicação deste livro (hoje) e os 200 anos do nascimento de Darwin (em 12 de fevereiro de 1809).

Nos EUA não vamos poder vê-lo porque não há distribuidor.

Dawkins, em 2007: "I'm a biologist, and the central theorem of our subject: the theory of design, Darwin's theory of evolution by natural selection. In professional circles everywhere, it's of course universally accepted. In non-professional circles outside America, it's largely ignored. But in non-professional circles within America, it arouses so much hostility -- (Laughter) -- that it's fair to say that American biologists are in a state of war. The war is so worrying at present, with court cases coming up in one state after another, that I felt I had to say something about it."

a defesa intransigente dos interesses do estado

«[...] O financiamento da compra dos dois novos submarinos foi adjudicado, durante o governo de Durão Barroso, pelos ministros da Defesa, Paulo Portas, e das Finanças, Manuela Ferreira Leite, ao consórcio bancário, que apresentou uma proposta de spread de 1,9%.

Já depois de adjudicado, o consórcio bancário [composto pelo Crédit Suisse e pelo Banco Espírito Santo] quis aumentar o spread (de 1,9% para 2,5%), Paulo Portas autorizou este aumento do spread e, portanto, do lucro dos bancos do consórcio.

O jornal "Sol" fez as contas e concluiu que os dois bancos terão aumentado os lucros num mínimo de 25 milhões de euros, à custa do Estado. [...]»


[Esquerda.Net --- 20-Nov-2009]


questão: terá PP sido igualmente generoso no que diz respeito ao empréstimo da sua casa?

promessas adiadas

«[...] Foi a primeira ordem que assinou na Casa Branca, mas vai ficar por cumprir. Barack Obama admitiu ontem, pela primeira vez, que não conseguirá encerrar a prisão de Guantánamo até Janeiro, o prazo por ele próprio estabelecido.

Numa entrevista em Pequim, à Fox News, o Presidente dos EUA recusou comprometer-se com uma nova data [...]

Obama notou que os maiores problemas são "técnicos". A Administração não conseguiu encontrar uma solução para os problemas legais que se colocam ao julgamento dos suspeitos terroristas. Nalguns casos as provas da acusação foram obtidas através tortura o que torna impossível uma condenação num tribunal civil. [...]»


[Diário de Notícias --- 19 Novembro 2009]


comentário: esperemos que não seja a primeira de muitas...

«A Ideia de República: de 1910 aos nossos dias», conferência no dia 28 de Novembro

Estarei na Biblioteca-Museu República e Resistência(*), no dia 28 de Novembro às 16 horas, para apresentar uma conferência sobre «A Ideia de República: de 1910 aos nossos dias» (em representação, evidentemente, da Associação República e Laicidade).
(*)  Espaço Cidade Universitária da Biblioteca Museu República e Resistência: Rua Alberto de Sousa, 10A, Zona B do Rego (Metro: Cidade Universitária).

Notícias

Uma das coisas mais irritantes do jornalismo é a falta de diversidade de opiniões. Chego a casa, passo os olhos pelo Guardian, o Monde, o El País e o Huffington Post, e o ponto de vista é sempre o mesmo: o dos magnatas que controlam os jornais politicamente.

sábado, 21 de Novembro de 2009

Gostos discutem-se, sim senhor

Eu acho o trabalho do arquitecto Troufa Real horrível. Acho que, como dizia um pintor que conheci, ele 'tem muito gosto, mas é do mau'. Pessoalmente estou-me nas tintas para a nova igreja (é para ficar vazia como as outras), até porque não se vê do Texas, onde vivo, e Lisboa cada vez parece menos a cidade onde vivi e me diverti tanto.

Quando andava no Técnico fartei-me de experimentar grupos de pessoas e uma vez frequentei um curso na Gulbenkian com um título como 'ver a arte' ou coisa que o valha. Nesse curso lembro-me de o Eduardo Nery dar uma aula sobre o 'mau gosto' com uma sensatez enorme. A definição dele, que mais tarde li em muitos livros e artigos diferentes, era que 'mau gosto' queria dizer desadequado. Ou seja, uma coisa de mau gosto era uma coisa mal pensada, um macaquear de um modelo erudito mal compreendido, uma imitação barata.

Acho que muitos de nós já sofremos a experiência de vermos no teatro uma peça encenada por um encenador que não a percebeu: um exemplo típico de 'mau gosto'.

O pós-modernismo português foi isso mesmo: um macaquear de experiências eruditas de arquitectos com talento (na maior parte falhadas, até porque pretendiam basear-se num olhar erudito que parodiava, ironizava e reutilizava outras linguagens, portanto sempre muito próximo do mau gosto por definição).

Os pós-modernos portugueses eram confrangedores na simplicidade tonta com que imitavam os gurus da moda e deixaram-nos um sem número de edifícios sem pés nem cabeça, com pilares em frente das janelas, cantos esconços onde não se pode viver, fachadas horríveis, materiais e tintas baratas que o sol queimou imediatamente, torres, chaminés e janelas torcidas, mal colocadas, que não fecham, jardins que nos projectos eram verdejantes e alegres e depois de construídos nos lembram Beirut Oriental, normalmente com montes de lixo das obras onde ao fim de cinco ou seis anos começaram a crescer ervas. Um horror terceiro mundista, onde cada edifício gritava "olhem para mim!" e transformava a cidade e o país ainda mais num caos de mau gosto, triste, sujo e disfuncional.

Depois de um curto período em que encheu as capas das revistas, o pós-modernismo morreu. Há muitos anos. Passou de moda, ficou esquecido como um beco da história da arquitectura que não levou ninguém a lado nenhum.

Mas parece que se esqueceram de dizer isto ao arquitecto Troufa Real. E agora Belém vai ter uma igreja com um minarete e um barco e uma onda no telhado - referências um bocado óbvias, para não dizer boçais, ao sítio e ao tema. Porque não um pastel de Belém gigante (em cima do barco)?

Pour épater le bourgeois. Pessoalmente, preferia que ele tivesse metido um padre e um menino de coro, nus. Mau gosto por mau gosto, acho que era mais divertido...

Mas enfim, levamos com o barco e o minarete e a onda. Até aquilo cair, daqui a uns anos. Até lá é um mamarracho horrível cuja única função é ser fotografado por turistas chocados.

Mais um mamarracho, menos um mamarracho... Lisboa tem sido projectada por desenhadores da construção civil e por arquitectos da E.S.B.A.L. (entretanto elevada inexplicavelmente a Fac. Arquitectura, onde os arqueitectos da E.S.B.A.L. depois se 'doutoraram' uns aos outros). Vá o diabo e escolha.

Acima de tudo acho que este projecto é triste porque é triste ver uma pessoa sem talento a tentar fazer-se engraçada. Este 'enfant terrible raté' só conhece um tipo de traquinices: pinceladas de tinta.

Troufa, Taveira e Graça Dias são só isso: eternos rapazes traquinas com ambições artísticas. A tragédia deles é que para se ser artista não basta fazermo-nos artistas...

:o) estava a pensar reler isto e contar os francesismos... de mau gosto? provavelmente! mas agora não vou corrigir isto.

Israelitas e palestinianos

A religião é uma coisa fantástica: este grupo de pessoas (israelitas e palestinianos) etnicamente tão próximas, está dividido em duas facções que interpretam a mensagem do mesmo deus de maneiras diferentes.

Há poucas semanas vi um documentário sobre Joseph Campbell em que ele defendia que a religiosidade era uma forma das pessoas se relacionarem com coisas que não têm explicações simples, como o facto de morrermos, a necessidade de termos que matar para comermos e, enfim, os conflitos entre as nossas paixões e as nossas necessidades. Nesse sentido, não tinha dúvidas sobre a importância da religiosidade, que tentava explicar ideias por metáforas, para podermos tenter percebê-las melhor, mas deplorava a religião, que resultava da incompreensão das pessoas que tomavam essas metáforas como factos.

Segundo ele, no original (a filosofia da primeira metade do primeiro milénio antes da nossa Era, na India), a "terra prometida" não era um projecto imobiliário. E a virgindade da Nossa Senhora não era um facto ginecológico.

São metáforas escritas por pessoas inteligentes, sobre a necessidade de tentarmos compreender a nossa condição com as imagens que o conhecimento que temos do mundo, em cada geração, nos permitem.

E estes idiotas - israelitas e palestinianos - agarram-se a duas versões de uma mesma religião, que foi concebida por pastores da Idade do Bronze num mundo que era um quadrado com 250 Km de lado, e matam-se uns aos outros com um ódio racista e fanático difícil de conceber.

