segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A desilusão e a revolta

A imagem que eu tinha de José Sócrates era muito positiva. Um homem pragmático, com a coragem de defender ideias impopulares, moderado nas suas propostas, mas que acreditava decididamente na importância da ciência, tecnologia, educação e cultura para o desenvolvimento económico.
Fiquei muito contente com a sua maioria absoluta, com o governo que escolheu, e pensei que bons anos viriam.
Na altura via-o como uma mais-valia para o PS.

Hoje não.

Em primeiro lugar porque a fibra intelectual de Sócrates parece semelhante à que estou habituado a ver nos líderes do PSD - a suficiente para "liderar". Mas não mais que isso, e quando se lidera um governo, eu espero mais. Não espero apenas que seja capaz, tem de ser brilhante. Quero alguém bem mais inteligente que uma Manuela Ferreira Leite, e não alguém que quando discute os assuntos parece programado para repetir duas ou três «ideias chave» previamente decoradas (sabemos que a Manuela improvisa, é certo, mas também sabemos que cada vez que o faz se arrepende).

Em segundo lugar porque quero alguém em quem possa confiar. Alguém em relação a quem eu saiba que dá o seu melhor para ser honesto (sabemos que em política uma honestidade a 100% é impossível, mas pelo menos existe quem se esforce). Isto é algo que é raríssimo no PSD, e ainda mais no CDS. Mas não devia ser assim tão difícil no PS. E no entanto, quando começaram as difamações da direita a respeito do caso freeport o meu instinto foi acreditar nelas. Porquê? Porque José Sócrates assinou aqueles projectos. E eu prefiro acreditar que houve ali alguma desonestidadezita porque a alternativa, a incompetência atroz, seria pior. Não é de uma gravidade por ali além, e se isto tivesse acontecido a um líder do PSD eu limitar-me-ia a pensar "típico" sem dar grande importância ao assunto. Assim, isto desiludiu-me e quebrou alguma confiança.

Em terceiro lugar por causa da actuação política. As críticas do PSD sobre o "abuso de poder" de Sócrates são cómicas porque sabemos que quando no poder tentaram e fizeram bastante pior. Mas, são críticas que um PS na oposição teria feito ao primeiro ministro, e com muita razão em grande parte delas. E nisto também incluo alguma propaganda desastrada paga com dinheiros públicos. Sim, eu sei que o PSD fez pior, mas não deixa de ser uma desilusão.

Sócrates tem qualidades. Tenho razões para supor que é muito trabalhador, determinado, e até sensato. Acredito que esta sensatez leva-o a saber escolher quem deve ouvir com alguma sabedoria. Mas neste momento não o vejo como uma mais-valia para o PS. Posso agradecer-lhe (e muito) o ênfase que colocou na importância da ciência e tecnologia - algo que já vinha do Guterres mas sofreu um impulso decidido com Sócrates ao comando - mas quando votar vou votar pelo partido (como aliás deve ser) sentindo que Sócrates é uma menos-valia.


Se Sócrates me desiludiu, que pensar do PS?
Desiludiu-me também um pouco. Eu imaginava o PS como um partido que tinha um grande defeito e uma grande qualidade. O grande defeito é próprio dos partidos do bloco central: estar cheio de gente gananciosa cujos valores mais sagrados são o seu próprio sucesso individual. Infelizmente essa gente é como as traças e as melgas, voando incessantemte em roda dos partidos que possam governar, enquanto dominam as burocracias e o aparelhismo para subirem de posto em posto. A grande qualidade do PS era o pluralismo, o gosto pela liberdade, a sofisticação intelectual de quem compreende e sintetiza perspectivas diferentes e muitas vezes opostas de vários problemas.

Mas algumas iniciativas do PS pareceram contrárias a este espírito. Desde a lei do tabaco, o impedimento de se vender pão com mais de tanto sal, ou mesmo as ridículas leis contra os galheteiros ou as castanhas embrulhadas em páginas amarelas, com o culminar das leis da união de facto - essas e outras fizeram-me encarar o PS como um partido menos libertário do que aquilo que pensava.
Que sentido faz a JS lutar pela legalização da Cannabis, e depois compreender que as pessoas não possam comprar pão muito salgado? Que sentido faz em começar a discutir o suicídio assistido, enquanto se tira às pessoas a possibilidade de correrem o risco de comer castanhas embrulhadas em páginas amarelas?
O estado deve proteger-nos, sim. Mas quando nos começa a querer proteger de nós próprios já franzo o sobrolho. E gostaria que a esquerda tivesse esta atitude face a todas as leis e todos os problemas, e não apenas face às causas libertárias "tradicionais".

Por fim, outra desilusão que tive com o PS enquanto partido foi o facto de ser frouxo na luta contra a corrupção. Estamos no fim da sua primeira maioria absoluta, e a este nível está quase tudo na mesma. As mesmas derrapagens inconsequentes nas obras públicas, os mesmos altos responsáveis a ir trabalhar para grandes empresas com as quais negociaram enquanto governantes, ganhando depois salários chorudos, etc..

Estas foram as minhas desilusões. As minhas expectativas talvez fossem irrealisticamente altas.
Talvez fosse demasiado crítico e exigente para com um governo no qual não votei (estava em Londres), mas no qual teria votado se pudesse e a respeito do qual aconselhei muita gente a votar quando dava a minha opinião sobre o assunto.


Arrependido? Já tive os meus momentos, mas se colocar tudo em perspectiva, então não.

Em nenhuma das críticas que faço me parece que o PSD teria feito melhor. Mas o governo fez várias coisas positivas. Consegiu controlar as finanças públicas, consegiu diminuir significativamente a pobreza e a desigualdade. Estas duas coisas são tão relevantes que já teriam justificado o meu voto.
Mas também deu um impulso decidido à Ciência e Tecnologia, também fez uma aposta que se impunha - por razões económicas e ambientais - nas energias renováveis, também fez bastante pela celeridade da justiça, fez uma reforma muito inteligente na segurança social, etc... Muitas das medidas significaram problemas a curto prazo, e os benefícios apenas se sentirão no longo prazo, pelo que foram implementadas a custo de alguma popularidade, de piores resultados nestas eleições. E ainda assim foram tomadas. Existiu, diga-se, coragem.

Eu poderia ser ainda mais exigente com o governo, e dar o meu voto de protesto ao BE. Pensei fazê-lo durante parte significativa da legislatura.
Mas não vou votar em quem se mantém sem qualquer abertura para o compromisso. Se o BE estivesse disposto a coligar-se, quem sabe. Poderia fazer a experiência e votar na sua lista de deputados, para ver como é que o partido lidaria com a experiência do poder. Mas quero penalizar nas urnas esta incapacidade de comprometer o que quer que seja.
O seu projecto é, para mim e para muitos, demasiado radical. Se não estão dispostos a nenhum compromisso, perde o interesse. Para "voz descomprometida" basta um deputado.

O meu voto no PS vai acontecer porque nas legislatura que antecedeu Sócrates não foi desilusão que senti. Foi revolta.
Revolta pelo corrupção, mas também pela estupidez, pela tacanhês, pelo disparate.
Pela incompetência de Manuela Ferreira Leite enquanto ministra das finanças deste país, uma incompetência com uma dimensão tal que ainda estamos e estaremos a sofrer as suas consequências. Em todas as vendas, acordos e negócios o estado perdia tanto dinheiro, tanto património.
Antes fosse tudo corrupção, mas não era. Às vezes eram cortes cegos que impediam institutos de cumprir as suas obrigações contratuais, o que levava o estado a pagar indeminizações bem maiores que o corte. Incompetência atroz, muitos prejudicados, nenhum beneficiado.
O ministro da ciência e do ensino superior era conhecido de uma pessoa próxima. Quando contaram a esta pessoa a notícia, ela não acreditava, pensava que era uma brincadeira. Não acreditava que alguém a seu ver tão intelectualmente incapaz pudesse ser ministro de um governo da nação. E não escrevo "não acreditava" como força de expressão, refiro-me ao facto desta pessoa só ter acreditado quando viu a notícia ela própria na televisão. Ela realmente pensava que era uma brincadeira.
Poderiámos dizer que não é grave - há ministérios bem mais importantes. Mas a verdade é que este episódio é um sintoma e explica muita da incompetência gritante que se viveu na era Durão-Santana. Não vou escrever mais sobre as razões que me levaram a sentir uma enorme revolta face aos governos desta era. Nunca mais daqui saía.
Mas as sondagens actuais mostram que o risco de se voltar a esse disparate é real. Manuela Ferreira Leite no governo iria comprometer o crescimento, o desenvolvimento do país. Um governo PSD não traz boas perspectivas para o desenvolvimento de Portugal, quer no curto, médio ou longo prazo. Uma razão importante para votar PS é não querer correr esse risco.

Antes a desilusão que a revolta.
E quem sabe...

A cultura de Sócrates

Depois de Santana se confundir com os «concertos para violino de Chopin», temos José Sócrates, que toma os Sitiados pelos Xutos e Pontapés. Ler no Cinco Dias.

sábado, 29 de agosto de 2009

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Minotauro e suspeitos de terrorismo

Mais um deliciosa sátira do The Onion, desta vez relativa às técnicas de interrogatório utilizadas pelos EUA durante a era Bush. Tortura bárbara ou necessidade vital na luta contra o terrorismo?

Burca e nicabe: posição da UFAL

Continua o debate em França sobre a proibição da burca e do nicabe.
  • «Le débat qui vient de s’ouvrir sur le port du voile intégral (Burqa, Niqab, …) suite à la proposition de mettre en place une commission d’enquête parlementaire sur le sujet, se déroule dans une grande confusion. L’UFAL tient à souligner qu’on ne saurait interdire le port du voile intégral dans l’espace civil au motif qu’il violerait le principe de laïcité. Comme l’a justement rappelé la loi du 15 mars 2004 sur le port des signes religieux à l’école publique élémentaire et secondaire, le régime de laïcité impose l’abstention dans le seul espace relevant de l’autorité publique. Il établit parallèlement la tolérance dans l’espace civil où les individus ont le droit de jouir de leurs libertés dans les limites du droit commun. C’est la raison pour laquelle l’UFAL a combattu le port des signes religieux à l’école publique, mais a toujours défendu la liberté d’arborer des signes religieux (y compris le voile qui laisse le visage visible) dans l’espace civil.

