sábado, 31 de outubro de 2009

coisas que correm bem...

«[...] Segundo um relatório recente da OCDE, Portugal está em segundo lugar entre 23 países (os mais desenvolvidos da UE mais Suiça, Noruega, Islândia e Tuquia) no que toca à disponibilidade de serviços públicos online.

Melhor só a Áustria. [...]»


[Miguel Carvalho | fado positivo --- 28 Out 09]

Saramago: a favor e contra

Outra defesa de Saramago, que toca naquilo que valeria a pena discutir, e que é difícil discutir devido às reacções emocionais dos «catolicamente correctos»:
  • «(...) Que atracção mórbida têm os homens para inventar, ao longo dos tempos, religiões terríveis a que logo se escravizam? Que paixão aturdiu a humanidade levando--a a impor-se a si mesma códigos e proibições canalhas, ameaçar-se com fogos eternos, condenar-se absurdamente por toda a vida, centrar a existência em tabus alheios ao sentido comum e fazer de normas desumanas guias de conduta e de condenação? (...) Deus é de fiar? Deus não existe fora das cabeças dos homens, logo são os homens os que não são de fiar, nem eles nem as suas obras. Filhos de dogmas e preconceitos, herdeiros de tradições sem sentido, de superstições e de medos, os homens não souberam aproveitar a modernidade para combater o descaramento do irracional. Inclusive, o homem ocidental, o que se crê centro do mundo e dono dos melhores conceitos, revolve-se intranquilo se alguém, como Saramago, e não só, questiona supostas verdades reveladas. (...)» (Pilar del Rio no Diário de Notícias)
Para ler um texto de alguém que não compreendeu nada,  ver aqui.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Erica Fontes e a salivação da blogosfera

Na blogosfera política, sentiu-se durante as últimas semanas uma exagerada excitação em torno de declarações  avulsas de Carolina Patrocínio, Maitê Proença e Rita Rato, excitação essa que dificilmente se compreende pela (pouca) relevância das ditas declarações, e que é mais explicável como um subproduto da salivação masculina. (Eu sei, ninguém resiste a uma carinha laroca...)
Não entendo, portanto, como está a ser praticamente ignorada a emergência da nova estrela do cinema português, Erica Fontes, e as suas francamente revolucionárias declarações: «Estou a fazer o que gosto, de livre vontade e não ligo ao que os outros pensam, se não o País não avança. O corpo é meu».
Seria mais honesto/explícito salivar com a Erica. Ela não engana ninguém: afinal, o trabalho dela é mesmo fazer salivar.

Câncio sobre Saramago

No Diário de Notícias:
  • «É que das duas uma: ou vemos aquilo como "a palavra de Deus" e portanto pode ser interpretado e decomposto por Saramago como lhe aprouver (só o tal deus sabe o que queria dizer) ou vemos aquilo como um conjunto de textos escritos por gentes diversas e Saramago pode interpretar e decompor como lhe apetecer (só quem escreveu sabe o que queria dizer e já cá não está para explicar). Alegar autoridade, eclesiástica ou académica, a propósito das opiniões de um escritor sobre textos escritos por pastores, pedreiros e soldados que têm sido apresentados durante séculos como ventríloquos de divindade é que é uma coisa um bocadinho disparatada.»

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

só podem estar a brincar!

«[...] Entre os dez arquitectos que asssinaram mais processos de obras particulares submetidos à aprovação da CML entre 2004 e 2007, duas tinham “ligações familiares ou outras a antigos funcionários do município”, sendo que uma tinha apenas 31 anos, e dois eram octogenários. Acontece, acrescentava a magistrada sindicante, que alguns destes quatro autores “ultrapassavam gabinetes de arquitectura que mobilizam dezenas de trabalhadores”. [...]

Questionado pelo PÚBLICO sobre os resultados da reanálise desses processos, Manuel Salgado respondeu por escrito no dia 18 do mês passado: “Medida considerada impraticável atendendo ao elevado número de processos em causa, cerca de mil”. O autarca acrescentou depois que o total de processos daquele tipo entrados anualmente na CML era de “cerca de 1200” – o que permite concluir que ao grupo dos quatro cabia quase um terço, com perto de mil em três anos, num total de 3600. Salgado salientou que a reapreciação de todos aqueles processos conduziria à “paralização dos serviços” e que se concluiu que, em geral, “eles não eram muito relevantes”. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 19.10.2009]


«[...] A reportagem de José António Cerejo aponta ainda algumas contradições quanto ao número de processos apresentados pelo "grupo dos quatro". Se o vereador Manuel Salgado fala em "cerca de mil", o mapa fornecido pelos serviços de urbanismo refere apenas 199. Apesar da diferença poder ser explicada por alguns dos projectos dizerem respeito à mesma obra, o director municipal de Gestão Urbanística concorda com a posição de Salgado. "O que sucede é que mesmo que fossem apenas 200, a sua reapreciação se calhar já era incompatível com a capacidade dos serviços", disse Gabriel Cordeiro ao Público. [...]»

[Esquerda.Net --- 20-Out-2009]

pode confiar-se nesta gente?

«[...] Hoje no PE foram votados diversos projectos de resolução sobre violações à liberdade de imprensa resultantes do controlo mediático exercido pelo império do PM Berlusconi em Itália. [...]

Foram assim aprovadas todas as emendas apoiadas pelos Socialistas e derrotadas todas as que, subscritas pelo PPE e a extrema-direita coligados, visavam poupar Berlusconi. Este resultado só foi possível porque Socialistas, Verdes, Liberais e GUE se uniram para derrotar Berlusconi e os seus apoiantes. Passou-se de seguida à votação final.

Para surpresa geral - e exultação das bancadas à direita e extrema-direita - o projecto final de resolução socialista foi derrotado. Por 4 votos, em 684. Quem traiu? [...]

Ilda Figueiredo e o outro novo eurodeputado do PCP, João Ferreira, foram vistos por colegas seus do GUE e muito mais gente a, pura e simplesmente, NÃO VOTAR. [...] [O que] significa objectivamente APOIAR BERLUSCONI. [...]»


[Ana Gomes | Causa Nossa --- 21 de Outubro de 2009]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A pós-modernidade no gulag

No blogue Cinco Dias, um grande momento intelectual:
  • «Segundo Badiou (...) um acontecimento (...) é uma ruptura efémera e inédita (sem precedentes) na situação existente, inicialmente indiscernível por isso apelando à adesão subjectiva (e férrea) do sujeito, sendo o seu ineditismo inalcançável pelo conhecimento e não justificável».
Uma pessoa estremece a ler uma coisa destas. Digo «estremece» porque chega a pensar que não sabe ler e que tem que voltar à escola primária. Depois pensa trinta segundos e chega à conclusão que não é dito nada de especial. O autor só quer dizer, de forma rebuscada, que há revoluções. As crianças que morrem não vêm ao caso. Mais adiante:
  • «(...) é óbvio que Gorbatchov, o “manchinhas”, veio interromper a sequência “existência do estado socialista soviético”. E não se sabe bem por que carga de água».
Pois. Talvez as pessoas não estivessem satisfeitas, sei lá. Talvez quisessem viajar e comprar coisas. Penso eu. Perdão: não foram as pessoas, «as massas». Foi o timoneiro. Mil perdões humildes.
  • «Que fez Soares? Sublinhe-se: colocou o futuro empírico da sequência acima da vivência da sua singularidade, fantasiou e manipulou o desfecho do “acontecimento 25 de Abril”, e fê-lo antidemocraticamente».
Ganhou as eleições. Se isso importa para alguma coisa. Provavelmente, não. Mas «colocar o futuro empírico da sequência acima da vivência» é bestialmente chato. Até porque, sabe-se lá, as pessoas podem ter coisas melhores para fazer do que a política.
E, para terminar:
  • «Porque é que temos de nos estar sempre a penitenciar pelo gulag?».
Não se penitencie, Carlos. Defenda o Gulag. Celebre o gulag. Planeie novos gulags. Que mil gulags floresçam! (Sobretudo, se forem gulags pós-modernos...)

entretanto, lá fora, começa a responsabilização

«[...] A administração Obama vai intervir nos próximos dias nos rendimentos dos executivos de topo das empresas que receberam dinheiro público durante o pico da crise financeira. [...]

[A]s medidas [...] visam os gigantes de Wall Street que mais precisaram do Estado para sobreviver à crise: Citigroup, Bank of America, AIG, General Motors e Chrysler.

Diz a mesma fonte que os 25 executivos melhor remunerados destas empresas vão ver os seus rendimentos reduzidos, em média, em 50% face ao valor auferido na totalidade de 2008.

Outra das exigências da administração Obama é que, ao contrário do que é prática habitual, os executivos ligados à gestão de produtos financeiros não recebam remuneração adicional sob a forma de acções ou 'stock options'. [...]»


[Diário Económico --- 21/10/09]

negociem, entendam-se, e concretizem!

«[...] Um orçamento também tem um lado da receita. Como se pode esperar que sejam vistos como legítimos os pedidos de mais sacrifícios salariais aos funcionários públicos se não se combater a injustiça fiscal? Introduza-se então um novo escalão de IRS de 45%, siga-se a recomendação dos peritos e taxe-se as mais-valias bolsistas e outros rendimentos de capital em 20%, tenha-se a coragem de ir para além das recomendações e introduza-se um imposto sobre as grandes fortunas. E assuma-se que as contas bancárias não podem ser, muito menos em tempos de crise orçamental, um segredo de família. A crise aguça a propensão de muitos para a informalidade? Dote-se então a administração fiscal de todos os instrumentos para fazer face ao egoísmo que corrói a moralidade fiscal. [...]»

[João Rodrigues | i --- 26 de Outubro de 2009]

uma novidade laica!

«[...] A cerimónia de tomada de posse do novo Governo, que decorre hoje no Palácio da Ajuda, será simples e curta. José Sócrates deu indicações claras ao Protocolo de Estado e por isso os convites foram reservados a cerca de 150 altas individualidades. A Igreja ficou fora da lista de convidados. [...]