Tenho amigos israelitas formidáveis, razoáveis, generosos, bons. Excepto quando se lhes fala de árabes. Há uns tempos li, não me lembro aonde, que em 1947 ou 48 Martin Bubber (um homem adorável e um filósofo que advogava a paz e a coexistência) se mudou para a casa dum poeta palestiniano que foi despejado para o efeito.

Esta recusa em ver 'os outros' como seres humanos - Thomas Friedman descreveu eloquentemente em 'From Beirut to Jerusalem' os arrepios que sentia quando os israelitas diziam 'arranja-se um árabe para fazer isso' - transformou o Médio Oriente num inferno de estupidez e brutalidade indiscritíveis.

E, por favor, não me venham dizer que uns são piores do que os outros. A estupidez e a brutalidade sociopata são atributos igualmente abundantes entre estes dois grupos de selvagens, racistas e sociopatas.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Como se deslocam os portugueses nas cidades europeias?

Há um mito – talvez seja mais correcto falar-se numa desculpa – para o hábito errado (pelo menos por parte de quem habita nas áreas metropolitanas de Lisboa ou Porto) dos portugueses se transportarem sempre de carro, para onde quer que vão. Não importa se os transportes públicos estejam cada vez melhores, pelo menos em Lisboa. O Metro está cada vez mais eficiente e com melhores ligações. Já se podem fazer transferências gratuitas entre autocarros. O serviço nocturno da rede de autocarros foi melhorado e ampliado. Os comboios suburbanos estenderam o seu serviço pela madrugada nas vésperas de fim de semana e feriados. Mas os portugueses – sendo que os lisboetas sem qualquer desculpa – insistem que o serviço de transportes públicos “não é adequado”. Dado que outros povos da Europa não exibem este comportamento e utilizam correntemente os transportes públicos, poderíamos ser levados a pensar que, apesar de tudo o que enumerei, o problema estaria nos transportes portugueses. Dado que “lá fora” se anda de transporte público, se tivéssemos transportes como “lá fora” talvez os usássemos. Quem continua a defender esta ideia (ou mais correctamente a usar esta desculpa) que explique este exemplo (a que cheguei via o Menos um Carro).

O horror islâmico

Desemprego vai continuar a subir

Quem o diz é a OCDE:
  • «O desemprego ultrapassará os 10 por cento em 2010. (...) Em 2011, com a economia a crescer 1,5 por cento, a taxa de desemprego voltará para níveis de apenas um dígito, ainda assim, deverá ser de 9,9 por cento.» (Público)
Não vou discutir os curiosos critérios de arredondamento dos economistas, porque o que me preocupa é que continuaremos com 550 mil ou mais desempregados. Não ter havido ainda uma explosão social só reflecte que Portugal tem hoje mais defesas do que em 1983 (rendimento mínimo, por exemplo). Mas esta percentagem de desempregados reflecte uma fraqueza da economia portuguesa que não é agradável.

Mamarracho católico isento de taxas municipais

A igreja-em-forma-de-caravela-em-vermelho-laranja-dourado-verde do Alto do Restelo ficou isenta de taxas municipais. No total, 198 mil euros. Ora bem. Com os 234 mil euros que a autarquia já assumidamente ofereceu, já vamos em 532 mil euros de contribuição da CML, por omissão ou acção, para o mamarracho do Alto do Restelo. Fora o terreno, que dada a zona e a área, deve ser mais ainda. E depois digam que o Estado não financia a ICAR...
P.S. Movimento de opinião contra o mamarracho: assina-se aqui.

Ainda sobre o aquecimento global

Segundo o melhor autor de divulgação científica no youtube:



Se não viram, vejam estes: os melhores videos a que já tive acesso a explicar a questão do aquecimento global, a teoria dos proponentes da teoria do efeito de estufa, e os argumentos dos cépticos sérios.

Também sobre este assunto e pelo mesmo autor podem ver este e este.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Nos EUA: Rape and the U.S. Chamber of Commerce

In 2005, Jamie Leigh Jones was working for a private contractor in Iraq when she was brutally gang-raped by coworkers. Four years later, Jamie is still being denied justice. Jamie can't file U.S. criminal charges because the rape took place overseas, and a fine-print clause in her contract takes away her right to file a lawsuit in the U.S. Why? Because big corporations, led by the U.S. Chamber of Commerce, have worked for years to prevent workers from suing their employers in almost any circumstance, even sexual assault.

Nem bom senso nem bom gosto

Toda a gente tem o direito de subir ao cimo da montanha e gritar que é o rei do mundo. Não faz mal a ninguém e até deve fazer bem aos pulmões. Também é natural que as confissões religiosas rivalizem para construir o edifício mais alto, mais vistoso, mais espampanante - e há males maiores (como cortar o prepúcio das crianças ou assustá-las com o «inferno»). É por isso que votaria «não» se fosse suíço e me fosse colocada a questão «a construção de minaretes deve ser proibida?».
As confissões religiosas têm o direito de construir edifícios com aparência exterior de templo e fachada virada para a rua. Já houve tempo, em Portugal, em que não tinham esse direito. Depois da «tenebrosa» Carbonária e do «5 de Outubro» de 1910, passaram a tê-lo. Faz parte da liberdade religiosa ter casas para fins religiosos, e o serem facilmente identificáveis não me aquece nem me arrefece.
E no entanto, compreende-se perfeitamente que os minaretes que assustam os suíços são símbolos de poder. Ostensivos. Como as torres das igrejas e os sinos tocados a meio da noite são também para recordar que determinada comunidade religiosa existe e se faz ouvir. Ou o «Cristo-Rei» de Almada - não é por acaso que ficou virado para Lisboa e para o poder, bem visível e impositivo.
Mas, lá está. Temos o direito de subir ao cimo da montanha e gritar inanidades.
Agora, e já que o bom senso não abunda, seria de pedir (nem digo exigir...) que houvesse um pouco mais de bom gosto na igreja católica portuguesa. É que um mamarracho em verde, laranja, dourado e vermelho, em forma de caravela e com uma torre de cem metros de altura (mais de trinta andares...) plantada no Alto do Restelo, é um «nadinha» demais. É que a coisa é horrenda. E não o digo por ser anticlerical (que sou).
Como se não bastasse, a Câmara Municipal de Lisboa é a (infeliz) doadora de cerca de 25% do milhão de euros já reunido (e cedeu o terreno, com uma permuta pelo meio). Coisas do tempo do modestíssimo e nada católico Santana Lopes. Mas há-de doar mais. É para os pobres, dirá a ICAR. Pois. Pobres dos pobres. E pobres de nós.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Os arrependidos do islamo-fascismo

Johan Hari é um excelente jornalista britânico que entrevistou alguns dos arrependidos (britânicos) do islamismo terrorista. A amostra será pequena para tirar conclusões muito gerais, mas há alguns pontos interessantes: foram isolados da sociedade britânica quer pelo fechamento natural das suas comunidades de origem, quer pelas pressões exteriores (o racismo da direita e o paternalismo «multiculturalista» da esquerda); sentiram-se alienados do «Ocidente» devido ao imperialismo, às detenções arbitrárias e à tortura; desiludiram-se do islamismo por descobrirem que este, onde detinha o poder, não tinha criado o paraíso, mas o inferno; e sentiram-se atraídos de volta à «normalidade» das democracias europeias por descobrirem que mesmo quem não concordava com eles estava disposto a garantir que tivessem direito a um julgamento justo, e que muitos europeus se opunham, por exemplo, à guerra do Iraque.
A minha conclusão é óbvia: não são as aventuras militares nem a tortura que colocarão um fim ao islamismo. Será o melhor do iluminismo europeu: a igualdade perante a lei, a oposição à injustiça e ao abuso de poder,  a liberdade e o tratar todos como adultos. Todos. Até os que têm ataques de histeria por causa de umas meras caricaturas. Ou sobretudo esses.

Desemprego

  • «A taxa de desemprego em Portugal atingiu os 9,8 por cento no terceiro trimestre de 2009, o que representa o valor mais elevado desde que há registos. O Eurostat, Gabinete Europeu de Estatística, tem dados sobre Portugal desde 1983 e nunca a taxa de desemprego ou o número de desempregados chegou ao nível actual: há actualmente 547,7 mil pessoas sem emprego, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).» (Diário de Notícias)
  • «Assim, no espaço de três meses, passou a haver mais 40 mil desempregados em Portugal, sendo o acréscimo anual de cerca de 114 mil. Com este resultado, é ultrapassado o máximo de 9,2 por cento para a taxa de desemprego que se registou no primeiro trimestre de 1986, na sequência da crise económica que atravessou o país durante a primeira metade dos anos 80.» (Público)

e as cerejas no topo do bolo...