    ###

    Cela étant dit, le voile intégral pose un réel problème : non seulement il est un signe insupportable d’un projet idéologique et sectaire visant à asservir les femmes en leur refusant le statut de personne (puisque les femmes intégralement voilées, inaccessibles au regard d’autrui, ne sont, à proprement parler, personne), mais il est aussi un masque qui rend impossible l’identification de l’individu.

    Le voile intégral est plus qu’un symbole d’oppression pour les femmes : il est une manière d’abolir l’humanité, la sienne propre puisqu’on se retire des relations ordinaires entre les êtres humains, celle des autres puisqu’une personne peut devenir ainsi invisible et intouchable. En cela, Burqa et Niqab ne sont pas des signes religieux, mais bien des dénis d’identité. A ce déni d’identité s’ajoute un déni d’identification susceptible de poser des problèmes de sécurité publique.

    A ce titre l’UFAL demande l’interdiction du port du voile intégral dans tous les espaces de la société civile (dans les transports individuels et collectifs, dans les lieux clos accessibles au public, dans les commerces, mais aussi dans la rue).

    (...)» (UFAL)
Ler também aqui, aqui e acolá.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

cultura democrática tenebrosa

«[...] É assim um programa minimalista que não promete muitas leis. A líder do PSD, aliás, assumiu já que um Governo do PSD não irá propor muitas leis ao Parlamento. Primeiro porque considera que não é fazendo uma lei que se resolve um problema. Segundo, um Governo minoritário deve governar sem ter de depender em demasiado do Parlamento. [...]»

[PÚBLICO.PT --- 27.08.2009]

será que só lá pretende ir para saber se o antónio preto está melhor do braço?

Saramago sobre a implantação da República

  • «Vai para cem anos, em 5 de Outubro de 1910, uma revolução em Portugal derrubou a velha e caduca monarquia para proclamar uma república que, entre acertos e erros, entre promessas e malogros, passando pelos sofrimentos e humilhações de quase cinquenta anos de ditadura fascista, sobreviveu até aos nossos dias. Durante os enfrentamentos, os mortos, militares e civis, foram 76, e os feridos 364. Nessa revolução de um pequeno país situado no extremo ocidental da Europa, sobre a qual já a poeira de um século assentou, sucedeu algo que a minha memória, memória de leituras antigas, guardou e que não resisto a evocar. Ferido de morte, um revolucionário civil agonizava na rua, junto a um prédio do Rossio, a praça principal de Lisboa. Estava só, sabia que não tinha qualquer possibilidade de salvação, nenhuma ambulância se atreveria a ir recolhê-lo, pois o tiroteio cruzado impedia a chegada de socorros. Então esse homem humilde, cujo nome, que eu saiba, a história não registou, com uns dedos que tremiam, quase desfalecido, traçou na parede, conforme pôde, com o seu próprio sangue, com o sangue que lhe corria dos ferimentos, estas palavras: “Viva a república”. Escreveu república e morreu, e foi o mesmo que tivesse escrito: esperança, futuro, paz. Não tinha outro testamento, não deixava riquezas no mundo, apenas uma palavra que para ele, naquele momento, significaria talvez dignidade, isso que não se vende nem se deixa comprar, e que é no ser humano o grau supremo.» (Caderno de José Saramago)

mfl @ the movies: apresentação do programa eleitoral





«[...] De resto, o seu programa congregará um conjunto de normas éticas e de princípios comportamentais que serão do maior interesse para definir a personalidade da entrevistada, mas nada acrescentam na área das opções políticas, económicas, sociais e culturais, como seria de esperar de um candidato à governação do País. [...]

Na realidade, os atributos que explanou como se fossem um programa eleitoral, podem encher o vazio criado pela ausência de uma linha de conduta política (a doutrina), mas nada acrescentam na resolução dos problemas nacionais. [...]

Por outro lado, este vazio e o egocentrismo que cultiva ad nauseum permite-lhe fazer tudo, ou, não fazer nada. Conforme calhar. É a fuga a qualquer compromisso para com os cidadãos. Assim, cumpre-se sempre!

Ao fim e ao cabo, Manuela Ferreira Leite, sugeriu aos portugueses que votem no PSD. Depois se verá o que se pode fazer. [...]»


[e-pá! | Ponte Europa --- Agosto 20, 2009]

«[...] António Borges [...] reconheceu que a margem de manobra do futuro Governo será muito limitada.

«Mesmo em termos daquilo que nós, PSD, podemos fazer quando formos para o Governo, o que se tudo correr bem será daqui a uns dias, não é evidente que haja muita coisa que se possa fazer [...]», revelou. [...]»


[Sol --- 25 AGO 09]

«[...] O PSD insiste num vácuo de medidas que aparentemente continuará depois da apresentação do seu programa eleitoral. Afirma que não pode assumir compromissos porque não conhece o estado do país. E eu juro que ainda me surpreendo. Alguém que não conhece o Estado do país pode, legitimamente, aspirar a governá-lo? [...]»

[Carlos Santos | O Valor das Ideias --- 26 de Agosto de 2009]

também tu, aníbal?

«[...] [O] deputado bloquista questiona o negócio que deu 360 mil euros de lucro a Cavaco Silva e à sua filha, graças à venda das 255.018 acções em 2003. "A SLN comprou as acções muito mais caras do que as tinha vendido. E não é accionista de uma sociedade não cotada quem quer. Não se chega ao balcão dizendo "quero ser accionista"...", diz Semedo, acrescentando que o negócio feito antes da eleição para a presidência da República levanta outras dúvidas: "Que critérios foram seguidos na recompra, pelo BPN, das acções? Qual era o interesse da SLN em comprar de volta aquelas acções? Os valores praticados foram muito acima do crescimento do próprio banco"...

"Do ponto de vista político isto tem um significado: a família Cavaco Silva beneficiou com o BPN. O benefício directo que tiveram resulta de um jogo de influências, que era como funcionava aquele banco, e que acaba por envolver Cavaco Silva", explicou João Semedo [...]

"A recompra era feita por um valor que garantia mais-valias muito superiores às de outras aplicações financeiras disponíveis no mercado", revela o deputado, classificando as recompras como "operações de favor para quem comprava". No caso da família Cavaco, a valorização foi de 140% em dois anos. [...]»


[Esquerda.Net --- 20-Ago-2009]

«[...] Cavaco Silva comprou, em 2001, acções da SLN (acções não transaccionadas em mercado aberto) pelo valor de 1 euro. Não se sabe a quem (à própria SLN?), nem o porquê da valorização a um euro de cada acção (valor facial de cada acção?). Dois anos depois, Cavaco e a filha vendem as mesmas acções a uma das sociedades da SLN, a SLN Valor, a 2,40 euros. Uma miraculosa valorização de 140%, que rendeu 360 mil euros à família Cavaco Silva.

Nada disto foi ilegal. No entanto, se o Presidente da Republica não explicar as origens e os porquês destas transacções e sabendo-se hoje a importância do tráfico de influências políticas no BPN, uma enorme dúvida pairará no ar. Terá Cavaco Silva, enquanto accionista bem remunerado da SLN, servido como chamariz de investidores da área política do PSD para um banco que funcionava num esquema quase piramidal, onde as entradas de capital eram uma necessidade constante? [...]»


[Nuno Teles | Ladrões de Bicicletas --- 20 de Agosto de 2009]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

roubo (substantivo): acto ou efeito de subtrair coisa alheia (neste caso, impostos)

«[...] O [dinheiro] que os portugueses enviaram no primeiro semestre para os "off-shore" chegava e sobrava para pagar o novo aeroporto de Lisboa e a terceira travessia sobre o Tejo.

Segundo o relatório de Agosto do Banco de Portugal, a verba aplicada em produtos sedeados em "off-shores" superou em Junho os seis mil milhões de euros, mais do que os cinco mil milhões orçamentados para estas duas obras. [...]»


[TSF --- 23 AGO 09]

filme de espionagem ou história mal contada?

«[...] É o mais recente desenvolvimento na história do Arctic Sea. Vários media russos e ucranianos noticiaram durante o fim-de-semana que o navio cargueiro, com bandeira maltesa e tripulantes russos, transportava, além de madeira, armas destinadas ao Irão. E foi desviado por piratas que trabalham para os serviços secretos externos israelitas, ou seja, a Mossad.

O russo Novaya Gazeta, para o qual trabalhava a jornalista assassinada Anna Politkovskaya, noticiou que o navio levava escondido entre a madeira um carregamento de mísseis cruzeiro X-55 e de rockets anti-aéreos S-300. O bissemanário independente russo refere ainda que a visita do Presidente israelita, Shimon Peres, a Moscovo, no dia a seguir à localização do navio, ao largo de Cabo Verde, foi pedida de urgência ao seu homólogo russo, Dmitri Medvedev, numa tentativa de travar o fornecimento de armas russas ao Irão [...]»


[Diário de Notícias --- 24 Agosto 2009]

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Uniões de facto

Cavaco Silva vetou a lei que a esquerda tentou passar a respeito das uniões de facto, e ainda bem.

Não me interpretem mal: acho deplorável a justificação dada para o veto. Se considerasse que a lei das uniões de facto era uma boa lei, ficaria indignadíssimo com o pretexto mal amanhado para chumbar uma lei que tinha sido aprovada no parlamento. Este não é, a meu ver, o bom funcionamento das instituições democráticas. Mas é por estas e por outras que dificilmente Cavaco Silva vai conseguir ser reeleito para o seu segundo mandato, o que, a meu ver, são boas notícias para Portugal.
A não reeleição de um presidente vai ser uma estreia, e logo quando a direita estreou o seu presidente - que, sendo sincero, foi menos mau do que eu esperava.