Após a mensagem do Presidente da República, Sócrates fará o discurso que deverá marcar as grandes linhas da sua governação. Fora da lista de convidados para a cerimónia está a Igreja. Fonte do Patriarcado disse ao CM que o Cardeal-patriarca não foi convidado. [...]
»

[Correio da Manhã --- 26 Outubro 2009]

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A raiz do problema

No Diário de Notícias, e talvez sem se aperceber, João Miguel Tavares (JMT) vai à raiz do problema levantado por Saramago. E a raiz do problema é esta: «só quem acredita que a Bíblia tem alguma relação com a palavra de Deus está habilitado para sobre ela fazer considerações éticas». JMT, note-se, não põe em causa a liberdade de expressão: o que ele reprova é que quem não tem fé se pronuncie sobre a Bíblia. Na sua opinião, «um ateu (...) tem de olhar para a Bíblia como olha para outro livro qualquer: estética e nada mais». Mais concretamente: «faz tanto sentido o ateu Saramago dizer que "a Bíblia é um manual de maus costumes" como faria dizer que "as obras de Shakespeare são um catálogo de barbaridades"».
Acontece que eu desconfio (e com boas razões) que quando alguém diz a JMT que as obras de Shakespeare retratam o pior da natureza humana, ele concorda e encolhe os ombros. Pelo contrário, quando  Saramago disse o mesmo da Bíblia, ele deu um pulo e foi escrever um artigo de jornal. É justamente por a Bíblia ser a «palavra de Deus» para tanta gente que não a podemos tratar como as obras completas de Shakespeare. Ninguém se apoiou nas obras de Shakespeare para defender a Inquisição, a escravatura, ou a ditadura de Salazar. Ninguém fica indignado por se dizer que há episódios hediondos na dramaturgia shakespeareana. Pelo contrário, muita gente utilizou (e utiliza) a Bíblia para transformar a «palavra» (más palavras) em «acção» (más acções).
Como ateus, é evidente que sabemos que a Bíblia é literatura (geralmente da má, mas essa é apenas a minha opinião «estética»). Mas enquanto tanta gente a considerar como um livro «especial», não podemos tratá-la como se fosse mera literatura inconsequente.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

A "praxe" é, sobretudo, um negócio

Notícia do DN:
Os caloiros do ensino superior, em Viseu, estão a ser "usados para aumentar o negócio de alguns bares". As denúncias são dos próprios alunos que acusam os elementos do Conselho de Viriato, o órgão académico que deve zelar pelo cumprimento das regras da praxe, de organizarem festas com os caloiros "pelas quais recebem percentagens do consumo feito nos bares".
Alguns alunos, que também já denunciaram a situação junto da presidência do Instituto Politécnico de Viseu (IPV), acusam Ana Pinto, presidente do conselho, de "organizar iniciativas da praxe em bares, para onde são levados os caloiros, recebendo depois percentagem pela despesa feita", contaram ao DN vários destes elementos, que temendo represálias, preferem ficar no anonimato.
A presidente do Conselho de Viriato, que para além de ser estudante no IPV, trabalha num bar de diversão nocturna na zona de Jugueiros, ao lado do instituto e onde funcionam mais de uma dúzia de bares, desvaloriza as acusações. "Os alunos praxados têm um percurso, vão aos bares, onde ouvem pessoas a falar sobre diversos temas. Se tiverem dúvidas são retiradas e depois seguem para outro bar", revela a estudante.
A presidente do Conselho de Viriato refere que as denúncias surgem de "guerras entre as casas de diversão nocturna que lutam ferozmente pela presença dos estudantes do ensino superior. E viram-se para mim porque eu oriento mais de 700 alunos e sou um alvo mais fácil", adianta. Embora considere as denúncias "difamatórias" Ana Pinto, que é estudante no Politécnico de Viseu há dez anos, garante que o Conselho de Viriato "vai tomar mais cuidado com as iniciativas que envolvem os caloiros".

estabilidade e seriedade

«[...] Em Portugal, a formação de um Governo não exige um voto expresso de investidura. Apenas se exige que, contra o Governo que se apresenta para ganhar a confiança do Parlamento, não proceda uma moção de rejeição do seu programa, cuja aprovação requereria a maioria absoluta dos votos. [...]

Um sistema institucional que tornasse mais difícil a formação de governos minoritários exigiria, pois, uma alteração constitucional. Do mesmo modo, um sistema institucional que protegesse de forma acrescida a sustentabilidade de governos minoritários exigiria a consagração da chamada "moção de censura construtiva" (o derrube do Governo depende não apenas de uma convergência maioritária de votos na censura mas também e simultaneamente no apoio ao nome de um primeiro-ministro alternativo…), como sucede em Espanha (onde, aliás, o actual Governo também é minoritário), moção construtiva essa que, de igual modo, só poderia ser introduzida entre nós por via de uma revisão constitucional.

Não se queira, portanto, singularizar, neste domínio, o caso português e, muito menos, fazer dele um caso anómalo. Nem pretendam agora os que tão denodadamente se bateram para que não houvesse uma maioria absoluta de um só partido vir iludir o facto singelo de que, num Parlamento que gera um Governo minoritário e sem uma coligação maioritária alternativa, a estabilidade governativa não seja uma responsabilidade partilhada por todos os protagonistas partidários [...]»


[António Vitorino | Diário de Notícias --- 23 Outubro 2009]


«[...] Os partidos da oposição não querem assumir responsabilidades para além daquelas que considerarem de modo avulso, e chamam a esse oportunismo merdilheiro fidelidade ao voto recebido. Acontece que o voto se esgota na eleição. Nada mais diz. Não condiciona o eleito. Não pode. Apenas o responsabiliza, o que é algo que apela à sua acção, não à sua inacção. O voto assume que o eleito é capaz de representar o votante numa situação que já não é eleitoral, mas deliberativa, governativa. Continuar a invocar o voto recebido para não governar, ou impedir que outros governem, é estar a perverter o sistema democrático e seus ideais. A questão é de uma evidência confrangedora: caso um qualquer partido da oposição tivesse sido o mais votado, mas sem maioria, desistiria de tentar governar? Ou será que alinharia com a lógica boicotadora da democracia e recusaria qualquer tipo de negociação com a oposição alegando que os votos não lhes foram dados para andarem a fazer cedências aos interesses dos outros partidos? [...]»

[Valupi | Aspirina B --- Out 17th, 2009]


«[...] [O] antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, referiu que é preciso que os governos minoritários tenham protecção constitucional e, por isso defende que a próxima revisão da lei fundamental, que vai acontecer nesta legislatura, considere a moção de censura construtiva.

Jorge Sampaio deu como exemplo o que se passa em Espanha e na Alemanha, em que um Governo de minoria não pode ser deitado abaixo sem que a oposição tenha já na mão um Executivo que passa na Assembleia.

«É uma reforma, que a meu ver, dá uma possibilidade aos governos minoritários de cumprirem os seus mandatos. Não se pode perder tempo e, poranto é preciso assegurar mecanismos», que sublinhou o antigo Presidente da República, passam pela elaboração de compromissos políticos. [...]»


[TSF --- 23 OUT 09]

Sam Harris

"The End of Faith". Nunca tinha ouvido falar. Deram-me este livro ontem de manhã e li quase 200 páginas durante a viajem para casa. Achei-o interessante, com excepção do Capítulo III, salvo erro, em que ele insulta todos os árabes e todos os muçulmanos, sem excepção, e quase que sugere que eles são todos bombistas em potência...

Mas na página 189, mais ou menos, este Sam Harris desata a defender a tortura (de "terroristas") e a louvar as palavras do sociopata mais mau e mais odioso que vive presentemente nos EUA: Alan Dershowitz, sobre quem Woody Allen escreveu em "Deconstructing Harry": (no elevador para o inferno) "Floor six: Right-wing extremists, serial killers, and lawyers who appear on television".

Acho que me vou ficar por aquela página e começar a ler outra coisa qualquer.

sérios, coerentes... e com muito amor ao salário

«[...] Sabe-se através do suplemento Economia do Expresso (p. 6) que o deputado do PSD Miguel Frasquilho fez um sucesso dos diabos na Bolsa de Nova Iorque, ao “elogiar a economia portuguesa” perante investidores americanos. Frasquilho, “no seu papel de director-geral da Espírito Santo Research”, “enfatizou o crescimento das exportações, sublinhou o défice e um desemprego abaixo da média europeia, concluindo que Portugal está bem colocado para ter um papel positivo na economia mundial nas próximas décadas.” [...]»

[Miguel Abrantes | Câmara Corporativa --- Outubro 21, 2009]

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

República e transitoriedade

Ao contrário do Tiago Moreira Ramalho, a mim não me parece decisivo para o carácter republicano do regime a eleição directa do chefe de Estado. Embora seja essa a minha preferência, são possíveis outros modelos, como a eleição pelo Parlamento e Senado, ou a chefia de Estado colegial (à suíça). Na Assembleia Constituinte de 1911, discutiu-se demoradamente esta última hipótese. Optou-se pela penúltima.
O fundamental, numa República, é que os cargos políticos sejam exercidos por mandatos de duração bem definida e limitada, e que, ponto em que a nossa República pode bem ser aperfeiçoada, se possa destituir o titular de qualquer cargo electivo. O poder tem que se assumir transitório e limitado.
A monarquia consegue ter todos os defeitos: nem a chefia do Estado é exercida durante um mandato limitado, nem qualquer um pode atingi-la, nem se pode remover o chefe de Estado por via legal.

segue a drenagem

«[...] O dinheiro das fortunas portuguesas colocado nos paraísos fiscais para escapar aos impostos não pára de aumentar. Só até Agosto, foram mais de nove mil milhões de euros, diz o Banco de Portugal. [...]

"Se temos 9 mil milhões de euros que não vão pagar impostos para 'offshores', quer dizer que é uma farsa toda a grande crise orçamental do país [...]", afirmou Louçã em declarações aos jornalistas sobre o futuro governo.

O montante do dinheiro aplicado este ano em off-shores corresponde a 5,5% do PIB nacional e revela um crescimento de 47,4% em relação a igual período do ano passado. A duplicação das aplicações enviadas para offshores entre Fevereiro e Março - de 646 milhões de euros para 1,3 mil milhões - coincide com o período do pagamento de dividendos por parte de muitas empresas. [...]»


