sexta-feira, 23 de maio de 2008

o assassinato da justa redistribuição pelo cobarde capitalismo neoliberal

«[...] O Relatório Sobre a Situação Social na União Europeia (UE) em 2007 conclui que os rendimentos se repartem mais uniformemente nos Estados-membros do que nos Estados Unidos.

"Apenas Portugal apresenta um coeficiente superior ao dos Estados Unidos", sublinha ainda o documento. [...]

Os indicadores de distribuição dos rendimentos mostram que os países mais igualitários na distribuição dos rendimentos são os nórdicos, nomeadamente a Suécia e Dinamarca.

"Portugal distingue-se como sendo o país onde a repartição é a mais desigual", salienta o documento [...]»


(TSF online --- 22.05.2008)

«[...] O coordenador do estudo “Um Olhar Sobre a Pobreza”, Alfredo Bruto da Costa, não tem dúvidas: os baixos salários são um problema grave, que contribui para a pobreza em Portugal. É preciso aumentar os ordenados e democratizar as empresas. [...]

A partir da entrada de Portugal na Comunidade Europeia, houve um facto que alterou a atitude da sociedade portuguesa perante a pobreza: Portugal passou a ter programas de luta contra a pobreza, através de metodologias que deram um salto qualitativo no modo de encarar e tratar a pobreza. Poderíamos esperar que a pobreza tivesse uma redução apreciável. [...] Não teve. Em 2004, terá sido de 19 por cento, em 2005 terá sido 18 por cento. É uma tendência? Falta ver o que se passou nos anos seguintes. O que sabemos é que, durante esse período de 20 anos, andámos à volta dos 20 por cento. Mesmo que se admita que houve uma tendência ligeiramente decrescente, não explica que a ordem de grandeza se situe nos 20 por cento. A pobreza em Portugal ou se manteve estável ou teve uma redução sem proporção com o esforço feito desde que Portugal entrou na UE, na luta contra a pobreza. [...]

[D]eve haver uma diversificação das fontes de rendimento: uma parte do trabalho, outra do capital, o que implica uma democratização no acesso ao capital, que não é só poder comprar uma acção: o número de acções que um cidadão comum tem não lhe permite ter a mais pequena influência na gestão da empresa. O que importa que o capital esteja disseminado quando quem continua a mandar são os grandes? A democratização do capital deve ser também a democratização da empresa. Pode haver ainda medidas como um rendimento básico – já utilizado numa região da Bélgica e num estado norte-americano – que todos os cidadãos recebem, sobre o qual constrói o seu rendimento familiar. Esse rendimento básico pode não ser suficiente para viver, mas é uma almofada que protege nos ciclos em que inesperadamente se perde o rendimento. Num mercado economicamente liberal, temos que saber se é possível alguma vez termos pleno emprego. Eu tenho dúvidas. [...]

O RMG nunca foi para resolver o problema da pobreza; a grande maioria dos pobres nem sequer tinha acesso ao RMG: eram cinco por cento, os pobres eram 20 por cento. São tão poucos os pobres que beneficiam do [actual] Rendimento Social de Inserção que nunca se resolveria o problema da pobreza. O RMG tinha dois objectivos: atenuar a pobreza dos pobres ou o seu grau de carência; e ir ao encontro dos problemas subjacentes à família: formação profissional, integração das crianças na escola. Mas o impacto global sobre a pobreza não podia ser expressivo. [...] Na transição do Rendimento Mínimo Garantido para o Rendimento Social de Inserção, no debate público que houve parecia que as pessoas estavam mais interessadas em combater a fraude dos pobres do que em resolver o problema da pobreza. Isto é expressivo de uma mentalidade. [...]»


(PÚBLICO.PT --- 23.05.2008)

11 comentários :

Rock Santeiro disse...

Se me permitem, duas notas (apesar de ainda ter alguma esperança sobre o tratamento jornalístico do dia...):
1 - O impulso de Guterres quanto ao RMG é típico de um democrata-cristão e não de um socialista (sob o ponto de vista da regulamentação e da filosofia da medida);
2 - O posterior desbaratar desse Bagão Félix (ministro responsável que se seguiu ao impulso) é típico do lobo disfarçado de ovelha: é um predador ao serviço do neoliberalismo mascarado de democrata-cristão!

João Vasco disse...

http://diariodigital.sapo.pt/dinheiro_digital/news.asp?id_news=99282

dorean paxorales disse...