Quanto à lei em questão, ela vinha retirar liberdade de escolha às pessoas. Se eu quiser viver com alguém, posso querer ter certas obrigações e garantias de e para com essa pessoa, ou não. Com esta lei, perdia essa escolha.
Se duas pessoas querem coabitar mas não querem nem os direitos, nem as obrigações do casamento estendidas à sua relação, devem ter essa possibilidade. Se querem estas obrigações, devem poder optar pelo casamento - um contrato civíl que tem precisamente esse objectivo.

É verdade que esta lei viria a dar aos homossexuais que vivem juntos alguns direitos (e obrigações) que antes não tinham. Mas creio que esses direitos e obrigações devem ser dados a quem os escolher sob a forma do casamento civíl, estendido como é justo às pessoas de todas as orientações sexuais. E, felizmente, não é que essa realidade não esteja já no horizonte.

Mas acredito que dois cidadãos devem ter a possibilidade, se assim o desejarem, de viver juntos sem qualquer obrigação de um para com o outro. Tal como devem ter a possibilidade de estabelecer essas obrigações qualquer que seja o seu sexo e orientação sexual. Por essa razão, sou contra a lei que Cavaco vetou, assim como sou a favor do casamento cívil estendido a todos os cidadãos.

domingo, 23 de agosto de 2009

3 - Um Voto Útil a Pensar no Futuro!

Coloquei anteriormente a questão do voto útil no PS, e isto apesar de nem toda a anterior governação ter sido um mar de rosas. É assim tão urgente votar PS? Eu penso que sim e quero agora explicar porquê. Como já referi, penso que as diferenças de projectos políticos do PS e do PSD correspondem a uma construção do futuro por parte de "navegadores", face a uma prisão nas amarras do passado por parte dos "velhos do Restelo", respectivamente.

Deixem-me ser mais preciso: tendo em conta as novas propostas no programa eleitoral do PS, e contrastando-as com os muitos (e, maioritariamente, infelizes) sound-bytes que vão sendo adiantadas por Ferreira Leite e respectivo staff sobre as suas "ideias" para a governação, ou mesmo contrastando-as com o "proto-programa" do PSD, completamente vago e por vezes infantil, não encontro um único, deixem-me repetir, um único aspecto governativo que pudesse ser melhor com o PSD no poder, ao invés do PS. Aliás, aliada à total ausência de ideias, isto, parece-me, reflecte numa palavra o que tem esse mesmo PSD para oferecer com vista à construção de um futuro para todos. Nada. Por outro lado, no programa eleitoral do PS encontro cinco pontos em particular (alguns, aliás, que são seguimento de algumas das extraordinárias medidas já iniciadas nos últimos anos) que me parecem ser fundamentais para o desenvolvimento futuro de Portugal. De facto, uma vitória do PSD, e consequente ruir destas medidas e destas políticas, seria, a meu ver, absolutamente desastroso para todos!

Historicamente a Esquerda sempre desejou ser uma via transformadora, mudando a sociedade para melhor na construção de um futuro colectivo. Pois parece-me também evidente que essa mesma veia de transformação se encontra claramente patente nas propostas eleitorais do PS que apresento em seguida. Assim sendo, o voto no PS parece-me imperativo devido à muito clara aposta na/o(s):

1. Ciência & Tecnologia

Nada é mais fundamental para a transformação do presente e construção do futuro que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. A história das transformações nas sociedades humanas mistura-se com a história do desenvolvimento científico. A aposta do PS nesta área é gritante:



Este é o passo fundamental de onde seguem depois todos os outros: a educação e a cultura, ou as start-ups e a grande indústria. Atingimos, nesta legislatura, a mítica marca de 1.2% do PIB em investimento científico e tecnológico. Mas é preciso continuar este processo e ir mais longe. Foram criadas inúmeras parcerias para a internacionalização do Ensino Superior Português (com o MIT, Harvard, Austin e Canegie-Mellon). Mas é preciso continuar este processo e ir mais longe. A construção de um futuro baseado no conhecimento, na ciência e na tecnologia, passa sem dúvida por uma vitória do PS dia 27 de Setembro.

Mas, nesta linha, convém também lembrar o Plano Tecnológico nas suas muitas vertentes — desde programas de desburocratização na Administração Pública como o SIMPLEX ou o programa "na Hora", ao desenvolvimento da "Escola do Futuro" com quadros interactivos e tendo todos os alunos acesso a computadores (pessoais) e internet. A implementação da banda larga de nova geração, numa eventual próxima legislatura do PS, será ainda mais um passo para colocarmos as próximas gerações na linha da frente no plano internacional.

E uma importante palavra para a indústria: o forte investimento em C&T pode e vai mudar o paradigma da indústria nacional. De uma indústria baseada na mão de obra barata e um pouco artesanal, para uma indústria baseada no conhecimento, nas novas tecnologias, na fronteira da ciência. Por aqui passam as start-ups, a transferência de conhecimento das universidades para o meio empresarial, e as PMEs que crescem dessas mesmas start-ups. A implementação do pacto de internacionalização das PMEs nacionais (e com destaque para as de novas tecnologias), numa eventual próxima legislatura do PS, será um passo fundamental para a transformação necessária do paradigma da indústria nacional.

2. Energias Renováveis

Falar em desenvolvimento sustentável e independência energética é o mesmo que falar em fontes de energia renováveis. As mil palavras que poderiam ilustrar a aposta do PS nesta área são claras:



Algumas medidas anunciadas para uma eventual próxima legislatura do PS não ficam aquém deste crescimento espetacular (em 2008, 43% da electricidade produzida nacionalmente proveniente de fontes renováveis; terceiros no ranking europeu): por exemplo, assegurar, até 2015, que 50 por cento dos veículos comprados pelo Estado sejam híbridos ou eléctricos e que, até 2020, 750 mil veículos em circulação sejam híbridos ou eléctricos; ou ainda, duplicar a capacidade de produção de energia eléctrica até 2020, concretizando os projectos hídricos já lançados e apostando na energia eólica, na solar, nas mini-hídricas e na geotermia. Isto pode permitir assegurar a posição de Portugal entre os cinco líderes europeus ao nível dos objectivos em matéria de energias renováveis em 2020. A aposta eléctrica renovável é crítica para o futuro próspero, dinâmico, inovador e sustentável de Portugal!

Mas esta não é apenas uma aposta de desenvolvimento sustentável; é também uma grande aposta de desenvolvimento económico. De facto, uma grande fatia da dívida externa nacional está associada à nossa dependência energética exterior (maioritáriamente através da importação de combustíveis fósseis / de combustão). Mudar o paradigma da sustentabilidade e dependência energética nacional pode ser a chave para resolver o endividamento externo! Neste contexto, e para os "velhos do Restelo" que tanto criticam o custo destes investimentos, urge perguntar: quanto mais custará não os fazer?

A aposta nas energias renováveis como um dos principais eixos do programa do PS para a área económica, numa eventual próxima legislatura, vai certamente ainda contribuir para a supra-citada transformação necessária no paradigma da indústria nacional: a criação do Instituto Ibérico de Energias Renováveis (em cooperação com Espanha à semelhança do Instituto de Nanotecnologia — outro caso de uma aposta científica e tecnológica ganha à partida) colocará em solo nacional a investigação e o desenvolvimento de novas soluções e novas tecnologias nesta área, facilitando a transferência de conhecimento e a criação de start-ups "verdes" que, num mundo cada vez mais necessitado de encontrar novos caminhos de desenvolvimento sustentável, poderão vir a criar milhares de novos postos de trabalho "verdes", bem como vir a ter uma enorme contribuição para o PIB nacional.

3. Infra-Estruturas para o País

Livres para sempre do "orgulhosamente sós", a competitividade externa de Portugal passa também pelo aproximar da nossa costa oeste europeia ao centro económico e estrutural da Europa. O desenvolvimento de infra-estruturas nacionais, que nos permitam um rápido, cómodo, e até mesmo verde (no sentido eléctrico supra-citado) acesso ao centro da Europa é fundamental. Alguém acha normal que passem 40 anos de discussão sobre um novo aeroporto para Lisboa e nada aconteça? Ou que passem quase 20 anos de discussão sobre a alta velocidade ferroviária e o TGV se mantenha como uma miragem? O relógio do desenvolvimento não pára e nós não nos podemos dar ao luxo de ficar cada vez mais para trás.

Estas infra-estruturas são fundamentais para que Portugal minimize a sua localização geográfica periférica, no contexto europeu, com todo o consequente impacto económico positivo. Mas também aqui se escutam os "velhos do Restelo" profetizando a desgraça devido aos elevados custos destas infra-estruturas. Para esses, gostava apenas de salientar dois pontos: (1) O défice diz respeito a uma diferença, entre despesa e receita, e o investimento público necessariamente altera ambos os números (podendo até manter constante a sua diferença — o que não é aqui o caso). Noutras palavras, maior investimento resulta, necessariamente, em maior receita, equilibrando o défice ao mesmo tempo que se estimula a economia e se cria emprego; e (2) Se a execução de um investimento tem um custo natural associado, a sua não execução também tem um custo associado que importa questionar: quanto ao certo custa não avançar com infra-estruturas estratégicas para o posicionamento de Portugal face à Europa? Quanto ao certo custa estarmos desligados da rede de alta velocidade ferroviária, em franca expansão pela Europa fora? Quanto ao certo custa cada segundo que passa, e em que Portugal se deixa ficar mais e mais para trás (ao nada fazer) em comparação com o pelotão da frente? E depois, um dia mais tarde, quanto ao certo custará chegarmos finalmente a essa linha da frente numa escala europeia ou mundial? Parece-me certo que esse é um custo que não nos podemos dar ao luxo de vir a enfrentar. E, nesse caso, parece-me absolutamente fundamental para Portugal que estas infra-estruturas — que tanto pecam por tardias — vejam a luz do dia o mais rápido possível.