[Esquerda.Net --- 23-Out-2009]

Revista de blogues (26/10/2009)

Quantos blogues defendem Saramago? Daqui a uns anos, isto parecerá espantoso, mas a verdade é que somos muito poucos.
  1. «A propósito das declarações de Saramago, que a Bíblia é um «manual de maus costumes», teólogos e sacerdotes têm apontado que ler a Bíblia é uma coisa muito complicada. Como disse Carreira das Neves em debate com Saramago, a Bíblia tem infinitas leituras (1). Mas isso quase tudo tem e, retorquiu Saramago, por muitas interpretações que se dê a um texto não se pode esquecer o que lá está escrito. (...) E há episódios que nenhuma (re)interpretação pode safar. Moisés desce da montanha e manda chacinar uma data de gente por ter um deus diferente. Deus manda matar cidades inteiras, destrói Sodoma e Gomorra por causa de preferências sexuais, transforma uma mulher em sal só porque olhou para trás, mata os primogénitos no Egipto só porque o Faraó era teimoso e assim por diante. Se os lermos como obra humana, estes relatos explicam-se pelo contexto cultural. Eram pessoas menos esclarecidas, intolerantes, sem respeito pela liberdade religiosa, privacidade e outros direitos fundamentais. Mas se é um livro inspirado por um deus então esse deus é horrível. (...) Muito pouco na Bíblia é compatível com os valores da civilização moderna. Quem preza a liberdade e a justiça não pode concordar nem com o antigo testamento, com um deus tirano que castiga e tortura só porque lhe apetece, nem com o novo testamento, em que o mesmo deus se faz inocente e se finge matar para nos dar esperança ou mostrar que morrer na cruz é amor.» (Treta da semana: Leitura simbólica)
  2. «Para VPV as ideias de Saramago são “de trolha ou tipógrafo semi-analfabeto”, produto da senilidade dos seus “80 e tal anos”. O Nobel foi atribuído como a “vários camaradas que não valiam nada” e é lido por milhões de pessoas “acéfalas que nem distinguem a mão esquerda da mão direita.” VPV não reconhece “a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a bíblia ou sobre qualquer outro assunto”. Essa suposta autoridade só lhe deve ser concedida porventura a ele próprio que opina acerca de tudo dizendo pouco mais do que nada, mantendo porém sempre o indelével traço da arrogância e altivez. Depois vem a velha lenga-lenga do PREC e do DN há muito desmentida, quer por Saramago, quer por quem o acusava, mas parece que tal não teve eco nas masmorras do séc. XIX onde VPV está agrilhoado. Mas a sobranceria e desdém não acabam aqui: “Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve” e a pérola final diz tudo sobre o carácter do seu autor: “D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação.” Ou seja, resume tudo à falta de berço, argumento tão querido à nata da sociedade que passados quase 100 anos sobre a fundação da República ainda não entendeu (apesar de todas as obras e teses por ele publicadas) nem o seu significado, nem sequer a premissa de que somos Homens iguais a quem se devem dar iguais direitos e iguais oportunidades. E é por isso que destila diariamente o ódio a tudo e a todos que vêm de baixo, aos que sobem a pulso, aos que não se deixam vencer pela sua condição social, aos que indo da “província” para Lisboa não se intimidam pelas elites que ainda se julgam aristocráticas por viverem das rendas que os negócios do estado proporcionam, bem mais lesivas para o país do que os supostos milhões perdidos para os pobres preguiçosos do RSI a quem todos culpam.» (O ódio de Vasco Pulido Valente)

domingo, 25 de outubro de 2009

O dilema do historiador - V

É chegada a altura de lançar esta pergunta ao leitor. Qual das atitudes possíveis para José Matias é mais sensata e adequada. Qual delas é mais condicente com as boas práticas de um historiador. A boa epistemologia recomendaria qual destas atitudes?




Nota- É possível encontrar várias diferenças entre este mito inventado por mim, e a história em relação à qual muitos acreditarão que me estou a referir, para fazer uma analogia.
Na verdade não pretendo fazer uma analogia.
Pretendo realmente saber o que pensariam neste caso em concreto.

Consoante a resposta, poderei perguntar quais as diferenças relevantes entre as situações, e nessa altura será interessante conhecer e discutir as diferenças fundamentais entre as duas situações. Para já, esta pergunta que faço não é um argumento. É mesmo curiosidade wm saber o que diferentes leitores pensam sobre esta questão.

O dilema do historiador - IV

Por fim, José Matias pode pensar assim:

«Seja por magia ou não, a verdade é que podemos assumir que recuperar um braço é um evento extremamente improvável.

Existem inúmeras explicações possíveis para os três textos com os quais tomei contacto, bem como para a tradição oral. É comum que mitos sem fundamento sejam passados de geração em geração, e existem inúmeras formas em relação às quais uma história falsa pode ser tomada como verdadeira. Os alguns líderes Flubos poderiam querer incentivar a auto-confiança dos seus aldeões na luta contra um inimigo poderoso como os Astecas espalhando rumores a respeito da magia muito poderosa dos seus curandeiros, ou os membros da aldeia de Tui poderiam ter espalhado essa história depois da morte do seu líder para ganhar mais respeito por parte de outras aldeias, etc...

Cada uma destas várias possíveis explicações é altamente improvável, mas ainda assim muito mais provável que a recuperação do braço que, com magia ou sem ela, é algo tão raro e improvável que seria mais extraordinário que qualquer destas explicações.


No seu conjunto, que exista magia ou não, e face aos indícios a que temos acesso, é biliões de vezes mais provável que Tui não tenha recuperado o seu braço. Biliões é uma força de expressão, a diferença entre ordens de grandeza é muito superior a isso.
É possível dar como certo que Tui não perdeu o braço.

Em termos históricos é possível afirmar que Tui não perdeu o braço, e quem em finais do século XIV um mito surgiu entre os Flubos. Seria interessante investigar porquê.»

O dilema do historiador - III

Por outro lado, José Matias pode pensar assim:

«Os textos descrevem factos que parecem impossíveis à luz da ciência. Tanto quanto sabemos é impossível que alguém consiga recuperar um braço que perdeu anos antes. Muito menos com a ciência e tecnologia presentes vários séculos atrás.

No entanto, os textos não alegam que o fenómeno ocorrido tenha sido um fenómeno natural. Pelo contrário, os textos sugerem que se tratou de magia, a qual viola as leis naturais.

Mas existirá magia? Não cabe à história responder a essa pergunta. Pode existir magia ou não, depende das convicções de cada um. E como a plausibilidade dos relatos depende da possibilidade de existir magia - a qual está fora do domínio da ciência em geral e da história em particular - saber se Tui recuperou o braço ou não também está fora do domínio da história.

É uma pergunta interessante sobre a qual a história não tem nada a dizer. Depende da convicção de cada um.»

O dilema do historiador - II

O nosso José Matias pode pensar de três maneiras diferentes. Aqui está a primeira:

«Estou perante três testemunhos diferentes, mas que concordam no essencial (Não necessariamente por esta ordem: Tui tornou-se chefe da aldeia, Fuka que era curandeiro ensinou-lhe muita coisa, Tui perdeu o braço numa batalha contra os Astecas, foi conhecido como "o chefão maneta", passados anos Tui recuperou o seu braço). Além disto, existe uma tradição oral que sobrevive até hoje e concorda no facto essencial: o "chefão maneta" perdeu e recuperou o braço.

Pelas leis naturais é praticamente impossível que algo deste género se suceda. Não existe nenhum outro caso registado de alguém que tenha perdido o braço e recuperado. No entanto, a magia viola as leis naturais, e os textos fazem referência a magia.

Se "Tui" não tivesse de facto perdido e recuperado o seu braço, como explicar estes três textos? Eles discordam em detalhes, pelo que são fontes diferentes e independentes a relatar os mesmos eventos, com as disparidades que seriam de esperar. Que uma fonte estivesse equivocada ou simplesmente a relatar uma mentira parece bizarro, mas três?

Pior ainda, a tradição oral. Se este facto não tivesse ocorrido, como explicar que ele fosse convincente para tanta gente, e esta história sobrevivesse até aos dias de hoje?

A explicação mais plausível para estes textos e esta tradição oral, de um ponto de vista histórico, é que no essencial os factos que descrevem são verdadeiros. Provavelmente ocorreram. Tui perdeu o braço, e devido a poderes mágicos, recuperou-o.»

O dilema do historiador - I

José Matias é um historiador que está a estudar as interacções entre o império Asteca e os Flubos, um dos vários povos subjugados e dominados por este império.

Na sua procura por conhecer mais profundamente a história dos Flubos, José encontra vários textos que descrevem, com algumas diferenças, um evento extraordinário. A investigação de José leva-o à conclusão que os textos datam do ano de 1390 (d.C.), 1420 e 1430 respectivamente, mais ano menos ano. A história descrita tomou lugar, alegadamente, em 1350.

O primeiro texto conta a história de um camponês chamado Tui, que, por feitos extraordinários, acabou por se tornar chefe da aldeia. Como chefe da aldeia, Tui quis aprender mais e mais segredos mágicos com o curandeiro, Fuka. Um dia, numa batalha contra os Astecas, Tui perdeu o braço.
Durante 2 anos, Tui foi conhecido por todos como "o chefão maneta". Durante esses anos, Tui explorou mais e mais os segredos da magia, e um dia apareceu perante os aldeões novamente com dois braços. Acabou por ser um líder muito amado pelos aldeões, e muitos diziam que também era amado pelos deuses.

No segundo texto Tui é filho de Gra, o chefe da aldeia. Tui é curioso e quer aprender com Fuka - o curandeiro - os segredos mágicos e a arte da cura. Um dia, numa batalha contra os Astecas, Tui perdeu o braço e Gra morreu. Como sendo o primogénito de Gra, Tui torna-se o chefe da aldeia.
Durante 2 anos, Tui foi conhecido por todos como "o chefão maneta". Durante esses anos, Tui explorou mais e mais os segredos da magia, e um dia apareceu perante os aldeões novamente com dois braços.

No terceiro texto Tui é um camponês. Um dia, numa batalha contra os Astecas, Tui perdeu o braço, e Gra - o chefe da aldeia - morreu. Devido aos actos heróicos na batalha, Tui torna-se o novo chefe da aldeia.
Tui conhece então Fuka, que é o curandeiro, e procura aprender com ele as artes mágicas. Ele é conhecido como "o chefão maneta", e é muito amado pelos aldeões. Durante esses anos, Tui explorou mais e mais os segredos da magia, e um dia apareceu perante os aldeões novamente com dois braços.