A falta de "democratização no acesso ao capital" tem pouco que ver com os E.U.A.

Pensem nos vossos ordenados e no seguinte exemplo de uma empresa de capitais mistos, a GALP (tirado do Expresso).

Um quadro superior, lá metido por António Mexia em 2002, saiu dois anos depois com uma indemnização de 290.000 euros, porque Mexia foi para M.O.P. e teve de levar o menino para a REFER.
Só posso presumir que o rapaz esteja agora instalado na EDP.

O filho de Miguel Horta e Costa, recém-licenciado de 28 anos, entrou para a GALP com 93.000 euros/ano.
Guido Albuquerque, cunhado de Morais Sarmento, foi levado da ESSO (privada) para a GALP (politizada). Custo para o contribuinte: 17 anos de antiguidade, ordenado de 17.400 euros e seguro de vida igual a 70 meses de ordenado.

Os ordenados "políticos" da GALP para gente de menos renome andavam durante o governo PSD (como se houvesse diferença) pelos 8 e 10 mil euros/mês e chegavam aos 30.000 (mês!) para gatos mais gordos.

A estas renumerações acrescentam-se PPR's, seguros de saúde, carros, despesas de representção, colégios privados para os filhos, dezenas de 'anos de casa' (que contam para as reformas do estado), blueberries.
Só falta mesmo uma garrafa no elefante branco.

O que se passa na PT então, nem conto...

Filipe Castro disse...

Mas as pessoas, a maioria, não se parecem importar muito. Vão a Fátima, há jornais diários sobre futebol... Um roubo consentido não é bem um roubo. Pode ser imoral, mas se as pessoas acham bem...

As velhinhas que votam no PP, os militantes do PPD, os do P"S", os padres, os habitantes da Madeira, a bancada lateral do Estádio da Luz, todos se calam, respeitosos, e logo que podem vão ler "A Bola" para a casa de banho dos empregos.

Haverá alguma coisa na sociedade portuguesa que dissuada os ricos de roubarem?

dorean paxorales disse...

Filipe,

A resposta é não. Porque a falta de ética, tal como a leitura d'"A Bola", é transversal à sociedade portuguesa.
Sendo-lhe dada a oportunidade, qualquer português se convence que a fraude é uma forma justificável de ultrapassar as situações de injustiça que considerar reais.
É o "toda a gente o faz e eu sou parvo se não fizer também". A esperteza-saloia é glorificada.

Começa assim nos pequenos até chegar aos "ricos", discutivelmente acima de injustiças mas com os mesmos padrões morais. Daqui, e principalmente para estes, é fácil chegar à inimputabilidade. Por isso o roubo não desaparece.

space_aye disse...

Isso mesmo, dê luta a esses neo-liberais que infestam o nosso país!
Ainda têm a lata de vir falar nos países nórdicos.

O MARQUÊS DA PRAIA E MONFORTE disse...

Caríssimos

Tem sido um prazer ler-vos. O Palácio do Marquês, malgrado as diferentes posições sobre o regime (a Nobreza não vai em republicanices), destacou-vos com o título "Palácio da Semana".

Obrigado

O Marquês

Anónimo disse...

Enfim,chegados a uma Democracia responsável...

dorean paxorales disse...

Caro Sr. Câmara e Sousa,

A "nobreza" formou-se como um corpo social baseado na força das armas e num código de conduta. E onde isso já vai...

Os quase 1000 títulos concedidos nos reinados de D.Luís e de D.Carlos são o equivalente às comendas do 10 de Junho actual e não atestado algum de pertença à "nobreza".

Cumprimentos e cabeça fresca,
DP

O MARQUÊS DA PRAIA E MONFORTE disse...

Caro DP

O meu comentário, contendo dose de ironia, é sobretudo uma homenagem à qualidade do Esquerda Republicana. Tendo eu a prática de ler tudo o que posso, mesmo que sejam opiniões diferentes das minhas, no Esquerda Republicana encontro muitas vezes comunhão de pensamento. É um espaço bem conseguido, coerente e com qualidade argumentativa.

Estimulam-me as diferenças de opinião, do mesmo modo que me aborrece a pobreza de espírito.

Anónimo disse...

Dorean paroxales:


"...O que se passa na PT então, nem conto..."

Pelo contrário, faça o favor de contar.


Quanto ao actual regime espero e desejo que apenas caia.