É assim imprescindível que estes projectos sejam concretizados numa eventual próxima legislatura do PS, com destaque para a rede ferroviária de alta velocidade (a tal mobilidade eléctrica sustentável), viabilizando as linhas Porto-Vigo e Lisboa-Madrid até 2013, e a linha Lisboa-Porto até 2015; mas também com um muito especial destaque para uma recente e fundamental aposta do PS em termos de investimento público, no que diz respeito à recuperação e modernização do parque escolar, bem como outro tipo de equipamentos sociais — com renovado destaque para os novos hospitais e centros de saúde e ainda para a anunciada modernização das unidades de saúde, num eventual futuro governo PS. Não vejo como poderemos crescer e caminhar em frente, sem uma sólida base infra-estrutural a apoiar esse mesmo crescimento. Noto, contudo, que a requalificação urbana e a modernização das infra-estruturas de muitas universidades nacionais também seriam pontos importantes a considerar, mas que, infelizmente, não estão ainda contemplados no programa de investimento público.

4. Serviços Públicos e Igualdade de Oportunidades

Sejamos sinceros: Portugal nunca foi um grande exemplo no que diz respeito à oferta de serviços públicos de qualidade, e muito ainda temos que caminhar antes de chegar aos calcanhares da Escandinávia. Mas, muito pragmaticamente, mais vale meio passo em frente que dois passos atrás. Neste sentido convém recordar o continuado programa de desmantelamento dos serviços públicos, principalmente levado a cabo por parte do PSD. Mais uma vez, sendo muito pragmático, penso que é importante salientar que recuperar serviços públicos, tendo em vista um utópico horizonte escandinavo, não é a mesma coisa que refazer tudo do zero. Os ideais neo-liberais, privatizadores e de estado mínimo por parte do PSD são um muito sério ataque à futura viabilidade e qualidade dos serviços públicos nacionais. Estes serão, sem qualquer sombra de dúvida, muito mais protegidos por um governo PS do que um governo PSD. Estes são, também, sem qualquer sombra de dúvida, objectos fundamentais para o desenvolvimento e o bem estar de todos!

Ainda no que diz respeito à igualdade de oportunidades — que requer, necessariamente, bons serviços públicos — é importante também relembrar o papel dos governos socialistas no que diz respeito às desigualdades de rendimento e taxa de risco de pobreza:



A diferença entre PS e PSD é clara e elucidativa dos objectivos de cada um.

Mas não nos fiquemos pelo passado. Acho importante salientar alguns pontos previstos de serem levados a cabo numa eventual próxima legislatura do PS: é anunciada uma prioridade ao desenvolvimento de políticas sociais, qualificação de serviços públicos e um objectivo de combater e reduzir as desigualdades sociais. A elevação do salário mínimo nacional, já iniciado nesta legislatura e tão criticado por parte dos quadrantes do PSD, é ainda um dos principais compromissos do PS na área social. Finalmente, um dos principais compromissos no apoio social às classes médias aponta para o fim das taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde. A concretizarem-se estas medidas, parece-me que será inclusivé bastante mais que apenas meio passo em frente!

5. Direitos Cívicos

Finalmente, e sem me alongar em demasia que o texto já vai longo, uma última palavra para as questões de direitos cívicos. Ninguém terá qualquer dúvida que se tivesse sido o PSD a governar, ao invés do PS, hoje não teríamos nem lei da IVG nem sequer nova lei do divórcio. Muito menos se falaria agora do casamento para casais homosexuais. E sejamos também aqui claros: se o PSD ganhar as eleições sabemos que isso nunca vai acontecer. E muito menos se escutará a palavra eutanásia ou semelhante (curiosamente, parte de toda uma série de tópicos que, no início de 2007, eu desejava ver discutidos públicamente por parte dos diversos orgãos políticos!). Finalmente, no que diz respeito à laicidade do estado, do PSD nem uma palavra. O PS também tem sido muito parco em medidas mas, lá está, pragmaticamente mais vale meio passo em frente que dois passos atrás, e nesse sentido vale a pena recordar que logo no início do mandato tivémos uma Lei do Protocolo de Estado com alguns tímidos avanços nessa matéria. Assim sendo, não resta qualquer dúvida que, em questões de direitos cívicos, o tal meio passo em frente só poderá acontecer com um renovado governo do PS!


Em resumo, e por todas as razões apresentadas, faço um forte apelo ao voto no Partido Socialista nas próximas eleições de 27 de Setembro!

sábado, 22 de agosto de 2009

2 - Um Voto Útil a Pensar no Futuro?

No texto anterior coloquei a questão do voto útil: devemos ou não votar de forma pragmática, fazendo uma análise fria de todos os dados disponíveis, incluindo os dados relativos às sondagens? Devemos votar de forma puramente abstracta, ou, ao invés, colocar o nosso sentido de voto como parte de um contexto maior das coisas, por forma a conseguirmos escolher o que é o melhor para o futuro de Portugal? Como escrevi, sou da opinião que o empate técnico entre PS e PSD, junto à natureza distinta dos projectos políticos que ambos os partidos apresentam para o futuro de Portugal, nos deve obrigar a pensar muito cuidadosamente sobre qual deve ser o nosso sentido de voto. Mais à frente serei mais específico em porque penso que o projecto do PS tem o Futuro em vista (o tal projecto dos "navegadores") enquanto que o do PSD apenas nos prende ao passado (o eterno derrotismo dos "velhos do Restelo"). Nesse sentido, o voto no PS parece surgir como uma necessidade para as próximas eleições. Mas nem tudo o que está para trás são rosas...

Sejamos claros: não posso, de todo, afirmar estar completamente satisfeito com a governação do Partido Socialista. Naturalmente que governar implica ter a coragem de fazer escolhas e compromissos, de assumir que nem tudo é perfeito, de saber que se vai errar mais cedo ou mais tarde. Mas algumas questões vão para além disso (e muitas foram discutidas neste blog ao longo dos últimos 4 anos). Deixem-me salientar duas questões que penso serem particularmente relevantes:

Em primeiro lugar, parece-me que muito mais poderia ter sido feito em questões de justiça fiscal e no levantamento total, automático, e electrónico, do sigilo bancário para o combate à fuga, à evasão, e à corrupção. Numa legislatura marcada por um (muito importante) Plano Tecnológico, ficou a faltar um super-computador dedicado ao controle efectivo das transacções entre os diversos agentes económicos... Na realidade, e meios tecnológicos à parte, do ponto de vista legislativo esta questão apenas requer vontade política: uma vontade que ao longo das últimas décadas parece se encontrar apenas na ala esquerda do PS, bem como nos partidos à sua esquerda, mas que ainda não conseguiu fazer lei. Mas é também claro que, a haver mudanças neste sentido, estas apenas ocorrerão com o PS no poder — nunca com o PSD (pois nunca nenhuma das suas alas mostrou clara vontade de fazer a mudança, nem ser de todo crível que no futuro venham a ser sensíveis a propostas de partidos à esquerda do PS, neste sentido).

O outro ponto que gostava de mencionar, e que não é completamente independente do anterior, diz respeito ao combate à corrupção (activa, passiva ou o que seja!). De certo nada me agrada ver o Jorge Coelho na Mota-Engil ou o Pina Moura na Iberdola. Mas também não lhes ficam atrás o António Mexia na EDP ou o Ferreira do Amaral na Lusoponte, ou mesmo a própria Ferreira Leite no Santander. Pior ainda os antigos (mas não esquecidos) casos de Mira Amaral ou Celeste Cardona na Caixa Geral. E isto para não falar em casos de polícia com arguidos constituídos: sejam Arlindo de Carvalho, Dias Loureiro e Oliveira e Costa no BPN; ou sejam as vendas de edifícios dos CTT em Coimbra ou Lisboa com dezenas de arguidos do PSD... Mais uma vez, os únicos sinais claros de querer mudar alguma coisa no que diz respeito ao combate à corrupção (e aqui não estou a contabilizar a lei de limitação dos mandatos dos eleitos locais, aprovada pelo PS nesta legislatura, e com um papel importante a desempenhar neste tópico) vieram ou da ala esquerda do PS (João Cravinho durante largos meses, mas também António José Seguro na recente questão do financiamento partidário) ou de partidos à esquerda do PS. E, infelizmente mais uma vez, essa vontade também ainda não conseguiu ter a força de fazer lei. Assim sendo, tal como no caso anterior, a haver mudanças neste sentido, estas apenas ocorrerão com o PS no poder — nunca com o PSD (pois nunca nenhuma das suas alas mostrou clara vontade de fazer a mudança, nem ser de todo crível que no futuro venham a ser sensíveis a propostas de partidos à esquerda do PS, neste sentido).

Ainda nos pontos indicados em cima, podemos ser tentados a pensar que o fortalecer da representação do Bloco ou do PCP na Assembleia da República poderia ajudar a resolver estas questões. Isto, para mim, não é nada líquido: a ser necessária maioria parlamentar para aprovar as mudanças em causa, apenas poderemos aspirar a que algo aconteça nesse sentido com pressão directa sobre o PS — da parte do PSD não há nada a esperar neste sentido. Ou seja, se o mencionado fortalecer da representação do Bloco ou do PCP na Assembleia provocar uma vitória do PSD, então, sejamos claros, tudo na mesma como a lesma. Aliás esta é uma questão que não entendo nestes dois partidos: o seu por vezes aparente desejo de uma vitória do PSD só lhes pode parecer interessante no que diz respeito ao seu próprio umbigo; nas grandes questões que defendem rigorosamente nada mudará... Assim, apesar da notória falta de progressos nestas duas questões que exemplifiquei, a verdade é que apenas poderemos esperar mudanças se o PS ganhar e se for pressionado nesse sentido. Uma derrota do PS em nada contribuirá para as mudanças que desejamos!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

1 - Um Voto Útil a Pensar no Futuro?

As eleições estão à porta; dia 27 de Setembro teremos todos que nos pronunciar sobre o que queremos para o futuro do país. Esse é, acima de tudo, um dia de escolhas. Alguns, escolhem de forma irracional: no fundo encaram a política como um jogo de futebol e defendem o seu "clube" a todo o custo, sem olhar a mais. Outros, tentam escolher de forma racional: em que medida é que o voto pode contribuir para uma ou outra vitória, para uma ou outra distribuição de deputados pelos diversos quadrantes da Assembleia da República, e como é que isso pode contribuir para um futuro melhor para Portugal. É a estes últimos que dirigo as linhas que se seguem.