Por outro lado, José Matias sabe que esta história ainda vive na tradição oral. Existe quem ainda fale de um indivíduo que era apelidado de "chefão maneta", num passado distante, o qual tinha perdido o braço, mas depois este voltou a crescer.

Que conclusões vai tirar José Matias da leitura destes dados?
Deverá acreditar que Tui conseguiu por artes mágicas recuperar o seu braço?
Existem três possibilidades.

sábado, 24 de outubro de 2009

e se fosse em portugal?

«[...] Jean Sarkozy, filho do Presidente francês, foi hoje eleito administrador da zona de negócios de la Défense (oeste de Paris), depois de anunciar quinta-feira que renunciaria ao cargo de presidente do Conselho de Administração para satisfação da oposição. [...]»

[Diário de Notícias --- 23/10/2009]

Ateísmo e anti-teísmo

No seu artigo de hoje no Diário de Notícias, o padre católico Anselmo Borges distingue o Caim de Saramago das declarações do escritor sobre a Bíblia. Gostou do livro, classifica as declarações como «ignorância arrogante». E afirma que «perante o Deus de Saramago, só haveria uma atitude digna para o crente: ser ateu».

Já li e ouvi muitos católicos dizerem isto. Acontece que estão a incorrer numa confusão. Não é por fazer um juízo de valor (ético) sobre o Deus da Bíblia que eu sou ateu. É por fazer um juízo de facto (científico) sobre as alegações da existência de «Deus», sobre a origem do universo, sobre a «vida depois da morte» e sobre a «ressurreição», que sou ateu. E comigo muitos outros, que fundamentam (quando necessário) o seu ateísmo em Bertrand Russell, Carl Sagan ou Richard Dawkins, e na ciência em geral.  Somos ateus porque temos a certeza quase total de que aquele «Deus» não pode existir no universo que conhecemos. A questão de saber se o «Deus» da Bíblia e das suas múltiplas interpretações é justo, cruel ou tirânico, é uma questão separada, e que não nos torna mais ou menos ateus.

Efectivamente, eu rejeito que o «Deus» da Bíblia possa ser considerado justo, amoroso ou misericordioso. Mas isso não tem nada a ver com a questão da existência. É por saber (com um grau de certeza maior do que saber se vai chover amanhã) que não existe, que sou ateu. Se eu estivesse convencido da existência de «Deus», a questão seria outra. Em primeiro lugar, não seria ateu. Mas, por rejeitar as suas crueldades e ensinamentos imorais, não lhe prestaria culto e revoltar-me-ia contra os seus actos. Seria, então, anti-teísta. O que é outra coisa.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O novo Governo

Já está: oito novos ministros, dos quais dois socialistas de carreira (Jorge Lacão e Alberto Martins), uma escritora e cinco ilustres desconhecidos do grande público.
Novidades mais relevantes: Santos Silva passa a Ministro da Defesa (vai dar guerra...), Vieira da Silva passa a Ministro da Economia (sai do Trabalho...), e Isabel Alçada, a escritora de livros para crianças, vai ter que lidar com os professores das crianças (talvez as tenha do lado dela; as crianças).
Saída para lamentar: Severiano Teixeira.
Ah, e o Mariano Gago continua. Deve ter pilhas Duracell.

Alegre sobre Saramago

Manuel Alegre sobre José Saramago:
  • «(...) não se perdoa a Saramago ser um grande escritor da língua portuguesa, ser um Prémio Nobel e não ser um homem religioso» (A Bola).

Ainda sobre Saramago

Acho que vale a pena ver o video de Dawkins, de 2002, sobre a necessidade de afirmar o ateísmo como uma qualidade louvável e útil (93% dos membros da National Academy of Sience não são religiosos).

Jovem pertencente a uma seita entra no Parlamento

Lê-se no Correio da Manhã. As palavras são da jovem deputada comunista Rita Rato.
  • «- Concorda com o modelo que está a ser seguido na China pelo PCC?
    - Pessoalmente, não tenho que concordar nem discordar, não sou chinesa. Concordo com as linhas de desenvolvimento económico e social que o PCP traça para o nosso país. Nós não nos imiscuímos na vida interna dos outros partidos. 
    - Mas se falarmos de atropelos aos direitos humanos, e a China tem sido condenada, coloca-se essa não ingerência na vida dos outros partidos?

    - Não sei que questão concreta dos direitos humanos...
    - O facto de haver presos políticos.
    - Não conheço essa realidade de uma forma que me permita afirmar alguma coisa.»

    Comentário: ela não sabe que há presos políticos na China. Mesmo que haja, não se mete na vida interna de outro partido (comunista), mesmo que esse partido seja capaz de mandar gente para a prisão por razões políticas. A fidelidade é muito bonito.

    «- Como encara os campos de trabalhos forçados, denominados gulags, nos quais morreram milhares de pessoas?
    - Não sou capaz de lhe responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso.
    - Mas foi bem documentado...
    - Por isso mesmo, admito que possa ter acontecido essa experiência.»

    Comentário: ela não leu nada sobre os gulags (como os católicos não lêem sobre a Inquisição). Mas admite que possam ter existido enquanto «experiência»(!).  Sem que isso a preocupe muito, aparentemente.

    Fascinante. A realidade, no fundo, é o que nós quisermos. Basta querer, como dizia o outro.

Pat Condell

A propósito da intolerância taliban do eurodeputado que quer que Saramago renuncie à cidadania portuguesa, vale imenso ver o último vídeo de Pat Condell, sobre religião organizada.

Um clássico da anti-religiosidade portuguesa

José Saramago foi o único português a conseguir gerar o debate que aconteceu, nos últimos anos, e com muita fúria e ruído, em França (pela mão de Michel Onfray), no Reino Unido (com Richard Dawkins), e nos EUA (graças a Sam Harris e Cristopher Hitchens). As frases que causaram tanta polémica são, aliás, mais suaves do que o primeiro parágrafo do capítulo 2 do The God Delusion. Mas foi necessário um português com o peso do Nobel para trazer este debate para Portugal. Por, merece respeito e consideração. Há quem não seja capaz de o dizer porque Saramago é comunista. Podiam recordar que já se demarcou de Cuba (com veemência), mas não interessa.
De qualquer modo: a anti-religiosidade já produziu boas obras de arte em Portugal. Fiquemos com um clássico: «A Velhice do Padre Eterno», de Guerra Junqueiro.
«Jehovah, por alcunha antiga o Padre Eterno
Deus muitissimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz,
Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra,
Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapeu,
Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo.
Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado.
Depois o Creador (honra lhe seja feita!)
Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo serrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assignaria,
E furioso escarrou no mundo sublumar,
E a saliva ao cahir na terra fez o mar.
Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos
Com bulas da cruzada alguns cruzados novos,
E Tartufo podesse inda d'essa maneira
Jejuar, sem comer de carne á sexta feira,
Jehovah fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada marmota.
Em seguida metteu a mão pelo sovaco,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
E arrancando de lá parasitas extranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos
Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte
Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte.
Depois, para provar em summa quanto póde
Um Creador, tirou dois pellos do bigode,
Cortou-os em milhões e milhões de bocados,
(Obra em que elle estragou quatrocentos machados)
Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira
Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira.

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Por fim com barro vil, assombro da olaria!
O que é que imaginaes que o Creador faria?
Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo,
A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
O pobre Creador sentindo-se já fraco.
(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
Em seis dias!) pensou: — Deixem-nos de asneiras.
Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras,
Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa...
Nada, toca a dormir uma sonata boa!
Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó,
Pitadeou com delicia alguns trovões em pó,
Abriu, para cahir n'um somno repentino,
O alfarrabio chamado o livro do Destino.
E enflanelando bem a carcassa caduca,
Com o barrete azul celeste até á nuca,
Fez ortodoxamente o seu signal da cruz
Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz,
E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto,
Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito
N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.
E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.»

Agradecimentos ao Viseu Esquerda.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

6013

No dia 23 o Mundo faz 6013 anos e nós vamos comemorar aqui no departamento de antropologia. :o) Eu não vou estar cá, mas vou contar uma história piedosa aos meus alunos, que ouvi a um comediante / teólogo, chamado Bill Hicks.

Na sexta-feira da Criação, depois do almoço, Deus sentou-se um bocadinho a descansar, fumou uma broca à sombra duma árvore (criada dois dias antes) e deitou a beata para o chão. Poucas horas depois viu que a planta da canabis se tinha espalhado por toda a Criação e exclamou: "Valha-me eu próprio! O que é que eu fui fazer! Agora tenho de criar os republicanos!"

E foi assim que foram criados os fundadores do partido republicano e do partido popular europeu.

Viva Saramago!