«[...] Na conversa interceptada pelos investigadores, Godinho comunica a Vara que ganhou a acção contra a Refer na Relação do Porto, respondendo-lhe Vara que seria melhor esperar pelo conhecimento público da decisão para começarem a agir. Isto quatro dias antes do acórdão da Relação ter sido assinado por três juízes. A decisão revogou a sentença do Tribunal de Macedo de Cavaleiros que condenou a O2 a pagar 105 mil euros à Refer por enriquecimento ilícito. [...]

O juiz desembargador Cândido Lemos, o relator do acórdão, que realizou o projecto de decisão apresentado aos dois adjuntos, estranha as declarações de Godinho. E diz que não sabe explicar como é que o empresário terá tido conhecimento do resultado do acórdão antes de ele ser assinado. [...]

"O acórdão só pode ser conhecido depois de ser publicado", garante o juiz Henrique Araújo, que fazia parte do colectivo que avaliou este caso [...]

O escrivão da 2.ª Secção explicou ao PÚBLICO que a secretaria só tem acesso ao acórdão final já quando este se encontra assinado pelos juízes. "Nem sequer temos conhecimento do projecto de acórdão. Esse documento não consta do processo, só circula entre os juízes que fazem parte do colectivo", assegura o escrivão.

Henrique Araújo recorda-se que nessa altura os documentos eram entregues em papel por Cândido Lemos, que só há algumas semanas começou a usar o correio electrónico. E, apesar de reconhecer que é "estranhíssimo" que alguém tenha conhecimento do resultado de um acórdão antes de ele ser publicado, não consegue encontrar explicações para o sucedido. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 12.11.2009]


«[...] [O] Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, [desafiou] os políticos a regularem o segredo de Justiça ou a acabarem com ele, admitindo que é impossível evitar as fugas de informação [...] Pinto Monteiro disse que «na prática não tem sido possível ao MP dar conta do recado» no que se refere a encontrar os criminosos da violação do segredo de Justiça [...]

[O] deputado [do PS] Ricardo Rodrigues afirmou que nunca se pode acabar com o segredo de Justiça e culpou o Ministério Público (MP) de «incapacidade» na investigação desse crime. [...] O deputado do PSD Guilherme Silva mostrou concordar com o PS, defendendo que é o MP que tem a «obrigação» de actuar quando há fugas de informação. [...] A bloquista Helena Pinto mostrou concordar com a manutenção do segredo de Justiça [...]

Rogério Alves, antigo bastonário da Ordem dos Advogados [...] considerou que não se deve acabar com o segredo de Justiça. «Em determinados momentos, aquilo que consta dos processos está vedado à publicação. Não pode ser publicado nem divulgado sob pena de sanções severíssimas», disse.

Perante esta «praga da violação do segredo de Justiça», continuou, «temos de ser muito mais duros», mas não acabando com ele, porque isso «mataria a investigação» de alguns crimes. [...]»


[TSF --- 16.11.2009]

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

noutros lugares, onde os processos não são politizados, estes chegam mesmo ao fim!

«[...] As autoridades inglesas decidiram encerrar as investigações sobre o alegado pagamento de “luvas” no âmbito do licenciamento do Freeport [...]

A decisão de dar por encerradas as investigações autónomas abertas em Inglaterra em 2007 foi tomada pelo Serious Fraud Office (SFO) e pela Overseas Anti-Corruption Unit. [...] [A] decisão terá sido tomada ontem e deve-se à falta de elementos suficientes para poderem constituir arguidos em Inglaterra e avançar com uma acusação. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 13.11.2009]


«[...] [T]udo indica que as autoridades inglesas não encontraram provas que pudessem sustentar uma acusação de corrupção a Charles Smith e a outras pessoas ligadas ao Freeport. Aliás, como se percebeu pela leitura da carta rogatória enviada pelos ingleses para Portugal, grande parte da investigação inglesa estava suportada pelos dados fornecidos pelo Ministério Público português. Em suma, da parte da polícia inglesa nada de extraordinário tinha sido descoberto com relevância para a investigação em curso. [...]

"O SFO está envolvido num fiasco que pode ter ditado o destino do primeiro-ministro português, José Sócrates, e determinado o resultado das eleições de Setembro", escreveram [dois advogados, Arturo John e Ben Rose, responsáveis por uma auditoria aos serviços da agência], no jornal The Times. [...]»


[Diário de Notícias --- 13 Novembro 2009]

«Portugalex»

Entre entrevistas à televisão, à rádio e aos jornais, admito que alguma coisa me tenha escapado e que possa ter ido longe demais aqui e ali. Mas não me lembro de dar esta entrevista à Antena 1. Nem de ter revelado o meu plano secreto para impedir as pessoas de chamarem Lúcia Jacinta Francisco Ratzinger aos filhos, e para armar os alunos da escola pública com kalasnhikovs. Pois é. Desta vez é que me apanharam. Vou protestar. Com veemência.

da incapacidade de produzir prova séria e válida: é pedir muito?

«[...] Isso faz de Sócrates um condenado sem julgamento, sequer prova. Basta a suspeita. Neste cenário, a anulação das escutas adensa a suspeita, logo, acrescenta nova prova. A lógica é essa mesma: cada suspeita, cada prova. Bom, e que aconteceria a seguir? [...]»

[Valupi | Aspirina B --- Nov 11th, 2009]


«[...] O modelo em que assenta o sistema jurídico português é ainda mais obscuro e complicado: é uma ciência oculta, um buraco negro feito de ecos e silêncios, ajustes de contas e incompetências. Ninguém o entende verdadeiramente, ninguém sabe bem o que se passa lá dentro, apesar de não faltarem especialistas reputados, muitas pessoas sérias e de o assunto ser tão delicado como uma operação ao coração. [...]

Portugal é o país que inventou a via verde das escutas. Que grande invenção lusitana: escuta-se a torto a direito. Em vez de serem conduzidas com a paciência da pesca à linha - com respeito pelo frágil ecossistema de direitos, liberdades e garantias -, as investigações são feitas por arrastão: atira-se a malha fina e tudo o que vem à rede é peixe. Às vezes é peixe graúdo, outras vezes é peixe sem importância, e esse raramente chega às páginas dos jornais, apesar de a destruição ser igualmente fatal. [...]»


[André Macedo | i --- 11 de Novembro de 2009]


«[...] A justiça deve ser previsível, estável, segura e confiável. Ora, o que tem vindo a público nos últimos dias confirma que está muito de longe de ser isto, e é aquilo que não deve ser, uma fonte de instabilidade e de imprevisibilidade. [...]»

[António Costa | Diário Económico --- 11/11/09]


«[...] [E]ste Ministério Público é um falhanço, é, muito provavelmente, a mais incompetente das instituições portuguesas, basta olhar a processos como o Apito Dourado para se perceber que perante bons advogados dificilmente conseguem uma condenação. Só é eficaz quando os arguidos são pilha-galinhas representados por advogados oficiosos. [...]»

[O Jumento --- Novembro 11, 2009]


«[...] [S]e Sócrates é esse Átila da política nacional, se a sua vida é um hino a Satã, por certo a maioria absoluta no Parlamento não terá dificuldade alguma em conseguir provar uma só das acusações com que enche a boca. Uma qualquer. Se o fizerem, será impecável, ficamos agradecidos. Mas se o não fizerem, continuarão com a carantonha à mostra. [...]»

[Valupi | Aspirina B --- Nov 12th, 2009]


«[...] É absolutamente inaceitável que a Justiça, que não consegue pelos vistos fazer "em campo" a prova que lhe compete, decida fabricá-la na secretaria sempre através do mesmo tipo de expedientes, visando criar “opinião pública” a seu favor. [...]»

[Garcia Pereira --- 12 de Novembro de 2009]


«[...] Mas quando a oposição é liderada por sacanas anónimos que durante o fascismo foram serviçais do regime e agora estão disposto a subverter a democracia para defenderem mordomias miseráveis não serei eu a ajudá-los a completar o serviço. Se Sócrates é gatuno, corrupto ou, muito simplesmente, um pilha-galinhas então provem-nos, façam-no segundo as regras e com competência porque é para isso que os contribuintes lhes pagam e, tanto quanto sei, nem sequer estão mal pagos. [...]»

[O Jumento --- Novembro 12, 2009]


«[...] Marinho Pinto entende que “é preciso reforçar a componente hierárquica dentro do Ministério Público (MP), cujos magistrados não são independentes, independentes são os juízes”. [...]