Cada eleitor, ao tentar escolher o que pensa ser o melhor para o nosso futuro colectivo, parte de diferentes pressupostos e diferentes análises: uns pensam que a resposta está mais à direita, outros pensam que está mais à esquerda, e outros ainda pensam que ninguém tem respostas e optam por se desresponsabilizar do processo democrático (seja ao não votar ou ao votar em partidos que todos sabemos não terem qualquer hipótese de eleger deputados). Mas, tipicamente, nas diversas formas que encontram para racionalizar a escolha, nunca optam deliberadamente por uma escolha que nos poderá conduzir para um caminho pior. E eu penso que este é um ponto chave da discussão sobre o sentido de voto nas próximas eleições: não será nunca por minha acção — ou inacção — que deixarei que Portugal ande para trás ou que contribuirei para um futuro pior!

Neste sentido, o empate técnico registrado nas sondagens (e já caracterizado de forma interessante como um empate entre navegadores e velhos do Restelo) é sintomático. Ao contrário do habitual nas eleições portuguesas, não sabemos de antemão — por via das sondagens — quem vai ganhar e, assim, a questão do voto útil ganha uma nova dimensão. Vejamos, posso afirmar com quase certeza estatística absoluta que o próximo primeiro-ministro vai ser ou Ferreira Leite ou Sócrates. Mais nenhum. Mas qual dos dois não sei. E, para mim, a diferença entre os projectos que ambos apresentam é abismal.

Assim se coloca a questão: devemos abstrair-nos deste facto (empate técnico medido) e fazer a escolha do sentido de voto baseado apenas no que foi feito pelas diversas forças políticas no passado junto com as propostas que as mesmas apresentam para o futuro? Ou não? Devemos, ao invés, analisar pragmáticamente o panorama das sondagens, perceber o que estas nos dizem sobre as intenções de voto medidas e, assim, baseados em todos os dados disponíveis, fazer a nossa escolha? Naturalmente que uma escolha racional tem que passar por uma análise completa de todos os dados e, por isso, só pode ser englobada na última opção: o empate técnico medido é, necessáriamente, um factor a considerar.

Volto a repetir, concorde ou não com tudo o que fizeram Sócrates e Ferreira Leite no passado, goste ou não das suas personalidades ou da forma como falam (e aqui é importante ter-se a maturidade de separar o gostar ou não de alguém da sua capacidade profissional de levar a cabo determinada tarefa — neste caso, liderar o país na próxima legislatura), em última análise eu quero saber: o que propõem para o futuro do país? Porque se, como penso, as suas propostas são muito diferentes, onde umas podem levar Portugal para o Futuro e outras deixar Portugal no passado, então o empate técnico medido nas sondagens obriga-nos, racional e necessáriamente, a pensar com muito cuidado a nossa orientação de voto!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

os navegadores e os(a) velhos(a) do restelo

«[...] As sociedades evoluem a par da evolução tecnológica. É esta que impulsiona os novos modos de existência, a melhoria das condições de vida, a libertação social. [...]

Há menos de uma década poucos imaginavam serem capazes de manipular um computador, trabalhar com uma folha Excel, enviar um email. Basta pensar num célebre debate televisivo em que Guterres admitia que não sabia o que era um email e Paulo Portas afirmava, com aquele orgulho típico dos ignorantes, que ainda escrevia à mão. Ou, na dificuldade que José Magalhães teve em convencer os seus colegas deputados que o Parlamento devia ter um site.

Hoje Portugal exporta tecnologia. [...] Hoje Portugal é um exemplo nas tecnologias energéticas.

Foi graças a uma geração progressista, parte dela representada no actual governo, que esta importante revolução se operou. [...]»


[Leonel Moura | Jornal de Negócios --- 17 Julho 2009]

«[...] Acomodados numa longa tradição de foco na desculpa para não enfrentarem com determinação os desafios e as oportunidades, muitos portugueses hesitam ainda, talvez inconscientemente, entre escolher uma proposta de negação que cobre todos os fracassos ou uma visão de ambição e arrojo que exige uma maior exposição e compromisso.

O empate técnico que os estudos de opinião revelam entre os dois maiores partidos do sistema democrático em Portugal é muito mais do que uma similitude pontual de intenções de voto. É um empate entre os que querem arriscar e os que preferem travar. Entre os que querem competir no Mundo global e os que preferem, de facto, o refúgio do "jardim à beira-mar plantado". Entre os navegadores e os velhos do Restelo. [...]

Cabe a cada português avaliar o que pretende para o futuro do País e decidir em conformidade. A decisão colectiva será a prova dos nove da maturidade das nossas gentes para enfrentarem os desafios do Mundo global. [...]»


[Carlos Zorrinho | Correio da Manhã --- 17 Julho 2009]

Os republicanos no seu melhor

Estúpidos e maus. Como de costume: inacreditavelmente estúpidos e implausivelmente maus.

Se não se contar o crime do ano passado em Paris, Texas, em que dois brancos atropelaram um africano e continuaram a arrastá-lo até o corpo se desfazer e caber por baixo do carro, a última vez que os republicanos lincharam um africano aqui no Sul Profundo foi em 1998, em Jasper, Texas.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Pessimismo (de esquerda?) :o)

Se pensarmos que a cultura é o software que temos instalado (e que frequentemente é confundido com a capacidade do processador), o resultado destas eleições aparece no horizonte como uma coisa quase irrelevante para a maioria das pessoas. Claro que se ganhar a direita se acelera o processo em curso de empobrecimento da classe média, e com ela do país, sempre me nome da flexibilidade para contratar e despedir, e da diminuição das regras que se diz que complicam a vida aos empresários que querem competir com a China em termos dos salários e das “regalias” (adoro a expressão quando é utilizada neste contexto) dos trabalhadores.

E se ganhar a esquerda até pode ser que uma minoria particular – os homossexuais – deixe de ser segregada e brutalizada pelo estado.

Mas quando se lê o Eça percebe-se que as coisas não mudaram muito em 100 anos. Caiu a monarquia, instaurou-se a república, caiu a república, instaurou-se o estado novo, caiu o estado novo, instaurou-se a ditadura do proletariado, caiu a ditadura do proletariado, instaurou-se a democracia parlamentar semi-presidencialista... e as mesmas cinquenta famílias continuam a mandar. Vão-se aliando aos empresários que conseguem ter sucesso, casam as filhas com os filhos deles, ensinam-lhes a ordem natural das coisas, os sinais pelos quais a classe alta se reconhece, as camisas e as gravatas que se podem usar e quando, e a vida continua. Como dizia Visconti no Gattopardo, volta e meia algumas coisas têm que mudar para que tudo fique na mesma.

É assim o mundo mediterrânico. A comida é melhor do que na Europa do Norte, o sexo se calhar também, a paisagem às vezes, o clima definitivamente. Mas desde o advento do capitalismo e da revolução protestante a vida no Mediterrâneo tem sempre associada uma vertente miserável, injusta e mesquinha, quando se compara com a dos cidadãos dos países onde a liberdade e o mérito fazem parte do quotidiano. Até a corrupção, que se calhar é muito menor em Portugal e em Espanha do que na Holanda e na Alemanha, parece mais chocante.

Reli recentemente os livros do Portugal na Espanha Árabe, de A. Borges Coelho, e fiquei a pensar se haverá solução para Portugal.

Como na América Latina, em Portugal ninguém confia em ninguém e não está previsto ser-se honesto. Lembro-me de as pessoas gozarem com o Jorge Sampaio, quando ele entrou para a CML e começou a falar em moralizar o processo de atribuição de licenças de construção.

Neste contexto não há cola social, as pessoas partilham um território mas estão-se nas tintas para ele e umas para as outras, constroem nas falésias, cortam os sobreiros, não tratam os esgotos, ignoram os planos directores e as leis em geral, estacionam o carro nos passeios, deixam os cócós dos cães em frente da própria porta de casa. O Santana Lopes meteu os placards de publicidade perpendicularmente aos passeios na Baixa. E ninguém se queixou. Ninguém acredita que as coisas possam melhorar e em Lisboa a maioria das pessoas sonha com o totoloto e a lotaria, para poderem ir para “a terra”.

Mesmo supondo que a esquerda se tornava, de repente, num parceiro viável para o PS – eu passo a vida a sonhar com um país cheio de partidos pequenos, descomprometidos com o poder e com propostas positivas, mas as coligações acabam sempre por ser jogos de cadeiras onde se discutem, miseravelmente, as quotas de cada partido nas sinecuras do poder – o que é que um governo do P"S" pode fazer pelo país?

ainda sobre os défices excessivos por parte do psd

«[...] Por exemplo, sabemos que os partidos de direita dão menos importância que os de esquerda aos bens e serviços públicos. Dado que é eleitoralmente perigoso acabar com certos serviços públicos (como escolas e maternidades), um cínico dirá que os partidos de direita, quando no poder, acumularão défices orçamentais. Assim, quando a situação se tornar insustentável, o Estado terá de reduzir a oferta de serviços públicos. Já um governo de esquerda, se valoriza os serviços públicos, não pode permitir que as contas públicas entrem em descalabro. Ou seja, será de esperar que os governos de direita acumulem défices e que os partidos de esquerda se vejam obrigados a corrigi-los. [...]

Song, Storesletten e Zilibotti (professores de Economia) estudaram os dados para os países da OCDE. As conclusões são claras: em regra, quando estão governos de direita no poder, os défices orçamentais aumentam e a dívida pública acumula-se.

A Ciência Económica pode ser cínica, mas os factos encarregam-se de lhe dar razão. [...]»


[Luís Aguiar-Conraria | A Destreza das Dúvidas --- 20.07.2007]

o que vai este homem fazer no parlamento?