O meu projecto de vida, a partir de hoje, será chegar à provecta idade que Saramago tem - uns meros 86 anos - com capacidade para colocar um país inteiro à bulha com meia dúzia de frases inteligentes, certeiras, e sobretudo justas. Ah, muito justas. Porque Saramago tem a razão: toda. A Bíblia é aquilo tudo que ele diz e muito pior. E, na idade que tem, já não vale a pena estar com paninhos quentes. O melhor é mesmo mandar a «aposta de Pascal» dar uma real volta ao bilhar grande e dizer tudo o que se pensa. Ganhamos nós e, mais importante, ganha ele.
Todavia, é confrangedor assistir ao espectáculo lastimável de uma certa «esquerda» que tem respeitinho a mais pelas comunidades religiosas (as que promovem a obediência), e convicção a menos pela liberdade (a de criticar a autoridade, a de defender a igualdade entre homens e mulheres, a de ser contra a pena de morte por práticas sexuais consentidas). Vinte anos de infecção «multiculturalista», e quarenta de aliança táctica com o «catolicismo progressista» pró-caridade, deram nisto.
Vergonhoso é saber que há um deputado - portanto, um representante da República - que pede a Saramago que renuncie à cidadania portuguesa. Se o deputado coloca a questão nesses termos, pode ele ir pedir asilo político ao Vaticano. Senão, que convença alguém, sei lá, género o Cavaco, a pedir ao Saramago que deixe de ser português. Quando chegarmos a esse extremo, eu irei pagar impostos para outra República. Mas temos que agradecer ao excelentíssimo deputado do PPE: desconfio que, na quarta-feira, os mesmos que atacaram Saramago na terça vão virar. Há indícios.
Tudo somado, há pouca gente (a excepção é Ferreira Fernandes) que aprecie que se trata de um velho, o último ateu da era comunista. E que, apesar do seu comunismo nominal, já estará mais próximo, hoje, de Jean Jaurés e Afonso Costa do que de Lenine e Cunhal. Porque antes dos bolcheviques havia outra esquerda, nem centrista nem autoritária. Bons tempos.
A única esquerda que vale a pena não esqueceu que a opressão não é só económica - também é (tantas vezes) clerical.
NEM DEUS NEM SENHOR


(Lisboa, bairro da Graça, 2009.)
De toda esta discussão - que devemos a Saramago - o que mais importa é decidir o que vamos fazer daqui para a frente. Continuamos fixados em livros e mitos anacrónicos, ou vamos assumir que o mais importante da nossa civilização, da democracia à laicidade, passando pela liberdade de expressão e pela igualdade entre homens e mulheres, foi conseguido, não pela religião, mas contra a religião (sobretudo a abraâmica)? Vamos continuar a misturar necessidades espirituais (o medo da morte, por exemplo) com mitos historicamente situados (a «ressurreição») e com o poder de instituições masculinas e autoritárias (como a ICAR ou o Islão)?

focar o essencial

«[...] “Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!” afirmou [Saramago].

Saramago sublinhou que “as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram”. [...] Saramago lamenta que todo esse “horror” tenha [sido] feito em nome de “um Deus que não existe, nunca ninguém o viu”. [...]

O escritor criticou também o conceito de inferno: "No Catolicismo os pecados são castigados com o inferno eterno. Isto é completamente idiota!”.

“Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer”, disse.

“Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?”, perguntou.

Deus só existe na nossa cabeça” [...]»


[PÚBLICO.PT --- 18.10.2009]

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O país que temos

Eurodeputado pede a Saramago que renuncie à cidadania portuguesa. E se eu pedir ao senhor Mário David para renunciar ao mandato em Bruxelas?

A grande dúvida sobre o próximo governo

Que professor do Instituto Superior Técnico é que vai ser o futuro ministro da Ciência e Ensino Superior?

Saramago tem razão

Andam-se a acender novas fogueiras (desta vez, espera-se que «simbólicas») para queimar o ateu Saramago. O seu delito? Ter dito, alto e bom som, que a Bíblia é «um manual de maus costumes», que «está cheia de horrores, incestos, traições, carnificinas» e que «sem a Bíblia seríamos outras pessoas. Provavelmente melhores».

Surpreendentemente, até alguma esquerda o critica, talvez por ter acreditado na versão do cristianismo que alguns «católicos progressistas» lhe impingiram. Deveriam saber que «catolicismo progressista» é um oxímoro, como o são «comunismo de mercado» ou «fascismo democrático». Não se pode ser livre e cultuar a obediência. Não se pode ser pela igualdade de direitos e promover a desigualdade.

Acontece que Saramago tem razão. A Bíblia tem dois livritos, o Levítico e o Deuteronómio, de onde se extrai um código penal que mesmo há dois mil anos era bárbaro e desumano. Nele se defende a pena de morte para tudo o que os progressistas, penso eu, defendem poder ser feito livremente, do adultério à blasfémia, passando pela homossexualidade. Será que castigar desta forma a liberdade individual é um «bom costume»? É isso que queremos que as crianças aprendam? Onde fica o «progressismo»?

Saramago entendeu escrever sobre o mito de Caim. Não vou criticá-lo, mas tenho pena que não se tenha dedicado àquele que, na minha modesta opinião de ateu, é o mais atroz e mais relevante dos mitos bíblicos: o de Abraão. Aí, vemos um pai que conduz o próprio filho ao altar para ser sacrificado, por mera ordem de «Deus». Só não há infanticídio porque «Deus» decide suspender o teste. Porque de um teste se tratava e Abraão passou no teste, é recompensado com uma «descendência numerosa». O sentido do episódio é cristalino: «Deus» exige obediência, e recompensa quem obedece ao ponto de aceitar matar os próprios filhos. A essência da religião abraâmica está aqui, na obediência incondicional e acrítica. Não admira que o episódio de Abraão seja tão querido do Islão.

Os candidatos a novos inquisidores têm duas estratégias. A primeira: dizer-nos, como sempre, que o essencial é «o amor». O que é treta. Nada no Novo Testamento revela uma insistência especial no «amor». Em Lucas (17,2), Cristo chega a defender que quem atrapalhe o caminho dos seus discípulos seja atirado ao mar com uma pedra atada ao pescoço (será isto «amor»?). E o episódio central do Novo Testamento, o sacrifício de Jesus Cristo, não é sobre o amor: é sobre a obediência. Pois em Marcos (14,36), prevendo a sua prisão e condenação à morte, Cristo diz: «Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres». Ou seja, depois de nos dar como modelo um pai que mata o seu filho, no episódio de Abraão, quando chegamos ao fim do conjunto de mitos reunidos na Bíblia, temos um filho que aceita que o pai não o salve da morte. Há quem ache isto bonito. Eu acho horrendo. Como acho moralmente criticável que alguém morra pelos erros e crimes dos outros. Cada um de nós deve assumir a responsabilidade pelos seus erros e crimes, e não transferir a responsabilidade para outrém. Enfim, somos melhores pessoas quando aceitamos a responsabilidade dos nossos actos, não quando fugimos à dita responsabilidade. Digo eu, que sou ateu.

A outra estratégia dos herdeiros dos inquisidores é discutir «interpretações». Dizer-nos que as defesas da morte são «simbólicas», e que as partes do «amor» (ou do «perdão») são literais. Ou que o sentido real é o contrário do que lá está escrito. Quem tiver pachorra que entre nesse debate, no qual não abunda a honestidade intelectual. Eu não a tenho. A pachorra.

Bruxaria na Nigéria, e religião em geral

Republicanos pro-violação

Aqui pode-se ver as caras dos senadores que votaram na semana passada contra a lei de Al Franken, que proibe o estado de contratar empresas que não defendem os empregados e empregadas contra violações.

A ser verdade

As anotações à mão dizem o que o respectivo cérebro quiser - e portanto a última noticiazinha da TVI não acrescenta muito à tese da conspiração/suborno de alguém no Ministério do Ambiente de Sócrates para aprovação do Freeport. E no entanto, a ser verdade que houve efectivamente suborno, e especulando que este envolveu tanto o Ministro da época - Sócrates - como o Secretário de Estado - Silva Pereira - essa tese permitira explicar a inquebrantável amizade que desde aí une os dois políticos, um dos quais - Silva Pereira - não encaixa muito bem, digamos assim, no retrato do típico militante socialista. A ser verdade, claro.

domingo, 18 de outubro de 2009

A Idade Média

O clero espanhol e o Partido Popular organizaram em Madrid uma super manifestação com 250 mil pessoas, que incluíu excursões de pro-vidas de vários países da Europa, contra a revisão da lei do aborto por Zapatero.

Numa das fotografias de um dos jornais há um grupo de meninas muito bonitas com cartazes, que me lembraram imediatamente uma amiga minha, que há uns anos se foi manisfestar contra o aborto em Lisboa, com a mãe e um grupo de amigos católicos, e no dia a seguir foi fazer um aborto a uma clínica da margem sul (que já estava marcado).

Para além da hipocrisia, do ódio à sexualidade e à emancipação das mulheres, e da natureza simplista de se querer manter uma lei que absolutamente ninguém cumpre, acho inacreditável que sejam os bispos - homens que supostamente (e uso a palavra com cuidado) levam uma vida casta - a querem legislar sobre o corpo das mulheres.

Volta e meia gostava de ver a Igreja fazer uma proposta que um humanista pudesse aceitar. Parece que desde que morreu o papa Paulo VI nunca mais se elegeu um bispo com empatia pela espécie humana...

Burca: mais vozes islâmicas pela proibição

Cada vez mais vozes islâmicas se levantam pela proibição da burca. Depois de uma xíita, uma sunita:
  • «(...) The Muslim Canadian Congress (MCC) is now adding its voice to Sheikh Tantawi’s, and all the others who demand an end to this insult to the female gender. The MCC, an organization that I once led, has asked Ottawa to introduce legislation that will “ban the wearing of masks, burkas and niqabs in public.”

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sobre o "caso Maitê Proença"

Eu nem queria acreditar quando assisti ao abespinhado apresentador Pedro Pinto, do "Jornal Nacional" da TVI, que constantemente referia a "ignorância" de Maitê Proença, numa apresentação "engajada" (Manuela Moura Guedes fez mesmo escola naquela casa). Em que é que consistia essa ignorância?
  • chamar "vilazinha" a Sintra? No português do Brasil, o diminutivo não é depreciativo (ao contrário de, por vezes, em Portugal). Pensem por exemplo nos jogadores de futebol - acaba tudo em "inho". Não há ofensa nenhuma (muito menos ignorância) em um brasileiro referir-se à "vilazinha" de Sintra;
  • dizer que em frente a Belém está "o mar"? Bem, se foi dali que Vasco da Gama partiu, a confusão é legítima. Ninguém sabe muito bem onde acaba o rio e começa o mar naquela zona - a estação de comboio da linha de Cascais chama-se "Alcântara-Mar" e não "Alcântara-Rio". De resto, logo no próprio vídeo a correcção é feita;
  • não saber que o 3 ao contrário é "místico"? Eu também não sabia. E acho que ela tem todo o direito a gozar com o misticismo;
  • a afirmação "o ditador Salazar esteve no poder mais de 20 anos" é matematicamente verdadeira. Sabemos que na linguagem comum "mais de 20 anos" quer dizer "menos de 30", o que relativamente a Salazar é errado. Mas mais grave seria não saber história portuguesa - Maitê tem, pelo menos, noções. Quantos dos que a criticam têm noções de história brasileira? E, já agora, quantos dos que a criticam sabiam que o padrão dos Descobrimentos é uma obra do salazarismo, como Maitê afirmou?
  • Maitê aproveitou para referir-se (num tom jocoso) aos portugueses que elegeram Salazar como "o melhor português de sempre". Creio que a irritação de muito boa gente vem daqui. Apostaria que os críticos mais indignados de Maitê que por aí vemos concordam que Salazar é o melhor português de sempre. Este episódio não pode ser totalmente compreendido sem considerar esta parte do vídeo.
O que eu achei mesmo de muito mau gosto foi a cuspidela na fonte do Mosteiro dos Jerónimos. Mas é uma atitude que só a desqualifica a ela, Maitê Proença. (Compreendo a indignação se se tratar da defesa do património - que péssimo exemplo!) Desqualifica-a a ela e às quatro apresentadoras do programa de televisão, que se riram acefalamente da coisa. Aliás, o vídeo é uma tonteria sem grande ponta por onde se lhe pegue. Não estou aqui a defendê-lo, e até acho bem que se mostre aos brasileiros que essa atitude de se queixarem de Portugal por tudo tem muito de infantil. Mas a quem protagoniza telenovelas como a "Dona Beija" tem que se desculpar muita coisa...

mas foi o único que se preparou para a reunião com sócrates?