Entre nós, continuou, “os procuradores actuam de acordo com a sua cabeça e agem como de fossem juízes, o que é mau, mas pior ainda é ver alguns juízes a agir nos tribunais como se fossem procuradores, a suprir as insuficiências do inquérito”. [...]»


[i --- 13 de Novembro de 2009]


«[...] Primeiro aceitamos que a investigação criminal vá assentando cada vez mais em escutas, e aparentemente quase só em escutas; depois toleramos que o seu conteúdo seja plantado na comunicação social; por fim discutimos o teor do que não deveria existir, sem que questionemos o modo com estamos colectivamente a deixar que se minem os alicerces do Estado de direito. Como se não bastasse, admitimos com normalidade que um titular de um órgão de soberania seja, em última análise, alvo de espionagem política durante uns meses. [...]

Agora toca a quem ocupa transitoriamente o cargo de primeiro-ministro, mas, se não somos intransigentes neste caso, haverá um dia em que poderá passar-se connosco. [...]

Sabemos, na verdade, como começa, mas temo que saibamos também como vai acabar. [...]»


[Pedro Adão e Silva | i --- 14 de Novembro de 2009]

As escutas são boas ou más, depende?

Alberto Costa defendeu, enquanto Ministro da Justiça, que se fizessem escutas sem mandado judicial. E pior: que fossem serviços directamente controlados pelo governo a fazê-las. Não me recordo de alguém se indignar com isso, no PS ou na oposição, nos jornais ou nos blogues.
Agora, anda tudo indignadinho porque se gravaram conversas entre Sócrates e Armando Vara. Ai-ai. Conversas, note-se, gravadas no âmbito de uma investigação judicial, decidida por um poder (teoricamente...) independente do poder político.
Talvez seja o momento para parar para pensar no monstro que foi criado quando: a) se organizaram serviços «de informações» sob a alçada directa do governo; b) se lhes deu «carta branca» para fazerem escutas ilegais; c) se colocou a «controlar» os ditos serviços um entusiasta de destruir as garantias constitucionais de privacidade dos cidadãos; d) se começou a defender publicamente que se alterasse a Constituição para legalizar o que serviços na dependência directa do Governo já fazem e não deveriam, constitucionalmente, fazer.
A actual legislatura permite uma revisão constitucional. Os cidadãos que se mantenham atentos. Como se vê pelos acontecimentos dos últimos dias, se já é mau ter escutas autorizadas pelo poder judicial no contexto de um processo judicial, tê-las sem processo aberto e «legalmente» decididas pelo poder político seria péssimo.

o ministério público transformado no ministério político

«[...] O CM sabe ainda que as certidões não se limitam às conversas do primeiro-ministro. É já conhecido, neste momento, que as autoridades ouviram diversos elementos do Partido Socialista e que as mesmas escutas decorreram durante a preparação das três campanhas eleitorais que ocorreram neste ano. [...]»

[Correio da Manhã --- 07 Novembro 2009]


«[...] [O] Procurador-geral da República resolveu fazer "suspense" à volta do caso que envolve as escutas telefónicas a Armando Vara que apanharam José Sócrates. [...]

O procurador-geral da República parece ter em mãos outro problema, que pode ser ainda mais sensível, caso venha a confirmar-se. Ontem, em declarações aos jornalistas, Pinto Monteiro disse: "É preciso apurar como foi ouvido o primeiro--ministro sem autorização do presidente do Supremo Tribunal de Justiça." [...]»


[Diário de Notícias --- 10 Novembro 2009]


«[...] [N]ão se percebe o que pode levar o procurador-geral Pinto Monteiro a pedir mais uma semana para esclarecer o país sobre este tema. Tendo vindo a falar, quase diariamente, sobre este tema, será que não antecipa o que está em causa e as suas consequências? Não é admissível manter o país neste impasse. [...]

[F]ica claro, mais uma vez, que a política continua a ser o ‘drive' de muitos dos processos judiciais em Portugal. A forma como foram divulgadas, com violação grosseira do segredo de justiça, as escutas de Armando Vara e José Sócrates relativamente a matérias que nada têm a ver com o processo Face Oculta prova isso mesmo. E reforçam a ideia de que os portugueses têm de procurar a justiça para se defenderem da justiça. [...]»


[António Costa | Diário Económico --- 11/11/09]


«[...] [D]esde há longos meses que Pinto Monteiro é o verdadeiro líder da oposição, é ele que marca a agenda política com o tira e põe processos ao mesmo tempo que os jornais são recheados com informação picante. Ainda há poucos dias quando o centro das atenções era o programa do novo governo o Ministério Público tira da manga o processo Face Oculta. [...]

[D]e um lado estão políticos eleitos e do outro está gente anónima que pode fazer escutas, vigilâncias, buscas e tudo o que qualquer juiz tolerante permite. Depois, muito antes de um tribunal considerar as escutas ilegais, algo que sucede sistematicamente nos julgamentos, mandam-se dicas para os jornais [...]

A oposição já não tem ideias, não tem projectos, não apresenta alternativas, limita-se a esperar pelo próximo processo, pela próxima divulgação de escutas, pela audição do próximo primo de Sócrates. A tarefa de derrubar Sócrates foi entrega a agentes que sob o anonimato transformam a justiça portuguesa num espectáculo triste. [...]»


[O Jumento --- Novembro 11, 2009]


«[...] Assim terminará o jogo do empurra em que ambos os conselheiros, adversários sindicais de longa data, têm estado envolvidos. Anteontem o gabinete de imprensa da PGR garantia que, "neste momento, só o sr. presidente do STJ poderá revelar o teor dos despacho que proferiu". Ao passo que ontem era Noronha Nascimento que lembrava que competia a Pinto Monteiro prestar eventuais informações sobre as escutas telefónicas envolvendo Armando Vara e José Sócrates, por o Ministério Público ser o titular da acção penal. E recusava-se a prestar esclarecimentos, invocando o segredo de justiça. [...]»

[PÚBLICO.PT --- 11.11.2009]


«[...] Temos estado a olhar para o lado errado, as fugas de informação judicial para a imprensa, quando o que mais importa está na recepção dos segredos de Justiça pelos partidos. Porque é óbvio: se eles chegam a jornalistas, em maior quantidade e detalhe chegarão a dirigentes partidários ou responsáveis presidenciais. [...] [S]e passamos a ter acesso a conversas privadas de um adversário político, a perversão hipertrofia o antagonismo, causando um crescendo de desrespeito e uma anulação dos limites éticos. Para além disso, escutar o adversário pode também ser ocasião de conhecer a sua opinião íntima a nosso respeito, dita com informal espontaneidade e gasto de vernáculo, o que ferirá fatalmente o ego do espião. [...]»

[Valupi | Aspirina B --- Nov 12th, 2009]


«[...] Já em relação a Sócrates [...] [MFL] exigiu-lhe uma intervenção que implica a violação da sua privacidade num contexto onde a Justiça ainda não formalizou qualquer decisão. Este ataque, com a particularidade de ter sido feito no Parlamento e ter sido aplaudido de pé pela sua bancada, prova que se pode espiar um qualquer primeiro-ministro para meros efeitos de combate político. O facto de esses materiais poderem não ter relevância ou licitude jurídica é totalmente indiferente. [...]»

[Valupi | Aspirina B --- Nov 12th, 2009]


«[...] [O]s elementos que vieram agora para a praça pública só podem ter sido divulgados de dentro do Ministério Público, com tão cirúrgica quanto inaceitável violação do segredo de justiça!

Este tipo de golpes são inaceitáveis em Democracia, pois os adversários políticos derrotam-se nas urnas e não com "operações negras" deste tipo. Se oportunisticamente as deixamos passar em claro, nomeadamente porque o atingido é alguém de que não gostamos, amanhã estamos todos em risco! [...]»


[Garcia Pereira --- 12 de Novembro de 2009]

domingo, 15 de Novembro de 2009

julgamentos em praça pública, escárnio e mal-dizer: uma tradição, da inquisição à pide, a...

«[...] Imaginem um país onde alguns investigadores se dedicavam a perseguir pessoas em vez de inquirirem crimes. Imaginem, além disso, que eles faziam sistematicamente chegar aos jornais informações seleccionadas alegadamente recolhidas no decurso dessas devassas. [...]

Decorre daqui com a brutalidade de uma dedução lógica que esse país não poderia ter governantes ou dirigentes que não fossem previamente aprovados pelos tais investigadores. [...]»


[João Pinto e Castro | jugular --- 8 de Novembro de 2009]


«[...] O órgão supremo da justiça portuguesa considerou inválidas as escutas ao primeiro-ministro (PM), pois, de acordo com o Código Penal publicado em 2007, o STJ tem de "autorizar a intercepção, a gravação e a transcrição" de conversas envolvendo o PM [...]