«[...] Custa a acreditar mas a história é simples: Ferreira Leite foi líder da distrital de Lisboa do PSD numa altura em que isso só acontecia com a ajuda de António Preto. Ele foi seu vice-presidente e acabou por lhe suceder. Ferreira Leite ficou-lhe grata para sempre. [...]

Admito que António Preto não seja condenado, apesar das escutas do processo serem esclarecedoras. Admito que o dinheiro que trazia na mala não era para pagar quotas dos militantes mas para prestar serviços de advogado, admito que os construtores civis lhe tenham dado o dinheiro em notas porque não tinham cheques, admito que o contrato de prestação de serviços seja posterior aos factos por esquecimento. Mas não admito que uma pessoa que engessa o braço com a ajuda de um familiar num hospital para faltar a uma perícia na Polícia Judiciária seja deputado. Mas vai ser.

Acreditem: nós vamos ter um deputado que no exacto dia em que tinha de se apresentar na Polícia Judiciária para um teste de caligrafia foi ter com um cunhado que é médico no Hospital de Santa Marta, no serviço de cirurgia vascular (!), para engessar um braço por completo, do ombro até ao pulso. A Ordem dos Médicos considerou que colocar o gesso foi "má prática clínica". Não consigo encontrar um adjectivo para classificar a prática do deputado. Mas consigo classificar a prática da lista do PSD: uma vergonha. [...]»


[Ricardo Costa | Expresso --- 10 de Ago de 2009]

«[...] [A] líder do PSD afirmou que "não foi a única pessoa" a incluir António Preto nas listas de candidatos a deputados e defendeu que se o excluísse estaria a "antecipar-se" em relação à Justiça.

Manuela Ferreira Leite lembrou que António Preto é "alguém que é deputado" e que já é deputado "há mais de uma legislatura".

"Não sou a única pessoa que o incluiu como arguido, já na anterior lista isso foi feito e ninguém disse nada, isso é um aspecto fundamental", disse. [...]

"Não é o caso, são casos de natureza privada sobre os quais eu não tenho que me pronunciar" [...]»


[PÚBLICO.PT --- 11.08.2009]

«[...] [A] líder do PSD foi testemunha abonatória do processo em que António Preto é acusado de fuga ao fisco e falsificação. Durante a campanha interna do PSD, no dia 29 de Maio de 2008, disse numa entrevista à Sábado:

P - Não a incomoda que um membro destacado da sua candidatura, António Preto, esteja acusado de um crime de falsificação e fraude fiscal?
MFL - Não. Já fui testemunha dele e essa acusação não tem ponta por onde se lhe pegue.

P - Porquê? Conhece a acusação do Ministério Público?
MFL - Sobre problemas do Ministério Público e investigações não falo... [...]»


[Vitor Matos | Elevador da Bica --- 06 Agosto 2009]

A elevação de um futuro deputado

Costumava pensar que a geração do pós-25 de Abril seria melhor do que as anteriores. Hoje, depois de ler um futuro deputado usar o delicado termo de «filho da piiiiiiiiii» para se referir a outro bloguista (que não tinha razão e é salazarista, mas que não é candidato a representante da nação...), começo a pensar que, afinal, somos mesmo a geração rasca. Pelo menos, se o Galamba for representativo de alguma coisa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

queremos continuar líderes ou passar para segundo plano?

«[...] Há alguns meses, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) veio confirmar esta tendência, ao anunciar que, até 2030, deverão ser criados 20 milhões de novos "empregos verdes" e investidos 437 mil milhões de euros, a nível mundial.

Agora, acabam de ser divulgadas em Espanha projecções que indicam que, no prazo de 21 anos, o país poderá criar 600 mil novos postos de trabalho, com um contributo adicional para o Produto Interno Bruto (PIB) de 296 mil milhões de euros, se se mantiver a aposta nas energias renováveis. Isto para além de poupanças de 350 mil milhões de euros na importação de energia e da redução da dependência energética face ao exterior, passando de 80 para 60 por cento. [...]

O sector das "tecnologias verdes" já ocupa hoje um milhão de trabalhadores na Alemanha. Destes, 300 mil estão nas energias renováveis, onde foram criados 120 mil novos postos de trabalho nos últimos quatro anos. [...]

Se em países como a Alemanha e a Espanha foram agora conhecidas previsões para 2020 e 2030, o mesmo ainda não acontece para Portugal, cujas projecções vão até 2015, data até à qual está programada a parte mais significativa dos investimentos em parques eólicos e em barragens. A Associação Portuguesa para as Energias Renováveis (APREN) promete, entretanto, para Setembro novos dados com base num estudo que está ainda em curso. Para já, estima-se que, entre 2007 e 2015, 22.900 dos novos postos de trabalho se vão ficar a dever às energias hídrica e eólica, segundo cálculos da própria indústria, e que será esta última fileira a produzir a maior fatia de emprego (cerca de 20 mil). Em termos de investimento, são esperados 15,5 mil milhões de euros neste período.

De acordo com o INE, Portugal tem cerca de 42 mil "empregos verdes" (que abrangem outras áreas, como a água e a reciclagem de lixo), representando cerca de 3,3 por cento do PIB. [...]»


[PÚBLICO.PT --- 16.08.2009]

«[...] O presidente norte-americano, Barack Obama, anunciou ontem investimentos de 2,4 mil milhões de dólares (1,6 mil milhões de euros) em carros eléctricos num esforço para reconstruir a economia que continua a perder postos de trabalho. [...]

O presidente anunciou o programa de investimento que disponibiliza 2,4 mil milhões de dólares (1,6 mil milhões de euros) para a construção de veículos eléctricos, desde as baterias até aos motores. [...]

Portugal arrancou nos últimos meses com uma rede de carregamento de veículos eléctricos que até 2012 deverá contar com cerca de 1300 pontos de carregamento lento (várias horas para repor a carga numa bateria) e rápidos (que demoram entre 30 a 45 minutos). [...]»


[Ciência Hoje --- 2009-08-06]

Demolidor

  • «Em todos os países há uma justiça da classe dominante. São eles que fazem as leis e nada vai pôr em causa as grandes figuras do sistema, que são os banqueiros e os industriais. Não são os políticos. Os políticos fazem--lhes o frete ou então enfrentam-nos. Mas eles é que são os grandes senhores do sistema. (...)
  • Acha que temos uma classe empresarial fraca?

    Simplesmente não existe. São analfabetos do ponto de vista da literacia e do ponto de vista empresarial. Há três ou quatro que se distinguem. Grupos como a Jerónimo Martins ou a Sonae são excepções à regra. O resto são empresas que, muitas delas, vivem das ajudas do Estado como é o caso da EDP e da PT, que foram privatizadas e agora são dominadas por estrangeiros e vão investir no estrangeiro, em vez de investir em Portugal. E depois anda o Basílio Horta a tentar que os estrangeiros invistam 1500 milhões de euros cá. Aí o PCP tem razão, há privatizações que não deviam ter sido feitas. Não sou pelas privatizações a todo o custo e até alguém que, como eu teve um pensamento comunista, sabe que o Estado historicamente deveria desaparecer, mas enquanto isso não acontece o Estado tem de ajudar o desenvolvimento. (...)
  • É possível imaginar vivermos os próximos anos com 500 ou 600 mil desempregados a receber subsídios? Alguém pensa em medidas estruturais? Está tudo à espera que as ajudas da Europa façam voltar tudo ao mesmo. Acabou a Índia, acabou o Brasil, acabou África, depois apareceu a UE, mas ficou provado que os vícios da nossa classe dominante são históricos. Só se aparecer uma Europa II. E depois os Nogueiras Leites e os Bessas que nos trouxeram até aqui continuam a dominar a comunicação social. Foram ministros, gestores e, em vez de responsabilizados, são procurados para falar do futuro do país.» (José Luís Judas no "i")

domingo, 16 de agosto de 2009

Woodstock

Foi há 40 anos. Embora o movimento hippie deva ter sido minúsculo em termos demográficos (a maioria dos americanos vivia com medo dos comunistas e tinha eleito Nixon no ano anterior, um presidente delinquente que destruíu as reformas de Lyndon Johnson com ódio e eficácia), Woodstock deixou no ar a ideia de que, algures no meio deste país paranóico e violento, existe uma América generosa, progressista, sem medos irracionais (nem os ódios que estes geram), tremendamente criativa e sem uma ponta de cinismo. :o)

sobre a hipótese de coligações parlamentares

«[...] «Está totalmente fora de causa qualquer entendimento com o PS de José Sócrates, quer pré, quer pós-eleitoral», assegurou o deputado do Bloco de Esquerda. [...]

Ferro Rodrigues, ex-líder do PS, defendeu em entrevista publicada no Expresso que o PS deve desafiar PCP e BE para o Governo [...]

Porém, quer o Bloco, quer o PCP já reagiram às afirmações de Ferro Rodrigues, afastando o cenário de aproximação defendido pelo antigo secretário-geral do PS. [...]»


[TSF --- 15.08.2009]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Desigualdade


Depois de sete anos do pesadelo que o planeta viveu com Bush e Cheney na Casa Branca, nos EUA 0.01% da população recebem 6% do total dos salários. Os 10% mais ricos recebem 49.7% da riqueza.

declarações de voto apanhadas na net, 2

«[...] Defendemos acima de tudo a liberdade, e esta mede-se pela capacidade de garantir progresso social e económico; a diversidade de opções e escolhas; o reconhecimento e os direitos das minorias. Assim, grande parte dos colaboradores do SIMplex apoia a interrupção voluntária da gravidez; a pluralidade cultural de todas as regiões do país; a plena igualdade no acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo; a laicidade do estado e a liberdade religiosa; bem como, naturalmente, a real igualdade de género.

Somos ainda pela inovação, pelo conhecimento, pela capacidade inventiva e criadora, pela sustentabilidade energética, pela ecologia. Somos por um país que mede o seu valor pelo que faz agora pelos seus cidadãos e pelas suas cidadãs, nascidos ou não aqui, falantes ou não de português. [...]