«[...] Paulo Portas reiterou ontem as dez condições do seu "caderno de encargos" para viabilizar o próximo Orçamento do Estado - nenhuma das quais entra em contradição com o programa eleitoral do PS. [...]

Alívio da carga fiscal para as pequenas e médias empresas e para as famílias, apoio aos jovens e casais desempregados, aumento das pensões mais baixas, fiscalização generalizada do rendimento mínimo, revisão cirúrgica das leis penais, acordos com Misericórdias na saúde, revisão do modelo de avaliação dos professores, plano de emergência para os fundos comunitários da agricultura e apoios aos deficientes das Forças Armadas, e antigos combatentes - foram algumas das suas propostas. [...]»


[Diário de Notícias --- 15 de Outubro de 2009]


«[...] Paulo Portas apresentou ainda 10 pontos de substância que considera determinantes para "os debates que se seguem ao programa de Governo".

Entre eles o combate ao desemprego, o apoio às pequenas e médias empresas, o reembolso do IVA no devido tempo, o pagamento de juros por parte do Estado sempre que se atrase no pagamento quer às empresas quer às famílias, apoio aos mais jovens e aos casais desempregados, fiscalização generalizada do rendimento mínimo e uma "urgente revisão cirúrgica mas determinada das leis que favorecem a delinquência em Portugal". [...]»


[Diário de Notícias --- 14 de Outubro de 2009]


à partida, retirando a questão sobre as misericórdias, parecem pontos mais ou menos razoáveis e com clara margem de manobra para se chegar a um entendimento. mas a minha principal pergunta é: porque não fizeram louçã e jerónimo o mesmo?? foram só passear e dizer que "não" sem mais??

mantém-se o sectarismo? BE e PCP dizem não a abertura do PS

«[...] A resposta foi directa: Francisco Louçã disse esta manhã a José Sócrates que “não há condições para qualquer forma de coligação” entre o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Socialista. [...]

“Apreciaremos qualquer proposta pelo seu valor: se dá contributo para melhorar a vida dos mais pobres e desfavorecidos, se resolve os problemas que o país enfrenta”, afirmou Louçã aos jornalistas no final do encontro. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 15.10.2009]



«[...] Foi a quarta nega a José Sócrates sobre possíveis acordos formais ou informais: o PCP foi esta tarde à residência oficial do primeiro-ministro para lhe dizer que não está disponível para uma relação com o PS, mas que analisará “caso a caso” as propostas que os socialistas levarem ao Parlamento. [...]

[O] PCP está apenas disponível para ouvir, “centrado nas questões políticas e tentando resolvê-las”, mas apenas “proposta a proposta”, “sem prévio acordo, sem coligação”. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 15.10.2009]

Outro republicano

  • «O Rei sou Eu, caro leitor. E não tenha inveja, que o leitor também é. É essa a maravilha de tornar os Estados numa coisa pública, tirando-os da mão de um senhor - normalmente é um senhor, não há quotas na genética - que o herdou apenas porque os concidadãos dos seus antepassados não se importaram de abdicar do direito a escolher o seu líder máximo, delegando tal competência à madrasta natureza. E que madrasta, tantas vezes. Dizem que o monárquico é regime de muita virtude. Que os países mais ricos da Europa são Monarquias. Pois são. Mas falta dizer que se tornaram os mais ricos e poderosos muito antes de se pensar na ideia de uma República. Ou no século XIX a Inglaterra e a Holanda não eram muito mais ricas que esta nossa praia mal amparada? Pois é. Estas faláciazinhas só enganam quem se quer deixar enganar. (...)» (Expresso)

outro que começa mal...

«[...] António Preto pediu a suspensão do mandato de deputado do PSD logo no dia da posse. Um pedido de suspensão que durará pelo tempo necessário para o julgamento por fraude fiscal qualificada e falsificação de documento conhecido como "caso da mala" e que tem julgamento marcado para 27 de Outubro, em Lisboa. [...]

Em causa estão 150 mil euros que o deputado alegadamente recebeu em 2002, em envelopes e malas, dos empresários da construção civil Virgílio Sobral de Sousa e Jorge Silvério, na campanha das eleições para a liderança da distrital do PSD de Lisboa, que acabou por vencer. Segundo a acusação, concluída em 2005, António Preto e os dois empresários causaram também um prejuízo ao Estado de mais de 37,5 mil euros.

O deputado terá tentado justificar aquelas quantias como honorários relativos a serviços de advogado, através de um contrato de prestação de serviços, elaborado posteriormente ao recebimento de várias quantias, e da emissão de recibos, o que o juiz considerou falsificação. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 15.10.2009]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

primeiro rato a fugir...

«[...] Foi uma renúncia em tempo recorde. João de Deus Pinheiro, cabeça-de-lista do PSD por Braga, foi deputado pouco mais de meia hora. Logo após a posse dos novos deputados, depois das 10h00, reuniu-se a comissão de verificação de mandatos onde foi aprovada a renúncia ao mandato do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros [...]»

[PÚBLICO.PT --- 15.10.2009]

O fim do ateísmo tranquilo

Antes de ontem vi o filme "The Invention of Lying" e ontem vi o DVD de "Religulous" à venda numa loja de vídeos. Dez por cento dos americanos abandonaram a religião durante os anos Bush e cada vez mais figuras públicas se declaram sem religião. Embora a direita não pare de crescer, creio que este movimento é muito positivo e espero que as palavras de Saramago sejam proféticas. Parece-me importantíssimo acabar com o espírito da Contra-Reforma e questionar a autoridade do clero em matérias morais. Não foram eles que encobriram mais de 5.000 casos de ataques pedófilos durante os últimos 25 anos? Não foram eles que rezaram missas por Hitler, Mussolini e Pinochet? Não são eles que aparecem sempre do lado dos fortes, contra os fracos, sempre que são obrigados a escolher?

Espero que nos próximos anos as pessoas lhes percam o medo progressivamente e os questionem sobre a fonte da autoridade moral que lhes permite chamar assassinas de bébés às mulheres desesperadas que têm de recorrer ao aborto.

O fim do ateísmo tranquilo

José Saramago já entendeu que isto não vai lá com «pacifismo intelectual»:
  • «Às insolências reaccionárias da Igreja Católica há que responder com a insolência da inteligência viva, no bom sentido, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder» (Público).

política de verdade... e coerente? a seguir nas próximas semanas

«[...] Manuela pôs a cassete a correr: “Vamos ficar à espera de qual dos partidos, à direita ou à esquerda, o PS escolhe para governar o país. Nós estamos fora desse jogo. Nós somos oposição”. [...]

[N]o recente debate com Sócrates na televisão, Manuela defendeu uma postura diametralmente oposta na hipótese de o PS perder as eleições: “Só espero que, em caso de minoria, o PS respeite o governo do PSD como nós o fizemos durante o governo liderado por Guterres”. [...]»


[Miguel Abrantes | Câmara Corporativa --- Outubro 08, 2009]


«[...] Ontem, Manuela Ferreira Leite avisou o Governo minoritário de José Sócrates [...] para que não conte com a “ajuda envergonhada” do PSD, sinalizando que a bancada laranja não vai viabilizar, pela abstenção, a aprovação do Orçamento do Estado para 2010, o que obrigará o PS a negociar apoios noutros quadrantes políticos.

Hoje, à saída da audiência com Cavaco, surge-nos uma Manuela recauchutada: a “oposição firme a este Governo” (admite-se que estivesse a falar do próximo Executivo) era manifestamente exagerada. A “oposição firme” passa a “oposição responsável” e, uma vez que a Dr.ª Manuela disse não conhecer o Orçamento do Estado para 2010, não exclui a priori a sua aprovação [...]»


[Miguel Abrantes | Câmara Corporativa --- Outubro 09, 2009]


«[...] [O] PSD não está disponível «nem para coligações, nem para acordos parlamentares, mas sim para fazer uma «oposição responsável».

Por outras palavras, os social-democratas não se vão opor a quaisquer propostas que sejam «boas para o país» só para fazer oposição, nem vão apresentar «propostas irresponsáveis», porque essa é a única forma de conseguir «a estabilidade governativa que é essencial neste momento para o progresso do país», esclareceu.

Questionada pelos jornalistas se o PSD vai rejeitar o programa do Governo, a líder do PSD recusou-se a responder por ainda não conhecer o programa que o executivo liderado por José Sócrates vai apresentar. [...]»


[TSF --- 14 Out 09]


mas não vamos esquecer todos os outros:


«[...] [O] PS não procura parceiros e deseja [um] governo minoritário e de combate. O erro está na desresponsabilização das oposições. Porque se é verdade, como José Sócrates tem reiterado, que os portugueses confiaram ao PS a responsabilidade de governar, sufragando maioritariamente o seu programa, a verdade também é que a sociedade é solidariamente responsável em democracia. Os resultados eleitorais são para ser aceites por todos. E, por isso, ninguém, apesar de todo o respeito pelos seus princípios e convicções, pode assumir a ditadura da não negociação em caso algum.

Numa altura em que a política será pautada claramente por negociações, a demissão de qualquer partido de ser uma oposição responsável, verificando caso a caso se lhe é, ou não possível fazer pontes de entendimento com as propostas governamentais, é uma recusa dos resultados eleitorais inaceitável em democracia. [...]»