O DN apurou ainda que, segundo o despacho, o STJ considera que as escutas não têm relevância criminal. [...]»


[Diário de Notícias --- 10 Novembro 2009]


«[...] Na opinião de Marinho Pinto, "não se pode ouvir conversas do primeiro-ministro ou do Presidente da República sem haver autorização da autoridade competente", sendo necessário "haver regras neste domínio".

Criticando a gravação de conversas sem autorização da entidade competente, Marinho Pinto enfatizou que "é preciso pôr cobro a este fundamentalismo justiceiro que atropela a legalidade democrática".

O bastonário observou que o primeiro-ministro ou outra alta figura do Estado não estão acima da lei, mas que as regras processuais têm que ser "respeitadas".

Numa alusão ao processo "Face Oculta", Marinho Pinto criticou que "agora condena-se tudo na opinião publica, ainda as investigações estão no começo na fase de recolha de prova". [...]»


[i --- 10 de Novembro de 2009]


«[...] [C]onhecer o conteúdo das escutas pode ser igualmente lesivo para Sócrates sem que haja ambiguidades para explorar, muito menos matéria criminal. Basta que o registo seja pessoal para que introduza um desequilíbrio passível de dano e aproveitamento político. [...]»

[Valupi | Aspirina B --- Nov 11th, 2009]


«[...] Seja como for e venha o que vier, o caso Face Oculta aparenta ser uma muito bem sucedida operação política. Pouco importa se as escutas são nulas ou válidas, destruídas ou distribuídas nas escolas – elas cumpriram, na perfeição, a sua função dissoluta. A situação é a de julgamento populista, o Estado de direito foi dinamitado pelo segundo maior partido nacional. Se fizermos jurisprudência deste caso, todo e qualquer político fica a saber que pode estar a ser escutado pela Judiciária por tempo indeterminado, basta arranjar um pretexto paralelo – como Morais Sarmento teve o desplante de explicar. E mais: ficamos também a saber que Judiciária, tribunais e Ministério Público serão cúmplices da entrega dessa informação aos adversários e jornalistas. [...]»

[Valupi | Aspirina B --- Nov 13th, 2009]

Do jornalismo enquanto forma de manipulação

Um encontro inter-religioso é apresentado no telejornal da RTP2 (e no Expresso), como um encontro de «ateus, agnósticos e religiosos». E no entanto, trata-se de um encontro numa mesquita em que os entrevistados para a respectiva peça jornalística televisiva são o islâmico wahabita Abdul Vakil, o sacerdote católico Peter Stilwell, e o mais «religiosamente correcto» dos agnósticos portugueses: Mário Soares. Só por curiosidade: quem era o ateu dos títulos das notícias? Estava clandestino? Incógnito? Ou não existia?

Umberto Eco sobre Saramago

Até um escritor tão «religiosamente correcto» como Umberto Eco começa a estender uma orelha amigável para os argumentos dos ateus anti-religiosos.
  • «(...) Talvez Ratzinger pensasse naqueles sandeus de Lenine e Estaline, mas esquecia-se que nas bandeiras nazis estava escrito "Gott mit uns" (que significa "Deus está connosco"), que falanges de capelães militares benzeram os arruaceiros fascistas, que inspirado em princípios religiosíssimos e apoiado por Guerrilheiros do Cristo-Rei era o massacrador Francisco Franco (independentemente dos crimes dos adversários, foi sempre ele que começou), que religiosíssimos eram os Vandeanos contra os Republicanos, que até tinham inventado uma Deusa Razão, que católicos e protestantes se massacraram alegremente durante anos e anos, que tanto os Cruzados como os seus inimigos eram impelidos por motivações religiosas, que para defender a religião romana se puseram os leões a comer os cristãos, que por razões religiosas se acenderam inúmeras fogueiras, que religiosíssimos são os fundamentalistas muçulmanos, os autores do atentado das Twin Towers, Osama e os talibãs que bombardearam os Budas, que por razões religiosas se opõem a Índia e o Paquistão, e por fim que foi a invocar God Bless America que Bush invadiu o Iraque. Por isso me punha a reflectir que talvez (se por vezes a religião é ou foi o ópio dos povos) com maior frequência tem sido a sua cocaína. Creio que esta é também a opinião de Saramago e ofereço-lhe a definição - e a sua responsabilidade. (...)» (Umberto Eco no Diário de Notícias)

sábado, 14 de Novembro de 2009

e falando de barragens e outras renováveis... o petróleo!

«[...] The world is much closer to running out of oil than official estimates admit, according to a whistleblower at the International Energy Agency who claims it has been deliberately underplaying a looming shortage for fear of triggering panic buying. [...]

[T]he "peak oil" theory is gaining support at the heart of the global energy establishment. "The IEA in 2005 was predicting oil supplies could rise as high as 120m barrels a day by 2030 although it was forced to reduce this gradually to 116m and then 105m last year," said the IEA source, who was unwilling to be identified for fear of reprisals inside the industry. "The 120m figure always was nonsense but even today's number is much higher than can be justified and the IEA knows this.

"Many inside the organisation believe that maintaining oil supplies at even 90m to 95m barrels a day would be impossible but there are fears that panic could spread on the financial markets if the figures were brought down further [...]," he added. [...] "We have [already] entered the 'peak oil' zone. I think that the situation is really bad" [...]

John Hemming, the MP who chairs the all-party parliamentary group on peak oil and gas, said the revelations confirmed his suspicions that the IEA underplayed how quickly the world was running out and this had profound implications for British government energy policy. [...]

"Reliance on IEA reports has been used to justify claims that oil and gas supplies will not peak before 2030. It is clear now that this will not be the case and the IEA figures cannot be relied on," said Hemming. [...]»


[The Guardian --- 9 November 2009]

um país em movimento

«[...] O ministro da Ciência e do Ensino Superior, Mariano Gago, assegurou, esta sexta-feira, que Portugal atingiu resultados históricos no que respeita à investigação e ao desenvolvimento. Mariano Gago revelou que Portugal tem, nesta altura, mais investigadores do que a média da União Europeia. [...]

«Uma despesa total em investigação e desenvolvimento que atinge um e meio por cento do PIB em 2008, que supera os níveis de Espanha e da Irlanda, um número de investigadores que, neste momento em Portugal, atinge sete por cada mil activos, e que supera pela primeira vez na história a média europeia», sublinhou. [...]»


[TSF --- 13.11.2009]


«[...] O dinheiro em investigação e desenvolvimento (I&D) passou o marco do 1,5 por cento do Produto Interno Bruto em 2008, o que significou um investimento de 2.513 milhões de euros [...]

[O] valor do ano passado ultrapassou a despesa gasta em ciência de 2007 pela Espanha (1,27 por cento do PIB) e pela Irlanda (1,31 por cento). [...]

O número de investigadores em Portugal é de 7,2 em cada mil activos, um número que ultrapassa a média europeia de 5,8. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 13.11.2009]


«[...] A economia portuguesa registou o terceiro melhor desempenho da União Europeia no terceiro trimestre, ao crescer 0,9% contra a média europeia de 0,4%, revelou hoje o Eurostat.

Com um crescimento trimestral maior do que Portugal encontram-se apenas a Lituânia (6,0%) e Eslováquia (1,6%). A Áustria registou um desempenho igual ao nosso país entre Julho e Setembro, ao crescer também 0,9% face ao segundo trimestre do ano. [...]»


[Diário Económico --- 13/11/09]


«[...] Portugal tem, pelo menos pelo quarto trimestre consecutivo, um crescimento trimestral do PIB acima da média comunitária segundo o Eurostat, ou seja o quarto trimestre consecutivo de convergência. [...]»

[Miguel Carvalho | fado positivo --- 13 Nov 09]

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Tomás da Fonseca reeditado

Tomás da Fonseca (1877-1968), republicano e anarquista, foi talvez o mais importante escritor ateu em língua portuguesa. Infelizmente, os seus livros são dificílimos de encontrar (até em bibliotecas públicas...), e as edições originais tornaram-se raridades nos alfarrabistas.
É portanto uma excelente novidade que a editora Antígona tenha decidido reeditar algumas das obras clássicas de Tomás da Fonseca, nomeadamente «Na Cova dos Leões» e «O Santo Condestável - Alegações do Cardeal Diabo». Dois temas que, infelizmente, continuam connosco: o fatimismo e a instrumentalização católica de Nuno Álvares Pereira.