Acreditamos que a política não é uma arte perfeita. Cometem-se erros. Admitimos mesmo que o PS os tenha cometido. Como todos os partidos, o PS não é perfeito, nem pretendemos que seja. Muitos de nós gostamos do que o PS tem feito pela liberdade, pela igualdade e pela modernidade. Acreditamos num socialismo moderno que aposte no papel do Estado, com serviços públicos de qualidade para todos, com igualdade de oportunidades e no quadro de uma economia de mercado regulada por parâmetros europeus. O PS do centrão e as políticas neo-liberais no trabalho e na economia não nos interessam. [...]

Interessa debater o que foi feito, de bom e de mau, neste últimos quatro anos; mas também projectar o que de melhor se pode fazer para a próxima legislatura. Queremos que o ritmo das reformas se mantenha ou acelere. Queremos transformações concretas na justiça, na segurança social, na saúde e na educação. A dignificação dos profissionais, em todas as áreas, é fundamental. O fosso entre ricos e pobres não pode continuar a alargar. A classe-média não pode ser cilindrada. Não há sociedades perfeitas. Mas há sociedades justas. Acreditamos nisso. Votamos PS por acreditar que está bem preparado para o conseguir. [...]

Não iremos votar no PSD porque a sua líder simboliza praticamente tudo o que de negativo foi aqui elencado – uma política que aposta na negatividade e apela aos piores instintos de receio, fechamento, e honrada pobreza. Não queremos o regresso do PSD, muito menos do PSD personificado por Manuela Ferreira Leite ou Santana Lopes.
Não queremos o regresso da tanga. [...]»


[SIMpleX --- 20 Julho, 2009]

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Liberdade com responsabilidade

Se eu entrar em casa do cidadão Duarte de Bragança, retirar uma bandeira monárquica que lá esteja, colocar no seu lugar a bandeira da República (ou da Carbonária, já agora) e sair pela janela sem causar qualquer dano, incorro em dois dos três crimes que os rapazes do 31 da Armada alegadamente terão cometido: furto e invasão de propriedade alheia (pública ou privada, pouco interessa para o caso). Só não poderei ser acusado de ultraje a símbolo oficial. Se filmar tudo e escrever num blogue que a intenção era humorística e política, o meu caso, do ponto de vista judicial, creio que não melhora rigorosamente nada.

E não melhora porque, em qualquer sociedade civilizada, o furto e a invasão de propriedade alheia serão sempre crime. Não percebo portanto reacções como a do Daniel Oliveira. Quem comete crimes tem que ser responsabilizado por eles, mesmo que o tenha feito com intenção burlesca. A liberdade tem limites legais. Quem os ultrapassa tem que ser responsabilizado.

Finalmente: não conheço o Rodrigo Moita de Deus, mas, sinceramente, neste momento tenho alguma pena dele. Tenho ainda mais pena quando penso que poderiam ter deixado a bandeira na varanda, o que os teria ilibado daquela que penso ser a acusação mais grave (a de furto). Mas solidariedade, não. Creio que se alguém fizesse o que eu descrevo no primeiro parágrafo também não haveria. Nem deveria haver, aliás.

declarações de voto apanhadas na net, 1

«[...] [S]em cartões, sem fichas partidárias, e sobretudo, no meu caso, sem inimizades ou antipatias por ninguém à minha esquerda, eu entendo que a urgência da crise económica e social, e o risco para a III República das derivas presidencialistas e das fragilidades democráticas da oposição de direita me impõe assumir um voto no Partido Socialista a 27 de Setembro.

Compreendo as indignações de esquerda e partilho das críticas às derivas neoliberais que por vezes o actual executivo tenha tido. Mas sei, que, se em Portugal a alternativa é a aliança entre a visão contabilística da Política protagonizada por este PSD de Manuela Ferreira Leite, e os populismos de Santana Lopes e Paulo Portas, o país estaria condenada a uma letargia profunda e duradoura. [...]

[M]ais Estado é hoje preciso para combater a crise. Com uma política social inovadora e pró-activa. Com uma política económica correcta que, olhe à necessidade de criar emprego e não aos défices. [...]

Não me sinto capaz também, aos 33 anos, de abdicar de sonhar. De imaginar que o país acabou. De me render a que nunca teremos alta velocidade, banda larga na dimensão dos outros países líderes, que nunca compreenderemos que o ambiente e as energias limpas são sectores de futuro. Hoje lideramos mundialmente em muitas destas áreas. Somos um país de referência nas energias renováveis. Somos um dos países do mundo onde a web de banda larga é mais usada per capita. Somos, finalmente, dados à tecnologia. Porque não houve medo de fazer apostas, criar estruturas, correr o risco do gozo das oposições com os Magalhães ou com a habilitação em tecnologias de informação de pessoas sem formação liceal completa, via Novas Oportunidades. Não houve medo de trazer para Portugal, em lugar de 10 estádios faraónicos, um centro de investigação aplicada, na tecnologia da microescala, em Braga, numa saudável pareceria com a Espanha. [...]

Votar no PSD da Dra. Ferreira Leite significava aceitar que quando o consumo das famílias está em queda livre, a solução passava por ouvir o Prof. César das Neves e o Dr. Vitor Bento e baixar os salários. [...] Passa por pensar que estaria a eleger pessoas que acham que uma crise de procura (o que é o mesmo que dizer, de excesso de poupança) se resolve obrigando os agentes, a poupar mais. [...] Quando leio as ideias do PSD na Saúde só encontro as expressões: privado, despesa, corte, despesa, privado, poupar. Há muito a fazer nos genéricos. Escrevi sobre isso. Está documentado em estudos públicos. Assusta-me uma direita que tem da saúde uma visão mercantilista e comercial. [...]

O meu voto no PS é um voto positivo, de confiança, de identificação. É um voto esperançado num PS menos neoliberal e mais social. [...]»


[Carlos Santos | O Valor das Ideias --- 20 de Julho de 2009]

Rumo claro para Portugal

Ligeiramente adaptado daqui:

Fertilidade

Na sua coluna "What's New", o físico Robert Park escreveu o seguinte texto, que foi de seguida traduzido no blogue "De Rerum Natura":

«O axioma tem sido que os países mais prósperos são aqueles em que a fertilidade é menor. Mas, para além de um certo limiar de desenvolvimento, essa tendência já não se verifica de acordo com um relatório divulgado na quarta-feira pela revista "Nature". A Austrália, a Suécia, a França, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estão a experimentar modestos "baby boons". Os economistas, que se preocupam com o apoio a uma população envelhecida, julgam que isto são boas notícias. Não são. Indicador após indicador parecem mostrar que já superámos o limite de população que podemos sustentar sem um grave declínio ambiente.»

É bom que não nos esqueçamos disto, apesar daquilo que alguma propaganda vem fazendo crer. O problema não é o envelhecimento da população - é precisamente o contrário.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um milagre!

Cheguei de fora e li a história de uns monárquicos que meteram a bandeira deles num edifício da CML. Achei a história divertida, por um lado porque tenho um fraquinho por actos de subversão não violentos, venham de onde vierem, e por outro porque os monárquicos - com ou sem ideias - aumentam a biodiversidade do país, o que é sempre bom. Eu tenho saudades dos MRPPs (menos do Durão Barroso, que já nasceu sério e nunca teve graça nenhuma).

Claro que seria melhor se os monárquicos tivessem ideias, mesmo vagas, como no tempo em que o PPM era o único partido verde do país... exagero: toda a gente sabe que dentro do movimento monárquico há correntes com ideias absolutamente claras. Conheço monárquicos de vária pena e pêlo, e não seria justo arrebanhá-los todos numa mesma massa informe e sem justificação teórica. Por exemplo, os miguelistas defendem um programa político perfeitamente definido e amplamente testado, dentro das linhas dos regimes de Pol Pot ou Kim Jong-il, mas com igrejas em vez de centros culturais revolucionários.

Outros monárquicos acreditam que as eleições têm sempre uma carga humilhante de populismo, em que mesmo os candidatos mais sérios e mais inteligentes têm de dizer que gostam do João Baião e de torresmos com vinho de má qualidade, beijar criancinhas e abraçar velhinhas, ou ir à missa, dizer bem do papa e outras coisas igualmente revoltantes. E têm muitíssima razão. Estão cobertos de razão. A democracia é um mal necessário.

Ainda outros monárquicos acham, com uma santa mas honesta inocência, que a existência de uma família real desincentiva o roubo, a corrupção e os favores políticos.

Mas acho que os monárquicos com ideias são poucos e que os comentadores que fizeram troça do movimento monárquico esta semana, acusando-o de ser o deserto das ideias, têm muita razão para se irritarem.

Porque a maioria dos monárquicos acha que Portugal é uma piolheira por ser uma república e que a Holanda, a Suécia, a Dinamarca e a Noruega são países ricos, democráticos, justos e civilizados, por serem monarquias. Ou seja, a maioria dos monárquicos constitui um grupo de alienados perigosos, com uma visão infantil e disfuncional do mundo, que acredita num milagre ainda mais inacreditável do que a virgindade da Nossa Senhora ou a santidade do Monsenhor Escrivá: acredita que o simples facto de trocar o Dr. Cavaco Silva pelo Sr. Duarte de Bragança transformaria Portugal numa Dinamarca ou numa Suécia.

E isto é uma ideia de fazer um ateu bradar aos céus! :o)

e o que terá ensinado a goldman sachs a antónio borges?

«[...] Goldman positions itself in the middle of a speculative bubble, selling investments they know are crap. Then they hoover up vast sums from the middle and lower floors of society with the aid of a crippled and corrupt state that allows it to rewrite the rules in exchange for the relative pennies the bank throws at political patronage. Finally, when it all goes bust, leaving millions of ordinary citizens broke and starving, they begin the entire process over again, riding in to rescue us all by lending us back our own money at interest, selling themselves as men above greed, just a bunch of really smart guys keeping the wheels greased. They've been pulling this same stunt over and over since the 1920s — and now they're preparing to do it again, creating what may be the biggest and most audacious bubble yet. [...]