[Carlos Santos | O Valor das Ideias --- 6 de Outubro de 2009]


ou vamos?...


«[...] A esquerda mais romântica sonha com uma grande maioria de esquerda como se fosse possível o PCP aceitar uma coligação onde o BE teria um maior peso em função dos últimos resultados eleitorais ou em que o PS se esqueceria das declarações de Louça ao Público onde divulgou o seu projecto pessoal de destruir o PS. [...] [P]ara o PCP e para o BE a destruição do PS significa destruir o maior obstáculo ideológico ao seu projecto político. [...]

Aliar-se ao PSD de nada serviria para Paulo Portas pois não o levaria ao poder, em contrapartida significaria deixar que os seus novos eleitores se diluíssem no eleitorado do PSD. Para representar a direita como deseja Paulo Portas, o CDS terá de crescer e esse crescimento só será sustentado se crescer com votos da direita, isto é, do PSD. [...] [U]ma aproximação [ao PS] significaria a marginalização do outro partido, pelo que CDS e PSD avaliarão a estratégia um do outro antes de uma decisão.

Se Portas ajudar Sócrates pode exigir contrapartidas e apresentar-se ao eleitorado da direita cobrando as medidas que conseguisse fazer passar. Tal perspectiva seria dramática para um PSD que teme a evolução do Caso BPN, o ideal seria uma aliança com o PS se a contrapartida fosse abafar o caso. Mas Sócrates não [pode] ajudar o PSD já que tudo depende do PGR [...] [que] estará muito interessado em saber quem são as personalidades do PSD (ou os familiares) que serão envolvidas no caso BPN. [...]

[N]ão me admiraria nada se nos próximos dias Manuela Ferreira Leite acorde com uma imensa preocupação com o interesse nacional e venha dizer que tudo fará para assegurar a estabilidade do país no momento em que enfrenta uma grave crise. [...]»


[O Jumento --- Outubro 03, 2009]

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

a coisa já esteve mais negra...

«[...] Portugal teve um aumento do PIB no 2º trimestre (em relação ao anterior) enquanto o da UE27 desceu.

O consumo das famílias subiu, enquanto a média europeia desceu.

O consumo público (despesas do governo) desceu, enquanto a média subiu.

O investimento manteve-se praticamente estável em Portugal (-0,2%) enquanto caiu na UE27 -2,3%.

As exportações portuguesas subiram, enquanto a média europeia descia.

As importações portuguesas desceram ligeiramente mais que a média europeia. [...]»


[Miguel Carvalho | fado positivo --- 07 Out 09]

Peritos querem que o Estado cobre 20% sobre lucros na bolsa

«As mais-valias obtidas nos mercados de capitais devem ser mais tributadas, sugere o grupo de trabalho para o estudo da política fiscal, nomeado pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. O relatório é hoje apresentado no Ministério das Finanças.»

E mais, no Público.

vou deixar de ser a única pessoa a defender o chip?

«[...] A Comissão Europeia anunciou hoje que vai lançar um serviço electrónico europeu de portagem (SEEP) que permitirá aos condutores pagar a taxa de utilização de auto-estradas em toda a União Europeia (UE) utilizando apenas um serviço e equipamento. Os chips que serão instalados nos automóveis vão articular-se com o serviço electrónico europeu de portagens. [...]

Contactada pela Lusa, fonte oficial do Ministério das Obras Públicas disse que o projecto anunciado hoje pela Comissão Europeia irá articular-se com o Dispositivo Electrónico de Matrícula (DEM), vulgarmente designado por chip. [...]»


[Ciência Hoje --- 2009-10-07]

terça-feira, 13 de outubro de 2009

e no final, quantos vão restar?

«[...] Numa década, o número de casamentos católicos no Patriarcado de Lisboa caiu para menos de metade. Os recentes dados estatísticos da maior diocese do País mostram que em 2008 houve 3456 matrimónios, menos 4843 do que em 1998. Ou seja, uma queda de 62%.

Realidade que espelha a menor religiosidade das pessoas e acompanha a tendência global de diminuição de casamentos em todo o País. Entre 2000 e 2006, dados do Instituto Nacional de Estatística já registavam uma descida das uniões católicas de 40% no País. No geral, a redução era de 25%. [...]

[N]o baptismo, a primeira comunhão ou o crisma (confirmação do baptismo), a descida não é tão acentuada. Na mesma década, a redução de baptizados é de apenas 20%, apesar da descida da natalidade e de Lisboa ser uma diocese bastante envelhecida. As primeiras comunhões e os crismas tiveram uma redução de 24% e de 21%. [...]»


[Diário de Notícias --- 08 Outubro 2009]

o que faz falta é acusar a malta!

«[...] Soube-se esta semana que a maioria dos contratos celebrados pelo Estado, ao abrigo da nova legislação que o permite, foi feita por ajuste directo, ou seja, sem recurso a concurso público. Estes contratos por ajuste directo não violam a lei e, ao contrário do que acontecia antes, são divulgados publicamente (a transparência obriga ao rigor).

A lei da contratação pública abrange, obviamente, a Administração Central, dependente do Governo, e as autarquias locais. E já se sabia que estas últimas são, como é natural, as que mais recorrem aos ajustes directos (precisamente porque os valores das obras e/ou compras em causa são menos elevados). [...]

Para Francisco Louçã, estamos perante mais um escândalo do Governo socialista. Ainda para mais, um governo de gestão. [...] Ou seja, o Governo também é responsável pelos ajustes directos realizados pelas autarquias...

Louçã sabe - tem de saber - que isto é mentira. [...]

A Anita de Salvaterra tem registados no Portal, 34 ajustes directos [...]»


[João Magalhães | Câmara Corporativa --- Outubro 07, 2009]

ficará uma lição?

«[...] Mas o que se passou em Lisboa foi outra coisa. O Bloco recuou para resultados próximos dos das autárquicas de 2001, quando tinha apenas dois anos e valia pouco mais de 2% no país [...]

Claro que o voto útil contou. O PCP também teve uma queda assinalável em Lisboa, mas, ainda assim, não tão acentuada, à sua proporção, como a do BE. Mas estas não são, longe disso, as primeiras eleições em que o Bloco se confronta com a pressão do voto útil. E tem conseguido resistir. A razão porque o apelo ao voto útil desta vez funcionou no núcleo duro do eleitorado do Bloco e não apenas nas suas franjas é não ter sido dada nenhuma razão para que o voto ali se mantivesse. O BE foi incapaz de mostrar, pelo compromisso em participar no governo da cidade e pela sua prática nos últimos dois anos em Lisboa, qualquer vontade de tornar realmente útil o voto que nele fosse depositado. [...]

[O] eleitorado do Bloco não é sectário nem exige que o BE se mantenha puro e virgem. Quer ver o partido a assumir responsabilidades e a mostrar o que vale. Não acha impensável que o Bloco se oponha ao PS no parlamento nacional e consiga fazer entendimentos a nível local (como o PCP já fez em Lisboa). [...]

[P]assado este ciclo eleitoral, o Bloco tem de reflectir. Reflectir sobre o que querem os homens e mulheres que têm feito crescer o BE. O que espera o eleitorado do partido onde habitualmente vota. Se quer um partido apenas de contra-poder ou espera que se assumam responsabilidades. Se aceita estratégias que apenas têm a afirmação do partido como meta ou se deseja que a energia que o Bloco acrescentou à política portuguesa e à esquerda tenha efeitos práticos na vida concreta das pessoas. [...]»


[Daniel Oliveira | Arrastão --- 12 Out 09]

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Espinho

Foi finalmente concretizado um projecto muito antigo: o túnel da linha do comboio, que passou a ser subterrânea e deixou de dividir esta cidade em duas. Só que os responsáveis só se preocuparam com o soterramento da linha, e não com o planeamento do que fazer à supefície. Onde antes estavam as linhas de comboio (e uma estação bem bonita), agora está um descampado com vedações, que continua a dividir a cidade, é mais feio, e ninguém sabe bem o que vai lá ser feito. Creio que terá sido esta desorientação que custou ao PS este antigo bastião no conservador distrito de Aveiro.

Margem Sul do Tejo

O Bloco de Esquerda teve derrotas assinaláveis ao não eleger vereadores em Lisboa e no Porto. Só nalguns municípios da margem sul do Tejo atingiu tal desiderato, sendo que em Almada roubou mesmo a maioria absoluta à CDU, que desce à custa do crescimento do Bloco de Esquerda (não do PS). Vai ser um laboratório político interessante, Almada. Falta um vereador à CDU para a maioria absoluta. Elegeram vereadores PS, PSD e Bloco. Não me admiriaria se o acordo mais fácil fosse entre a CDU e o PSD.

Alentejo

No Alentejo, o PS é o voto útil da direita para derrotar a CDU. Já fora assim com Évora há doze anos. Foi agora com Beja e Aljustrel, onde a direita desaparece, sendo que no primeiro caso a CDU perde ganhando votos.

Lisboa

Tal como Carlos do Carmo e tantos outros lisboetas, costumava votar na CDU para as autárquicas. Desta vez votei no PS (e apoiei publicamente a candidatura de António Costa).
Tal como (quase que aposto!) Carlos do Carmo e muitos outros lisboetas, tenho pena que a CDU tenha perdido um vereador, mas não me arrependo de nada. Principalmente porque creio que votei (convictamente) num grande presidente de câmara, mas também porque, como se comprovou, o risco de vitória de Santana Lopes era real. E havia que não dispersar votos, para não voltar a suceder como em 2001. Já da não-eleição de vereadores do Bloco de Esquerda não tenho pena nenhuma. Em qualquer dos casos, o sectarismo foi penalizado.
Tal como (quase que aposto!) Carlos do Carmo e muitos outros lisboetas, votei na CDU para a Junta de Freguesia. Considero os meus votos muito bem empregues. Nenhum deles foi perdido.
Santana Lopes tinha razão ao apontar o "voto útil" em Costa (para a vereação) por parte dos eleitores mais à esquerda, principalmente da CDU, como se comprova com o muito melhor resultado que a coligação teve nas eleições para as freguesias. Já não tem razão nenhuma (e soa a delírio) falar num "acordo secreto" entre PS e CDU ou numa intenção deliberada do PCP em votar no PS para a vereação. Por um lado estes resultados fortalecem Santana: este voto útil mostra que era um adversário temível para a esquerda. Mas por outro lado tornam evidente que a principal preocupação de grande parte do eleitorado era que Santana não fosse eleito. Santana divide os lisboetas quase ao meio: uma parte significativa ainda gosta muito dele, mas a maioria sente por ele uma rejeição enorme. Por muito que já haja quem afirme o contrário, Santana é um dos grandes derrotados da noite.