Espero que esteja para breve a reedição de «Sermões da Montanha», uma defesa simples e lúcida do ateísmo enquanto forma de vida.
Haverá uma apresentação pública amanhã às 16 horas na FNAC do Chiado (em Lisboa), com a presença do Carlos Esperança, da Associação Ateísta Portuguesa.

a promoção do mérito ou da mediocridade?

«[...] A Fenprof voltou ontem a exigir a suspensão do modelo de avaliação e a revisão do Estatuto da Carreira Docente [...]

[T]odos os professores deverão concluir a sua avaliação deste ano e conhecer a nota o mais depressa possível, defendeu Mário Nogueira [...] Mas a Fenprof impõe condições: quem teve "Excelente" ou "Muito Bom" não poderá usar a nota para concorrer, e todos os professores, mesmo os que não entregaram objectivos individuais, terão de ser avaliados. [...]

A utilização da nota do ano passado na progressão da carreira também não se deverá colocar, diz Mário Nogueira. [...]»


[Diário de Notícias --- 08 Novembro 2009]

correlações e a reforma da demagogia

«[...] As novas regras de cálculo das pensões, que passaram a estar relacionadas com a esperança de média de vida, vão implicar, em 2020, um corte de 7,1% nas novas pensões dos portugueses que se reformarem aos 65 anos. [...] Este efeito pode ser anulado, desde que os portugueses optem por trabalhar cada vez mais. [...]

Introduzido na reforma de 2007, o factor de sustentabilidade foi aplicado pela primeira vez no ano passado. Este ano, justifica um corte de 1,32% das pensões de quem se reformar aos 65 anos. Em alternativa, os indivíduos podem adiar a reforma por dois a quatro meses [...]

Alemanha, Eslovénia, Finlândia Itália e Suécia são os outros países da União Europeia que também optaram por introduzir o factor de sustentabilidade. É uma forma de contrariar os custos inerentes ao envelhecimento da população. [...]

Já quem tiver 65 anos em 2030 terá de trabalhar pelo menos mais um ano para evitar um corte na pensão [...]»


[Diário de Notícias --- 06 Novembro 2009]


«[...] A introdução do factor de sustentabilidade veio introduzir a esperança média de vida no cálculo das pensões. O resultado prático desta medida, como alertou a oposição de esquerda, será penalizar sobretudo quem agora inicia a vida activa ou começou recentemente a carreira contributiva. São estes trabalhadores que irão sentir no bolso os efeitos desta medida, ou em alternativa terão de trabalhar mais anos do que a geração anterior para ter direito à mesma reforma. [...]»

[Esquerda.Net --- 06-Nov-2009]


a demagogia salta tanto à vista que eu até podia ficar-me por aqui. mas deixem-me continuar mais um pouco:



deixem-me ver se percebo isto: para o bloco, é indiferente se a esperança média de vida são 40, 60 ou 120 anos? é indiferente se a idade média de entrada no mercado de trabalho são os 14, os 20 ou os 25 anos? trabalha-se 40 anos e "já está", quer isso represente 100%, 75% ou 20% da esperança média de vida??

eu diria que a discussão está um pouco baralhada! a correlação necessária entre período activo de descontos e esperança média de vida não é o fim da discussão, mas antes o princípio. só depois de percebermos os gráficos anteriores podemos ter uma discussão séria. e aí sim, percebendo que o período activo de descontos deve igualar uma percentagem da esperança média de vida, começa a discussão: sabendo ao certo como quantificar essa percentagem, entrando em linha de conta com factores de sustentabilidade, de formação ao longo da vida, e de escolaridade média no início da vida activa, entre outros.

querem fazer rewind e começar de novo, sff?

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Nem de propósito

O blogue A Vez do Peão divulga um «convite para um encontro inter-religioso» na mesquita de Lisboa. No convite, lê-se: «(...) convidamo-lo(a) a participar na última oração da noite. Solicitamos às senhoras que se façam acompanhar de um lenço para este fim». Na coluna ao lado, lê-se: «este blogue é feminista». Pois. O que faria se não fosse...

Entrevista ao VA 195

A minha entrevista ao António Serzedelo no Vidas Alternativas 195 pode ser ouvida aqui (podcast), a partir dos 33 minutos.

Collision

Saíu o filme do Christopher Hitchens, mas acho que sem distribuidor:

a wind of change?

«[...] Vinte anos após o derrube do Muro de Berlim, que simbolizou o fim do chamado “socialismo real” no leste da Europa, é geral a insatisfação com o capitalismo no mundo, indica uma sondagem publicada esta segunda-feira, divulgada pela BBC. Só 11 % dos inquiridos em 27 países considera que a economia capitalista funciona correctamente e 51 % acha necessária mais regulação e reformas para a corrigir. [...]

A sondagem, realizada entre 19 de Junho e 13 de Outubro junto de 29 033 pessoas, foi publicada no dia do 20.º aniversário da queda do Muro de Berlim, num momento em que o mundo enfrenta a pior crise económica e financeira desde 1929.

"Parece que a queda do Muro de Berlim em 1989 não terá sido uma vitória esmagadora do capitalismo de mercado livre, contrariamente às aparências da época, em particular depois dos acontecimentos dos últimos doze meses", comentou Doug Miller, presidente do instituto de sondagens GlobeScan, que realizou o estudo. [...]»


[Esquerda.Net --- 09-Nov-2009]

eco-fundamentalismo: nem desenvolvimento nem sustentabilidade...

«[...] O Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) anunciou, esta quarta-feira no Parlamento, que vai apresentar muito em breve uma iniciativa legislativa para suspender de imediato o plano nacional de barragens [...]»

[TSF --- 11/11/2009]

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Uma questão de civilização

Há poucos dias, aconteceu algo que foi pouco comentado, e que deveria ser celebrado como um dos raros sinais de que ainda vale a pena ser europeu e acreditar no Estado de Direito: um tribunal italiano, contra as pressões dos governos italianos da direita e da esquerda, condenou a penas de prisão efectivas 22 agentes da CIA e um coronel dos EUA (à revelia), e até dois membros dos serviços «de informações» da própria Itália, por raptarem um islamita em território italiano e o levarem para a tortura no Egipto. Esses agentes da CIA são agora fugitivos que arriscam uma pena de prisão se passarem pela Europa.
Note-se que não se trata de um daqueles casos de «autorização de passagem» de prisioneiros sobre território europeu que tanto têm ocupado o Parlamento Europeu e Ana Gomes. Trata-se de pegar em alguém que está em território europeu e levar esse alguém para ser torturado em território onde a tortura está mais «liberalizada». E, detalhe importante, com a colaboração de cidadãos europeus, actuando, aparentemente, sob as ordens dos respectivos serviços «de informações».
Curiosamente, este tipo de prática tem impedido que alguns terroristas sejam julgados. E transforma, efectivamente, terroristas em vítimas.
E em Portugal? Houve um caso semelhante em Portugal. Na madrugada de 1 de Outubro de 2006, um argelino chamado Sofiane Laib foi «expulso» de Portugal. Tinha cumprido uma pena por falsificação de documentos e teria, aparentemente, pertencido à Al-Qaeda (concretamente, seria um elemento menor da célula de Hamburgo). A pena de expulsão estava suspensa, o que torna o caso, alegadamente, sequestro. Depois de ser levado da prisão, a meio da noite, por «agentes do SEF»,  pode imaginar-se que Sofiane Laib foi levado para tortura à Argélia ou a Marrocos, ou, quem sabe, à Roménia ou à Bulgária. E pode supor-se que foi sempre acompanhado por agentes dos serviços «de informações» portugueses. A ser verdade, os responsáveis deveriam dar com os costados na choça. É uma questão de civilização.

para acalmar as vozes mais histéricas

«[...] A descriminalização do consumo de drogas não aumentou o consumo e nem fez disparar os números da toxicodependência em Portugal, são as principais conclusões do relatório do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT). Segundo o presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), João Goulão, não se confirmam os receios iniciais de que essa abordagem suscitasse um aumento dos níveis de consumo.

Goulão afirma ainda que "aquilo que se constata é que Portugal não se transformou num destino para o narcoturismo nem houve um disparar dos números da toxicodependência na sequência da descriminalização. Estas eram as bandeiras agitadas pela oposição, nomeadamente o CDS, com Paulo Portas a dizer que iria ser o paraíso dos drogados de todo o mundo".

O presidente do IDT destaca que os "bons resultados" são consequência de um conjunto de políticas nas áreas da prevenção, tratamento, redução de danos, reinserção e trabalho de dissuasão, "num quadro genérico de descriminalização que tornou as medidas muito mais harmónicas". [...]»


