terça-feira, 30 de junho de 2009

algumas contas em alta velocidade

«[...] Parece que no caso da rede ferroviária existe uma espécie de maldição, pois já há um século e meio, quando Portugal avançou, com décadas de atraso, para o lançamento da primeira via férrea, também se levantou uma onda de protestos, onde alinharam mesmo alguns dos espíritos mais lúcidos da época, como, por exemplo, Alexandre Herculano.

Há neste país um fundo de conservadorismo atávico, que resiste a todo o processo de modernização tanto mental como material, como sucede com as infra-estruturas. [...]

O novo argumento conservador é o da "sobrecarga sobre as gerações futuras", como se não fosse justo que elas compartilhassem dos custos das infra-estruturas de que irão beneficiar, na medida justamente em que delas irão usufruir, tal como as gerações presentes pagam o proveito que tiram das infra-estruturas herdadas do passado (auto-estradas, pontes, redes de electricidade e de gás, etc.). O que é de lamentar mesmo é que outras infra-estruturas tivessem ficado por realizar mais cedo, como sucede justamente com o novo aeroporto de Lisboa (a sofrer dispendiosos remendos há vários anos) e com a nova rede ferroviária de bitola europeia, que a Espanha iniciou em 1992! [...]»


[Vital Moreira | Económico --- 17/06/09]

«[...] [U]m economista [...] dizia que as obras públicas programadas iriam custar 30 mil milhões de euros. Mas o que é que isso significa? Simples, diz-nos o mesmo economista, significa 12% do PIB nacional de 2008. [...]

Comparar um investimento que será feito ao longo de vários anos com o PIB de um ano é errado. [...] É preciso comparar o investimento anual com o PIB anual. Ora 30 mil milhões serão gastos em, digamos, 5 anos (serão mais anos, muitos mais, mas não faz mal, até porque depois os valores vão subir). 30 a dividr por 5 dá 6 mil milhões, ou seja 2,4% do PIB de 2008. Se suposermos que o PIB não cresce entre 2008 e 2013, aquela proporção manter-se-á. Se crescer, diminuirá, claro. Conclusão, as "grandes obras públicas" vão afinal custar 2,4% do PIB em cada ano, nos próximos 5 anos. A percepção sobre as mesmas torna-se diferente, não torna? Note-se que tudo aquilo é investimento. Pode ser mau (não é) ou bom (é) mas é investimento. Quanto investe uma economia por ano? Digamos que devia investir pelo menos 25% do PIB. Assim, continuando nestas contas, as "grandes obras" corresponderão a 10% de todo o investimento nacional. Not bad. [...]

Portugal tem dinheiro para pagar isso. Todo o Portugal, visto como uma economia, isto é. São projectos nacionais e a nação, como um todo, já tem dinheiro para ter um novo aeroporto e um TGV do Porto, a Lisboa, a Madrid. Não percebo como é que se pode pensar de outro modo. [...]»


«[Pedro Lains --- 15 de junho de 2009]

[...] Perdemos dezenas de anos a estudar o novo aeroporto de Lisboa e quando chegou a hora da construção voltamos ao princípio e toca a discutir a sua nova localização. Entretanto, ainda não fizemos 1 cm de pista ou 1m2 de instalações aeroportuárias. Com o TGV, a mesma coisa. Falamos desde Guterres. Barroso assinou contratos com Espanha. Nem 1 cm de linha de alta velocidade, nem uma carruagem

Sem infra-estruturas de comunicações terrestres, aéreas ou marítimas modernas e eficientes, não há capacidade de cativar (melhor diria capturar) investimento internacional privado.

Então, porquê tanto "ódio" ao investimento público? [...]»


[Ponte Europa --- Junho 22, 2009]

«[...] [O]s transportes ferroviários são a grande aposta da União Europeia para o século XXI. Na verdade, em 2020 a Rede Transeuropeia de Transportes terá uma extensão total de 94.000 km de ferrovia, incluindo cerca de 20.000 km de linhas de alta velocidade. Este objectivo implica a construção de 12.500 km de novas linhas de caminho-de-ferro e a modernização de 12.300 km. Quando estiver concluída, espera-se uma redução de 14% no congestionamento rodoviário e uma redução anual de 4% das emissões de CO2. [...]

[A] linha Madrid-Sevilha dá dinheiro. Madrid-Barcelona regista um tráfego colossal. Os franceses vão duplicar a linha Paris-Lyon e vão investir mais 14 mil milhões em novas linhas. [...]»


[Nicolau Santos | Expresso --- 22 de Jun de 2009]

em junho de 2008, a alta velocidade europeia em funcionamento era significativa (o tracejado nas ligações portuguesas é importante, no mau sentido. de facto, a mesma linha serve ao mesmo tempo "alta" e baixa velocidade):



mais significativos ainda são os planos espanhóis para a alta velocidade (datados de 2008):



sem mencionar, claro está, os planos europeus no mesmo sentido:



assim sendo, com decisões como aquela(s) que o PSD defende, não é difícil perceber porque estamos sempre na cauda da europa!

1 comentário :

Anónimo disse...

é notável a reunião destes dados sobre o caso. parabens