Guerra

Uma das coisas mais tristes no sul profundo dos EUA é a cultura militarista. Quase todos os amigos dos meus filhos querem ser "marines". Eu pergunto-lhes sempre se não preferiam ter montes de namoradas. Em vão. Querem todos ser "heróis" e ir à guerra. E depois descobrem que a guerra não é como nos filmes:

HuffPo: LYNN, Ind. — An ex-Marine who served in Iraq has been charged with three counts of attempted murder of a police officer after firing on police.

Authorities say 26-year-old Andrew Ward of rural Lynn fired four shotgun blasts at three officers Friday night at a rural farm house. No officers were hurt.

After that weapon and another malfunctioned, officers used a stun gun to subdue Ward. He was being held without bond Sunday. He also faces preliminary charges of criminal recklessness, battery and intimidation.

Relatives say Ward was discharged from the Marines last month and is seeking disability veterans benefits for anxiety and post-traumatic-stress disorder. An older brother who also served in Iraq killed himself in 2003.

Lynn is about 65 miles east of Indianapolis.

Pulido Valente

Volta e meia leio a coluna do Pulido Valente no Público. Raras vezes, já que nunca leio o Público (que considero um jornal repugnantemente estúpido e reaccionário). Mas esta semana li dois textos dele. O primeiro era divertidíssimo, sobre os zelotas anti-tabaco. Depois dum jantar numa esplanada à beira duma falésia, longe das outras mesas todas, VPV e a mulher acenderam uma cigarrilha cada um e foram imediatamente insultados por um americano, a espumar de ódio, que lhes disse que esperava que eles morressem de morte lenta a dolorosa. E eu aposto que o energúmeno tem um SUV e deixa o motor ligado e o ar condicionado no máximo quando vai ao supermercado. O segundo texto era contra a atribuição do Nobel a Obama e enumerava todas as coisas que ele não fez, oito meses depois de ter sido eleito. VPV é um historiador competente e inteligente e devia saber que Obama sózinho não pode fazer nada e que os congressistas e senadores do Partido Democrata - uns porque são são corruptos e amorais, outros porque são racistas e outros porque são criminosamente estúpidos - lhe têm tirado o tapete todos os dias.

Claro que estamos todos frustrados com os fracassos desta administração. Mas acho injusto culpá-lo por tudo o que acontece num país em que 100 milhões de pessoas são como o homenzinho que o abordou por causa do tabaco, ou seja, ainda não estão preparados para aceitar as ideias da "Idade da Razão".

Quase tudo na mesma

As eleições autárquicas não trazem grandes mudanças. Creio (sem saber, a esta hora, os resultados finais) que terão mudado de mãos pouco mais de 10% das presidências de câmara. Apenas a aplicação da lei de limitação de mandatos, na próxima eleição autárquica, forçará a que mais de metade das câmaras municipais mudem de mãos. Aí, sim: 2013 será uma revolução. Por enquanto, fica quase tudo na mesma.
De significativo, à hora a que escrevo, há um reforço ligeiro do PS, principalmente à custa do PSD mas também da CDU. Nas capitais de distrito, o PS tira Leiria ao PSD e Beja à CDU; por outro lado, o PSD tira Faro ao PS (o imbatível Macário Correia!). O PS vence o PSD na Figueira da Foz, em Tavira e em Ourém (entre outros), e vence a CDU em Viana do Alentejo e Aljustrel. O PSD vence o PS em Monchique. Tudo junto, o que muda é pouco.
Vergonhosamente, Isaltino Morais é reeleito, Mesquita Machado é reeleito, Valentim Loureiro é reeleito. Fátima Felgueiras perde. Como cidadão, mal posso esperar pela «limpeza» que será 2013.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A minha declaração de voto em Lisboa

Voto em António Costa. Porque foi o único candidato que fez um esforço efectivo para unir a esquerda. Porque a eleição de Santana Lopes (que seria muito má para a cidade – o triunfo do automóvel privado) é um perigo real, que não se deve subestimar, pelo que não deve haver votos perdidos ou dispersados. Acima de tudo, porquje creio que Costa mostrou, nestes dois anos, que é um excelente Presidente. E, queira-se ou não, é Costa que tem marcado a agenda destas autárquicas lisboetas (o que, contra um adversário como Santana, é notável). Uma pequena mas significativa demonstração deste facto é o desmascarar definitivo das intenções políticas da corporação do automóvel (ao que este clube, que já foi respeitável, chegou!). Independentemente das óbvias motivações políticas do seu presidente, o ACP quer eleger os ciclistas como inimigos. E quem quiser esta guerra perde (é isso que eu tenho costumo dizer aos meus amigos do Menos Um Carro – defender os peões e os ciclistas, mas sem declarar guerra aberta aos automobilistas: convencê-los). Por uma Lisboa sustentável e plural, o meu voto só pode ser em António Costa.

Debate sobre Lisboa (2) – as propostas de Santana

Não tenho a mínima saudade dos tempos de Santana Lopes à frente do município (enm fdo governo) e tudo farei para impedir o regresso ao poder do candidato que quer transformar Lisboa num imenso túnel. Mesmo assim, há duas propostas suas que vale a pena reter (e foram objecto de discussão no debate). Uma dessas propostas é a venda, por parte da Câmara, das habitações por esta detidas aos inquilinos que para isso se mostrarem interessados. Só é pena que Santana não estenda tal proposta a todos os senhorios e todos os inquilinos, mas somente à Câmara (após muitos anos de permanência numa casa um inquilino deveria ter a opção de a comprar e o senhorio a obrigação de a vender – por que não?). A proposta de Santana tem o mérito de ir contra o politicamente correcto (muitas vezes defendido por uma “esquerda”) de que a culpa pelo mau estado das casas é dos inquilinos que pagam rendas baixas. A outra é a não desactivação do Aeroporto da Portela (muito embora seja indispensável a construção de um novo aeroporto na região de Lisboa). Nesta proposta Santana junta-se aos outros candidatos de esquerda, contra António Costa. O que vale é que esta não é uma questão que dependa da Câmara Municipal de Lisboa (depende sobretudo do governo). Haveremos de voltar a ela.

Debate sobre Lisboa (1) – o outro António Costa

O debate de anteontem na RTP foi muito alargado. Excessivamente. Ficámos a conhecer candidatos que preferíamos desconhecer, como o do PNR (que se limitou a defender o uso do carro e a queixar-se da retirada dos cartazes xenófobos do seu partido – o que não é uma questão autárquica) e o do MMS (que por coincidência também se chama António Costa). Este último não sabe que o verbo “intervir” se conjuga como “vir” e não como “ver” (tendo proferido um “intervimos” em vez de “interviemos”). Que falta de mérito! A meio do debate, este António Costa armou-se em Santana Lopes e abandonou a sala (onde nunca deveria ter entrado). Terá ido para a “Conchichina” (uma espécie de China em forma de concha, que também só o seu partido conhece)?

O apoio que faltava

Digna de destaque é a “declaração de apoio que não é uma declaração de apoio” de Manuel Carvalho da Silva a António Costa. Apesar de tudo, o coordenador da CGTP afirmou que é muito importante a vitória de Costa, o que é muito diferente da posição oficial do PCP, para quem “não há diferenças” entre o PS e o PSD. Só é pena que a posição de Carvalho da Silva seja estritamente “autárquica” e não envolva o governo do país. Seria interessante ver Carvalho da Silva afirmar, por exemplo, que a avaliação de professores é necessária (mesmo se em moldes diferentes dos propostos pelo governo), em contraste com mais esta posição lamentável do PCP. Como se pode pensar em coligações de governo entre o PS e o PCP quando este partido defende posições destas?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

à direita da ética



«[...] Ética e transparência foi o que o Presidente da República pediu ontem aos agentes políticos no seu habitual discurso de comemoração da implantação da República. [...] O Presidente da República apelou à união "em torno dos grandes ideias republicanos" que, segundo Cavaco, "exigem, da parte dos agentes políticos, um esforço acrescido para a concretização da ética republicana e para a transparência na vida pública". [...]»

[Diário Económico --- 06/10/09]


«[...] "Tenho visto muito boa gente. Vêm todos clamar como paladinos da ética que uma pessoa, por estar acusada ou por ser arguida, não deve ser candidata", afirmou [Paulo] Rangel, para quem "há situações e situações que devem ser ponderadas umas e outras". [...]

Pouco antes, Rangel havia defendido, perante os participantes na Universidade de Verão, que "a credibilidade da política não está na ética". [...]»


[RTP --- 26 Agosto '09]

change we can believe in, or business as usual?

«[...] Leaders of the G-20 economic summit will announce Friday that the group will become the new permanent council for international economic cooperation, senior U.S. officials told CNN Thursday. [...]

The G-20 will now essentially eclipse the G-8, which will continue to meet on major security issues but carry much less influence.

"It's a reflection of the world economy today and the players that make it up," said one senior official. Nations like China, Brazil and India -- which were locked out of the more elite G-8 -- will be part of the larger group.

The Group of 20 -- leaders of 20 countries representing 90 percent of the world's economic output -- are meeting in Pittsburgh for a two-day summit, focusing on the financial crisis and how to avoid a future repeat. [...]

One of the key goals is preventing such a crisis from occurring in the future, [U.S. Treasury Secretary Timothy Geithner told reporters Thursday] [...]

"I think we all recognize that we need to act before the memory of the crisis fades and before the impetus for reform recedes," he said. "And we're trying to bring greater urgency and commitment to the need to act together." [...]

G-20 finance ministers and central bank governors agreed at a meeting this month not to start cutting back just yet on stimulus efforts. They fear it would put economies at risk for plunging back into recession. However, the economic outlook has improved enough that countries are being encouraged to start working on exit strategies, which will vary by nation. [...]»


[CNN --- September 25, 2009]