[Esquerda.Net --- 05-Nov-2009]

ainda sobre o proselitismo



terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Proselitismo

As Testemunhas de Jeová vão a casa das pessoas, tentar convertê-las.

Muitos consideram que não tem nada de mal acreditarem no que acreditam, o pior é fazerem o que fazem.

Eu acredito que a acção que tomam é coerente com o que acreditam. Estão convencidos que aquilo é verdade, e como tal que aquela atitude é a melhor que podem ter face aos outros. Não espalhar a verdade seria uma forma de egoísmo.
Podemos descartar a atitude como fanática, mas a atitude é simplesmente altruista. Jesus pediu aos seus seguidores para abandonarem tudo e segui-lo, ora espalhar a palavra a estranhos durante os tempos livres exige bem menor fanatismo. Quase que me parece o mínimo que se exige a quem acredite realmente naquilo que diz acreditar.

Por isso, mesmo que veja as acções proselitistas das testemunhas de Jeová como más acções, vejo-as como bem intencionadas e respeito isso. Tento sempre tratá-las com o maior respeito e simpatia que consigo, pois entendo que do ponto de vista deles, estão simplesmente a ajudar. A fazer o bem.

Claro que não é só a intenção que conta. Quem se lançou contra as torres gémeas também acreditava estar a fazer o bem - a dar a sua vida para fazer o bem - e seria bem difícil ter alguma simpatia por essas pessoas.

Mas falar é muito diferente de atentar contra a vida de terceiros, e aí a minha atenção pela intenção é superior. As testemunhas de Jeová estão no seu direito, e estão a fazer algo que acreditam estar correcto, a perder o seu tempo, a abdicar da sua disponibilidade para ajudar pessoas que nem conhecem.


O mesmo sinto em relação a qualquer cristão que esteja a abdicar do seu tempo que me aborde na rua. Sinto respeito, e nenhuma vontade de dicutir com ele.

Não assumo: «bah, ele está a fazer isso para ganhar o céu, em proveito próprio». Parece-me que quando uma pessoa é crente e menos altruista tende a acreditar que é mais importante não roubar, matar e dizer mal de Deus, do que ajudar os outros, para ir para o céu. Quem acredita em ajudar os outros para ir para o céu não o faz por si, e fá-lo-ia sem ser crente.

Claro que em certa medida sinto pena que as testemunhas de jeová percam o seu tempo para enganar os outros. Se sacrifiquem para tornar o mundo um pouco pior. Mas entendo que estão a fazer aquilo que consideram correcto. E se bem que preferisse que nunca tivessem acreditado naquela teia de equívocos, e aproveitassem o tempo que dedicam aos outros de forma mais produtiva, não tenho qualquer sentimento de agressividade para com elas. À priori, repito, tenho simpatia.


Da mesma forma, se souber de um cristão que mantém um blogue religioso, não vou sentir qualquer espécie de revolta ou ansiedade. Claro que esse blogue pode ser uma ferramenta de engano, contribuindo para desinformar as pessoas. Mas parte da minha crença na liberdade da expressão fundamenta-se no idealismo - talvez ingénuo - de que com liberdade de circulação de ideias e informação, pouco a pouco, e apesar de vários enviesamentos cognitivos e outro tipo de factores sociais que atrapalham o processo, as melhores ideias sobrevivem. Pode demorar séculos, ou mais, mas eventualmente, a verdade vem ao de cima.

Continuo a sentir um grande desconforto se deparar com um site negacionista do holocausto, por exemplo, mas isso é porque associo a esse site enganador ideias de ódio e violência que me perturbam. Ora apesar de todo o ódio e violência que as várias instituições religiosas demonstraram enquanto foram poderosas, a verdade é que no ocidente da actualidade não associo esse ódio e violência à esmagadora maioria dos crentes, nem dos sacerdotes.

Por outro lado, se deparar com um site propagandístico que espalhe contra-informação, e souber que o seu autor não acredita naquilo que escreve, também me vou sentir desconfortável (enojado, diria).

Mas um típico site religioso mantido por um cristão português não corresponde a estes problemas. Nem apela directa ou indirectamente à violência (a excepção mais frequente é a homofobia), nem é mantido por quem não acredita no que escreve (diria que podem existir excepções, mas a menos que as identifique, assumo que o autor acredita no que escreve). Por isso não me desperta qualquer incómodo.
Acho a sua leitura um pouco entediante, e por isso não o frequento, mas não sinto senão simpatia pelo autor. É verdade que defronto com esse autor uma batalha pelas ideias. Ele pode querer convencer as pessoas de A, e eu de B. Ele acredita que eu estou a enganá-las; eu acredito que ele está a enganá-las. E suponho que ambos acreditamos que o outro não engana intencionalmente, faz o que faz com a melhor das intenções. Por isso, acredito, é possível manter respeito e simpatia mútuos, apesar de sermos "adversários".

Não?

Vital Moreira sobre a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem

Do Público de hoje.
  • «(...) Na verdade, o TEDH defende de forma cristalina que a liberdade de religião não envolve somente o direito de ter uma religião e de observar o seu culto, mas também o direito de não ter religião, sem ingerências do Estado. Ora, para além da violação da laicidade – na medida em que não é compatível com a necessária neutralidade e imparcialidade religiosa do Estado –, a exibição de crucifixos nas escolas públicas também impõe às crianças e aos respectivos progenitores uma preferência oficial em matéria religiosa, que eles não têm de compartilhar. (...) Também o direito à educação segundo as convicções de cada um proíbe a preferência oficial por uma dada religião. Numa escola necessariamente plural em termos religiosos, o único modo de respeitar a liberdade individual de convicção e religião, bem como o direito ao ensino de acordo com as convicções religiosas de todos, é a abstenção de apoio oficial a qualquer religião. Se a liberdade religiosa individual implica por definição diferentes opções (incluindo a de não ter nenhuma religião), a escola oficial não pode tomar partido a favor de uma determinada religião, impondo a exibição dos seus símbolos privativos a todos os alunos. (...)» (Vital Moreira, Público)

O peso da ICAR

Vale imenso a pena ler este artigo do WSJ para se ter uma ideia do peso dos bispos na vida política americana.

Outra vez TVI, 14 horas

Hoje estarei outra vez na TVI, para discutir laicidade e crucifixos com um sacerdote católico. No programa «As Tardes da Júlia», a partir das 14  horas.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Crucifixos em Espanha

Em Espanha, uma em cada cinco escolas públicas têm crucifixos, o Governo hesita e as comunidades autónomas (as regiões) têm políticas diferenciadas. E a Esquerda Republicana Catalã, apoiada pela Izquierda Unida, promete levar o assunto ao Congresso.

Mulher agredida por não usar véu islâmico

Uma marroquina residente em Espanha foi agredida por não usar o véu islâmico. A agressão foi de tal violência que parece ter-lhe provocado um aborto.
Talvez seja por desconhecerem a existência de casos como este que muitos insistem em afirmar que o véu é uma «mera peça de roupa», e que os franceses foram horrorosamente totalitários em proibi-lo na escola pública.

Onde pára o poder judicial?

O poder político não pode ser absoluto. Tem que ser limitado pelo Direito. Há quem queira esquecer isto com o pretexto da «guerra cósmica contra o terrorismo». O Ricardo Schiappa apontou, acho que vale a pena destacar o seguinte do que diz a Ana Gomes.
  •  «A Itália pode estar apodrecida pela corrupção e ter um Primeiro-ministro indigno de chefiar uma Junta de Freguesia, quanto mais um governo da República italiana.
    Mas o sistema de justiça italiano, apesar das pressões a que tem sido sujeito, vai dando provas de isenção e competência: assim ficou demonstrado no processo
    Mãos Limpas nos anos 90. E e assim fica demonstrado pela condenação de 23 agentes americanos (e dois italianos) por envolvimento no rapto em território italiano e "extraordinary rendition" de Abu Omar para o Egipto.

    Já no nosso país, a PGR decidiu arquivar a investigação que devia esclarecer o papel de Portugal no programa de "extraordinary renditions" - sem ter verdadeiramente investigado e pondo de lado pistas relevantes.
    (...) Em 8 de julho de 2009 apresentei à PGR um requerimento, de 66 páginas, em que detalhei muitas incongruências e falhas graves da investigação da PGR e em que apelei a que, ao menos, se desse continuação à investigação.
    Em Outubro o DCIAP da PGR reagiu, em superficial resposta condensada em quatro páginas: decidindo engavetar a investigação.
    (...) Como pode o DCIAP chegar a esta conclusão ?