The history of the recent financial crisis, which doubles as a history of the rapid decline and fall of the suddenly swindled-dry American empire, reads like a Who's Who of Goldman Sachs graduates. [...]

Fast-forward to today. It's early June in Washington, D.C. Barack Obama, a popular young politician whose leading private campaign donor was an investment bank called Goldman Sachs — its employees paid some $981,000 to his campaign — sits in the White House. Having seamlessly navigated the political minefield of the bailout era, Goldman is once again back to its old business, scouting out loopholes in a new government-created market with the aid of a new set of alumni occupying key government jobs. [...]

[I]nstead of credit derivatives or oil futures or mortgage-backed CDOs, the new game in town, the next bubble, is in carbon credits — a booming trillion- dollar market that barely even exists yet, but will if the Democratic Party that it gave $4,452,585 to in the last election manages to push into existence a groundbreaking new commodities bubble, disguised as an "environmental plan," called cap-and-trade. The new carbon-credit market is a virtual repeat of the commodities-market casino that's been kind to Goldman, except it has one delicious new wrinkle: If the plan goes forward as expected, the rise in prices will be government-mandated. Goldman won't even have to rig the game. [...]»


[MATT TAIBBI: Inside The Great American Bubble Machine --- Jul 02, 2009]

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Aqui, Luke Skywalker

Descobri a acção humorística do 31 da Armada ontem à tarde, quando uma jornalista me telefonou. Tentei explicar que a implantação da República fora muito mais do que um hastear de bandeira, e que os objectivos dos neo-monárquicos me parecem misteriosos. A Eva Cabral reproduziu assim a conversa que tivemos:
  • «Ricardo Alves, presidente da Associação República e Laicidade, frisou que não compreende "o que significa este tipo de acção". Ao DN, diz que"não se percebe se em causa está restaurar a monarquia que caiu a 5 de Outubro, se restaurar o Estado Novo ou defender uma ligação com Espanha que é quem neste momento na Península Ibérica é uma monarquia".

    Com ironia, Ricardo Alves questiona mesmo "quem foi o rei durante as varias horas em que a bandeira esteve hasteada?"». (Diário de Notícias)

Efectivamente, já uma vez comentei isso mesmo para um monárquico frequentador deste blogue: «não se entende se os monárquicos querem debater os acontecimentos de há cem anos, restaurar a monarquia do século 19 (ou a do século 15?) no século 21, se querem "vingar" o 25 de Abril e a descolonização, [ou] se querem garantir um "ethos" conservador através do monarca». A acção de ontem permite manter estas indefinições. Não explica se o objectivo do movimento é criticar as condições da implantação da República, restaurar a monarquia dos Braganças ou outra (qual?), ou apenas irritar a «esquerda». A impressão que fica é de que nem os monárquicos levam a sério a ideia de restauração da monarquia. Eis aqui um consenso nacional, mesmo que eles não o admitam.

Mas o mais importante seria que esclarecessem, exactamente, qual o projecto de sociedade que entendem avançar com a hipotética restauração da monarquia. É que a República implantada em 1910 tinha um projecto de laicização do Estado, descentralização da administração e igualitarização dos direitos cívicos. Pode-se não concordar, mas sabe-se qual era. A República actual tem também um projecto: democrático, europeísta, com garantias de assistência social e alguma laicidade. O projecto dos monárquicos de 2009, se é que existe, parece reduzir-se a missas, touradas e fotografias do Duarte nas revistas de foto-reportagens. Eu prefiro melhorar a República que tenho, mas enfim, os monárquicos que se fiquem com o passado.

Finalmente, temos a máscara do Darth Vader, símbolo da acção. O que está certíssimo: Vader batia-se por um regime autoritário, centralizado e militarista. Muito bem. Se eles são o Darth Vader, eu serei o Luke Skywalker, que combatia por uma República constitucional. Por mim, está perfeito.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

portugal... as seen from the uk

«[...] This wind farm is expected to become Europe's biggest when work is complete. [...]

The Portuguese see green power not just as a way cutting greenhouse gas emissions, but as a way of starting an industrial transformation. [...]

A government-backed investment programme has created thousands of jobs in manufacturing turbines, supplying and servicing wind farms. [...]

Portugal is one of the European leaders in renewable energy, with 39% of its electricity coming from renewables such as wind and hydro compared with just 5% in the UK. [...]»


[BBC News]

domingo, 9 de agosto de 2009

Terrorismo evangélico

Um «Professor Doutor de Coimbra», «por amor de Deus» na versão cristã evangélica, levou dois blogues dedicados à divulgação da ciência (e do ateísmo, no segundo caso) a alterarem a sua política de comentários (no caso do De Rerum Natura) e a sugerirem filtros aos leitores (no caso do Que Treta!).
O Ludwig explica o problema: «Desde 1 de Janeiro de 2009 escrevi 186 posts, num total de 630 mil caracteres. No mesmo período o Jónatas pôs aqui 800 comentários, num total de um milhão e setecentos mil caracteres».
Eu não sei se o Ludwig e o Fiolhais compreendem o problema de fundo: o comportamento do Jónatas é auto-alimentado. Numa comunidade cristã evangélica, características pessoais como a insistência em incomodar estranhos que não estão interessados, a persistência monomaníaca, ou a repetição acrítica de slogans, são consideradas qualidades. Ou seja: nessas comunidades, o fanatismo é elevado a virtude. Portanto, o Ludwig bem que pode sugerir filtros aos seus leitores, porque aquilo a que se assiste é a uma demonstração de fé. Avassaladora. Ininterrupta. Insaciável. In-dialogável. Interminável. Auto-satisfatória. Chata como a potassa. (Como todos os fanatismos, aliás.)

Isto não abona a favor do Costa

  • «Nas europeias, voto Rangel, nas legislativas, voto Ferreira Leite e na Câmara de Lisboa voto António Costa» (Maria José Nogueira Pinto).

sábado, 8 de agosto de 2009

a vantagem da formação

«[...] [O]s funcionários públicos “auferem um salário mensal claramente acima dos seus congéneres do sector privado”. O director do Jornal de Negócios, num editorial bastante elucidativo sobre a forma como o estudo do Banco de Portugal foi recebido, foi lesto a resumir tudo num sintomático programa: “vão trabalhar malandros”. Curiosamente, Pedro Guerreiro omite um significativo, mas pouco destacado, elemento do estudo: metade dos funcionários públicos tem uma licenciatura, valor que desce para os 10% no privado. Como não é preciso nenhum curso avançado de gestão para perceber a relação entre qualificação e salário, o indicador a extrair do estudo do BP poderia muito bem ter sido que o “sector privado aposta em trabalho desqualificado”. Entre o simplismo extremado destas duas versões, perdeu-se o rigor necessário para destacar uma correlação que parece evidente e tentar contextualizá-la. [...]»

[Pedro Sales | Arrastão --- 27 Jul 09]

e com imunidade à crise:

São todos uniformistas

O PSD não incluiu o Passos Coelho. O PS correu com o Alegre. O Louçã não convidou a Joana. E agora o CDS ignorou o Anacoreta.

Chorai! Chorai! Chorai!

Extinção do «Conselho da Bioética»?

Que falta faz um «Conselho da Bioética»? Nenhuma. É mais uma Câmara Corporativa armada ao pingarelho a largar bitaites sobre aquilo que deveria caber a cada um de nós decidir.

A boa notícia é que o salazarista Daniel Serrão foi corrido da chafarica (e arma um banzé por causa disso). A ser verdade, o PS sempre tem algumas qualidades.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O BE e o PRD

É disparatado comparar o BE com o PRD. O PRD durou vinte e dois meses, o BE vai nos cento e vinte. O PRD foi cogumelo (18% na primeira eleição, cerca de um terço disso na seguinte), o Bloco tem um crescimento lento e sustentado. Aliás, a explicação do crescimento do BE para além do núcleo inicial de «extrema-esquerda» (2%), vem justamente das classes etárias urbanas que desde 1999 têm adquirido o direito de votar. E que noutros países votariam no PS local.

A verdade sobre a lista de candidatos do PS

A verdade sobre a lista de candidatos do PS é que aquelas duas senhoras que votam sistematicamente à direita, senão mesmo à extrema-direita, continuam por lá. A Rosário Carneiro é a número seis pelo Porto, e a Teresa Venda a terceira por Braga. Lugares mais seguros, e simultaneamente discretos, é difícil conceber: só não serão eleitas num cenário de derrocada total do PS, abaixo dos 15% nestes dois distritos, respectivamente o segundo e terceiro maiores em número de deputados.

Para referência futura: o currículo destas duas damas, que começaram a ser eleitas pelo PS em 1995 (Guterres, lembram-se?), inclui votarem favoravelmente a homenagem parlamentar a um bombista de extrema direita, votarem contra a despenalização da IVG, tentarem punir quem «incentivasse o aborto através da publicidade», votarem contra a procriação medicamente assistida, moverem-se contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra o divórcio, enfim, contra tudo o que signifique a liberdade das pessoas decidirem sobre a sua própria vida.

Quem vota no PS no Porto ou em Braga que fique ciente de que vota no clericalismo e no filo-fascismo, no machismo e na misoginia, no preconceito e na homofobia, no obscurantismo e no catolicismo mais integrista.

Fico à espera que convidem estas senhoras para escrever no Simplex. Estou mesmo a vê-las a «apoiar a interrupção voluntária da gravidez; (...) a plena igualdade no acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo; a laicidade do estado e a liberdade religiosa; bem como, naturalmente, a real igualdade de género». Mais ainda, estou mesmo a vê-las a «defender acima de tudo a liberdade». Em particular, se for a liberdade de oprimir.

Sim, são listas de facção... e depois?

As listas eleitorais de Manuela Ferreira Leite têm sido muito criticadas por excluirem não-cavaquistas e outros animais avessos à actual direcção do Partido. Certíssimo. Mas acham que alguém ainda se lembrará disso daqui a cinquenta e dois dias, se Manela tiver mais um deputado do que o outro partido do centro? Eu acho que não...