    1. Se a própria investigação revelou que o Ministério dos Negócios Estrangeiros reconhece que concedeu, “a título absolutamente excepcional” aos EUA “autorizações genéricas de sobrevoo do espaço aéreo nacional e utilização da Base das Lajes”, autorizações essas que “permitem o transporte de material contencioso e de pessoas”.
    Ora sucede que a PGR nunca questionou o MNE e o MDN sobre o significado da expressão “MATERIAL CONTENCIOSO”, nem sobre a necessidade de concessão de uma autorização “ABSOLUTAMENTE EXCEPCIONAL” para transportar... “PESSOAS”.
    2. Se 8 dos 148 nomes identificados na mesma investigação coincidem com os nomes de agentes da CIA alvo de mandato de captura alemães ou italianos, por envolvimento em rapto e “extraordinary renditions”. (...) 4. Se aterrou duas vezes em Lisboa (além de dezenas de vezes no Porto) o avião com a matrícula N379P, o “Guantánamo Express”, operado pela empresa-fantasma da CIA STEVENS EXPRESS, classificado de “voo de Estado”, e que, por consequência, devia estar munido de autorização diplomática portuguesa. (...) 5. Se o inquérito revelou a existência de pelo menos dois “voos fantasma” sobre os quais não há quaisquer registos junto das autoridades nacionais:
    a. um passa pelas LAJES a caminho de GUANTÁNAMO
    b. o outro, um “voo ambulância”, com destino desconhecido, levou ao avistamento, também nas LAJES de um “indivíduo [que] vestia um fato-de-macaco cor de laranja”, “algemado nas mãos e nos pés” e era considerado “altamente perigoso”.
    Mas a PGR sobre isto nada diz, não quis saber, nem sobretudo investigar mais...
    » (Causa Nossa)

somos todos parte da revolução



«[...] Nearly everyone reads. Soon, nearly everyone will publish. Before 1455, books were handwritten, and it took a scribe a year to produce a Bible. Today, it takes only a minute to send a tweet or update a blog. Rates of authorship are increasing by historic orders of magnitude. Nearly universal authorship, like universal literacy before it, stands to reshape society by hastening the flow of information and making individuals more influential. [...]

Today, at 0.1 percent authorship, many people are trading privacy for influence. What will it mean when we hit nearly 1 percent next year and nearly 10 percent the year after as the current growth predicts? Governments, businesses, and organizations must adapt to a population that wields increasing individual power. Protestors used Twitter to discredit the election in Iran. When United Airlines refused to reimburse a musician for damaging his guitar, the offended customer posted a song online—“United Breaks Guitars”—and United’s stock dropped 10 percent. [...]

International concern for the minority who can’t read may soon extend to those who can’t publish. [...] As readers, we consume. As authors, we create. Our society is changing from consumers to creators. [...]»


[Denis G. Pelli & Charles Bigelow | SEEDMAGAZINE.COM --- October 20, 2009]

domingo, 8 de Novembro de 2009

Uma vitória para os EUA

A aprovação de uma lei prevendo seguros de saúde estatais para pessoas sem cuidados de saúde é uma revolução social-democrática para os EUA, e a maior vitória de Obama até ao momento. Todavia, as cedências de última hora na questão da IVG mostram como se trata de uma maioria frágil. Prova-se que, no momento actual dos EUA, mais facilmente se expande os serviços de saúde do que se combate a influência clerical.

Os republicanos

Eu vivo no meio destes selvagens:



:o)

os direitos humanos e o nosso quintal

texto completo a ler aqui.

mais vale tarde que nunca...

«[...] Por iniciativa do presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, o Parlamento quis dar o exemplo para outros orgãos do Estado.

Neste início de legislatura foram aprovadas por unanimidade novas regras para as viagens dos deputados funcionários da Assembleia, «proibindo o desdobramento de bilhetes e também a contagem de milhas a favor de si próprios ou de terceiros», explicou Jaime Gama. [...]»


[TSF --- 04 NOV 09]

showbiz de um país pequeno

«[...] "Há muito espectáculo na investigação criminal. Há muita investigação criminal que se faz para os órgãos de comunicação social e era bom que este espectáculo todo que se faz agora se fizesse com as condenações transitadas em julgado ou com as absolvições, não agora", disse António Marinho Pinto à agência Lusa, no final de uma visita ao Hospital-Prisão de Caxias.

"Não percebo esta espectacularização da investigação criminal quando outros casos ainda nem sequer saíram da fase investigatória", acrescentou.

Marinho Pinto referiu ainda que o facto de uns casos nascerem sem que outros se concluam, "com a mesma espectacularidade, desprestigia a justiça". [...]

[E]les que justifiquem por que [o segredo de justiça] é violado. Não venham com a desculpa dos jornalistas. Os jornalistas não violam o segredo de justiça, quando muito noticiam as violações, o resultado das violações" [...]»


[Diário de Notícias --- 04 Novembro 2009]

sábado, 7 de Novembro de 2009

Casamento Gay

Escrevi aqui em baixo, na caixa dos comentários, que achava pena que os homossexuais que integram a classe política andassem a fingir que eram heterossexuais, sobretudo os do PP, que são especialmente homofóbicos.

O Ricardo comentou que achava que o Paulo Portas provavelmente era heterossexual. Eu estou-me completamente nas tintas, como o resto do país, para a vida sexual do Paulo Portas. Não me interessa absolutamente nada se ele é ou não homossexual. Mas eu sei que há homossexuais no PP e acho pena que a vergonha deles sirva para reforçar o estigma com que os países menos educados, como Portugal, perseguem as pessoas LGBT (e outras minorias).

Não tem de ser assim. Quando vou à Holanda vejo as pessoas nas tintas para a sexualidade umas das outras. Ser-se homossexual não diz nada sobre o carácter de ninguém e por isso os homossexuais holandeses casam, adoptam crianças e formam famílias estáveis, saudáveis, económicamente produtivas, felizes e funcionais. Iguaizinhas às dos heterossexuais.

Aqui na República de Jesus olho à minha volta e vejo os homossexuais a serem insultados, acossados e perseguidos todos os dias, porque a Bíblia diz que os judeus (e os cristãos, pelo menos os que acreditam que o Antigo Testamento foi inspirado pelo Espírito Santo) os devíam apanhar e matá-los à pedrada.

Acho que Portugal - que tem um passado horrível: fascista, esclavagista, com inquisidores e autos de fé, pena de morte para o crime de apostasia (uma lei da Idade do Bronze!) até ao século XIX, etc. - devia tentar seguir o caminho da Holanda em vez de querer ser como o Texas (mas pobre e triste).

Acho que não devíamos andar aqui a dançar à volta do assunto: a homossexualidade é um pecado do Antigo Testamento que é perseguido por lei. Só isso.

Revista de blogues (7/11/2009)

  1.  «Nada de realmente surpreendente nas palavras chistosas, assistidas por um delicado sorriso de desdém, de José Sócrates ao investir na Assembleia da República contra José Pacheco Pereira invocando o passado rebelde deste: «uma vez revolucionário, revolucionário toda a vida». Posso garantir que conheço de contacto directo pelo menos quinhentas pessoas que um dia foram revolucionárias e que, apesar de hoje estarem maioritariamente «instaladas na vida», não sentem necessidade alguma de renegar esse lado inconformista do seu passado. (...) É por isso uma verdadeira tristeza que o primeiro-ministro português, com o dever de fazer pedagogia democrática ainda que seja historicamente um parvenu da democracia, tenha afirmado o que afirmou e da forma como o fez. Dir-se-á que foi da adrenalina, que se tratou de uma irrelevância, mas são irrelevâncias destas que definem um carácter. Mário Soares, por exemplo, jamais diria tal coisa. Como exclamou uma amiga minha indignada com o episódio, «apetecia responder-lhe: uma vez PSD, para sempre PSD».» (A Terceira Noite)
  2. «(...) Mas a maior de todas a hipocrisias dos bons e fiéis católicos é, sem dúvida, andarem a fazer de conta que a sua religião está completamente afastada – em TODOS os aspectos – da doutrina formulada na Bíblia, designadamente no Antigo Testamento. Basta dar um salto ao «Catecismo da Igreja Católica» para afastar essa gigantesca mentira.
    E bastam algumas citações, respigadas ao acaso:
    «§81 - A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo».
    «§106 – Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. Na redacção dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar as suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo ele próprio neles e por meio deles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio queria».
    «§121 – O Antigo Testamento é uma parte indispensável das Sagradas Escrituras. Os seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor permanente, pois a Antiga Aliança nunca foi revogada».
    «§123 – Os cristãos veneram o Antigo Testamento como a verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre rechaçou vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo Testamento o teria feito caducar.
    (...)» (Diário Ateísta)